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26 de agosto de 2009

Estranhamento

Eis a mais fantástica introdução que eu já vi para uma crítica musical:

We used to listen to music in an entirely different way. There was once a time when music was organized into 45- to 75-minute chunks-- often a few standout tracks padded with a lot of mediocre filler, but occasionally designed so that the parts built up a larger structure. Used to be, people would sit down and listen to that lengthy piece of music from front to back in one sitting, resisting the urge to jump to their favorite parts or skip over the instrumental interlude that served as grout between two fuller compositions. These antiques were called CDs. Here's a story about the last of its kind.

Vejam agora como Jonathan Swift imagina um relatório de dois pequeninos seres sobre um objeto, para nós, muitíssimo familiar. O objeto de Gulliver tinha

uma grossa corrente de prata, com uma maravilhosa espécie de engenhoca na ponta. Mandamos que tirasse aquilo que estava pendurado na corrente: era um globo feito metade de prata, metade de um metal transparente. Pelo lado transparente vimos certas figuras esquisitas traçadas num círculo; julgamos que lhes poderíamos tocar, mas os dedos foram retidos por uma substância luminosa. Ele levou essa engenhoca aos nossos ouvidos; ela fazia um barulho incessante, semelhante ao de um moinho d’água. E conjecturamos que, ou é qualquer animal desconhecido, ou, então, o deus que ele adorava; mas esta última hipótese é mais verossímil, porque nos afirmou, (se nós assim o compreendemos, pois se exprimia muito imperfeitamente), que raramente fazia qualquer coisa sem que o consultasse; chamava-lhe o seu oráculo, e dizia que designava o tempo para todas as ações da sua vida.

Quem tiver interesse em saber mais sobre esse “procedimento literário”, pode ir direto aonde eu o descobri: aqui, e também, aqui.

7 de julho de 2009

A Linha McNamara

O sonho da vigilância em tempo real

Enquanto minha resenha de Futuros Imaginários, de Richard Barbrook, ainda não é publicada junto com a próxima edição da ComCiência, deixo aqui um trecho interessante sobre a guerra do Vietnã no contexto das utopias tecnológicas da Guerra Fria, que são o tema principal do livro. É uma amostra da racionalidade industrial de Robert McNamara aplicada à guerra:

Em sua luta contra o comunismo vietnamita, o exército dos Estados Unidos se deparava com um problema inesperado: medir seu progresso no campo de batalha. [...] O grande problema era como estimar o resultado das ofensivas no interior. Incapaz de medir ganhos territoriais, o exército dos Estados Unidos decidiu então focar no número de combatentes inimigos mortos em cada operação: a 'contagem de corpos' (body count). Com esse dado, seus analistas poderiam programar computadores para calcular qual lado infligia o maior dano ao seu oponente: o 'índice de mortandade' (kill ratio). O exército dos Estados Unidos possuiam agora a medida matemática da vitória. [...]

Enquanto trabalhou para a Ford nos anos 1950, McNamara melhorou drasticamente a eficiência administrativa ao usar computadores para produzir estatísticas detalhadas sobre as diferentes atividades da empresa: 'análise de custo-benefício'. Em seu novo emprego como ministro da defesa, ele incitava o exército dos Estados Unidos a aplicar esse método de alta tecnologia para fabricar carros à tarefa de lutar em guerras. Felizes em colaborar, generais tornaram-se administradores da era do computador. No Vietnã, o exército dos Estados Unidos mataria comunistas de maneira tão eficiente quanto a Ford fabricava carros em casa.


Nada, no entanto, havia conseguido aplicar um golpe mortal contra os vietcongues. Barbrook continua (notem, de passagem, a fina ironia de "bala mágica"):


Em 1967, o governo Johnson acreditava que finalmente encontrara sua bala mágica. Uma equipe multidisciplinar de cientistas criou um plano para construir uma impenetrável barreira de alta tecnologia para separar as duas metades do Vietnã: a linha McNamara. Nessa versão militar do Panóptico informacional, milhões de sensores eletrônicos - intercalados com minas e armadilhas - seriam instalados ao longo das fronteiras do estado ao sul. Robôs móveis patrulhariam os céus. Computadores colheriam e classificariam os dados dos dispositivos de vigilância da barreira. [...]

