Moonlight Sonata, 3o. movimento. Foi a música da semana.
Daniel Barenboim:
Murray Perahia:
Wilhelm Kempff:
Tem outros grandes pianistas que tocaram essa peça. Horowitz, Rubinstein, Schiff... Mas, e aí? De qual desses três vocês acham que é a melhor interpretação? É pau a pau, mas eu fico com a do Murray, que foi a primeira que eu ouvi.
PS. Aqui, o próprio Ludwig Van a caricatura mal-feita de Ludwig Van impressionando uma aluna muito, digamos, aplicada. Alguém consegue imaginar quê interesse ele tinha em fazer isso?
Não quero parecer pedante. Não quero parecer ter uma cultura que não tenho. Não conheço muito mais sobre música clássica do que algumas coisas que vinham naqueles discos da revista Caras (credo!), Jóias da Música, que minha mãe comprou no começo dos anos 90.
Por exemplo, o título desses posts sobre música é trivial: é o nome de um grande álbum do Queen (assim como o “Um dia nas corridas”). A formação do meu ouvido musical é guiada quase inteiramente pelo rock (ou melhor, por uma parte do que é considerado rock – não conheço quase nada de Beatles, por exemplo). Não sei nada de ópera. Não conheço nenhuma e estou à espera do meu amigo Robson Buck me ensinar a ouvir Carmen de Bizet, que ele diz ser uma maravilha. Se eu ouvir agora, sem qualquer preparo, vou me perder nos primeiros 30 segundos e a experiência não terá muito sentido.
Mas um dia assisti a um vídeo das palestras do maestro e compositor norte-americano Leonard Bernstein, o cara que concebeu os tais “concertos para a juventude”. A apresentação didática de Bernstein sobre o primeiro movimento da Sinfonia 40 de Mozart, explicando a mozarteana ambiguidade entre imaginação cromática e contenção diatônica, estourou meus miolos (essa expressão não funciona muito bem traduzida, né?). Comecei a perceber (ou pensar perceber) sutilezas nessa conhecidíssima e popular peça musical. Graças a Bernstein (e a Norbert Elias e Peter Gay, dois intelectuais peso-pesado que se dedicaram a entender algumas das dimensões sociais e históricas da vida de Mozart), estou começando a realmente desfrutar do prazer de ouvir a beleza nesse tipo de música.
Naquele mesmo vídeo, Leonard explica uma inspiradíssima idéia mozarteana presente no quarto movimento da 40 (a partir dos 8 minutos). No vídeo abaixo, com o quarto movimento sendo conduzido por Karl Böhm, a ideia está na passagem entre 1:51 e 2:01. Nesses 10 segundos, Mozart colocou todas as notas da escala cromática, menos a nota tônica, G ou sol. Bem no meio de um movimento em que tudo parece estar perfeitamente no lugar, Mozart joga um trecho que fica entre o esquisito e o desconfortável. E porque parece assim tão diferente? Pois está faltando algo, justamente a tônica, que daria ordem ao aparente caos. Nossos cérebros sequer precisam de qualquer teoria musical para perceber que está ali um trecho muito diferente do resto. E que torna a experiência ainda mais enriquecedora.
Bom, vou deixar de falar sobre algo que não sei explicar. Fiquem com o delicioso movimento final da 40, pois Mozart explica a si mesmo.
Descontem o título meio corny da resenha. Não consegui bolar outro melhor.
O maestro e compositor estadunidense Leonard Bernstein, que tinha um profundo interesse nas relações entre música e linguagem, gostava de reafirmar o poder metafórico da música, um instrumento para a tentativa humana de nomear o que não pode ter nome e conhecer o insondável. Numa de suas famosas palestras nos anos 1970, em Harvard, disse que “a música tem o poder da expressividade e o ser humano tem a capacidade inata de responder a ela”. Quase quatro décadas depois, a ânsia por entender nossa relação com a música se mantém intacta, mas incorpora agora os avanços das neurociências, que criaram ainda mais questões: como funciona o nosso cérebro quando estimulado pela música? Como se dá nossa compreensão dos estímulos musicais? Como nosso cérebro desenvolve a música? Por que nós, humanos, a criamos? Essas e outras perguntas são o assunto do livro This is your brain on music: the science of a human obsession, do músico e neurocientista Daniel Levitin.
1. Para quem se interessou pelo This Is Your Brain on Music e está sem grana pra comprá-lo na Amazon, vai aqui um link onde você pode encontrá-lo em PDF. Se você gostar do que ler e tiver grana suficiente para comprar o livro, compre-o.
