13 de setembro de 2012

Shostakovich, piano sonata 2

Peça para piano favorita do momento: Sonata número 2 de Shostakovich.

Interpretação de Maria Yudina.

10 de setembro de 2012

Totalbiscuit e o vício em videogames

Hoje o Mailbox do Totalbiscuit foi muito bom.

A primeira resposta é exemplar, pra dizer o mínimo. O assunto é sobre vício em videogames.

31 de agosto de 2012

O jornalismo e as bruxas

O tema do post abaixo rendeu um artigo para o Observatório da Imprensa. Você pode acessá-lo ou lê-lo na íntegra aqui mesmo, logo abaixo.

_____________________________________________________________________________



O jornalismo e as bruxas

Por Danilo Albergaria em 28/08/2012 na edição 709

O site de cobertura jornalística de automobilismo da agência de notícias Warm Up, Grande Prêmio, atualmente vinculado à página brasileira do MSN, é o melhor do Brasil quando o assunto é corrida a motor. Em março de 2010, a Warm Up estreou uma revista homônima sobre automobilismo, veiculada online. A publicação é umbilicalmente ligada ao Grande Prêmio, que a promove com chamadas para suas reportagens.


De propriedade do experiente jornalista Flávio Gomes, desde seu surgimento em meados dos anos 1990 a agência tem primado por oferecer um jornalismo de qualidade, sério, competente no tratamento da informação, sem apelar para o ufanismo nacionalista tão comum no jornalismo esportivo, nem fazer uso de sensacionalismo barato. É de se estranhar, pois, que a revista Warm Up tenha veiculado em sua última edição uma reportagem inexplicavelmente apelativa e sensacionalista, jogando pela janela uma das funções sociais primordiais do jornalismo: oferecer informação de qualidade aos leitores. O leitor poderá ver por si mesmo a chamada do site – cuja manchete é “Brasileira é chamada para impedir chuva na Fórmula 1” – e a própria reportagem, “Dançando contra chuva”, assinada por Fagner Morais, que começa na página 28 da edição de número 28 da revista online.
A fonte manda
O texto fala sobre as alegadas participações da famigerada Fundação Cacique Cobra Coral (FCCC) em eventos de grande porte, boa parte deles esportivos. Sabe-se lá se contratada oficialmente ou não pelos organizadores ou por sabe-se lá quem (a reportagem não informa), a médium Adelaide Scritori, presidente da FCCC, afirma incorporar um espírito poderoso para alterar o clima e evitar ou redirecionar chuvas em benefício de eventos como concertos de rock e corridas de automóveis. Não qualquer concerto ou qualquer corrida, diga-se, mas apenas os que envolvem uma grande quantidade de dinheiro ou atenção midiática.
A reportagem até tenta mostrar bom humor, mas descamba para o mau jornalismo. O texto é no mínimo descuidado com as afirmações que faz. Exemplo: o leitor é informado que pode até não conhecer a médium, mas que “com certeza, já viu de longe ou esteve presente em algum evento em que ela ajudou a ter sucesso” (grifo meu). Também afirma que Adelaide ganhou “inúmeros admiradores famosos, como os ex-primeiros-ministros Margaret Thatcher e Tony Blair”. Segundo a Warm Up, Blair e Thatcher “recorreram ao trabalho da médium e viram sucesso” (grifo meu). Em legenda, consta: “Além dos eventos esportivos, a FCCC também colaborou para a edição sem chuva do Rock in Rio Lisboa” (grifo meu). É a revista quem diz, nada até agora em aspas, saindo da boca da própria Adelaide ou de seu assessor.
A partir daí é o livre desfile do pior nonsense esotérico nas generosas aspas concedidas à autoproclamada médium. Além disso, a citação das declarações de Adelaide não é feita de maneira cuidadosa, sem o correto distanciamento do que diz a reportagem com o que diz a fonte. A certa altura, por exemplo, a Warm Up lembra que a chuva, esperada pelas previsões do tempo das equipes no Grande Prêmio de Mônaco de Fórmula 1 de 2012, só caiu com força após o final da prova. Antes de conceder a palavra a Adelaide, a matéria anuncia: “Adelaide explicacomo fez para impedir isso” (grifo meu).