Dentro de poucos minutos de detecção das forças inimigas por seus sensores ADSID, os Systems/360 da IBM calculariam sua localização e despachariam bombardeiros B-52 para destruí-los. [...]

Em 1972, mesmo após cinco anos de testes e refinamentos, a Linha McNamara falhou em detectar um grande número de barulhentos tanques vietnamitas e outros equipamentos pesados que moviam para baixo as rotas de abastecimento do norte para lançarem uma ofensiva no sul. [...] Muito antes desse fiasco constrangedor acontecer, os custos da ocupação tornaram-se insustentáveis para o império estadunidense.



Mais sobre a Linha McNamara, aqui, aqui e aqui.

12 de abril de 2009

Paolo Rossi e o zeitgeist atual

Comecei a ler um livro de Paolo Rossi - o historiador da ciência e não aquele que matou onze canarinhos com três pedradas - que também atira contra o "espírito de nossa época": Naufrágios sem espectador: a ideia de progresso. Antes de colocar aqui nesse blog um trecho brilhante, um diagnóstico absolutamente certeiro do que está se passando, devo dizer que, pensando melhor, o relativismo radical é apenas um instrumento, o porrete intelectual, com o qual os elegantes pensadores proclamam o zeitgeist atual. As ideias que circulam hoje não se devem ao relativismo, mas o relativismo decorre delas; elas proclamam o ocaso do "ocidente", do humanismo, da razão, da ciência. Temem esta última, descartam-na. Pois ao fazê-lo, parecem pensar mais profundamente, parecem abordá-la criticamente.

O que Rossi fala sobre os adolescentes europeus, aqui, vale também para os adultos por volta dos seus trinta anos, aqueles que estão com o mundo nas mãos, moldando-o, fabricando-o neste exato momento. Eu não quero esse mundo pra mim. Eu quero um mundo em que conhecer a realidade seja não apenas possível, mas fundamental. Eu quero um mundo que não sinta incômodo em procurar saber com maior certeza o que é que está por trás de uma doença, o que é que está girando em torno de uma estrela. Quero esmagar a hipocrisia que descarta a importância da tecnologia ao construir seu discurso num monitor de LCD, conectado a uma rede mundial de computadores.

É, não vai ser fácil:

[Os adolescentes] (como sem dúvida ocorre hoje na Europa) crêem de verdade e intensamente no Ocaso da Civilização, identificam a Natureza com a Inocência e teorizam a sua Sacralidade; fazem um uso contínuo e cotidiano de máquinas da mais variada espécie e natureza e ao mesmo tempo detestam tudo o que é artificial, odeiam a indústria, a química, a tecnologia, a modernidade; mostram-se mais sensíveis aos massacres de filhotes de foca do que de crianças africanas ou brasileiras; são hostis ao presente em nome de uma inédita mistura de nostalgia pelo passado e expectativa sobre o futuro; associam, numa alarmante fusão, tradicionalismo de direita e utopismo de esquerda, comportamentos nostálgicos e futurísticos; vêem a Natureza como uma Deusa Amiga e o homem como Inimigo dessa benevolente Divindade; defendem o localismo e zombam do universalismo; aderem enfim (em muitos casos) a posições de radical anti-humanismo sem nunca ter lido nem Spengler nem Heidegger, sem nunca ter ouvido falar deles.

3 de abril de 2009

Trechos 6 - mais Dawkins e o(s) relativismo(s)

Os posts abaixo suscitaram - como é ainda de se esperar quando tocamos na relação entre darwinismo, criacionismo, ciência e relativismo - uma acalorada discussão nos comentários. Mas acho que boa parte dela poderia ser mais produtiva se tivesse havido, desde o início, uma definição mais clara sobre qual o tipo de relativismo que estou atacando, via Dawkins. My bad.

