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18 de março de 2010

As Voyager muito perto do espaço interestelar

Este texto é um trecho de uma matéria de Danielle Peck, da BBC, produtora da série Wonders of the Solar System.

Como a tradução é minha, os erros e distorções estão todos por minha conta.

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O vento solar se expande pelo espaço, criando uma vasta bolha que cerca o Sol chamada heliosfera.

Além dela, está o espaço interestelar. Até agora, essa bolha continua sendo em grande parte teórica, mas a humanidade está a um passo de cruzar as fronteiras dessa bolha e deixar para trás o império do Sol.

Mais de 30 anos atrás, as duas espaçonaves Voyager foram lançadas na Grand Tour - uma missão para explorar os planetas externos do Sistema Solar.

Elas passaram por Netuno (agora oficialmente o mais externo dos planetas) em 1989, e continuaram a viajar para longe do Sol a mais de 60.000 km/h desde então.

O cientista Dr. Ed C. Stone tem feito parte do time Voyager desde antes das sondas serem lançadas em 1977.

"Quando eu comecei com a Voyager, minhas duas filhas eram jovens e quando elas entraram na faculdade, nós já tínhamos passado por Saturno no caminho para Urano. Minhas filhas casaram-se e a Voyager continuou indo", diz orgulhosamente Dr. Stone.

"É maravilhoso ser parte de uma missão que ainda está explorando quando já tem 33 anos de existência. Ela ainda está indo onde nenhuma espaçonave foi antes".

A cada ano, as sondas viajam mais do que três vezes a distância entre a Terra e o Sol. Por 33 anos, elas continuam viajando com o vento solar. Elas ainda não deixaram o território do Sol - mas estão chegando perto.

Agora, as sondas estão cerca de 16 bilhões de quilômetros da Terra. A esta distância, suas mensagens demoram 15 horas para chegar até aqui, e recentemente essas mensagens começaram a dizer algo particularmente interessante.

As sondas detectaram uma mudança notável no comportamento do vento solar - os primeiros sinais de que ele está sendo empurrado de volta pelo meio interestelar que permeia a galáxia da Via Láctea.

As sondas Voyager nos contaram que vão, logo, escapar da heliosfera.

Será a primeira vez que um objeto feito pelo homem cruzará a fronteira para o espaço interestelar, mas a heróica jornada das Voyager não acabará aí.

As sondas têm energia suficiente para continuar fazendo algum tipo de trabalho científico pelo menos até 2025. Até lá, nós teremos entrado numa nova era de exploração.

A era da exploração do espaço interestelar.

12 de março de 2010

ComCiência, update de março


Está na rede o dossiê do mês de março da Revista ComCiência. O tema é "Música e Ciência".

Minha colaboração, neste mês, foi com uma resenha de um livro de divulgação científica muito interessante: This is Your Brain on Music: the science of a human obsession, do neurocientista (e músico) Daniel Levitin.

Descontem o título meio corny da resenha. Não consegui bolar outro melhor.


O maestro e compositor estadunidense Leonard Bernstein, que tinha um profundo interesse nas relações entre música e linguagem, gostava de reafirmar o poder metafórico da música, um instrumento para a tentativa humana de nomear o que não pode ter nome e conhecer o insondável. Numa de suas famosas palestras nos anos 1970, em Harvard, disse que “a música tem o poder da expressividade e o ser humano tem a capacidade inata de responder a ela”. Quase quatro décadas depois, a ânsia por entender nossa relação com a música se mantém intacta, mas incorpora agora os avanços das neurociências, que criaram ainda mais questões: como funciona o nosso cérebro quando estimulado pela música? Como se dá nossa compreensão dos estímulos musicais? Como nosso cérebro desenvolve a música? Por que nós, humanos, a criamos? Essas e outras perguntas são o assunto do livro This is your brain on music: the science of a human obsession, do músico e neurocientista Daniel Levitin.

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Edit:

1. Para quem se interessou pelo This Is Your Brain on Music e está sem grana pra comprá-lo na Amazon, vai aqui um link onde você pode encontrá-lo em PDF. Se você gostar do que ler e tiver grana suficiente para comprar o livro, compre-o.

2. Quer ver o próprio Levitin apresentando o livro? Clique aqui (talvez só funcione no Internet Explorer).

10 de outubro de 2009

Mensageiro das estrelas


Saiu a edição de outubro da Revista ComCiência, do Labjor/Unicamp e SBPC. E com mais um texto meu. Desta vez, exploro um pouco os significados das observações telescópicas de Galileu Galilei: lá se vão 400 anos desde que o pisano apontou aquela engenhoca óptica pro céu e ajudou a moldar o mundo moderno.

