Minha primeira e modesta produção como "jornalista de ciência" acabou de sair do forno. Humano, demasiadamente orgânico? é o título do meu texto, que procura esclarecer para um público amplo a conflituosa relação entre o darwinismo e as ciências humanas.
A revista eletrônica ComCiência é uma publicação do Laboratório de Estudos Avançados em Jornalismo (Labjor) da Unicamp, e da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC). Os artigos são produzidos por especialistas de cada área, e as reportagens (como é o caso do meu texto) ficam por conta da equipe de jornalistas e divulgadores.
A edição deste mês tem como tema, claro, o evolucionismo de Charles Darwin. É uma coleção de textos que podem ser muito interessantes pra quem quer saber um pouquinho mais sobre a história do darwinismo, o leque de possibilidades que ele ainda abre para os mais diversos campos do saber científico, e as polêmicas que seu evolucionismo ainda atrai.
Se interessar, leiam meu texto (e os dos outros) por lá e comentem, com críticas e sugestões, por aqui.
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10 de abril de 2009
3 de fevereiro de 2009
C&T no desenvolvimento nacional
Precisei escrever o artigo abaixo, de 3 laudas (o que dá, na cotação atual, 4 prosts, 9 mansells ou 0,4 sennas) como inscrição para um curso de jornalismo científico. Como o blog anda meio às moscas, não custa nada encher uma linguicinha com idéias sobre o papel da ciência e da tecnologia no desenvolvimento do país.
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A resposta pode começar a surgir de um aparente dilema que vez ou outra aparece, especialmente nos meios de comunicação: o Brasil é um país com tantos problemas sociais graves que a destinação de recursos públicos para C&T pode configurar-se como supérfluo frente às necessidades mais prementes e imediatas da sociedade brasileira. Este dilema existe apenas na aparência, e por uma razão muito simples: ciência e tecnologia não apenas são essenciais para a resolução das contradições e desigualdades sociais a longo prazo, como podem mesmo preparar o país para solucionar imediatamente problemas inesperados que, do contrário, continuariam a existir e a contribuir para a estagnação do desenvolvimento. Exemplo claro disso é a atuação do Instituto Agronômico de Campinas (IAC) na década de 1930.
Um dos efeitos da crise econômica mundial de 1929 no Brasil foi a quebra do setor cafeeiro, uma das locomotivas da economia nacional. Entrementes, a Seção de Algodão do IAC, criada em 1923, vinha realizando pesquisas para a adaptação de variedades do algodão trazidas dos Estados Unidos e, como narra o historiador da ciência Shozo Motoyama, “após quase dez anos de experimentação, esse programa conseguiu êxito em adaptar as variedades mais promissoras às condições climáticas da região Sul” . As pesquisas do IAC, alvo de interesse genuíno por parte de pesquisadores norte-americanos, foram centrais para a então surpreendente cotonicultura brasileira, responsável por salvar a economia paulista da estagnação.
Esse tipo de pesquisa, voltada para o desenvolvimento da agricultura, continua a desempenhar até hoje um papel importante no cenário brasileiro. A Embrapa Cerrados - braço da Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária, órgão do Ministério da Agricultura –, por exemplo, vem se dedicando com sucesso na obtenção de conhecimento e melhorias técnicas para a exploração agrícola dos cerrados brasileiros. Se os objetivos elencados no 4º plano diretor (vigente de 2008 a 2011) do órgão forem minimamente atingidos, estaremos diante de uma ótima contribuição da C&T para o desenvolvimento ambientalmente sustentável da agricultura brasileira, com atenção para a diminuição da desigualdade social nas regiões estudadas. Outro exemplo de pesquisa brasileira voltada para a agricultura visando resultados práticos não muito longínquos foi o sequenciamento do material genético da Xylella Fastidiosa, bactéria causadora da clorose variegada dos citrus, a “praga do amarelinho” que causa perdas de cem milhões de dólares anuais aos citricultores paulistas . Financiada pela Fapesp, a pesquisa ganhou especial atenção da comunidade científica internacional e das principais revistas científicas do mundo, inclusive ganhando capa e editorial da revista Nature. O trabalho abre possibilidades de acabar com a praga pela manipulação genética da bactéria.