Na nota de rodapé ao trecho aqui citado, o próprio Dawkins esclarece melhor a questão:

Esta não foi a primeira vez que utilizei este argumento arrasador, e devo chamar a atenção para que ele deva ser estritamente utilizado contra pessoas que pensam como o meu colega da cabaça. Há outros que, confusamente, também chamam a si próprios de relativistas culturais, embora seus pontos de vista sejam completamente diferentes e perfeitamente sensatos. Para estes, o relativismo cultural significa apenas que você não pode entender uma cultura se você tentar interpretar suas crenças em termos de sua própria cultura. Tenho suspeitas de que esta forma sensata de relativismo cultural seja a original, e aquela que critiquei como radical, embora alarmantemente comum, uma forma perversa da original. Os relativistas sensatos deveriam trabalhar mais duramente para distanciar-se dos relativistas do tipo tolo.

Minhas únicas reservas para este trecho são os termos "perversa" e "tolo" para designar o relativismo radical (é o bom e velho Dawkins, oras!). De resto, o que este ferrenho advogado do darwinismo falou, tá falado.

30 de março de 2009

Teoria dos jogos e a biologia

Abaixo, trecho de artigo de João Azevedo Fernandes sobre a interessante contribuição da teoria dos jogos para a compreensão de comportamentos "altruistas" de seres vivos que à primeira vista desafiam a "luta pela existência" da seleção natural darwiniana.


20. Axelrod e Hamilton estudaram a evolução da cooperação através do jogo conhecido como Dilema do Prisioneiro. Dois prisioneiros A e B são convidados a delatar o companheiro em troca da liberdade. As situações possíveis são as seguintes (os valores são arbitrários):

a) o prisioneiro A delata e o B não: A recebe 5 e B 1;

b) A não delata e B sim: A recebe 1 e B 5;

c) Os dois delatam: ambos recebem 2;

d) Nenhum dos dois delata: ambos recebem 3.

21. O melhor para A é delatar. Se B não delatar ele recebe 5, se B delatar recebe 2. Se A for solidário e não delatar poderá ser traído por B e receber apenas 1: assim delatar é sempre o melhor lance quando o jogo ocorrer apenas uma vez. Ora, no mundo real é extremamente comum que as interações entre dois indivíduos se repitam, o que leva a um Dilema do Prisioneiro com várias rodadas. Quanto mais avançamos na direção dos animais mais complexos estas interações tornam-se necessariamente mais ricas, já que estes - especialmente os primatas - tem uma memória muito desenvolvida e grande capacidade de processar informações, o que permite o reconhecimento de outros indivíduos e a possibilidade de punição a possíveis "trapaceiros" . A seleção natural deve favorecer indivíduos engajados em atos de altruísmo se e somente se os indivíduos beneficiados retribuírem, excluindo os trapaceiros de outros atos altruístas.

22. Ao realizar simulações de várias estratégias em computador, Axelrod descobriu que a única ESS possível em um Dilema do Prisioneiro de duração indefinida é a mais simples de todas: a "olho por olho" (TIT FOR TAT; não seria inútil lembrar a semelhança deste resultado com a estratégia Retaliator de Maynard Smith e Price).

23. A estratégia "olho por olho" permite, com várias rodadas, que se leve o Dilema do Prisioneiro ao melhor resultado possível para ambos os jogadores: a recompensa pela cooperação mútua. É assim que o altruísmo recíproco tornou-se um fator fundamental na evolução dos seres vivos, notadamente naquelas espécies com grandes cérebros e complexas organizações sociais, e que por isso mesmo apresentam maior possibilidade de ter que conviver com trapaceiros ou qualquer indivíduo que tenha a capacidade de receber um benefício sem dar nada em troca. Axelrod e Hamilton lembram que a área do cérebro humano responsável pelo reconhecimento individual é altamente específica e extensa, o que mostra a importância que esta capacidade teve no curso da evolução de nossa espécie (cf. Cronin, 1995, p.453-61, para estudos que mostram como a mente humana está adaptada para o reconhecimento de "fraudes").