No final do ano de 1609, Galileu Galilei apontou seu rudimentar telescópio para o céu e enxergou o cosmos mais longe e com maior nitidez do que qualquer outro ser humano havia, até então, imaginado. As observações do famoso acadêmico pisano, comunicadas no ano seguinte por seu livro Sidereus nuncius (Mensageiro das estrelas, em tradução livre), causaram uma miríade de reações contraditórias, de surpresa e encantamento a estranhamento e negação. Nos quatrocentos anos seguintes, a ciência se institucionalizou como ferramenta poderosa de conhecimento e intervenção sobre a natureza, a física seguiu a rota dos pioneiros passos do início do século XVII e invadiu as explicações de fenômenos celestes, e a própria atividade de observar os confins do espaço expandiu nosso universo com seguidas revoluções técnicas que culminaram nos atuais telescópios espaciais. Se procurarmos os alicerces desses desenvolvimentos, encontraremos dentre eles os eventos protagonizados por Galileu, suas observações e escritos, cujos significados para a ciência ainda hoje geram controvérsias e debates no meio acadêmico.
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Nesta edição, também, tem um artigo deliciosamente bem escrito por um amigo, Rodolpho Gauthier, único torcedor da Ferroviária de Araraquara (sem contar o roupeiro). Neste artigo, Rodolpho fala um pouco daquilo que é o tema de sua dissertação de mestrado, recém-defendida aqui mesmo na Unicamp: representações de alienígenas e discos voadores na imprensa brasileira do pós-guerra. Ou, na linguagem mais simples e atraente de seu autor, A invenção dos discos voadores. Neste artigo para a ComCiência, Rodolpho se pergunta: por que a crença em alienígenas?

Leituras saborosas, de lunáticos para lunáticos.

5 de outubro de 2009

Does dark matter matter?

Mera hipótese ad hoc?


Um texto, meu, de maio de 2007.

Notícia na Folha, via New Scientist, de hoje.

Existe mais matéria escura entre o céu e a terra do que sonha a nossa vã filosofia, ou nossa vã filosofia ficou gagá de vez?

31 de agosto de 2009

A ciência segundo Carl Sagan

Este meu artigo foi retirado do ar temporariamente pois utilizei-o como base de meu projeto de mestrado. :)

14 de agosto de 2009

Blast!

Ontem, Stephen Colbert entrevistou o cosmólogo Mark Devlin, com as perguntas cretinas de sempre. À afirmação citada abaixo, no player, Colbert retrucou: podemos dar Viagra à nossa galáxia? Devlin explicou que o Viagra vai vir daqui a alguns bilhões de anos, quando a Via Láctea e Andrômeda colidirão, o que vai despertar um novo frenesi de formação de estrelas (aliás, a cosmologia moderna diz, e o Hubble foi capaz de provar, que colisões de galáxias são coisas corriqueiras).

The Colbert Report Mon - Thurs 11:30pm / 10:30c
Mark Devlin
www.colbertnation.com
Colbert Report Full Episodes Political Humor Meryl Streep

Devlin estrela um documentário sobre o projeto científico que ele próprio encabeça, o BLAST (Balloon-borne Large-Aperture Submillimeter Telescope), que investiga galáxias muito distantes (7-10 bilhões de anos-luz) usando um telescópio levado a altas altitudes por uma espécie de balão meteorológico.

Perdão pelo trocadilho, mas esse documentário deve ser um estouro.

10 de agosto de 2009

O futuro é o que sempre foi (?)


A nova edição da ComCiência está, finalmente, online. Na seção de resenhas, uma minha e uma do Rubens Zaidan, o glorioso Rubão, jornalista tarimbado, meu colega de classe e de grupo de trabalho no Labjor. Ele deixa um gravador ligado durante as aulas, e eu aposto que já deve estar de saco cheio de ouvir a minha voz. Falo muito em sala de aula. Às vezes indignado, discutindo, brigando. Pros outros colegas, deve ser um porre. Mas eu gosto de alunos que falem. Sou um aluno que fala.

A minha resenha fala sobre um livro espetacular, Futuros Imaginários: das máquinas pensantes à aldeia global, do cientista político inglês Richard Barbrook. Neste site, você pode baixar o livro gratuitamente, na íntegra. É copyleft aqui no Brasil. Vai aqui um naco da minha resenha:

Junto à corrida armamentista e espacial, uma outra disputa entre EUA e URSS era travada sem estardalhaço: a "corrida para inventar a Rede". A Central Intelligence Agency (CIA) havia chegado à conclusão alarmante de que os russos estavam prestes a superar os Estados Unidos no desenvolvimento de máquinas e programas, construindo uma rede de computadores que operasse a defesa aérea de Moscou em 1956. Barbrook mostra que a disputa não era apenas pela construção da grande rede, mas, principalmente, pelos fundamentos que a guiariam e as possibilidades de reorganização social que ela abriria. Sob o reformismo de Kruschev, cientistas da computação russos passaram a ver na ideia de rede uma redenção libertária que verdadeiramente fizesse jus aos ideais comunistas da revolução de 1917, sufocados por Stalin. Mas essa espécie de mcluhanismo marxista logo foi esmagada pela volta do autoritarismo ao poder. Com o fim do reformismo e a desventura do projeto libertário da rede russa, a União Soviética acabou entregando o jogo do futuro imaginário de bandeja para o outro lado.

Nos EUA, o governo exigiu que se inventasse a internet antes que os russos o fizessem. O objetivo era garantir o controle e hegemonia do país sobre a profetizada sociedade da informação. Nas entrelinhas do discurso da Uniesfera, o que não podia ser claramente dito: a aldeia global seguiria o modelo apontado pelos Estados Unidos. O projeto era financiado pelo Departamento de Defesa e tinha também uma clara função militar: manter o controle e as estruturas de poder com uma rede que sobrevivesse a um ataque devastador. No entanto, a arquitetura da internet foi toda projetada nos moldes de um comunitarismo acadêmico-científico, cuja produtividade precisa do compartilhamento, e não da propriedade comercial do conhecimento. Essa estrutura aberta, descentralizada, era financiada pela estrutura hierárquica e autoritária dos militares.