Estes exemplos mostram, de maneira até bastante clara, a importância da C&T para o desenvolvimento do setor produtivo, com aplicabilidade mais ou menos no curto prazo e com resultados perceptíveis aos olhos do público. Trata-se de algumas das principais contribuições da C&T, pelo menos no que se refere a sua aplicação prática na resolução de problemas do presente, para o desenvolvimento nacional. Devo, no entanto, ressaltar que seria um erro satisfazer-se com uma visão meramente utilitarista da ciência. Sua importância não reside apenas naquilo que pode fazer por nós agora, em quantos milhões de dólares pode salvar hoje ou quantas pessoas alimentará amanhã. Porque pensar o contrário disso é desconsiderar a beleza e a importância do aspecto imaginativo da ciência. O desenvolvimento de um país não parte somente de sua produção material. Ciência e tecnologia devem servir, também, como instrumento da liberdade de pensamento e de imaginação das pessoas - é neste aspecto que a ciência se aproxima da arte, que contribui também, à sua maneira, para que um país se desenvolva nos mais variados sentidos da realidade.
Não se está defendendo aqui, contudo, a visão da C&T como panacéia do desenvolvimento nacional. Ciência e tecnologia são apenas alguns dos principais elementos – essenciais, é verdade – que podem levar ao desenvolvimento brasileiro. O papel desempenhado pela C&T depende também da conjuntura econômica, política e social; depende de como serão levadas a cabo políticas de educação, de redução das desigualdades sociais, de incentivo ao setor produtivo. Sociedade e ciência estão, neste sentido, numa intrincada relação de interdependência.
Além de estar longe de ser a panacéia que alguns otimistas podem imaginar, a ciência também pode ter suas responsabilidades nos próprios problemas que afligem o mundo e, por conseqüência, o Brasil. É flagrante, por exemplo, a importância da C&T na consolidação do processo da globalização, de cujas benesses em boa parte podemos desfrutar, ao preço de experimentarmos os silenciosos efeitos negativos da concentração de poder e riquezas pelos países desenvolvidos. Mais perceptível, ainda, é o seu papel na deterioração do meio-ambiente, no desenvolvimento da indústria bélica e suas máquinas de matar cada vez mais eficientes, no arsenal atômico das grandes potências.
Entretanto, se a ciência é responsável por encruzilhadas e becos sem saída, ela também pode servir de guia para retomarmos o rumo correto. Em outras palavras, a ciência, capaz de criar mazelas terríveis, é também a mais poderosa ferramenta de questionamento, desconstrução e resolução não apenas destes mesmos problemas mas de grande parte das questões mais importantes que nos aflige, hoje. Trata-se, portanto, de elemento essencial, conjuntamente com a tecnologia, no projeto de desenvolvimento pleno de um país como o Brasil.
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Retirei as citações porque, afinal, isso aqui não é academia. Mas as referências são o site da Embrapa Cerrados e, principalmente, Prelúdio para uma história: ciência e tecnologia no Brasil, organizado por Shozo Motoyama.
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3 de setembro de 2008
Denorex
Uma coisa recorrente em obras de divulgadores da ciência como Richard Dawkins e Carl Sagan é o ataque à pseudociência. Tentam alertar para um perigo das sociedades modernas: aquilo que parece ser ciência pode ser uma impostura. Em linguagem clara: você pode estar levando um Porsche com motor de Fusca.
Pseudociência é todo discurso, saber ou crença, que se disfarça de ciência para conseguir credibilidade (fiquemos com essa definição, por enquanto). Pelo menos é nisso que quero acreditar: a ciência ainda tem muita credibilidade na nossa sociedade. Quantos anúncios não vêm acompanhados da chancela de "cientificamente comprovado" ou similares para atestar que seus produtos são confiáveis? Por quê os autores de livros de auto-ajuda e boçalidades semelhantes têm a necessidade de acompanhar seus nomes dos títulos de "MD" ou "PhD"? A intenção é clara. A ciência se tornou, há muito, base para decisões públicas e ainda é considerada, em inúmeras direções, nossa maior fonte de conhecimento seguro sobre o mundo. Sua roupa, pelo menos, ainda vende. E muito.
No post anterior eu indiquei, via De Rerum Natura, um artigo sobre ciência e pseudociência que apareceu há pouco na SEP. Sven Ove Hansson, o autor, prudentemente, tratou de apenas colocar o problema como algo a ser resolvido. O que já era de se esperar. Isso é coisa pra se tentar resolver em teses ou em tratados, e não num artigo de enciclopédia. Não deixa de ser interessante, mesmo assim, então vamos rapidamente a ele.
Hansson coloca uma questão que inevitavelmente se desdobra num problema muito maior: como estabelecer critérios para identificar a pseudociência? O problema maior é claro: quais, então, os critérios para demarcar a própria ciência? O artigo se desenvolve mais em torno disso, da demarcação e identificação do que é científico, e como fica bastante claro em seu desfecho, é paradoxal que haja tamanho consenso quando o assunto é meramente identificar os campos que devem ser considerados ciência, e ao mesmo tempo tanta dificuldade para encontrar critérios gerais que demarquem com clareza o que é ciência e o que não o é.