2. Quer ver o próprio Levitin apresentando o livro? Clique aqui (talvez só funcione no Internet Explorer).
Mais conhecido como Magnetic Fields, Les Chants Magnétiques é o quinto álbum de Jean Michel Jarre, lançado em 1981. Dos que eu conhecia até agora, é o terceiro. Está aqui, na íntegra, a quem possa interessar.
(Se o Sr. Jarre ou algum procurador se sentir ofendido pela distribuição gratuita, favor contactar-me para apagar o link, o que farei com o maior prazer, não sem antes fazê-lo(s) ouvir algumas coisas sobre a falta de publicação dessas obras aqui no Brasil, tornando o preço de importação proibitivo. Eu tenho esse disco em vinil e, portanto, detenho legalmente o direito de ouvir essa bagaça há, deixa eu ver… 20 anos!)
Les Chants Magnétiques é um dos favoritos da infância, redescoberto há pouco tempo, embora tenha pequenas passagens que eu não entendia quando tinha 8 anos e que continuo não entendendo. O miolo da longa primeira faixa é um mero intervalo entre a introdução e a terceira parte, brilhantes. Para a terceira faixa, o francês figuraça deveria nos indicar o quê ele estava fumando quando a compôs. A última é uma rumba bonitinha, legal demais, mas é um final tão excêntrico e fora de órbita que me permanece um místério completo. Vamos ao que interessa.
A segunda faixa é uma obra-prima dos primórdios da música eletrônica como arte pop. Típico Jarre. Vendeu dezenas de milhões de discos pois, além de grande artista e compositor, sempre teve um afinadíssimo ouvido comercial. Hoje, não tocaria numa rádio nem a porrete, mas em 81 chegou a #6 nas paradas britânicas com a brincadeira.
A número quatro é uma mistura de melancolia e esperança que parece ser uma marca registrada de Jarre. Essas duas palavras, melancolia e esperança, mesmo que, juntas, pudessem dar forma a um terceiro sentimento, não seriam o suficiente para Les Chants Magnétiques IV. Leonard Bernstein tinha razão: a música pode nomear o inominável e comunicar o inconhecível.
A primeira parte da faixa de abertura tornou-se uma das mais conhecidas da carreira de Jarre, obrigatória em qualquer show. É ótima essa primeira parte, de fato, seguida de uma chapação pelas galáxias do espaço sideral que culmina na seção mais genial de todo o disco. Quando eu punha a bolacha no meu três-em-um Phillips e queria ouvir exatamente essa música, procurava pela parte menos escura, mais pro fim da faixa, e tacava lá a agulha. Com cuidado. Se bobeasse, dava aquele zzzzziiipp que doía na alma. Sorte que eu havia treinado bastante com Thriller, do Michael Jackson. Ele não sobreviveu. O disco, não o Michael. Quer dizer, bem, deixa pra lá. Tá aqui embaixo este que é o trecho mais brilhante de todos os campos magnéticos:
Uma coisa que eu nunca tinha me ligado: de um lado da capa do vinil está escrito “Les Chants Magnétiques”, do outro, “Magnetic Fields”. Sempre pensei que se tratava de mera tradução. Qualquer ignorante em francês, como eu, sabe que campos não é chants, mas champs (Champs Élysées!), mas passei batido nessa por 20 anos! O título em francês contém uma ambiguidade legal, pois chants e champs são palavras homófonas. Em inglês, ou em qualquer outra língua, perde-se a possibilidade de jogar com “campos magnéticos” e “canções magnéticas”.
Quem sabe eu me animo, mais tarde, a fazer um post sobre Rendez-Vous.
Atualização:
Achei esse vídeo raro dos concertos na China, também em 81, que deram origem a um álbum ao vivo, clássico, do Jarre. Não sei vocês, mas eu vejo em cada segundo aí a expectativa de um futuro, a esperança de profetizar um porvir mecânico, robótico e computadorizado. O futuro de 1981:
A história da dupla, segundo a Wiki: são da Cidade do México, onde formaram a banda Tierra Acida. Insatisfeitos com a cena musical na terra natal, os dois zanzaram pela Europa e se estabeleceram em Dublin. Alcançaram o sucesso. Abriram show em Wembley pro Muse, apareceram no Jools Holland, ganharam espaço na MTV americana, foram tocar no Letterman.
Tierra Acida era uma banda de thrash metal. Entre as influências listadas por estes dois grandes instrumentistas, estão Metallica, Megadeth e Slayer. Do Metallica, tocam Master of Puppets, Battery, One e a obra-prima do baixista Cliff Burton, Orion, uma das músicas mais bonitas já feitas, que você vê abaixo.
(clique aqui para o áudio da versão completa, em todo o seu esplendor)