Esse aparente paradoxo é desvendado de maneira brilhante por Barbrook e constitui o grande mérito de Futuros imaginários. Para ele, como para os líderes mais sensatos das duas superpotências, a Guerra Fria nunca seria decidida pela força bruta. A “força suave” da disputa no campo cultural, simbólico, poderia ser uma arma mais devastadora do que uma bomba atômica. O embrião da internet da década de 1960 era um produto do que Barbrook chama de “esquerda da Guerra Fria”, formada por intelectuais americanos originalmente de esquerda, muitos ex-trotskistas. Com a histeria anticomunista e a radicalização do debate, o marxismo passou a ser sinônimo de stalinismo, ser de esquerda era ser antipatriótico. A “esquerda da Guerra Fria” passou a defender uma alternativa tanto ao liberalismo econômico quanto ao stalinismo, pregando um capitalismo do bem-estar social. Com o Partido Democrata no poder, essa “esquerda” começou a atuar com muita eficiência como “força suave” contra o comunismo, denunciando as falhas do sistema soviético e acolhendo o mcluhanismo de braços abertos.

Feridos pelas críticas da contracultura nos anos 1970, esses intelectuais penderam para o neoliberalismo. Se para a contracultura a internet era um embrião do “comunismo cibernético”, para os novos liberais ela seria a epítome da sociedade da informação e do livre mercado. Porém, enquanto a prometida sociedade da informação vai sendo gestada, o poder fica nas mãos de uma nova elite: a classe do conhecimento e da inovação tecnológica, cuja morada é o Vale do Silício. Como há quarenta anos, o futuro computadorizado está logo ali, mas nunca vai chegar.

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"Acho que você andou assistindo muito filme de ficção científica"

Rastros de uma história violenta
(foto de um certo Haraldo A. P. Filho)

Só para confirmar a ideia de que o Sistema Solar é uma pancadaria digna de Buddy Spencer e Terence Hill, há uns quinze dias Júpiter levou uma pancada similar à de 1994, causada pelo cometa Shoemaker-Levy. Ninguém, nos programas de levantamento de asteróides, detectou o bicho dessa vez. A descoberta foi feita por um astrônomo amador. O que levantou uma certa desconfiança nos Estados Unidos: será que a NASA está fazendo o trabalho direito?

Talvez em resposta a isso, o JPL (Laboratório de Propulsão a Jato) da Caltech colocou online, no último dia 6, o site Asteroid Watch. O levantamento amplo de objetos como asteróides e cometas que vagam pelo sistema solar e às vezes entram em sua parte interna (exatamente onde estamos) é umas das coisas mais importantes que a ciência espacial pode fazer. A maioria das pessoas descarta esse tipo de coisa como viagem de fã de sci-fi que leva filmes como Impacto Profundo muito a sério. Podem estar todos os nossos pobres pescocinhos, neste exato momento ou, mais provavelmente, em algum ponto da história das gerações futuras, na linha de tiro de um asteróide ou um cometa. Eu não consigo achar muitas outras coisas que sejam tão importantes e que deveriam estar no centro das agendas científicas.

21 de julho de 2009

Homens na Lua, homens na Terra, por Michael Collins


Little by little, they grew closer, steady, as if on rails, and I thought 'What a beautiful sight,' one that had to be recorded. As I reached for my Hasselblad, suddenly the Earth popped up over the horizon, directly behind Eagle. I could not have staged it any better, but the alignment was not of my doing, just a happy coincidence. I suspect a lot of good photography is like that, some serendipitous happenstance beyond the control of the photographer. But at any rate, as I clicked away, I realized that for the first time, in one frame, appeared three billion earthlings, two explorers, and one moon. The photographer, of course, was discreetly out of view.


Mais, aqui.

27 de junho de 2009

A demarcação da pseudociência

Uma coisa recorrente em obras de divulgadores da ciência como Richard Dawkins e Carl Sagan é o ataque à pseudociência. Tentam alertar para um perigo das sociedades modernas: aquilo que parece ser ciência pode ser uma impostura. Em linguagem clara: você pode estar levando um Porsche com motor de Fusca e lataria de plástico.

Foi mais ou menos o que aconteceu recentemente com minha mãe. Crente de que havia encontrado a solução definitiva para meu notório problema de ronco e apneia do sono, ela não titubeou em gastar 50 reais na compra de um novo “aparelho hi-tech anti-ronco”, o No Ronco. O aparelho promete acabar com o ronco ao “enrijecer os nervos da faringe” com uma “pressão no septo nasal” levada a cabo por “dois chips eletromagnéticos que emitem ondas magnéticas”, eliminando assim o ronco com uma “taxa de eficiência superior a 90%”. A bula afirma que o No Ronco é “confeccionado com as maiores e mais inovadoras tecnologias do mercado” e que seu “chip” é “sintetizado com elementos raros da natureza”.