28 de março de 2009

Trechos 5 - Dawkins e o relativismo radical

Richard Dawkins costuma ser contundente com seus adversários e às vezes peca por carregar demais na tinta. Mas o trecho abaixo acerta na mosca o tiro contra o zeitgeist acadêmico atual, essa "filosofia de salão elegante" que se transformou num dogma, verdade autoevidente inatacável do nosso tempo.

Muitas vezes pensamos que é inteligente dizer que a ciência não é mais do que nosso mito de origem moderno. Os judeus tinham Adão e Eva, os sumérios, Marduk e Gilgamesh, os gregos, Zeus e os deuses do Olimpo, os nórdicos, o Valhala. O que é a evolução, dizem algumas pessoas espertas, senão o nosso equivalente moderno dos deuses e dos heróis épicos, nem melhor nem pior, nem mais verdadeira ou mais falsa? Há uma filosofia de salão elegante chamada relativismo cultural que afirma, na sua versão radical, que a ciência não tem mais direito em afirmar a verdade do que o mito tribal: a ciência é apenas a mitologia favorecida por nossa tribo ocidental moderna. Uma vez fui provocado por um colega antropólogo e coloquei uma questão claramente, do modo que se segue: suponha que existe uma tribo, disse eu, que acredita que a Lua é uma cabaça velha lançada aos céus, pendurada fora de alcance um pouco acima do topo das árvores. Você afirma realmente que nossa verdade científica - que afirma que a Lua está a 382 mil quilômetros afastada e tem um quarto do diâmetro da Terra - não é mais verdadeira do que a cabaça da tribo? "Sim", disse o antropólogo. "Nós apenas fomos criados em uma cultura que vê o mundo de outro modo. Nenhum destes modos é mais verdadeiro do que o outro.
Aponte-me um relativista cultural a 10 quilômetros de distância [altitude] e lhe mostrarei um hipócrita. Aviões construídos de acordo com princípios científicos funcionam. Eles mantêm-se no ar e o levam ao seu destino escolhido. Aviões construídos de acordo com especificações tribais ou mitológicas, tais como os aviões de imitação dos cultos de carregamento nas clareiras das selvas ou as asas coladas com cera de abelha de Ícaro, não funcionam. Se você estiver voando para um congresso internacional de antropólogos ou de críticos literários, a razão pela qual você provavelmente chegará lá - a razão pela qual você não se esborrachará em um campo cultivado - é que uma multidão de engenheiros ocidentais cientificamente treinados realizou os cálculos corretamente. A ciência ocidental, com base na evidência confiável de que a Lua orbita em torno da Terra a uma distância de 382 mil quilômetros, conseguiu colocar pessoas em sua superfície. A ciência tribal, acreditando que a Lua estava um pouco acima do topo das árvores, nunca chegará a tocá-la, exceto em sonhos.

Richard Dawkins, O Rio que saía do Éden, pp. 40-1.

22 de março de 2009

Trechos 4 - Radiohead!

É hoje. Daqui a pouco.

Os cinco vídeos que postei como contagem regressiva para o show de hoje foram retirados da apresentação de 5 de outubro do ano passado, na arena Saitama, em Tóquio. Para quem quiser baixar o show inteiro (4GB), aqui está o link para o torrent. Não é a melhor performance do Radiohead que já vi. Mas é a mais atual e bem gravada.

