28 de maio de 2007

O direitóide

O direitóide e babão Reinaldo Azevedo


"Reinaldo Azevedo é um filho da puta", afirmou, certa vez, um sincero jornalista. Parafraseando-o, comentei que Azevedo era um tonto que escrevia na Veja, para outros tontos. Basta uma olhada no blog do "Rei" (como é chamado por seus fãs) para perceber o quanto isso é verdadeiro.

Por lá, encontramos as asneiras direitóides de praxe: Che foi um assassino cruel, Chávez é um ditador, Lula é um apedeuta, a Folha de São Paulo é um jornal esquerdista, etc. Seu principal alvo, atualmente, é o movimento estudantil da USP. É o seu atual pretexto para soltar o verbo da direita raivosa.

Até aí, tudo bem. Se existe Diogo Mainardi, por quê não Reinaldo Azevedo? Pelo menos, o último parece ter uma formação intelectual decente e é muito menos simplista. O tipo de voz direitóide que representam ganhou um pouco mais de destaque nos últimos anos graças à subida do PT, ou "lulo-petismo", ao poder. À moda de Olavo de Carvalho, constróem seus discursos à base de muita raiva e agressividade. Imitam o velho astrólogo pedinte também na exibição de uma postura de inconformismo e protesto contra um establishment esquerdista ilusório. Estão loucos, babando.

O melhor de tudo é quando percebemos que, por trás da carapaça do inconformismo, escondem-se pelegos cósmicos. No caso de Reinaldo Azevedo, a peleguice e o conformismo revelaram-se através de um texto em que ataca o "antiamericanismo" mundial após a ocupação do Iraque.

Basicamente, Azevedo reconhece que a premissa fundamental da guerra foi uma invenção dos falcões do Pentágono. Reprova o horror da guerra. Condena-a como imoral. Diz ser a pessoa mais delicada quando o assunto é matar uma mísera barata. Mas aceita a guerra do Iraque. Reinaldo Azevedo aceita uma guerra imoral e seus milhares de mortos. E, pior, critica e desqualifica quem não a aceitou e protestou mundo afora.

O que parece incoerente tem a maior das coerências. O argumento é muito lógico. Baseia-se no direito do exercício do poder. Azevedo cita Gibbon, um historiador do século XVIII, para chegar à conclusão de que os impérios devem exercer o seu poder, irrestritamente, afim de levar suas benesses civilizatórias aos bárbaros.

Que os impérios exercerão seu poder, não há dúvidas. E Reinaldo Azevedo não é o primeiro a usar o argumento da força. Durante a guerra do Peloponeso, Atenas massacrou os habitantes da colônia espartana de Milo. Segundo Tucídides, num encontro anterior entre representantes mélios e atenienses, os últimos lançaram uma simples justificativa para sua postura imperialista. "Deveis saber, tanto quanto nós," disseram os atenienses, "que o justo, nas discussões entre os homens só prevalece quando os interesses de ambos os lados são compatíveis, e que os fortes exercem o poder e os fracos se submetem. [...] Em nosso caso, não impusemos esta lei nem fomos os primeiros a aplicar seus preceitos; encontramo-la vigente e ela vigorará para sempre depois de nós; pomo-la em prática, então, convencidos de que vós e os outros, se detentores da mesma força nossa, agirieis da mesma forma."

Depois de constatar, como os atenienses, a lei do mais forte, Azevedo lança uma questão: "uma nação que se negasse a pressionar Kruchev com o fim do mundo, na chamada crise dos mísseis cubanos, ou que se abstivesse de impor sua vontade a Bagdá teria feito o primeiro transplante de coração ou reproduzido, desta feita no éter, as grandes navegações do século XVI?" É óbvio que as conquistas da ciência e da tecnologia estão no mesmo contexto sócio-cultural das conquistas militares. Ambos os campos influenciam-se mutuamente. Seria ingênuo achar que não. Porém, mais ingênuo ainda é Azevedo, que enxerga entre elas uma simplista relação de causalidade necessária. Os norte-americanos podem empurrar sua agenda para acelerar a ida do homem a Marte ou continuar gastando bilhões de dólares no trabalho de mandar seus filhos para morrer e matar pessoas do outro lado do mundo. O jipe Spirit não está, neste exato momento, analisando minérios marcianos por que os Estados Unidos são um império que bombardeou muitos países e matou muita gente.