Não é preciso ser um cientista para perceber que há algo de errado nessas promessas, que “maiores e mais inovadoras tecnologias” casadas num “chip” fabricado com “elementos raros da natureza” só podem ser uma coisa: conversa fiada de vendedor. Desmontado o “aparelho”, percebe-se que os dois “chips” são simples e prosaicos imãs. No Ronco usa o jargão acadêmico, com referências a dois campos tecnocientíficos (a informática, na moda, e o eletromagnetismo, clássico referencial pseudocientífico), para sustentar promessas ilusórias. Não há dúvidas desde o primeiro momento em que se conhece o No Ronco: é um produto pseudocientífico.

No entanto, a detecção de pseudociência não vem sendo algo totalmente racionalizável. Passa mais pelo faro – a dita intuição – do que por passos racionais e lógicos. Como o bolso de minha mãe bem sabe, é necessário responder às indagações: o quê, de fato, é a pseudociência? Como estabelecer critérios inequívocos para saber o que é e o que não é pseudociência? Qual a linha demarcatória?

Pseudociência é todo discurso, saber ou crença, que se disfarça de ciência para conseguir credibilidade (fiquemos com essa definição, por enquanto). Apesar de todos os ataques céticos, a ciência ainda tem muita credibilidade na nossa sociedade. Quantos anúncios não vêm acompanhados da chancela de "cientificamente comprovado" ou similares para atestar que seus produtos são confiáveis? Por quê os autores de livros de auto-ajuda e boçalidades semelhantes têm a necessidade de acompanhar seus nomes dos títulos de "MD" ou "PhD"? A intenção é clara. A ciência se tornou, há muito, base para decisões públicas e ainda é considerada, em inúmeras direções, nossa maior fonte de conhecimento seguro sobre o mundo. Sua roupa, pelo menos, ainda vende. E muito.

O problema maior de se definir critérios que demarquem a pseudociência é que isto se desdobra numa questão ainda mais complicada: quais seriam, então, os critérios para demarcar a própria ciência? A demarcação e identificação do que é científico ocupou filósofos e epistemólogos durante séculos, desde a emergência da ciência moderna, sem que se chegasse a um acordo. Um breve catálogo das principais vertentes na filosofia da ciência que arriscaram propor critérios gerais para a definição de ciência – só no século XX – dá conta de demonstrar o tamanho do problema: os positivistas do Círculo de Viena e a ênfase na possibilidade de se verificar uma proposição empiricamente; Karl Popper e a ideia de que uma teoria só é científica se abre a possibilidades de ser refutada por observações ou experiências que fiquem nas raias do concebível; Thomas Kuhn e a imagem da ciência normal, em que a prática científica mais comum é identificada com a resolução de problemas dados por um paradigma teórico que só de vez em quando é desafiado pelas anomalias que surgem nas pesquisas; Imre Lakatos e o critério de progressividade, em que estamos diante de ciência quando um programa de pesquisa cria novas teorias que vão substituindo as velhas pela capacidade de previsão e maior embasamento empírico; e Robert Merton e seu ethos científico, com imperativos institucionais como o universalismo, o ceticismo organizado, o senso de comunidade e o desinteresse pessoal. Não há consenso entre estas diferentes demarcações. Quando muito, há uma certa convergência em certas questões específicas.

Como afirma o filósofo Sven Ove Hansson, em texto sobre a pseudociência na Stanford Encyclopedia of Philosophy, é paradoxal que haja tamanho consenso quando o assunto é meramente identificar os campos que devam ser considerados ciência, e ao mesmo tempo tanta dificuldade para encontrar critérios gerais que demarquem com clareza o que é ciência e o que não é.

Da mesma forma, é bastante comum encontrarmos convergência em opiniões na comunidade científica - e não somente dentro dela - que classificam o criacionismo, a astrologia e a homeopatia, por exemplo, como pseudociências. A divergência está no porquê disso tudo ser pseudociência. As possíveis respostas esbarram primeiro no problema muito comum de se misturar pseudociência com anticiência, e mesmo pseudociência com todos os discursos alheios ou estranhos ao discurso científico. Basicamente, como já dito, por pseudociência entende-se um saber ou crença que, não sendo científico, passa por ciência, veste sua roupa e emula suas maneiras na tentativa de criar uma impressão de ser científico. Apesar de muito útil, este é um critério problemático: a homeopatia oscila entre colocar-se como anticiência e como ciência. O mesmo ocorre com a astrologia – atualmente, com maior tendência a se considerar realmente não-ciência ou anticiência. A questão é que não há um corpus pseudocientífico coerente em oposição ao corpus científico mais ou menos definido. E, pior, em alguns casos aquilo que pode ser identificado como ciência mal-feita (ou seja, experimentos mal conduzidos, teorias logicamente mal elaboradas, etc.) tende, em alguns casos, a ser confundido com pseudociência. A única forma de separar o joio do trigo, neste caso, seria saber se, por trás de conclusões estranhas à ciência originadas de incompetência ou distorções propositais, há uma doutrina não-científica mais ou menos coerente tentando se passar por ciência.

O que torna a tarefa demarcatória entre ciência e pseudociência algo extremamente complexo (para alguns, impossível) é que a linha divisória varia com o tempo. É histórica. Se o próprio conhecimento científico é um fenômeno histórico, como, então, estabelecer critérios universalmente aceitos para o que é científico e o que só parece sê-lo? Ainda não há respostas. O que é certo, principalmente para aqueles que algum dia foram lesados por falsas promessas fabulosas vestidas de jaleco branco e com um tubo de ensaio na mão, é que ainda é necessário encarar o problema filosófico e epistemológico de se definir o que é ciência e pseudociência, mesmo que para isso se reconheça buscar estabelecer um critério imperfeito e limitado, fruto de seu tempo.