O que é isso senão um exemplo de jornalismo irresponsável? A Warm Up passa muito longe de questionar as alegações absurdas de uma única fonte, a própria FCCC, obviamente interessada em propagar de si mesma uma imagem de sucesso. É claro que as alegações sobrenaturais da FCCC são nada mais que besteirol. Mas o que se questiona, aqui, não é apenas se é sadio acreditar e promover uma patacoada dessas – não é, e isso está fora de discussão.
Do ponto de vista jornalístico, o que compromete a reportagem é a sua completa dependência por uma única fonte, a FCCC. Tudo o que se diz no texto – as alegações de fama internacional, de relações com governantes estrangeiros, de trabalho em grandes eventos esportivos, da F-1 às Olimpíadas – tudo vem da boca da médium ou de seu assessor. Quem não verifica as alegações da fonte acaba sendo cavalgado pela própria fonte. A única exceção é o parágrafo em que é citada uma reportagem de 2007 da revista IstoÉ sobre a FCCC. Desesperadamente marcada pela credulidade, pelo mau jornalismo, pelo único e exclusivo embasamento em evidências anedóticas, a matéria da IstoÉ tem suas alegações fantásticas citadas pela Warm Up, novamente sem questionamento.
Seres fantásticos...
Seria possível resolver esse problema afirmando que a reportagem não é séria ou que não se deve levá-la a sério? É o que sugeriu Flávio Gomes, proprietário da agência, por e-mail: “A reportagem é apenas uma curiosidade. Não passa disso. Não merece tantas restrições”. Em contato pelo e-mail oficial da revista, procurei questionar o repórter e o editor-chefe, Victor Martins. Apenas este último respondeu, e de maneira bastante confusa. Ao mesmo tempo em que faz coro a Gomes, afirmando que “você [eu] levou a sério demais uma reportagem que não dá em nenhum momento poderes divinos à personagem”, Martins pareceu levar suficientemente a sério os absurdos mágicos veiculados pela reportagem, afirmando que “uma série de pessoas gostou bastante [da reportagem] – jornalistas como nós. Porque justamente envolve questões espirituais. Você parte provavelmente do princípio que é balela; eu, de um ponto de vista pessoal, não”.
Seria fácil concordar com Gomes, e estas críticas que escrevo sequer existiriam, se a revistaWarm Up não houvesse levado tão a sério as alegações fantásticas da FCCC. Textualmente, está lá, escrito para todos lerem, que a manipulação mágica da natureza por uma médium deu certo, teve sucesso, e mais de uma vez. Não é uma simples brincadeira dúbia com uma entidade notoriamente envolvida na exploração da credulidade alheia para amealhar vantagens pessoais para os seus dirigentes. Não é apenas uma peça bem-humorada acerca de detalhes pitorescos do mundo empresarial por trás de grandes eventos, ávido pelo lucro a ponto de apostar na magia, no sobrenatural – mediante serviços bem pagos a “especialistas” da área como a FCCC. É uma peça de desinformação, simplesmente.
É trágico que o jornalismo se preste a esse triste papel. Pois não é nenhuma brincadeira para a vida pública que políticos e governantes como César Maia e Eduardo Paes apostem na magia e no sobrenatural. Maia estabeleceu, e Paes renovou em 2010, um convênio do município do Rio de Janeiro com a FCCC. Estamos tratando de uma organização que espalha alegações absurdas para conseguir dinheiro fácil, em convênio com a máquina pública.
O mote da reportagem da Warm Up é o velho “não creio em bruxas, mas que elas existem, existem”. E existem, mesmo. Enquanto o jornalismo se prestar à desinformação, as bruxas e toda sorte de seres fantásticos continuarão existindo muito bem, aproveitando o que há do bom e do melhor nesse mundo, com o dinheiro da credulidade alheia.