No caso grego, Atenas, além de centro difusor do pensamento, era também uma potência militar imperialista. Mas, e Esparta? Me desculpe, mas não há notícias de que algo minimamente próximo à produção de conhecimento ateniense tenha existido em Esparta. No entanto, quem ganhou a Guerra do Peloponeso? Não é difícil achar, na história, potências militares que não brilharam tanto quando o assunto era a produção de conhecimento e aprimoramento tecnológico.

Os Estados Unidos exerceram seu poder com justificativas falsas e mergulharam um país no caos de uma guerra civil fratricida. Devemos aceitar passivamente, sem protestos, que tal coisa aconteça? É imoral sentar e apenas constatar que uma lei natural está sendo cumprida.

Reinaldo Azevedo orgulha-se de sua lógica. Tem toda a razão. É uma lógica primorosa. E primorosamente cruel. Hitler saudaria com o braço em riste este inofensivo senhor de chapéu e óculos.

Eletrizante

Abaixo, o GP de Mônaco de F1, em três momentos.


A largada de tirar o fôlego!


Ultrapassagens alucinantes!


E a eletrizante chegada!

27 de maio de 2007

É só impressão

Pergunta: "Impressão minha ou você realmente gosta do Senna muito menos do que eu?"

É só impressão.

Senna foi o herói da minha infância. Ainda é um herói. Eu o adorava, como adoro a obra que deixou. No entanto, isso não impede que eu o enxergue com olhos distantes e use de bom humor no comentário sobre o que me é estranho nele.

Senna era passível de cometer besteiras, mais do que Prost e Schumacher. Mas era um artista genial dentro de um carro de F1. As besteiras intensificaram seus brilhos - elas transparecem a humanidade do herói. Uma cagada como a de Mônaco, em 88, revela o fio da navalha em que Ayrton andava. Estava 52 segundos à frente de um dos maiores pilotos que já sentaram num F1. E os dois tinham o mesmíssimo carro.

Os que seguem fielmente as raias da segurança e da certeza não fazem muita besteira. Mas também não deixam memórias tão fortes quanto aqueles que arriscam, que vão além e desenvolvem estilos belos e únicos.

Senna me inspira, até hoje. Seu exemplo é um chamado para os riscos necessários a quem quer buscar mais, cada vez mais, incessantemente.


Edit 17h: Não que tenha lá muita importância, mas não fui claro numa questão. Não gosto de montar hierarquias sobre os seres humanos. Mas, se tivesse que escolher um piloto, escolheria Senna. Dos que vi correr (assisto F1 desde 86/87), Senna é o melhor. É muito melhor do que Prost e Piquet, e melhor do que Schumacher em muitos aspectos (no mais importante, principalmente: rapidez). O limite pra se dizer que foi o melhor de todos é a impossibilidade de compará-lo com pilotos de eras anteriores tão distintas. Gente como Fangio, Clark e Stewart ficam de fora da comparação, portanto.

25 de maio de 2007

Deus e o MP4/4


Viviane Senna está em Mônaco para acompanhar a corrida de GP2, amanhã. Seu filho, Bruno, está em segundo lugar na classificação geral da categoria de acesso à F1. Hoje, os dois participaram de homenagens a Ayrton, com a presença do príncipe Albert, que só serve pra essas coisas.

A foto acima é meio estranha. Se havia lá mais carros guiados por Senna, a escolha de Viviane foi estranha. Se não havia, estranha foi a organização do evento. Esse carro é o McLaren MP4/4 - a parte traseira mais baixa típica do motor turbo e o número 12 não mentem.

O MP4/4 foi um dos carros mais vencedores da história da F1. Com ele, Senna e Prost venceram 15 das 16 corridas da temporada de 88. Sim, Senna é o senhor de Mônaco, com seis vitórias, mas quem venceu por lá com esse carro foi Prost. O baixinho narigudo estava 52 segundos atrás (isso mesmo, 52s, com o mesmo carro) quando Senna fez uma das maiores cagadas de sua carreira. Perdeu a concentração a duas voltas do fim e enfiou o imbatível MP4/4 no guard-rail da Portier.

Enfim. Viviane pode ter escolhido esse carro porque foi o do primeiro título do irmão, ou porque foi a bordo dele que Senna disse ter visto o Todo-Poderoso Criador do Universo, no Japão. O fato de que os outros 25 pilotos não o viram, tampouco os milhares de torcedores, nunca demoveu Senna de sua "visão". Ele dizia que o acidente de Mônaco o tinha transformado espiritualmente. Talvez seja essa a causa da estranha foto.