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Este texto é uma adaptação de um outro post, só que um pouco mais formal e ao mesmo tempo mais didático e mais "jornalístico", conforme as exigências da disciplina do Prof. Marcelo Knobel, do Labjor/Unicamp.

12 de maio de 2009

Lévi-Strauss aos 101


Acabou de sair a edição de maio da revista ComCiência, do Labjor/Unicamp e SBPC. Esse mês o tema é a vida e a obra do antropólogo Claude Lévi-Strauss, o pai do estruturalismo que, hoje, dizem alguns, está fora de moda.
Minha matéria é um esboço de resposta à pergunta que fiz na reunião de pauta: qual a consequência epistemológica da noção de estrutura de Lévi-Strauss para as ciências?
Em poucas linhas, cheguei à seguinte conclusão: no fundo, Lévi-Strauss rejeita a possibilidade de avanço do conhecimento, ideia-chave da ciência moderna. Se tanto a ciência quanto o pensamento ameríndio se baseiam sobre as mesmas estruturas universais da mente humana, então as descobertas científicas nada mais são do que flutuações de uma equação, a mente, reflexo da natureza humana, do nosso caráter animal e orgânico. A humanidade compartilha uma razão, capaz de conhecer o mundo, muito mais profunda do que a razão iluminista. É uma ideia muito bonita, escrupulosamente construída e examinada, da qual discordo humildemente.
Lévi-Strauss não é o responsável, mas deu origem ao pós-estruturalismo, que está dentro do conceito vago de pós-modernismo. O relativismo radical bebe dessa fonte, mas às vezes disfarça.

Abaixo, deixo um trecho do meu texto, que explica isso tudo um pouco melhor:

A valorização do “científico”, por Lévi-Strauss, é ambígua, ou pelo menos abre um leque interpretativo bastante amplo sobre o valor da ciência. Por um lado, sua própria abordagem, em si mesma, pressupõe um forte modelo científico. José Carlos Reis afirma que “o estruturalismo impõe às ciências humanas a hegemonia das matemáticas e da lógica das ciências naturais”, tese que coincide com a de Mauro Almeida, para quem “o estruturalismo de Lévi-Strauss contribuiu para trazer às ciências humanas de maneira mais sistemática e autoconsciente o uso de modelos para representar fenômenos. O que Lévi-Strauss ensinou é que discernimos regularidades, leis, padrões, enfim ‘estruturas’ construindo tais modelos. Esse modo de fazer ciência era bem conhecido na física, e mesmo na biologia”. Por outro lado, o estruturalismo antropológico de Lévi-Strauss dá uma tremenda ferroada na ciência. Um dos pressupostos fundamentais da ciência moderna é o da possibilidade do avanço do saber. Desde seus pais fundadores do século XVII, a ciência moderna joga com a necessidade de avançar o conhecimento humano progressivamente além, mais profundamente, mais detalhadamente, com maior potencial de alteração da realidade e de controle da natureza para a felicidade humana. Por isso, de maneira geral, a ciência lida com a ideia de mudança histórica, de superação e abandono de teorias e modelos por outros que expliquem melhor e mais detalhadamente a realidade, num processo impulsionado pelos seres humanos como agentes da história. Lévi-Strauss faz um ataque claro à história e ao homem do sonho iluminista como o agente da mudança social e da sua própria liberdade. Como afirma Reis, do ponto de vista de Lévi-Strauss, “o intelecto humano é permanente e se impõe sobre a mudança histórica. As normas sociais têm uma estrutura lógica, que as mudanças históricas não abolem. A busca da inteligibilidade parte da história para aboli-la em ordens naturais permanentes, profundas. O espírito humano é sempre idêntico a si mesmo e predomina sobre o social e o histórico. Por isso, a antropologia não diferencia o ‘selvagem’ e o ‘civilizado’, pois têm a mesma estrutura lógico-intelectual, que torna irrelevante a sua aparente diferença histórica”. A conclusão seria, portanto, que a ciência moderna, fenômeno histórico característico a um determinado tempo e espaço, não difere fundamentalmente de outros saberes, mitológicos ou mágicos, todos estruturados de acordo com uma lógica universal do intelecto humano. As conquistas científicas do nosso tempo não significariam, pois, conhecimento melhor ou mais profundo: não haveria avanço do saber.

O estruturalismo de Lévi-Strauss experimentou seu auge de aceitação acadêmica nos anos 1950 e 60. Nas duas décadas posteriores, as críticas à antropologia estrutural deram origem a um movimento que procurou superá-la: o pós-estruturalismo. Vagamente identificados como pós-modernos, os pensadores pós-estruturalistas, em diversas áreas, tendem a recusar justamente as mais ambiciosas ideias de Lévi-Strauss: as estruturas universais, imutáveis, do pensamento humano. Se o estruturalismo de Lévi-Strauss recusava a racionalidade iluminista para encontrar uma outra onde menos se esperava, o pós-estruturalismo recusa qualquer racionalidade que governe o mundo. Os pós-estruturalistas “não buscam mais verdades históricas nem aparentes e nem essenciais, nem manifestas e nem ocultas. Eles recusam essências originais e fundamentais que se deveria reencontrar e coincidir.”, diz José Carlos Reis. Conclusão implícita em Lévi-Strauss, a recusa do acúmulo progressivo do saber, do avanço da ciência, torna-se explícita e radical no pós-estruturalismo. Nega-se qualquer acúmulo e qualquer avanço científico gerados racionalmente pela consciência do ser humano. 