Antes de ir pro show, deixo a letra de Idioteque que, tenho certeza, vou ouvir lá. Pra mim, nenhuma outra poesia/música captou tanto o mundo quanto essa:

Who's in the bunker? 
Who's in the bunker?
Women and the children first 
And the children first 
And the children 
I laugh until my head comes off 
I swallow till I burst 
Until I burst 
Until I 

Who's in the bunker?
Who's in the bunker?
I have seen too much 
You haven't seen enough 
You haven't seen it 
I laugh until my head comes off 
Women and the children first 
And children first 
And children 

Here I'm allowed
Everything all of the time 
Here I'm allowed
Everything all of the time 

Ice age coming 
Ice age coming
Let me hear both sides 
Let me hear both sides 
Let me hear both 
Ice age coming
Ice age coming 
Throw them in the fire 
Throw them in the fire 
Throw them in the 

We're not scaremongering 
This is really happening 
Happening 
We're not scaremongering 
This is really happening 
Happening 
Mobiles quirking 
Mobiles chirping 
Take the money and run 
Take the money and run 
Take the money 

Here I'm allowed
Everything all of the time 
Here I'm allowed
Everything all of the time

4 de março de 2009

Distância - trechos 3 (Hemingway e as touradas)


Carlo Ginzburg, um intelectual, historiador, de cujos ensaios gosto muito, publicou há alguns anos uma coletânea deles em Olhos de Madeira. Todos os nove ensaios do livro tratam de um problema que atravessa literatura e epistemologia: o distanciamento. Trata-se de um problemaço sem solução à vista, mas que vale à pena encarar. Ele inspira tanto estes comentários, quanto a seleção do trecho de O Sol Também se Levanta, de Ernest Hemingway, mais abaixo.
Visões canônicas de ciência e filosofia indicam que o conhecimento deve ser objetivo, isto é, resultar da análise livre das vontades e paixões que o distorcem. Ser objetivo é distanciar-se do objeto, apagar as familiaridades para que se possa conhecê-lo e não ser inteiramente tragado por ele. Na literatura, a distância aparece como procedimento que oculta da descrição aquilo que é óbvio, tacitamente aceito, que dá sentido a algo. O intuito está próximo da objetividade epistemológica: desnudar a realidade e encará-la criticamente.
Assim, um belo filé de pintado pode muito bem ser descrito como "cadáver de peixe". Ou, como conta minha prima, no bandeijão da Unicamp, carne moída é "boi ralado". Quem nunca ouviu aqueles chatos que não gostam de futebol dizer que não são chegados a "ver um monte de homem correndo atrás de uma bola" ou mulheres avessas às corridas de carro afirmarem jocosamente que não entendem como alguém pode gostar de assistir "aquele monte de carro dando um monte de volta pra terminar no mesmo lugar"? Todas elas são descrições aparentemente e propositalmente descabidas, mas têm uma razão muito clara de existir.
Desqualificar, retirar as qualidades tacitamente aceitas, é uma forma de racionalização válida. A deserção da Honda, que pegou o mundo da Fórmula 1 de surpresa, tem motivações frias, distantes e compreensíveis no cenário de crise internacional. Mas foi uma decisão odiosa, para mim. Eu gosto de Fórmula 1. Tanto quanto gosto de futebol. Paguei 30 reais para assistir ao dérbi. Por mais que eu veja verdade em "um bando de homens correndo atrás de uma bola", esta descrição simplesmente não é suficiente para entender e explicar minha experiência na platéia daquele jogo.
Um ser humano apaixonado aceitaria que sexo é "esfregação de uma víscera e secreção de muco acompanhadas de espasmo"? Meu pai tem um adesivo da Ponte, que ganhou de uma namorada, em que se diz: "Paixão não se explica, se vive". Por mais que algumas circunstâncias tenham me impelido a explicar minhas paixões - "por que você torce pra Ponte Preta?" é a segunda pergunta que mais ouço e odeio ouvir (a primeira é a célebre "tá bom, mas pra qual time grande você torce?") -, qualquer justificativa está além da minha capacidade de racionalização, e começo a achar que a ingênua frase de porta de geladeira pode colocar sérias barreiras para o distanciamento como supremo dispositivo de desnudamento da realidade.
Penso nas touradas. Sempre me pareceram algo abjeto, horrível, sem sentido, um assassinato sem razão de ser. Da mesma forma com que Voltaire ridicularizou filósofos e teólogos, em Micromegas, colocando um extraterrestre para tentar entender as idéias dos minúsculos seres humanos com quem travou contato, é trivial para nós, alienígenas à cultura de Pamplona, desqualificar as touradas. "Uma multidão de animais assistindo e vibrando com um animal de sua espécie assassinando outro animal, de outra espécie, sem motivos" é o que diríamos nós, os alienígenas. É fácil. Estamos de fora, ao mesmo tempo em que nos abrigamos confortavelmente debaixo da amplamente segura correção das idéias de proteção e respeito aos outros animais, à natureza e ao meio-ambiente.
Ler Hemingway, sua descrição belíssima da arte do toureiro, da fiesta de Pamplona e da afición de seus amantes, complica tudo. Se a familiaridade nunca deve servir de justificativa, a distância também tem sérias dificuldades para apreender a misteriosa, talvez irracionalizável, afición humana pelas coisas mais improváveis e absurdas.