Por último, você pode estar se perguntando, por quê diabos o MP4/4 não ganhou as 16 provas de 88? Porque em Monza, Senna deve ter tido uma de suas visões cósmicas enquanto atropelava aquela Williams do Schlesser, que se arrastava na chicane. Faltavam, também, duas voltas. E quem acabou tendo a epifania foram os tiffosi, que viram uma dobradinha cair no colo da Ferrari.

Isto é Monte Carlo


Sem comentários...

Automóvel in natura

O vídeo do post anterior foi achado no Blog do Gomes. E, como não poderia deixar de ser, Flávio Gomes mescla natureza e sua paixão por Ladas para criar um post hilário.

Diz Gomes, por lá:

SÃO PAULO (nocaute) - Nas ruas de Budapeste foi travado o embate final entre essas trapizongas com cara de Pokémon e a gloriosa indústria soviética.

Nem preciso dizer o que deu.

Estado de natureza

A luta pela existência, nua e crua. Sem as narrativas antropomórficas do National Geographic ou do Discovery Channel, apenas a reação espantada de humanos.

Aliás, é interessante pensar na posição dos nossos semelhantes nesse vídeo. São espectadores. Imagino serem europeus. Viajaram de avião para a África. Chegaram à cena em rovers. Captaram tudo com uma câmera digital. Depois, empolgados, contaram tudo aos seus entes queridos, outros humanos, via celulares GSM. Por fim, rodaram o video ao redor do mundo pela internet. E voltaram à vida normal.

Nossa posição é muito confortável. Estamos envoltos numa bolha, numa verdadeira Matrix, que impede a maioria mais conformada de nós de enxergar a realidade. Há uns 80 mil anos, estávamos no meio dessa luta feroz pela existência. Vimos muitos de nossos filhotes serem trucidados. Sentimos o desespero da presa e o prazer do predador. Somos produto dessa pulsação cruel da vida.

24 de maio de 2007

Low-tech Tetris

Tem sido difícil pensar, hoje.

Então lá vai nonsense pra cascar o bico!

She burns like the sun...

Se tem uma paixão que não escondo é pela banda Muse. E a musa vem, desde 1999, destilando seus encantos. O primeiro deles - a primeira música do primeiro disco - é Sunburn.

Quer conhecer? Cá está o clipe.



O video é, em si, uma obra à parte.

A protagonista tem uma vida mais ou menos estável e tediosa. Passa o tempo em frente à tela cintilante da TV, vivendo uma vida que não é dela. Porém, quando se retira para encarar sua própria alma, vê que não está só. No espelho, uma figura vampiresca lhe faz companhia, a perturba com idéias impensáveis, que ela gostaria de evitar mas não pode. Ela cora, se descontrola. Então, por defesa, quebra o espelho.

O que é melhor? Quebrar o espelho ou tentar encará-lo, por mais perigos que ele possa oferecer?

23 de maio de 2007

Milan 2, Liverpool 1


O Milan calou o nojento Gerrard, até meio injustamente. No primeiro tempo, o Liverpool engoliu os rossoneri, mas tomou um gancho no queixo e não foi mais o mesmo.

Duro foi ver a camisa do Kaká: "I belong to Jesus". Mas tudo bem. Espera-se que ele faça gols e dê passes magistrais, como o de hoje. Não que pense.

É hoje!

Pra quem gosta de ver jogos de futebol no estádio. Sinta a loucura das torcidas. Sem narrações querendo nos empurrar emoção goela abaixo.



Os ingleses riram por último em 2005. Hoje, dá Milan. 2 a 0, Kaká e Seedorf.

Times da série A, tremei!


Volto do Majestoso com uma vitória de 2 a 0 sobre o Fortaleza, ex-líder da série B.

Quem é o líder agora?

Quem vocês acham que ponteia essa droga de competição?

Em três pulos, a Macaca chegou ao galho mais alto!

Pelo menos até sexta-feira...

22 de maio de 2007

Poesia e morte, ontem e hoje

A morte em dois momentos.

Primeiro, por Christian Hofmann von Hofmannswaldau, poeta do século XVII. Poesia citada em A Solidão dos Moribundos, do sociólogo Norbert Elias.