Hoje, no meio intelectual, há uma guerra aberta acerca da ciência, sobre como ela funciona, qual o valor que damos a ela, o quê lhe devemos e o quê ela nos deve. De forma simplificada, pode-se dizer que há duas grandes tendências. De um lado, pós-modernos e pós-estruturalistas se aproximam de um relativismo epistêmico radical, hostil à ciência moderna, negando mérito à racionalidade ao mesmo tempo em que anulam o ser humano como sujeito consciente de poder mudar a história. De outro, os mais diversos e díspares herdeiros do Iluminismo procuram desafiar as correntes céticas, denunciando suas conclusões relativistas como reflexos de uma opção política de aceitação e assimilação do mundo pós-1989, o de um único sistema socioeconômico – que apareceria então como estrutura naturalizada e inquestionável: daí a recusa da mudança histórica que a ciência e a racionalidade podem proporcionar.


22 de abril de 2009

Lévi-Strauss, de novo

É realmente muito, muito bonita a ideia de que toda a humanidade compartilha uma "ânsia por conhecimento objetivo" que transborda as culturas. Eis um exemplo de relativismo perfeitamente razoável:

Como nas linguagens profissionais, a proliferação conceitual corresponde a uma atenção mais firme em relação às propriedades do real, a um interesse mais desperto para as distinções que aí possam ser introduzidas. Essa ânsia de conhecimento objetivo constitui um dos aspectos mais negligenciados do pensamento daqueles que chamamos "primitivos". Se ele é raramente dirigido para realidades do mesmo nível daquelas às quais a ciência moderna está ligada, implica diligências intelectuais e métodos de observação semelhantes. Nos dois casos, o universo é objeto de pensamento, pelo menos como meio de satisfazer a necessidades.

Cada civilização tende a superestimar a orientação objetiva de seu pensamento; é por isso, portanto, que ela jamais está ausente. Quando cometemos o erro de ver o selvagem como exclusivamente governado por suas necessidades orgânicas ou econômicas, não percebemos que ele nos dirige a mesma censura e que, para ele, seu próprio desejo de conhecimento parece melhor equilibrado que o nosso.

Claude Lévi-Strauss, O pensamento selvagem, p. 17, 1962.

15 de abril de 2009

"Mente aberta"

Descrição do vídeo no Youtube, por QualiaSoup: 

Uma olhada em algumas falhas que levam pessoas que acreditam em certos conceitos não-científicos a aconselhar os que não acreditam a terem a mente mais aberta.



via De Rerum Natura

10 de abril de 2009

Mais (muito mais) darwinismo

Minha primeira e modesta produção como "jornalista de ciência" acabou de sair do forno. Humano, demasiadamente orgânico? é o título do meu texto, que procura esclarecer para um público amplo a conflituosa relação entre o darwinismo e as ciências humanas.

A revista eletrônica ComCiência é uma publicação do Laboratório de Estudos Avançados em Jornalismo (Labjor) da Unicamp, e da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC). Os artigos são produzidos por especialistas de cada área, e as reportagens (como é o caso do meu texto) ficam por conta da equipe de jornalistas e divulgadores.

A edição deste mês tem como tema, claro, o evolucionismo de Charles Darwin. É uma coleção de textos que podem ser muito interessantes pra quem quer saber um pouquinho mais sobre a história do darwinismo, o leque de possibilidades que ele ainda abre para os mais diversos campos do saber científico, e as polêmicas que seu evolucionismo ainda atrai.

Se interessar, leiam meu texto (e os dos outros) por lá e comentem, com críticas e sugestões, por aqui.

8 de abril de 2009

Darwinismo x criacionisno, de novo

Reproduzo aqui, na íntegra, post de Pedro Dória sobre a guerra entre darwinistas e criacionistas no ensino do Texas:

Repercutiu pouco fora da comunidade científica, mas a discussão é particularmente importante aqui nos EUA: na semana passada, o Conselho de Educação do Texas fez mudanças no currículo das escolas de primeiro e segundo grau. No primeiro instante, o resultado da reunião do conselho foi divulgado como uma vitória para a trupe de Darwin.

Mas não tão rápido.

Os criacionistas – inclua-se na lista o presidente do Conselho – queriam inserir a exigência de que os professores de ciência do estado ensinassem ‘o que é forte e o que é fraco’ a respeito de cada teoria científica. Tais palavras não foram aprovadas – e por isso alguns acharam que se tratava de uma vitória. Mas o texto terminou incluindo a exigência de que ‘todos os lados das evidências científicas’ deveriam ser apresentadas aos alunos.

Para impor sua visão religiosa, os criacionistas aproveitam-se da diferença de significado da palavra teoria. No uso coloquial, teoria é um chute, uma tentativa de explicação. Em ciência, teoria é mais que um fato. Teoria científica é o conjunto de vários fatos observados independentemente e a explicação de como eles se relacionam.