20 de agosto de 2012

Credibilidade é tudo

O site de cobertura jornalística de automobilismo Grande Prêmio, atualmente vinculado à página brasileira do MSN, é disparado o melhor do Brasil. Seu dono é o experiente Flávio Gomes, jornalista que cobriu a Fórmula 1 in loco por um longo período. Gomes é um escritor de mão cheia e tem um estilo só dele. Suas colunas e seu blog brilham muito acima do restante dos jornalistas e veículos da área esportiva.

Há uns dois ou três anos, a agência de notícias de Gomes, a Warm Up, estreou uma revista homônima sobre automobilismo, veiculada online (deve estar sendo impressa a essa altura, não sei). A revista é umbilicalmente ligada ao Grande Prêmio, que a promove com chamadas para suas reportagens.

É de se estranhar, pois, que uma publicação com esse pedigree tenha veiculado uma reportagem ridícula, surrealmente ridícula. Vejam por vocês mesmos a chamada do site e a própria reportagem assinada por Fagner Morais, que começa na página 28 da revista online.

Quando li a manchete, "Brasileira é chamada para impedir chuva na Fórmula 1" pensei que se tratava de uma incursão inofensiva e bem-humorada nas bizarrices do mundinho corporativo da Fórmula 1, cuja ética reinante parece ser a do vale tudo. Mas eu estava enganado. A reportagem até tenta ser bem-humorada, começando e terminando com o velho "não acredito em bruxas, mas que existem, existem". Fora isso, é puro jornalismo de quinta categoria.

O texto é sobre a famigerada Fundação Cacique Cobra Coral, cuja responsável alega alterar o clima e evitar chuvas por meio de mediunidade para beneficiar grandes eventos - a maioria deles, esportivos - entre outras alegações fantásticas. O texto é descuidado e irresponsável, tratando como fatos coisas altamente duvidosas - por exemplo, diz, na introdução, que a tal da médium "ajudou [um evento] a ter sucesso".

Não sou tonto. Qualquer pessoa minimamente sã sabe que uma coisa dessas é puro besteirol. Victor Martins (editor da revista) e Flávio Gomes também, suponho, sabem de quê se trata uma palhaçada dessas. Ou não sabem? Como editor e proprietário, deveriam saber. Mas o que se questionará, aqui, não é se é sadio acreditar e promover uma patacoada dessas - não é, e isso está fora de discussão.

O que verdadeiramente compromete a reportagem é a completa dependência por uma única fonte, a tal da Fundação, principalmente a médium. Tudo o que se diz no texto - as alegações de fama internacional, de relações com chefes de estado, de trabalho em grandes eventos esportivos, da F1 às Olimpíadas - absolutamente tudo vem da boca da médium ou de seu assessor. Em nenhum momento, nenhum, há qualquer menção do repórter sobre ter procurado verificar as informações. Quem não verifica a informação da fonte acaba sendo cavalgado pela própria fonte.

O que me faz levantar algumas perguntas ao repórter e ao editor da revista. Em algum momento vocês tentaram contactar as entidades mencionadas pela Fundação Cacique Cobra Coral e verificar se houve realmente as prestações de serviço mencionadas? Quem contratou a médium para evitar a chuva em Mônaco nesse ano? Procuraram a FIFA, a FOM, o COI? Se não, shame on you. Daria vergonha perguntar a essas organizações sobre se já contaram com os serviços de poderes espirituais contra as chuvas, não é? E se as procuraram, por que não mencionam no texto o resultado desse levantamento?

Mais: em algum momento vocês procuraram verificar a informação de relação da médium com Margaret Thatcher e Tony Blair? Ou melhor: antes de mais nada, pararam para pensar em verossimilhança em algum momento? Pois não haveria nada melhor para os tablóides explorarem do que o chefe de governo inglês diretamente envolvido com uma organização de serviços mediúnicos. Aliás, não pararam para perguntar quais foram os casos de sucesso, que a reportagem afirma existirem, que beneficiaram Blair e Thatcher? No caso da alegação sobre a Iron Lady, uma mínima pesquisa no Google traria um resultado como este.

