Eu nunca mais vou dizer
O que realmente penso
Eu nunca mais vou dizer
O que realmente sinto
Eu juro
Eu juro
(Titãs)
E este blog acaba de se transformar naquilo que nunca deveria ser: um diarinho confessional.
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Nenhum homem é uma ilha, mas que têm umas montanhas gigantescas no caminho que leva a cada península, ah, isso têm.
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Os mal-entendidos são uma coisa odiosa, sempre pensei. Claro, nunca me preocupei muito se havia interpretado errado alguma pessoa, ou alguma coisa que me foi dita. Nunca me preocupei demais, por exemplo, se apenas estava projetando meus preconceitos numa determinada pessoa, ou num discurso qualquer. O que sempre me preocupou era como eu e meus atos poderiam ser mal-interpretados. Ou o preconceito que poderia ser projetado sobre mim. Por isso, sempre me esforcei para ser o mais possivelmente claro nas minhas intenções, naquilo que dizia, nos gestos e olhares, para que não houvesse traço de dúvida sobre o que eu sou. É um egocentrismo do caralho, eu sei, eu sei. Mas não me entendam mal.Foi lendo Milan Kundera que pude perceber que a comunicação humana está fadada ao fracasso, em grande medida. Trata-se de uma característica inerente a nossa condição, acho. Sempre haverá ruídos, distorções, e as mensagens que jogamos pros outros nunca serão recebidas sem os ruídos e as distorções.
Recentemente, agi com uma ingenuidade imensa ao pensar que poderia explicar com sinceridade e honestidade, evitando os ruídos, as minhas desonestidades e insinceridades. Pensei que explicar algumas coisas, os conflitos, as contradições, seriam uma forma de amenizar o sofrimento, meu e da pessoa afetada pelas minhas sujeiras. Não estava nem um pouco confortável com a imagem que se fazia de mim, embora essa imagem fosse mais do que compreensível e esperada. E queria que essa pessoa entendesse o incompreensível, e se livrasse de uma carga que pode ser eterna, uma ferida que nunca fecha, dessas que acabam guiando o destino da pessoa dali por diante. Mas - e é aí que entram os ruídos - como esperar que se acredite na sinceridade de alguém que agiu com desonestidade? Como acreditar numa sinceridade que tenta explicar o seu oposto, a insinceridade? E como esperar que se acreditasse que alguém desesperadamente egocêntrico poderia agir não apenas preocupado com a sua própria imagem, mas com a vida de alguém importante demais pra ser tratado com a indiferença da falta de comunicação? "Qualquer pessoa que pensa conhece o paradoxo". A ingenuidade está em pensar que aquela pessoa importante, fundamental em muitas coisas, pensasse num momento de puro ódio e raiva.
Se já é difícil a comunicação com alguém que pensa, alguém muito longe de ser uma pessoa convencional, o que dizer do diálogo com um poço de convencionalidade? Uma idéia pairava na minha cabeça até ontem: explicar, me explicar, para algumas outras pessoas também muito importantes, fundamentais. Mas se o diálogo já era improvável numa situação em que nenhum ato meu era questionado, o que dizer de agora? Se minhas opiniões sobre filmes, livros e, pior, religiosidade, eram solenemente descartadas por preconceito, o que dizer dos meus atos recentes? A idéia vira-e-mexe zunia pela minha cabeça: escrevendo como escrevo sempre, com o sangue no papel, com a sinceridade e abertura que garantiriam pureza na comunicação.
Descobri tardiamente o valor inestimável da literatura com Kundera. Quanto tempo perdido! Foi com ele que pude perceber que um historiador e ensaísta que adoro tinha razão ao dizer que história e literatura estão irmanadas por um objetivo cognitivo (indo mais longe, pude perceber a mesma coisa na relação entre ciência e arte, algo incensado aos quatro cantos, mas que eu nunca tinha entendido antes - se bem que essa relação sempre foi puxada mais pro lado do subjetivismo e eu, claro, gosto de ver pelo lado oposto. Enfim, este não é um texto de epistemologia). Kundera me revelou determinados traços da realidade, o principal deles o do mal-entendido entre as pessoas, nossa malfadada tentativa de comunicação. Ele me enfiou uma pulga atrás da orelha que só foi sentida de verdade mesmo quando li uma outra coisa.
A Sangue Frio (In Cold Blood), de Truman Capote, narra a história de um assassinato horroroso no interior do Kansas. Quatro pessoas de uma mesma família foram brutalmente executadas e Capote, jornalista novaiorquino, reuniu um corpo gigantesco de evidências para contar a história na forma de um romance de não-ficção. (A história da gestação desse livro foi recentemente contada no ótimo Capote. Quem ainda não viu o filme já deve saber o que está perdendo.) O livro (e a história) são especialmente saborosos por causa do problema incrível que é a personagem de Perry, um dos dois assassinos. Perry é um mestiço, meio índio, meio "caucasiano", o que já dá muito pano pra manga. Ele é especialmente sensível, toca violão e canta um repertório vasto para platéias imaginárias, escreve um diário. Se não me falha a memória, Capote, o do filme, chega a dizer que ele e Perry são o mesmo, só que Perry entrou para a vida pela porta dos fundos. Quando Perry esteve preso pela primeira vez, escreveu uma carta para a irmã (talvez seu único elo com o mundo exterior), tentando se explicar. A resposta da irmã, então, acabou por ser analisada de maneira inacreditavelmente perspicaz por um amigo da prisão, o "superinteligente Willie-Jay". O que Willie-Jay escreveu para Perry chegou, por vias tortuosas e inesperadas, a mim, com muitos ruídos, claro, inclusive os que tenho aqui dentro:
A sua carta para ela, e esta, a resposta, falharam em seus objetivos. Sua
carta era uma tentativa de explicar sua maneira de encarar a vida, já que você é
necessariamente afetado por ela. Destinava-se a não ser compreendida, ou
interpretada literalmente demais, porque suas idéias se opõem ao
convencionalismo. Que poderia ser mais convencional que uma dona de casa com
três crianças, "dedicada à sua família"? Nada mais natural que ela se
ressentisse de uma pessoa não convencional. Há uma considerável hipocrisia nas
convenções. Qualquer pessoa que pensa conhece o paradoxo. Mas ao lidar com
pessoas convencionais é sempre vantajoso tratá-las como se não fossem
hipócritas. Não se trata de infidelidade aos próprios conceitos. Trata-se de uma
concessão para que se possa continuar a ser um indivíduo livre da ameaça
constante das pressões convencionais. A carta dela fracassou porque ela é
incapaz de conceber a profundidade do seu problema - não pode medir as pressões
sofridas por você devido ao meio ambiente, à frustração intelectual e uma
tendência crescente ao isolacionismo.
Como explicar o paradoxo para pessoas que são incapazes de compreender o que está fora do mundo das convenções, da normalidade? Não se explica nada. Acho que eu nunca mais vou dizer o que realmente penso para essas pessoas.