A Teoria Atômica, portanto, não é uma suspeita de que átomos existam. É a detalhada explicação de como átomos funcionam. A Teoria da Gravidade não sugere que a maçã deverá cair. Ela explica como corpos com massas se atraem e determina que a maçã, de massa menor, será irremediavelmente atraída em direção à Terra, de massa maior. (A Terra também será atraída em direção à maçã, diga-se.) A Teoria da Evolução tampouco é uma possibilidade. A Evolução aconteceu. A Teoria explica como.

O Texas é o estado mais importante dos EUA nessas questões educacionais. Por um motivo: a educação de base norte-americana é pública e nenhum estado tem tantos alunos em sua rede quanto o Texas. É, portanto, o maior comprador de livros didáticos do país. Se os editores tiverem que adaptar seus livros para vender no estado, tais serão os livros consumidos em todo o país.

Nessas horas, o que salva é o humor. Escrevendo na Newsweek, Cristopher Hitchens sugere que a idéia de obrigatoriedade do ensino ‘do que é forte e do que é fraco’ no argumento seja estendida. Toda igreja e instituição religiosa que receba algum tipo de benefício fiscal deveria, de presto, apresentar em seus sermões e cursos os argumentos contrários a suas crenças.

Não importa se os argumentos não forem religiosos. Afinal – não é isso que querem? Impor argumentos religiosos nas aulas de ciência?


Quando o Dória não escreve sobre Protógenes e Dantas, acerta na mosca.

3 de abril de 2009

Trechos 6 - mais Dawkins e o(s) relativismo(s)

Os posts abaixo suscitaram - como é ainda de se esperar quando tocamos na relação entre darwinismo, criacionismo, ciência e relativismo - uma acalorada discussão nos comentários. Mas acho que boa parte dela poderia ser mais produtiva se tivesse havido, desde o início, uma definição mais clara sobre qual o tipo de relativismo que estou atacando, via Dawkins. My bad.

Na nota de rodapé ao trecho aqui citado, o próprio Dawkins esclarece melhor a questão:

Esta não foi a primeira vez que utilizei este argumento arrasador, e devo chamar a atenção para que ele deva ser estritamente utilizado contra pessoas que pensam como o meu colega da cabaça. Há outros que, confusamente, também chamam a si próprios de relativistas culturais, embora seus pontos de vista sejam completamente diferentes e perfeitamente sensatos. Para estes, o relativismo cultural significa apenas que você não pode entender uma cultura se você tentar interpretar suas crenças em termos de sua própria cultura. Tenho suspeitas de que esta forma sensata de relativismo cultural seja a original, e aquela que critiquei como radical, embora alarmantemente comum, uma forma perversa da original. Os relativistas sensatos deveriam trabalhar mais duramente para distanciar-se dos relativistas do tipo tolo.

Minhas únicas reservas para este trecho são os termos "perversa" e "tolo" para designar o relativismo radical (é o bom e velho Dawkins, oras!). De resto, o que este ferrenho advogado do darwinismo falou, tá falado.

30 de março de 2009

Teoria dos jogos e a biologia

Abaixo, trecho de artigo de João Azevedo Fernandes sobre a interessante contribuição da teoria dos jogos para a compreensão de comportamentos "altruistas" de seres vivos que à primeira vista desafiam a "luta pela existência" da seleção natural darwiniana.


20. Axelrod e Hamilton estudaram a evolução da cooperação através do jogo conhecido como Dilema do Prisioneiro. Dois prisioneiros A e B são convidados a delatar o companheiro em troca da liberdade. As situações possíveis são as seguintes (os valores são arbitrários):

a) o prisioneiro A delata e o B não: A recebe 5 e B 1;

b) A não delata e B sim: A recebe 1 e B 5;

c) Os dois delatam: ambos recebem 2;

d) Nenhum dos dois delata: ambos recebem 3.

21. O melhor para A é delatar. Se B não delatar ele recebe 5, se B delatar recebe 2. Se A for solidário e não delatar poderá ser traído por B e receber apenas 1: assim delatar é sempre o melhor lance quando o jogo ocorrer apenas uma vez. Ora, no mundo real é extremamente comum que as interações entre dois indivíduos se repitam, o que leva a um Dilema do Prisioneiro com várias rodadas. Quanto mais avançamos na direção dos animais mais complexos estas interações tornam-se necessariamente mais ricas, já que estes - especialmente os primatas - tem uma memória muito desenvolvida e grande capacidade de processar informações, o que permite o reconhecimento de outros indivíduos e a possibilidade de punição a possíveis "trapaceiros" . A seleção natural deve favorecer indivíduos engajados em atos de altruísmo se e somente se os indivíduos beneficiados retribuírem, excluindo os trapaceiros de outros atos altruístas.

22. Ao realizar simulações de várias estratégias em computador, Axelrod descobriu que a única ESS possível em um Dilema do Prisioneiro de duração indefinida é a mais simples de todas: a "olho por olho" (TIT FOR TAT; não seria inútil lembrar a semelhança deste resultado com a estratégia Retaliator de Maynard Smith e Price).