Não. Não conta no esforço de verificação a referência a uma outra reportagem jornalística, ela mesma desesperadamente marcada pela credulidade, pelo mau jornalismo, pelo único e exclusivo embasamento em evidências anedóticas.

Eu sei. É possível resolver tudo isso dizendo que a reportagem não é séria. Mas por que ela está numa revista sobre automobilismo que se pretende séria? Devo ou não devo levar em consideração o que está nas páginas da Warm Up? Se devo, por que dar lugar a uma pecinha escrota como essa reportagem? Por que dar espaço à picaretagem?

Shame on you, Warm Up. Shame on you.

14 de agosto de 2012

The Shortest Straw

Às vezes é muito bom voltar pra casa.



Daquela tour em que o James não podia tocar, com o braço queimado.

12 de agosto de 2012

O México, esse país incivilizado


 O estarrecedor é que o video tem sido massacrado nos comentários do Youtube por stupid white men.


6 de agosto de 2012

18 de junho de 2012

Beethoven no churrasco

Então eu fui trocar o som do churrasco e pensei em colocar alguma sonata de piano do Beethoven, ou a nona, ou a quinta sinfonia, não me lembro direito. Sei que a tentativa foi prontamente rechaçada com um “a gente já sabe que você é [quer se passar por] intelectual”, ou coisa do gênero. E passamos a ouvir adaptações de pop/rock para pagode.

“É música de churrasco”, me disseram. Assim como Chiclete com Banana, natural substituto do Radiohead que eu tinha conseguido infiltrar num momento de desatenção da maioria.

Nada contra. Cada um é cada um, não é esse o sábio dito popular?

Vocês, meus caros 17 milhões de leitores, poderão me censurar pelas escolhas excêntricas para trilha sonora de churrasco. Me chamem de chato, pedante. Foda-se. Eu não caio nessa história de adaptar a música para a ocasião, ou melhor, para servir de cenário. Música é pra ouvir. Não há nada mais deprimente do que música de churrasco, música de casamento, música de balada. É tudo música de elevador.

Não acho que pra ouvir Beethoven seja preciso vestir um smoking e botar um ar aristocrático na cara. Aliás, isso é o que não deveria acontecer. Sua música é prazer, embriaguez, loucura, pateticidade, felicidade, e é tenebroso que se vincule um inconformista como Beethoven ao pedantismo.

Quer saber? Todo mundo quer picanha na churrasqueira. Mas se você passou a vida inteira comendo acém, talvez rotule quem defenda a picanha como pedante. Azar o seu.

1 de junho de 2012

Paul Lewis toca Beethoven

 

Beethoven - Piano Sonatas - Paul Lewis

 

Nos links abaixo você encontrará em MP3 TODAS as sonatas para piano, de Ludwig van Beethoven, interpretadas por Paul Lewis.

Este blog já havia publicado a edição integral das sonatas tocadas por Stephen Kovacevich. A diferença da atual postagem para aquela é que os arquivos de áudio estão separados por faixa, movimento por movimento. De modo que fica mais fácil, por exemplo, ouvir aquela terceira parte da Tempest, ou o curto mas espetacular segundo movimento da Hammerklavier – embora o legal mesmo é, claro, ouvir a sonata de cabo a rabo.

Este que vos escreve faz questão de reiterar que não procura, com essa publicação, prejudicar o artista ou a gravadora. O preço de uma coleção dessas, importada, é tão proibitivo para o bolso do brasileiro médio que seria impossível, não fosse a internet, ter contato com produções artísticas desse porte. A beleza salvará o mundo e não deverá cobrar entrada. No entanto, se você tiver dinheiro suficiente e gostar da obra, sugiro que a compre em sites como a Amazon. Quem pode, deve prestigiar o artista.

Caso prefira, os arquivos originais, em FLAC, estão neste torrent. Por favor, reportem qualquer problema nos arquivos MP3 aqui disponibilizados.

