
19 de maio de 2007
Um bom começo

18 de maio de 2007
Darwin online
Além de todos os trabalhos de Darwin, correspondências e o escambau, o site ainda traz scans de várias edições das obras. Dá pra sentir o cheiro de livro velho, de passado. Ainda assim, e até mesmo por isso, a iniciativa é muito oportuna. Vivemos um tempo em que professores são instados por diretores de escolas a ensinar a teoria darwiniana lado a lado com a explicação criacionista do mundo. Empregam um relativismo mambembe para justificar a sabotagem de um dos grandes paradigmas científicos do nosso tempo. A teoria de Darwin, dizem, deve ser vista apenas como uma teoria, assim como a teoria criacionista.
Só mesmo quem não faz idéia do que seja uma teoria pra forçar uma interpretação dessas. O primeiro absurdo é elevar ao nível da teoria um conjunto de crenças religiosas. O segundo é pensar que uma teoria é apenas uma teoria, como se teoria fosse igual a ficção ou devaneios sem compromisso com a realidade. Pois tentem realizar uma investigação sem uma teoria! A teoria, oras, dá sentido às observações e experimentações, serve de guia para a investigação científica. Isso é o mínimo de importância que se pode atribuir a ela.
Esse relativismo mambembe está se espalhando pelas escolas e virando slogan. Está minando a compreensão das crianças sobre a ciência. O criacionismo deveria ser ensinado, no máximo, nas aulas de religião - que também são uma excrescência. Se você é pai, procure saber qual é a política da escola no ensino de ciências. E, principalmente, se não ensinam o darwinismo em profundidade, exija que o façam. É seu direito.
E agora eu não tenho mais desculpas pra não ler o livro que mudou o mundo.
Balanço inicial
Pois bem, alguns amigos o lêem, realmente. Alguns até mesmo deixam comentários. Uns são velhos amigos, outros mais ou menos recentes e já tão importantes. A vocês todos, muito obrigado, de verdade. Me motivam a escrever mais, e melhor.
Seria bom se tivesse parado por aí. Mas este blog, pra minha completa surpresa, foi recomendado pelo Flávio Gomes, além de cruzar o Atlântico e ter ido parar em Portugal.
Foi uma ótima idéia, essa do blog, viu?
17 de maio de 2007
Pulga (escura) atrás da orelha

Mais estranha ainda do que a matéria escura é a energia escura. Em estimativas que levam em conta a existência das duas, mais de 75% do nosso universo é formado pela energia escura. Cerca de 20% ficaria com a matéria escura e, pasmem, 4% seria formado da matéria "tradicional", essa que forma estrelas, planetas, gases, corpos de seres humanos e pulgas. Se Carl Sagan estivesse vivo, incluiria esse "fato" nas suas "grandes humilhações": nem mesmo a matéria de que somos feitos é maioria no universo.
No ano passado, participei de um curso de astronomia e astrofísica para leigos, no Observatório Nacional do Rio. Nas várias referências feitas à energia escura, o que ficou para mim é que não sabemos o que ela é, mas precisamos dela para fazer os modelos cosmológicos e astrofísicos funcionarem.
Nessa escura história, não é preciso ser Pedro Pedreira, nem físico, para perceber que ainda há controvérsias.
É claro, não sou físico. Mesmo meu conhecimento básico de física, aquele que obtemos no ensino médio, é quase nulo. Mas posso dizer que sou um espectador da história da ciência. Nela, assistimos a algumas histórias bastante interessantes sobre paradigmas em crise e revoluções científicas. À, talvez, mais espetacular delas, o filósofo da ciência Thomas Kuhn dedicou uma de suas mais célebres obras, A Revolução Copernicana. O caminho percorrido do universo geocêntrico de Aristóteles e Ptolomeu ao universo heliocêntrico de Copérnico passa pelo "pesadelo epicíclico", nas palavras de James Connor, biógrafo do copernicano Kepler.
Uma questão que incomodava alguns astrônomos na época de Copérnico é que o sistema astronômico de Ptolomeu precisava, para explicar os movimentos dos planetas, de cada vez mais recursos que para alguns estavam se tornando artificiais. O universo aristotélico-ptolomaico explicava o movimento dos planetas (e das estrelas “fixas”) por meio de esferas concêntricas. Cada planeta encerrava-se numa esfera própria, e com ela girava em torno da Terra. Acontece que as observações não se encaixavam com esse sistema. Para explicar os movimentos erráticos dos planetas, Ptolomeu teve de construir todo um esquema de deferentes e epiciclos. Os epiciclos descreviam o movimento dos planetas dentro de suas próprias esferas, causando, portanto, sua movimentação única. O problema é que, com a maior quantidade e precisão das observações realizadas, o sistema passava a requerer cada vez mais epiciclos para explicá-las - quase 70, no século XVI. Os epiciclos representavam argumentos ad hoc que visavam a manutenção de um paradigma. Copérnico, embuído das noções de harmonia e simplicidade do neoplatonismo, acabou com o "pesadelo epicíclico" imaginando um universo em que o Sol está no centro e a Terra gira ao redor dele, como os outros planetas, em simples órbitas esféricas.
A matéria e a energia escuras podem existir de fato - é o que as evidências indiretas levam a crer no caso da primeira. Porém, inevitavelmente, elas criaram uma pulga atrás da nossa orelha. E se estivermos passando por uma crise nos paradigmas cosmológicos e astrofísicos? E se estivermos vivendo um outro "pesadelo epicíclico"?
Se a cosmologia está entrando em crise, então me parece que estamos numa encruzilhada: ou encontramos evidências concretas e irrefutáveis sobre a dupla escura, ou abriremos as portas para uma outra grande revolução. E se ela vier, talvez não viveremos para testemunhá-la.
16 de maio de 2007
Aranha domesticada
Eis O Barco dos Tolos, de Hieronymus Bosch:

Bosch foi um pintor que viveu entre fins do século XV e início do XVI. Sua obra representou um espasmo da moribunda Idade Média enquanto a Renascença emergia. Em suas pinturas há uma evidente condenação dos prazeres terrenos. O que os tolos de Bosch fazem? Comem e bebem, deixam-se levar por Baco e pela música.
O que ocorre com Peter Parker, em Homem-Aranha 3, é a sua descoberta das possibilidades abertas da vida. Peter dança, canta, toca piano, atrai as mulheres, vinga-se de um rival que o prejudicou, regozija-se com o reconhecimento público... Peter Parker vive, em Homem-Aranha 3. E quando começamos a nos divertir com essa nova fase do herói, percebemos aonde o filme quer nos levar. O próprio personagem acaba se arrependendo, salva-se e salva o mundo. Esse é o caminho de Bosch. Mas ainda há algo pior, algo realmente cretino no filme: os impulsos humanos do Aranha são atribuídos a um misterioso ser, um demônio vindo dos céus. Nem mesmo Bosch iria tão longe. Apesar de condená-los, Bosch compreendeu que os impulsos são parte de nossa natureza, que todos nós somos humanos, demasiado humanos.
Para os fãs
Aqui está algo que eu nunca tinha visto: Carl Sagan lendo Pálido Ponto Azul, exatamente a mesma página 31 citada há alguns posts.
15 de maio de 2007
Ire e Voltaire, ironia pura
As idéias sobre a distância, tanto física quanto simbólica, que tanto reviraram minha cabeça desde que li Carl Sagan e, mais tarde, Carlo Ginzburg, me levaram de volta a um famoso conto de Voltaire, Micromegas. Dalí, pulei para relembrar de Cândido, o primeiro que havia lido do filósofo iluminista. As pessoas costumam ter receio da leitura de escritos de séculos atrás, pois os imaginam impenetráveis, difíceis, chatos, etc. Isso até pode ser verdade para alguns, mas não para todos. Escritos chatos, difíceis e impenetráveis existiram, existem e, aparentemente, sempre vão existir - que o digam os filósofos pós-modernos. Da mesma forma, bons textos costumam continuar sendo bons textos: perdem-se alguns sentidos, criam-se outros, mas a leitura continua sendo agradável. É o caso de Cândido.
Com relação a Voltaire, meu receio foi vencido graças à dica de um amigo, o historiador Luis Fernando Prestes. Os direitos sobre a piadinha infame do título - Ire e Voltaire, irmãos iluministas lusos - costumam ser pleiteados por ele, mas a ouvi pela primeira vez da boca de outro historiador, um membro do CUH (Central Única dos Historiadores) da Unicamp, o meu ex-professor Fernando Teixeira, impagável humorista de boteco.
Bem, eu estava falando sobre Cândido. As explicações mais difundidas para a alegoria de Cândido é a de que Voltaire fez uma crítica à filosofia otimista e ingênua de Leibniz. Como não li Leibniz, não sei até que ponto a crítica de Voltaire é razoável. De qualquer forma, Voltaire foi um divulgador das idéias newtonianas, e o embate entre a filosofia de Newton e a de Leibniz é bem conhecida. Não é necessário distinguir exatamente a ferida que Voltaire desejava abrir para deliciarmo-nos com a mordacidade com que ataca seu alvo. Mesmo com pouca ou nenhuma preocupação filosófica, Cândido é uma leitura sensacional.
E o melhor de tudo é que não há mais direito autoral sobre obra de Voltaire - é tudo na faixa, como esta versão online de Cândido. É curtinho e engraçadíssimo. Se ainda resta alguma dúvida sobre se vale ou não à pena ler, aqui vai um trecho:
Um dia, em que passeava nas proximidades do Castelo, pelo pequeno bosque a que chamavam parque, Cunegundes viu entre as moitas o Doutor Pangloss que estava dando uma lição de física experimental à camareira de sua mãe, moreninha muito bonita e dócil. Como a Senhora Cunegundes tivesse grande inclinação para as ciências, observou, sem respirar, as repetidas experiências de que foi testemunha; viu com toda a clareza a razão suficiente do Doutor, os efeitos e as causas, e regressou toda agitada e pensativa, cheia do desejo de se tornar sábia, e pensando que bem poderia ela ser a razão suficiente do jovem Cândido, o qual também podia ser a sua.
Encontrou Cândido ao voltar para o Castelo, e enrubesceu; Cândido também corou; ela cumprimentou-o com voz entrecortada, e Cândido falou-lhe sem saber o que dizia. No dia seguinte, depois do jantar, Cunegundes e Cândido encontraram-se atrás de um biombo; Cunegundes deixou cair o lenço, Cândido apanhou-o, ela tomou-lhe inocentemente a mão, o jovem beijou inocentemente a mão da moça com uma vivacidade, uma sensibilidade, uma graça toda especial; suas bocas encontraram-se, seus olhos fulguraram, seus joelhos tremeram, suas mãos perderam-se... Ora, o Senhor Barão de Thunder-ten-tronckh passou junto ao biombo e, vendo aquela causa e aquele efeito, correu Cândido do Castelo, a pontapés no traseiro; Cunegundes desmaiou; logo que voltou a si, foi esbofeteada pela Senhora Baronesa; e houve a maior consternação no mais lindo e mais agradável dos Castelos possíveis.
?
A astronomia e a astronáutica podem ajudar a responder algumas das questões mais profundas que nos atormentam?
Pare. Assista a estes 7 profundos minutos. Assista e pense na sua vida, e em toda vida que pulsa e pulsou neste planeta.
Deveriam mandar filósofos e poetas ao espaço.
Pálido Ponto Azul