Transitoriedade da beleza

Por fim a morte pálida com sua mão gelada
Com o tempo acariciará teus seios;
O belo coral de teus lábios empalidecerá
A neve de teus mornos ombros será fria areia
O doce piscar de teus olhos / o vigor de tua mão
Por quem caem / cedo desaparecerão
Teu cabelo / que agora tem o tom do ouro
Os anos farão cair, uma comum madeixa
Teu bem formado pé / a graça de teus movimentos
Serão em parte pó / em parte nada e vazio.
Então ninguém mais cultuará teu esplendor agora divino
Isso e mais que isso por fim terá passado
Só teu coração todo o tempo durará
Porque de diamante o fez a Natureza

Preocupado com as diferenças históricas relacionadas à abordagem da morte, Elias comenta:

"Falta aqui o tom solene ou sentimental mais tarde muitas vezes associado à lembrança da morte e da sepultura. [...] As pessoas do círculo do poeta deve ter se divertido com uma brincadeira que facilmente escapa a um leitor moderno. Hofmannswaldau diz à sua relutante amada que sua beleza desaparecerá na sepultura, seus lábios de coral, seus ombros de neve, seus olhos insinuantes, todo seu corpo decairá - exceto seu coração: ele é duro como diamante, pois ela não dá ouvidos a seus apelos. No registro dos sentimentos contemporâneos dificilmente encontraremos qualquer coisa que corresponda a essa mistura de funéreo e irreverente, essa descrição detalhada da decomposição humana como manobra de sedução."

Agora, a música Gravedigger, de Dave Matthews.

Cyrus Jones 1810 - 1913
Made his great grandchildren believe
You could live to 103
103 is forever when you’re just a little kid
So, Cyrus Jones lived forever

Gravedigger
When you dig my grave
Could you make it shallow
So that I can feel the rain

Muriel Stonewall 1903 - 1954
She lost both of her babies in the second great war
Now, you should never have to watch as your only children are lowered in the ground
I mean, you should never have to bury your own babies

Gravedigger
When you dig my grave
Could you make it shallow
So that I can feel the rain

Ring around the rosey
Pocket full of posey
Ashes to ashes
We all fall down

Gravedigger
When you dig my grave
Could you make it shallow
So that I can feel the rain

Little Mikey Carson '67 - '75
He rode his bike like the devil until the day he died
When he grows up he wants to be Mr. Vertigo on the flying trapeze
Oh, 1940 - 1992

Gravedigger
When you dig my grave
could you make it shallow
So that I can feel the rain

Duas atitudes perante a morte. A primeira a trata com naturalidade e irreverência. A segunda, com o peso e dramaticidade dignas da maior tragédia que pode nos abater. Sinal dos tempos. Há apenas alguns séculos, a morte presente em todos os lugares, a todo momento. Hoje, o distanciamento cada vez maior do fim. "Nunca antes na história da humanidade", afirma Elias, "foram os moribundos afastados de maneira tão asséptica para os bastidores da vida social; nunca antes os cadáveres humanos foram enviados de maneira tão inodora e com tal perfeição técnica do leito de morte à sepultura".

"Você não deveria enterrar suas crianças", diz Matthews, sobre a mãe que perdeu seus dois filhos na Segunda Guerra. Hoje, pelos menos nos países desenvolvidos, as guerras viraram exceção. E a morte dos filhos, antes dos pais, especialmente na infância, é vista como algo anti-natural. Esquecemos que, durante a maior parte da história da nossa espécie, vimos grande parte de nossas frágeis crianças serem varridas pelo destino. Somente no nosso tempo, com todas as precauções tomadas contra a morte, podemos nos dar conta da infinita tragédia de uma lápide como "Michael Carson 1967 - 1975".

Aliás, é sobre o "Little Mikey Carson" que surge a melhor parte da poesia de Dave Matthews. Em vez de falar no passado, coloca os desejos do pequeno Carson no presente: "quando ele crescer, quer ser o Mr. Vertigo no trapézio voador". E, como que para lembrar a inevitabilidade da morte de tudo e de todos, incluindo a do próprio menino, fecha o verso: "Oh, 1940 - 1992". Até os heróis, Mr. Vertigo, Carl Sagan, Ayrton Senna, morrem.

A morte, um tema freqüente nas composições de Dave Matthews, é encarada por muitos de nós, hoje, com terror e ansiedade. A maioria ainda corre, apavorada, para as colinas da religião. Os que ficam no pântano da realidade sofrem a tragédia. É disso que nascem a arte mais profunda e o questionamento filosófico mais intrigante.

Solitário Spirit

Calma, Spirit. Um dia, talvez, você encontrará um sentido...


