
O Flávio Gomes escreveu mais um de seus belos textos, ontem. Sobre o futebol, o tempo e um menino chorando:
Ontem fui o mais feliz dos seres humanos a cada gol do meu time, a cada gol do outro, e o pior dos miseráveis quando tudo acabou, quando o futuro chegou. É só um campeonato, uma bola e um gramado, já passou, é passado, mas na hora em que vi esse menino chorando no jornal, a dor voltou para o presente, porque a graça está aí: sorrir, chorar, sorrir, sofrer, e depois esquecer.
Gomes é torcedor da Portuguesa de Desportos, o segundo time de todo paulistano. Como a Ponte, a Lusa sofre com a superexposição dos chamados "times grandes". Como a Ponte, tem um estádio próprio decente (ao contrário de Corinthians e Flamengo). Como a Ponte, tem mais tragédias do que glórias pra contar.
Fiel, meus amigos, é o torcedor que vê o time ficar anos a fio na segunda divisão, ser arrebentado por más administrações, ser solenemente ignorado pela grande mídia e vai ao estádio compartilhar com mais 3 ou 4 mil semelhantes a esperança, a angústia, a dor e a delícia de torcer. Amar o futebol é isso. Me desculpem os meus amigos que torcem pro Corinthians, São Paulo ou Santos. A maioria de vocês, a imensa maioria, não sabe o que é amar e viver o futebol in loco, sem filtros televisivos, sentindo a fugacidade da vida. A vida não tem replay, o golaço ou o frango não vão acontecer de novo.
Ponte e Portuguesa jogavam juntas na última rodada do Paulista. Eu vi o limitado, talvez medíocre time atual da Ponte, que não brigava por mais nada no campeonato, triturar o Santos aqui em Campinas. Mas o futebol é o que é, e vocês sabem o resto da história.
Ponte e Portuguesa têm histórias e torcidas muito parecidas. Torcedores dos times "grandes", vocês não sabem o que é, para um pontepretano ou torcedor da Lusa, comemorar uma ida à final do campeonato, uma mera classificação, ou o rebaixamento do maior rival. Não sabem pois não têm o mesmo laço que tacitamente nos une aos outros presentes no estádio, a noção compartilhada de que não somos muitos mas não somos fracos, todos irmanados pelo amor por um time que dificilmente ganhará campeonatos inteiros mas que se justifica a cada gol, a cada jogada, a cada drible, a cada defesa do goleiro, a cada esperança ilusória acalentada.
No domingo, por 40 minutos tiramos um sarro, com a certeza da vitória que não veio, da cara da torcida do "ê-limina-dô!" Santos. É claro que no fim os babacas fizeram a festa na cabeceira, cantarolaram a usual "não é mole, não; mais de cem anos sem gritar é campeão", ao que a torcida da Ponte sempre mostra indiferença, da mesma forma como eu costumo reagir: "você tem título? enfie no cú". Porque essas coisas não têm nada a ver com viver o futebol em toda a sua fugacidade, sua peculiar paixão efêmera, vibrando e sofrendo, no estádio, com o seu time e seus seletos semelhantes das arquibancadas, fiéis devotos, companheiros eternos até o apito final e a saída do estádio, na derrota ou na vitória, amém.