Sobre a imagem, escreveu Carl:
Olhem de novo para o ponto. É ali. É a nossa casa. Somos nós. Nesse ponto, todos aqueles que amamos, que conhecemos, de quem já ouvimos falar, todos os seres humanos que já existiram, vivem ou viveram as suas vidas. Toda a nossa mistura de alegria e sofrimento, todas as inúmeras religiões, ideologias e doutrinas econômicas, todos os caçadores e saqueadores, heróis e covardes, criadores e destruidores de civilizações, reis e camponeses, jovens casais apaixonados, pais e mães, todas as crianças, todos os inventores e exploradores, professores de moral, políticos corruptos, “superastros”, “líderes supremos”, todos os santos e pecadores da história de nossa espécie, ali - num grão de poeira suspenso num raio de sol.
A Terra é um palco muito pequeno em uma imensa arena cósmica. Pensem nos rios de sangue derramados por todos os generais e imperadores para que, na glória do triunfo, pudessem ser os senhores momentâneos de uma fração desse ponto. Pensem nas crueldades infinitas cometidas pelos habitantes de um canto desse pixel contra os habitantes mal distinguíveis de algum outro canto, em seus freqüentes conflitos, em sua ânsia de recíproca destruição, em seus ódios ardentes.
Nossas atitudes, nossa pretensa importância, a ilusão de que temos urna posição privilegiada no Universo, tudo é posto em dúvida por esse ponto de luz pálida. O nosso planeta é um pontinho solitário na grande escuridão cósmica circundante. Em nossa obscuridade, no meio de toda essa imensidão, não há nenhum indício de que, de algum outro mundo, virá socorro que nos salve de nós mesmos.
A Terra é, até agora, o único mundo conhecido que abriga a vida. Não há nenhum outro lugar, ao menos em futuro próximo, para onde nossa espécie possa migrar. Visitar, sim. Goste-se ou não, no momento a Terra é o nosso posto.
Tem-se dito que a astronomia é uma experiência que forma o caráter e ensina a humildade. Talvez não exista melhor comprovação da loucura das vaidades humanas do que esta distante imagem de nosso mundo minúsculo. Para mim, ela sublinha a responsabilidade de nos relacionarmos mais bondosamente uns com os outros e de preservarmos e amarmos o pálido ponto azul, o único lar que conhecemos.
Grande Sagan. Há muitos anos, mudou radicalmente minha vida.
Último lançamento da Columbia
Do ponto de vista da platéia. Belíssimo. Aos astronautas que perderam suas vidas, tanto nessa quanto em todas as outras missões espaciais da história, muitíssimo obrigado. São heróis.
A quem, como eu, não suporta qualquer tipo de nacionalismo, favor pular os primeiros segundos.
14 de maio de 2007
Supermassive Black Hole