Seguindo na trilha das últimas descobertas sobre Marte, o robô Spirit encontrou, por acaso, fortes evidências de água na cratera Gusev, seu habitat desde que chegou ao planeta vermelho.

Como reporta a Folha, Steve Squyres, um dos líderes da missão que levou dois jipes a Marte em 2004, relatou que "você podia ouvir as pessoas arfando de espanto" com os dados enviados pelo Spirit.

Ah, a sensação de descoberta...

Squyres já falou, também, muito sobre a maneira com que os cientistas estão lidando com inevitável "morte" do Spirit e do Opportunity. Mas isso fica pra outro dia. Por enquanto, fiquem com um site especial das explorações do Spirit.

Créditos da imagem: Caco Galhardo, Folha de São Paulo, 15/05/2007.

21 de maio de 2007

O Juízo Final



À esquerda: painel central de O Juízo Final, de Bosch.

Dias atrás, fui importunado na tranqüilidade virtual de meu Orkut por uma série de questões colocadas "para pensar". Sempre preocupado com a questão do conhecimento humano, Juliano Stefanovitz perguntava: "o que o meu tatatataraneto vai aprender, em 2312, sobre esse nosso tempo (sécs. XX, XXI)? Quais serão consideradas as grandes contribuições de nossa época ao pensamento humano?"

Como já disse ao meu amigo, e ele mesmo sabe disso, essas questões estão obviamente fadadas a ficar sem respostas. Qualquer tentativa no sentido de respondê-las que não apele para a ficção soaria ridícula. É claro, poder-se-ia objetar que, sim, temos elementos para tentar imaginar o que o século 24 pensaria do nosso tempo. Afinal, só para ficarmos nas ciências naturais, conhecemos o impacto que tiveram a relatividade, a física quântica e a genética, por exemplo. Todo mundo está careca de saber que, em nosso tempo, inventamos a bomba atômica, fomos à Lua, colocamos telescópios e estações espaciais em órbita, sondamos os recônditos do sistema solar. Porém, o problema é mais profundo.

O tormento de meu amigo explica-se quando recebo sua segunda mensagem. "Há o Iluminismo, o Renascimento, há vários períodos que ganharam destaque pela contribuição que deram à evolução da humanidade." Aí está o cerne de suas preocupações: seremos, para o século 24, o que os iluministas o são para nós? Ou seremos uma Idade Média? Qual será o juízo feito sobre nós, no século 24?

Com a noção de nossa historicidade, tornamo-nos essas pessoas conscientes, como diz Antonio Candido, de que "acabam desaparecendo como indivíduos para se dissolverem nas características gerais de sua época". Se combinarmos isso com a idéia de evolução da humanidade, ou seja, a sensação de que a humanidade caminha rumo ao progresso inexorável, então temos um problema sério. Com essa visão da história, tendemos a glorificar aquilo que nos parece ter contribuído para nossa atual posição, o topo - daí a menção de Juliano ao Iluminismo e à Renascença. Essa visão também garante, porém, que estamos momentaneamente no topo: outros virão, mais desenvolvidos, mais evoluídos. Como o nosso tempo será julgado por eles?

Para um historiador familiarizado com a recente demolição infligida à idéia de progresso, essas preocupações não fazem sentido. O progresso é uma idéia ambígua, e ambíguas são muitas de nossas conquistas científicas. Vivemos melhor, mas matamos melhor. Em certo sentido, simplesmente não há um topo.

Não sabemos nada, não podemos ter a menor idéia, do olhar que nos será dedicado pelos historiadores do futuro. Não sabemos quem vai dirigir esse olhar a nós. A única coisa que podemos dar por certo é que o sentido que atribuirão ao nosso tempo interessará a eles, não a nós.

Devemos nos preocupar seriamente com essa forma secularizada de Juízo Final?

Pálido Iraque, pálida América

Lembram-se do post sobre o Pálido Ponto Azul, de Carl Sagan? Não poderia deixar de repetir esse trecho:

Pensem nos rios de sangue derramados por todos os generais e imperadores para que, na glória do triunfo, pudessem ser os senhores momentâneos de uma fração desse ponto. Pensem nas crueldades infinitas cometidas pelos habitantes de um canto desse pixel contra os habitantes mal distinguíveis de algum outro canto, em seus freqüentes conflitos, em sua ânsia de recíproca destruição, em seus ódios ardentes.

Como lhes parece, agora, as idéias dos neoconservadores de Washington e dos fundamentalistas islâmicos, o 11 de setembro e o fatricídio entre sunitas e xiitas?