Páginas 140-2 de O Sol Também se Levanta:
Montoya pôs a mão no meu ombro.
- Vejo-o lá.
Sorriu novamente. Sorria sempre, como se as touradas tivessem um sentido especial para nós ambos, como se houvesse um segredo muito chocante, mas bastante profundo, que ambos conhecíamos. Sorria sempre, como se nesse segredo houvesse algo de obsceno para os outros, porém muito compreensível para nós. Não se deve divulgar um segredo entre pessoas que não compreenderiam.
- Seu amigo também é aficionado?
Montoya sorriu para Bill.
- Sim, veio de Nova York para ver os San Fermines.
- Realmente? - Montoya mostrou um ceticismo polido.
- Mas não tão aficionado quanto o senhor.
Pôs novamente a mão sobre meu ombro, constrangido.
- Sim - disse eu. - É um verdadeiro aficionado.
- Mas não aficionado como o senhor.
Afición significa paixão. Um aficionado é aquele que gosta apaixonadamente das touradas. Todos os bons toureiros iam para o Hotel Montoya. Isto é, os verdadeiramente possuídos pela afición. Os toureiros "homens de negócios" vinham possivelmente uma vez, mas não voltavam. Os bons vinham todos os anos. Montoya tinha as fotografias deles em seu quarto. As fotografias eram dedicadas a Juanito Montoya ou à sua irmã.
As fotografias dos toureiros nos quais Montoya acreditava realmente eram emolduradas; quanto às dos que não tinham afición, Montoya as conservava numa gaveta de sua secretária. Tinha geralmente dedicatórias muito lisonjeiras, porém nada significavam. Um dia ele tirou todas e jogou-as na cesta de papéis. Não as queria junto de si.
Falávamos sempre de touros e toureiros. Havia vários anos que eu me hospedava no Hotel Montoya. Nunca conversávamos muito tempo de cada vez. Era simplesmente o prazer de descobrir nossas impressões recíprocas. Chegavam homens de cidades distantes, e antes de deixar Pamplona paravam alguns minutos para conversar com Montoya sobre touros. Esses eram aficionados e tinham sempre certeza de conseguir quartos, mesmo com o hotel lotado. Montoya apresentou-me a alguns. Mostravam-se geralmente polidos no início; e depois, quando sabiam que eu era americano, achavam engraçado. Supunha-se, por assim dizer, de antemão, que um americano não podia ter afición. Talvez a simulasse ou a confundisse com entusiasmo, mas não podia senti-la realmente. Quando viam que eu possuía afición - e para isso não era preciso senha nem perguntas preparadas com antecedência e era antes uma espécie de exame oral, espiritual, com as questões sempre na defensiva e nunca aparentes -, tinham o mesmo gesto de pôr a mão sobre o ombro da gente, ou um mero buen hombre. Mas quase sempre havia contato físico. Pareciam ter necessidade de tocar, para ter certeza.
Montoya desculpava tudo num toureiro que tivesse afición. Desculpava os ataques de nervos, o pânico, os erros inexplicáveis, toda a sorte de lapsos. Em suma, àquele que possuía afición, Montoya perdoava tudo. Perdoou-me imediatamente por todos os meus amigos. Sem dizer coisa alguma, considerava-os simplesmente como algo um pouco vergonhoso entre nós, como o ventre rasgado dos cavalos, nas touradas.