Da mesma forma, é bastante comum encontrarmos convergência em opiniões na comunidade científica - e não somente dentro dela - que classificam o criacionismo, a astrologia e a homeopatia, por exemplo, como pseudociências. A divergência está no porquê disso tudo ser pseudociência. As possíveis respostas esbarram primeiro no problema muito comum de se misturar pseudociência com anticiência, e mesmo pseudociência com todos os discursos alheios ou estranhos ao discurso científico. Basicamente, por pseudociência entende-se um saber ou crença que, não sendo científico, passa por ciência, veste sua roupa e emula suas maneiras na tentativa de criar uma impressão de ser científico. Apesar de muito útil, este é um critério problemático: a homeopatia oscila entre colocar-se como anticiência e como ciência, como afirma Hansson. O mesmo ocorre com a astrologia, atualmente, penso, com maior tendência a se considerar realmente não-ciência ou anticiência. A questão é que não há um corpus pseudocientífico em oposição ao corpus científico mais ou menos definido. E, pior, em alguns casos aquilo que pode ser identificado como ciência mal-feita (ou seja, experimentos mal conduzidos, teorias logicamente mal elaboradas, etc.) tende, em alguns casos, a ser confundido com pseudociência. A única forma de separar o joio do trigo, neste caso, seria saber se, por trás de conclusões estranhas à ciência originadas de incompetência ou distorsões propositais, há uma doutrina não-científica mais ou menos coerente. Dá pra ver que é muito pano pra manga, óbvio.
O pepino todo está na própria definição de ciência. Hansson faz um breve catálogo das principais vertentes na filosofia da ciência que arriscaram propor critérios gerais para a definição de ciência. Os positivistas do Círculo de Viena e a ênfase na possibilidade de se verificar uma proposição empiricamente; Karl Popper e a idéia de que uma teoria só é científica se abre a possibilidades de ser refutada por observações ou experiências que fiquem nas raias do concebível; Thomas Kuhn e a imagem da ciência normal, em que a prática científica mais comum é identificada com a resolução de problemas dados por um paradigma teórico que só de vez em quando é desafiado pelas anomalias que surgem nas pesquisas; Imre Lakatos e o critério de progressividade, em que estamos diante de ciência quando um programa de pesquisa cria novas teorias que, progressivamente, substituem as velhas pela capacidade de previsão e maior embasamento empírico; e Robert Merton e seu ethos científico, com imperativos institucionais como o universalismo, o ceticismo organizado, o senso de comunidade e o desinteresse pessoal. Não há consenso entre estas diferentes demarcações. Quando muito, há uma certa convergência em certas questões específicas. Isso pra não dizer que estamos falando só de gente que, se não eram epistemólogos de ofício, encararam a epistemologia de maneira propositiva, digamos. Pois eu não queria nem ver o fuzuê se no meio desse balaio todo Hansson tivesse tentado incluir as abordagens destruidoras das linhas mais relativistas da história da ciência.
Só pra dar um gostinho do incêndio: o item 3.6, ao qual Hansson não dá lá muita atenção, chama-se a time-bound demarcation. "The demarcation of science cannot be timeless, for the simple reason that science itself is not timeless", diz Hansson. "The mutability of science", continua, "is one of the factors that renders the demarcation between science and pseudoscience difficult". É aí que os historiadores têm uma chance de enriquecer o debate. A conclusão é, hoje, óbvia demais para ser usada como objetivo da pesquisa histórica sobre ciência (e pseudociência). "A ciência não está fora do tempo": isso é um ponto de partida, não de chegada. Mas, aproveitando a deixa, isso é outra história, pra outro post.
Pseudociência é todo discurso, saber ou crença, que se disfarça de ciência para conseguir credibilidade (fiquemos com essa definição, por enquanto). Pelo menos é nisso que quero acreditar: a ciência ainda tem muita credibilidade na nossa sociedade. Quantos anúncios não vêm acompanhados da chancela de "cientificamente comprovado" ou similares para atestar que seus produtos são confiáveis? Por quê os autores de livros de auto-ajuda e boçalidades semelhantes têm a necessidade de acompanhar seus nomes dos títulos de "MD" ou "PhD"? A intenção é clara. A ciência se tornou, há muito, base para decisões públicas e ainda é considerada, em inúmeras direções, nossa maior fonte de conhecimento seguro sobre o mundo. Sua roupa, pelo menos, ainda vende. E muito.