Ah, sentimento oceânico...
Lembranças de um eterno brilho mental
Desde que vazaram as primeiras notícias sobre o novo filme, fiquei tentanto imaginar qual vai ser a próxima maluquice de Charlie. Com ele, já caímos dentro da cabeça de John Malkovich, já vimos o filme a que assistíamos ter a ação alterada pelo personagem principal (que, a propósito, era o próprio Charlie), e ainda apelamos à Lacuna, Inc. apagar as memórias da pessoa amada que tanto nos feriu. O que esse cara vai inventar agora? Ao LA Times, ele disse:
"I was thinking about things that are really scary to me, not horror-movie scary, about getting ill and dying, about time moving too quickly as you get older, and not feeling that you've accomplished what you've hoped for. There are issues of enormous relationship nightmares that I was thinking about. Losing his family. Losing the respect of his wife."
O herói, um diretor de teatro moribundo. O cenário, um armazém em que o protagonista tenta encenar uma peça, um simulacro de sua própria vida numa cidade artificial. Sinédoque: um caso especial de metonímia, onde troca-se a palavra que indica o todo de um ser por outra que indica apenas uma parte dele.
Já dá pra sentir o gostinho de uma nova obra-prima.
Embasbacante


Dá um bico: agora há pouco descobri a existência da ponte de Millau, na França.
Pra se ter uma idéia, o finado World Trade Center tinha 417 metros de altura. A ponte de Millau tem 343 metros. Uau. Lembrou-me de um certo gigante do futebol brasileiro.
Com vocês, Flávio Gomes
Antes de mais nada, deixo claro um ponto que considero essencial: o fato de eu não gostar da Stock pelos motivos que vou expor não significa que não reconheça sua existência e, vá lá, importância. Eu não gosto de um monte de coisa. Quiabo, por exemplo. Mas há quem goste. Quiabos são importantes, certamente. Não gosto de Toyota Corolla, outro exemplo. Mas como poderia deixar de reconhecer que é um carro que vende, e que tem quem compre? Não gosto da “Veja”, mais um exemplo. Acho-a desprezível do ponto de vista jornalístico e ético. Mas não posso desprezar sua relevância, lida que é por sei lá quantos milhões de tontos. Forma milhões de tontos. Tem relevância. Não gosto do Corinthians e do São Paulo. Mas eles existem, e adoro quando minha Portuguesa ensaca ambos (ano que vem está aí).
Melhor do que essa passagem, só mesmo quando escreveu com todas as letras o quanto Reinaldo Azevedo era um filho-da-puta. Pra quem não sabe, Azevedo é um tonto que escreve na Veja, para outros tontos.
Aplausos, Gomes!
Massa na cabeça!
Sim, há uma diferença abissal entre a atual posição dominante de Massa na Ferrari frente ao papel de capacho vivido por Rubinho. Mas para aqueles que se apressam em escarnecer de Barrichello, cabe lembrar o óbvio: o Queixudo-mor não está mais por lá. Guiar contra o piloto mais azarado do mundo não é exatamente a mesma coisa do que guiar contra o melhor (durante anos a fio, no caso do coitado do Rubens).
Fora isso, a corrida foi aquela coisa maravilhosa que tanto caracteriza essa pistinha catalã: uma procissão sem fim.
Aliás, procissão sem fim vem bem a calhar com o que ocorreu nesse domingo. A transmissão da procissão de Barcelona não terminou graças à procissão do senhor Joseph Ratzinger e à gloriosa Rede Globo. Foi tarde, o papa. E bem que ele poderia ter levado o Galvão Bueno junto.
Finally
Meus milhões de leitores agradecem.
9 de maio de 2007
Dia 9
Dia 9.
Todo dia 9 deveria ser comemorado.
Esse dia 9 deveria ser comemorado.
Por que eu não quis? Por quê?
Sobre caixas

3 de maio de 2007
Maio: problemas no PC
Reestréia em breve!