26 de fevereiro de 2009

Trechos - parte 2 (contato)


Pouco antes de toparem com um pesadelo e trazê-lo inadvertidamente para dentro de sua própria nave, três humanos observam um engenho alienígena, outra espaçonave, fonte de um misterioso sinal de socorro ou alerta. Foi aí que

Dallas se deu conta de quão pequeno o barco espacial o tornava. A ele e aos outros. E não só fisicamente, embora o arco majestoso, desmesurado os reduzisse - pobres bichos da terra - a insetos; mas insignificantes também de um ponto de vista cósmico. A humanidade sabia ainda muito pouco do universo e apenas explorara uma fração mínima de um só setor.
Uma coisa é especular ao telescópio sobre o que poderá esconder-se na imensidão dos céus. Outra, fazê-lo no isolamento de um pequeno argueiro de mundo como aquele, confrontados por uma nave de manufatura alienígena, que mais parecia uma excrescência animal que um engenho familiar, maneiro, feito para superar leis naturais da física.
Isso, admitiu o capitão, era o que mais o perturbava acerca da nave sinistrada. Se se conformasse às linhas habituais, se fosse feita de material conhecido, não pareceria tão assustadora. E não punha tais sentimentos à conta de xenofobia. No fundo, não esperara que aquela coisa alienígena fosse tão alienígena assim...

Alan Dean Foster, Alien, 1979, p. 66. Altamente devorável, por $3lão no sebo. Tão bom quanto o filme.

21 de fevereiro de 2009

Trechos - parte 1

Como a vontade de ler é infinitamente maior do que a de escrever, de hoje em diante vão começar a pipocar alguns trechos que, acho eu, farão com que este blog volte a ter alguma serventia a vocês, 17 milhões de leitores. Vou poupá-los de reflexões minhas. Os textos serão jogados crus, aqui. Façam bom proveito, se possível.

O primeiro excerto é da apresentação a um artigo de Donna Haraway, "Manifesto Ciborgue", sobre nossa relação com as tecnologias. O texto é um marco do pensamento pós-moderno, feminista, mas é complicado e chato de doer. A apresentação, do jornalista britânico Hari Hunzru, é bem melhor. Quer dizer: é mais fácil de entender e não deixa de ser interessante por si mesmo.

Desde que Descartes anunciou que 'eu penso, logo existo', o mundo ocidental tem tido uma obsessão pouco sadia com a condição do eu. Do consumidor individual ao solitário mal compreendido, ensinam-se os cidadãos modernos a se pensarem como seres que existem no interior de suas cabeças, como seres que apenas secundariamente entram em contato com o resto do mundo. Desenhe um círculo. Dentro: eu. Fora: o mundo. Os filósofos se angustiam com a questão de determinar se existe qualquer realidade fora daquele círculo. Eles tem um termo técnico para suas neuroses - ceticismo - e fazem acrobacias intelectuais para dissipá-lo. Em um mundo feito de dúvidas, cruzar aquela fronteira torna-se um problema real, isto para não falar da questão de se romper o isolamento relativamente a outras pessoas.

Hari Kunzru, "'Você é um ciborgue': um encontro com Donna Haraway" in: Antropologia do Ciborgue: as vertigens do pós-moderno. Belo Horizonte: Autêntica, 2000.

De onde você vem?