Eu moro em Bagdá

Faz um certo tempo, eu estava navegando pelo YouTube à procura de vídeos sobre a Guerra do Iraque quando me deparei com Hometown Baghdad. Trata-se de mini-documentários sobre o cotidiano de alguns jovens moradores de Bagdá.

Lembro-me de ter assistido a alguns vídeos, e de ter ficado profundamente comovido com a situação dessas pessoas. Para um jovem brasileiro, é como se ver no espelho, só que numa condição apavorante. Saif, Adel e Ausama tocam guitarra, ficam horas na frente do computador, assistem futebol na TV, estudam. Em meio à carnificina.

Saif lamenta, ao violão, a ausência da namorada. Vemos um poster do Real Madrid, Roberto Carlos em destaque, no quarto de Adel. Falta energia elétrica constantemente. Ao som de tiros, muitos tiros. Ausama até pensa saber distinguir um tiro de sniper, em meio à cacofonia.

Ao que parece, Hometown Baghdad está ganhando os jornais do mundo. Deu no LA Times, no inglês The Times e, agora, na Folha (via BBC). Só não vai sair na Fox News...

E, last but not least, são mais de 60000 (sessenta mil) civis mortos no Iraque. Fora os 3400 norte-americanos. Os neo-cons devem estar radiantes.

20 de maio de 2007

O Anjo da História


Juliano Pavanelli Stefanovitz tem algumas inquietações acerca de seu lugar e, mais profundamente, de nosso lugar naquilo que chamamos de história. Sem a certeza de Fidel Castro de que "a História o absolverá", o que atormenta Juliano é: como seremos julgados pelo futuro?

Escrevo sobre isso amanhã. Hoje, quem fala é Walter Benjamin.

Há um quadro de Klee que se chama Angelus Novus. Representa um anjo que parece querer afastar-se de algo que ele encara fixamente. Seus olhos estão escancarados, sua boca dilatada, suas asas abertas. O anjo da história deve ter esse aspecto. Seu rosto está dirigido para o passado. Onde nós vemos uma cadeia de acontecimentos, ele vê uma catástrofe única, que acumula incansavelmente ruína sobre ruína e as dispersa a nossos pés. Ele gostaria de deter-se para acordar os mortos e juntar os fragmentos. Mas uma tempestade sopra do paraíso e prende-se em suas asas com tanta força que ele não pode mais fechá-las. Essa tempestade o impele irresistivelmente para o futuro, ao qual ele vira as costas, enquanto o amontoado de ruínas cresce até o céu. Essa tempestade é o que chamamos progresso.

19 de maio de 2007

Ah, o futebol...

Na quarta-feira, dia 23 de maio, ocorrerá a grande final da Champions League 06-07, entre Milan e Liverpool. O palco será o Estádio Olímpico de Atenas. É o jogo mais esperado do ano. É a revanche de uma das finais mais espetaculares da história, a batalha de Istambul, de 2005. Este ano, nem Silvio Berlusconi me impede de torcer pro Milan.

Quer relembrar o 3 a 3 de 2005? Kaká já jogava essa mesma bola de hoje e destruiu a defesa do Liverpool com dois belos passes. Mas Shevchenko perdeu o gol mais feito de sua vida nos últimos minutos da prorrogação, além do último pênalti.


Além dessa, a Champions League produziu outras finais que demonstram como o futebol, às vezes, pode rivalizar com outras artes em matéria de drama, como o teatro e o cinema.

A do ano passado, por exemplo. Stade de France, aquele mesmo, dos 3 a 0 de 98. O Arsenal segurava uma vitória heróica, com dez em campo. Lehmann foi expulso no primeiro tempo, ainda. Chovia. Ronaldinho não conseguia jogar, apesar daquela Liga ter sido inteirinha dele. Então apareceram a calma e habilidade de Eto´o, e a redenção de Beletti. Torci pelo Barça como se estivesse torcendo pra Ponte.


E a mais dramática de todas as finais. A atordoante e injusta virada do Manchester United sobre um seguro e eficiente Bayern de Munique, no Camp Nou. A segurança e a eficiência de Effenberg, Basler, Kahn e cia. duraram todos os 90 minutos. Menos nos poucos minutos de acréscimo. Ao ver a cara do Beckham, hoje, fico com raiva de ter torcido pro Manchester nesse jogo. Mas algo me diz que foi melhor assim.


Será que a revanche de Atenas também ficará na nossa memória?

De onde você vem?