CD1 – Sonatas no. 16, 17 e 18

CD2 – Sonatas no. 8, 11 e 28

CD3 – Sonatas no. 9, 10, 21 e 24

CD4 – Sonatas no. 25, 27 e 29

CD5 – Sonatas no. 1, 2 e 3

CD6 – Sonatas no. 4, 22 e 23

CD7 – Sonatas no. 12, 13, e 14

CD8 – Sonatas no. 5, 6 e 7

CD9 – Sonatas no. 15, 19, 20 e 26

CD10 – Sonatas no. 30, 31 e 32

16 de maio de 2012

A shout from the rooftops

É um tremendo encorajamento para os movimentos de direitos humanos nos Estados Unidos: a faculdade de direito de Columbia publicou um estudo detalhado sobre a execução de um inocente no Texas.

A matéria do Guardian, que conta o caso de Carlos DeLuna, é dolorosa. Confundido com o real assassino (cuja existência as autoridades judiciais descartaram como ficção do acusado), DeLuna foi condenado à morte por um assassinato que não cometeu. Até o último momento afirmou sua inocência. Foi executado por injeção letal em 8 de dezembro de 1989. O assassino, um outro Carlos, Hernandez, extremamente parecido com DeLuna, não respondeu ao crime.

sdeluna-raw

Via boingboing.

10 de maio de 2012

27 de abril de 2012

Que pena…

“When Barcelona reached the 1986 European Cup final, a 15-year-old ballboy raced on to the pitch and pleaded with Victor Muñoz, scorer of the decisive penalty against Gothenburg in the shootout, for his shirt. The ballboy was Guardiola. During one match against Madrid he ran up to the referee and told him he was playing with the emotions of an entire nation, and he was not talking about Spain. When Andrés Iniesta was a kid, there were two posters on his wall at La Masía: one was of Catherine Zeta Jones, the other was Pep Guardiola. Cesc Fábregas still treasures the signed Guardiola shirt he was given as a youth-team player at the club.”

Guardiola saiu. Guardem os VTs.

19 de abril de 2012

Gangsta rapping on hell´s door

Aperta o cerco sobre Rupert Murdoch: http://www.independent.co.uk/news/uk/crime/hacking-scandal-the-net-tightens-on-the-murdochs-7661722.html

Para onde vão os enormes e desproporcionais gastos militares da Grécia?

 

“The imbalance has spawned speculation that peripheral countries in Europe with vulnerable frontiers likesuch [sic] as Greece are being exploited in terms of defence spending by wealthier states at Europe's core.”

Aqui, ó: http://www.guardian.co.uk/world/2012/apr/19/greece-military-spending-debt-crisis

Aos vencedores, conjecturas extravagantes sobre méritos inexistentes


Fortune favors the bold. Not!
Borat

Entre as muitas coisas que me incomodam no palavrório da imprensa esportiva nas análises pós-jogo é como a (legítima) busca por conjecturar os motivos de um placar de futebol está se tornando uma (preguiçosa e ilegítima) obrigação de conceder ao vencedor mais mérito do que teve.

É notório que o futebol não é um esporte em que o placar final sempre traduz a medição de força entre dois times. Nem sempre o melhor vence. Isso basta, sem precisar repetir o truismo de que futebol é bola na rede, para que observemos como a ânsia por identificar mais mérito do que existe em todo vencedor está levando a imprensa esportiva a procurar explicações bizarras para placares “injustos” ou “ilógicos”.

O que aconteceu ontem em Stamford Bridge e a cobertura do Guardian ilustram o meu argumento.

Admiro muito o setor esportivo do Guardian. Os textos são saborosos, as análises são geralmente sóbrias, sem patriotismo ou outras paixões que acometem a imprensa esportiva espanhola. Mas dois textos de análise pós-jogo sofrem desse mal de que estou falando: o primeiro elogia coisas como o trabalho disciplinado do time todo do Chelsea no setor defensivo, o segundo fala em “soberba disciplina” dos blues.