23. A estratégia "olho por olho" permite, com várias rodadas, que se leve o Dilema do Prisioneiro ao melhor resultado possível para ambos os jogadores: a recompensa pela cooperação mútua. É assim que o altruísmo recíproco tornou-se um fator fundamental na evolução dos seres vivos, notadamente naquelas espécies com grandes cérebros e complexas organizações sociais, e que por isso mesmo apresentam maior possibilidade de ter que conviver com trapaceiros ou qualquer indivíduo que tenha a capacidade de receber um benefício sem dar nada em troca. Axelrod e Hamilton lembram que a área do cérebro humano responsável pelo reconhecimento individual é altamente específica e extensa, o que mostra a importância que esta capacidade teve no curso da evolução de nossa espécie (cf. Cronin, 1995, p.453-61, para estudos que mostram como a mente humana está adaptada para o reconhecimento de "fraudes").

29 de março de 2009

E agora, José? Qual "narrativa sobre o real" você prefere que tente salvar sua vida?

Quadrinho achado no Hermenauta (não tenho idéia de quem seja o autor// edit: como informou o Hermenauta nos comentários abaixo, os quadrinhos são os Doonesbury, de Garry Trudeau):




Ah, mas nada tira das cabeças de boa parte do meio acadêmico de que a ciência é "apenas mais uma narrativa sobre o real, nem pior, nem melhor epistemologicamente do que outras narrativas". Ouvi isso de uma professora da Unicamp, do Departamento de Políticas Científicas e Tecnológicas do Instituto de Geociências. Numa sala de aula.

Avisa lá esse pessoal que o movimento da contracultura teve o seu papel, ótimo, lindo, mas já acabou. Move on. Avisa que não é necessário ser um Nixon para se defender a possibilidade e a necessidade de haver explicações melhores do que outras sobre a realidade.

28 de março de 2009

Trechos 5 - Dawkins e o relativismo radical

Richard Dawkins costuma ser contundente com seus adversários e às vezes peca por carregar demais na tinta. Mas o trecho abaixo acerta na mosca o tiro contra o zeitgeist acadêmico atual, essa "filosofia de salão elegante" que se transformou num dogma, verdade autoevidente inatacável do nosso tempo.

Muitas vezes pensamos que é inteligente dizer que a ciência não é mais do que nosso mito de origem moderno. Os judeus tinham Adão e Eva, os sumérios, Marduk e Gilgamesh, os gregos, Zeus e os deuses do Olimpo, os nórdicos, o Valhala. O que é a evolução, dizem algumas pessoas espertas, senão o nosso equivalente moderno dos deuses e dos heróis épicos, nem melhor nem pior, nem mais verdadeira ou mais falsa? Há uma filosofia de salão elegante chamada relativismo cultural que afirma, na sua versão radical, que a ciência não tem mais direito em afirmar a verdade do que o mito tribal: a ciência é apenas a mitologia favorecida por nossa tribo ocidental moderna. Uma vez fui provocado por um colega antropólogo e coloquei uma questão claramente, do modo que se segue: suponha que existe uma tribo, disse eu, que acredita que a Lua é uma cabaça velha lançada aos céus, pendurada fora de alcance um pouco acima do topo das árvores. Você afirma realmente que nossa verdade científica - que afirma que a Lua está a 382 mil quilômetros afastada e tem um quarto do diâmetro da Terra - não é mais verdadeira do que a cabaça da tribo? "Sim", disse o antropólogo. "Nós apenas fomos criados em uma cultura que vê o mundo de outro modo. Nenhum destes modos é mais verdadeiro do que o outro.
Aponte-me um relativista cultural a 10 quilômetros de distância [altitude] e lhe mostrarei um hipócrita. Aviões construídos de acordo com princípios científicos funcionam. Eles mantêm-se no ar e o levam ao seu destino escolhido. Aviões construídos de acordo com especificações tribais ou mitológicas, tais como os aviões de imitação dos cultos de carregamento nas clareiras das selvas ou as asas coladas com cera de abelha de Ícaro, não funcionam. Se você estiver voando para um congresso internacional de antropólogos ou de críticos literários, a razão pela qual você provavelmente chegará lá - a razão pela qual você não se esborrachará em um campo cultivado - é que uma multidão de engenheiros ocidentais cientificamente treinados realizou os cálculos corretamente. A ciência ocidental, com base na evidência confiável de que a Lua orbita em torno da Terra a uma distância de 382 mil quilômetros, conseguiu colocar pessoas em sua superfície. A ciência tribal, acreditando que a Lua estava um pouco acima do topo das árvores, nunca chegará a tocá-la, exceto em sonhos.

Richard Dawkins, O Rio que saía do Éden, pp. 40-1.

15 de março de 2009

Ciência por quê?

Dica de Carlos Fiolhais, do De Rerum Natura:


Why is Science Important? from Alom Shaha on Vimeo.

É um trabalho muito bem feito de divulgação científica. Alom Shaha, professor de ciências, ouviu diversos cientistas para tentar responder à questão que dá nome ao pequeno filme. De todas as respostas (que se complementam sem problemas), a do astrônomo Seth Shostak me soou especialmente simples, profunda e inteligente. Em tradução livre, fica mais ou menos assim:

A ciência é, simplesmente, nosso futuro. A maioria das pessoas pensa na ciência como aquilo que torna possível uma vida melhor. Ela certamente cumpre esse papel. Mas a ciência pode nos proporcionar mais do que la dolce vita. Ela pode transformar um acidente da evolução num pequeno planeta rochoso em um fato significativo do universo.

A última frase é lapidar, e não por acidente: Shostak é pesquisador do programa SETI, na Califórnia.

De onde você vem?