No post anterior eu indiquei, via De Rerum Natura, um artigo sobre ciência e pseudociência que apareceu há pouco na SEP. Sven Ove Hansson, o autor, prudentemente, tratou de apenas colocar o problema como algo a ser resolvido. O que já era de se esperar. Isso é coisa pra se tentar resolver em teses ou em tratados, e não num artigo de enciclopédia. Não deixa de ser interessante, mesmo assim, então vamos rapidamente a ele.
Hansson coloca uma questão que inevitavelmente se desdobra num problema muito maior: como estabelecer critérios para identificar a pseudociência? O problema maior é claro: quais, então, os critérios para demarcar a própria ciência? O artigo se desenvolve mais em torno disso, da demarcação e identificação do que é científico, e como fica bastante claro em seu desfecho, é paradoxal que haja tamanho consenso quando o assunto é meramente identificar os campos que devem ser considerados ciência, e ao mesmo tempo tanta dificuldade para encontrar critérios gerais que demarquem com clareza o que é ciência e o que não o é.
Da mesma forma, é bastante comum encontrarmos convergência em opiniões na comunidade científica - e não somente dentro dela - que classificam o criacionismo, a astrologia e a homeopatia, por exemplo, como pseudociências. A divergência está no porquê disso tudo ser pseudociência. As possíveis respostas esbarram primeiro no problema muito comum de se misturar pseudociência com anticiência, e mesmo pseudociência com todos os discursos alheios ou estranhos ao discurso científico. Basicamente, por pseudociência entende-se um saber ou crença que, não sendo científico, passa por ciência, veste sua roupa e emula suas maneiras na tentativa de criar uma impressão de ser científico. Apesar de muito útil, este é um critério problemático: a homeopatia oscila entre colocar-se como anticiência e como ciência, como afirma Hansson. O mesmo ocorre com a astrologia, atualmente, penso, com maior tendência a se considerar realmente não-ciência ou anticiência. A questão é que não há um corpus pseudocientífico em oposição ao corpus científico mais ou menos definido. E, pior, em alguns casos aquilo que pode ser identificado como ciência mal-feita (ou seja, experimentos mal conduzidos, teorias logicamente mal elaboradas, etc.) tende, em alguns casos, a ser confundido com pseudociência. A única forma de separar o joio do trigo, neste caso, seria saber se, por trás de conclusões estranhas à ciência originadas de incompetência ou distorsões propositais, há uma doutrina não-científica mais ou menos coerente. Dá pra ver que é muito pano pra manga, óbvio.
O pepino todo está na própria definição de ciência. Hansson faz um breve catálogo das principais vertentes na filosofia da ciência que arriscaram propor critérios gerais para a definição de ciência. Os positivistas do Círculo de Viena e a ênfase na possibilidade de se verificar uma proposição empiricamente; Karl Popper e a idéia de que uma teoria só é científica se abre a possibilidades de ser refutada por observações ou experiências que fiquem nas raias do concebível; Thomas Kuhn e a imagem da ciência normal, em que a prática científica mais comum é identificada com a resolução de problemas dados por um paradigma teórico que só de vez em quando é desafiado pelas anomalias que surgem nas pesquisas; Imre Lakatos e o critério de progressividade, em que estamos diante de ciência quando um programa de pesquisa cria novas teorias que, progressivamente, substituem as velhas pela capacidade de previsão e maior embasamento empírico; e Robert Merton e seu ethos científico, com imperativos institucionais como o universalismo, o ceticismo organizado, o senso de comunidade e o desinteresse pessoal. Não há consenso entre estas diferentes demarcações. Quando muito, há uma certa convergência em certas questões específicas. Isso pra não dizer que estamos falando só de gente que, se não eram epistemólogos de ofício, encararam a epistemologia de maneira propositiva, digamos. Pois eu não queria nem ver o fuzuê se no meio desse balaio todo Hansson tivesse tentado incluir as abordagens destruidoras das linhas mais relativistas da história da ciência.
Só pra dar um gostinho do incêndio: o item 3.6, ao qual Hansson não dá lá muita atenção, chama-se a time-bound demarcation. "The demarcation of science cannot be timeless, for the simple reason that science itself is not timeless", diz Hansson. "The mutability of science", continua, "is one of the factors that renders the demarcation between science and pseudoscience difficult". É aí que os historiadores têm uma chance de enriquecer o debate. A conclusão é, hoje, óbvia demais para ser usada como objetivo da pesquisa histórica sobre ciência (e pseudociência). "A ciência não está fora do tempo": isso é um ponto de partida, não de chegada. Mas, aproveitando a deixa, isso é outra história, pra outro post.
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