Como quem acompanha futebol sabe, o Barcelona dominou amplamente o Chelsea em plena casa do adversário. Dominar não é apenas uma definição de “ter mais posse de bola”, mas também criar mais chances de gol, impedir que o adversário tenha a bola e jogue, pressionar o outro time em seu campo de defesa. O Barcelona fez isso o jogo todo e saiu derrotado por 1 a 0, fruto da única chance de gol que o Chelsea teve. Se alguma análise racional do jogo é possível, a única coisa que se pode falar com segurança é que o resultado se deve ao faro de gol de Drogba e à incompetência das finalizações do Barcelona. E só. Mas a análise tática de David Pleat, por exemplo, propõe que o mérito seja todo do sistema de Di Matteo, “compacto, disciplinado e comprimindo o espaço defensivo, quase parando o ônibus [na frente do gol]”.

Pleat alega que a troca de passes do Barcelona não conseguiu penetrar a defesa do Chelsea. Como não? Foram muitas chances claras de gol, duas delas com Alexis recebendo passes por cima da defesa do Chelsea. A primeira bateu na trave, a segunda foi pra fora. Fábregas também teve uma com bola em profundidade, venceu Cech, mas o zagueiro salvou em cima da linha. E assim por diante. Isso não é penetrar a defesa do outro time? Mesmo confrontado com um busão parado na entrada da área, o Barcelona furou, sim, a defesa adversária. Mas não balançou as redes. O Barcelona perdeu e também não existe tal coisa chamada vitória moral. O Chelsea ficou com o 1 a 0 e é isso o que importa no futebol. O Chelsea venceu e está perto da final. Essa é a melhor, a única verdadeira, recompensa dos vencedores. Não precisam de mais nada, de nenhum elogio.

O que precisa ser dito é que o Chelsea e todo time inferiorizado dentro de campo mas superior no placar final não precisam que méritos falsos lhes sejam atribuídos ad hoc. Vitórias e derrotas acontecem e, muitas vezes, nem uma e nem outra são realmente merecidas. Assim é o futebol e, com o perdão da reflexão de boteco, assim é a vida.

Parte do problema é a tentativa de arrumar explicações complexas para coisas simples. Quando o assunto é futebol em sua manifestação mais extraordinária e caótica (caso do jogo de ontem), talvez seja melhor ficar com tautologias e irracionalidades em vez de rabiscar e rebuscar a prancheta em busca de um modelo explicativo. Proponho, portanto, duas “explicações” para o que aconteceu ontem.

A primeira é: o Chelsea venceu porque fez um gol e o Barcelona não fez nenhum.

A segunda: é tamanha a quantidade de pequenos detalhes e a sua combinação definindo a ausência de gol do Barça que algo do tipo vai demorar pra acontecer de novo. Ao contrário do provérbio latino, a sorte sorriu para os fracos.

18 de abril de 2012

Afegã Muçulmana Xiita

Segundo o Uol, a menina da foto que ganhou o Pulitzer chama-se Afghan Shia Muslim. Não estou brincando: clique aqui e vá até a legenda da foto. Ou clique aqui para ver um print screen.

É o mesmo que legendar uma imagem de uma menina brasileira dizendo que ela se chama Brasileira Cristã Evangélica.

O nome da menina é Tarana Akbari. Veja na legenda da foto aqui. Na certa o retardado viu uma legenda como essa e achou que as primeiras três palavras fossem o nome da menina.

Não foi só um lapso. É claramente sintoma de despreparo intelectual para a profissão.

5 de abril de 2012

A nona em 10 mil vozes

Para lembrar das vítimas do tsunami do ano passado, os japoneses armaram um coral de 10 mil pessoas e tocaram a nona de Beethoven (não sei se inteira… aí embaixo está apenas o último movimento).

É de arrepiar e chorar. Intencionalmente universal, ouvir a nona suscita o que tem de mais próximo da experiência religiosa para quem não é religioso. Adoro o que Beethoven representa, o que essa sinfonia representa, e adorei o que representaram 10 mil japoneses lembrando uma tragédia colossal da maneira mais catártica possível.

Foi uma experiência religiosa sem apelo ao sobrenatural, como dizem.

Lars von Trier estava errado. Quando o mundo acabar, quero ver a Terra derreter ao som da nona.

De onde você vem?