10 de agosto de 2009

O futuro é o que sempre foi (?)


A nova edição da ComCiência está, finalmente, online. Na seção de resenhas, uma minha e uma do Rubens Zaidan, o glorioso Rubão, jornalista tarimbado, meu colega de classe e de grupo de trabalho no Labjor. Ele deixa um gravador ligado durante as aulas, e eu aposto que já deve estar de saco cheio de ouvir a minha voz. Falo muito em sala de aula. Às vezes indignado, discutindo, brigando. Pros outros colegas, deve ser um porre. Mas eu gosto de alunos que falem. Sou um aluno que fala.

A minha resenha fala sobre um livro espetacular, Futuros Imaginários: das máquinas pensantes à aldeia global, do cientista político inglês Richard Barbrook. Neste site, você pode baixar o livro gratuitamente, na íntegra. É copyleft aqui no Brasil. Vai aqui um naco da minha resenha:

Junto à corrida armamentista e espacial, uma outra disputa entre EUA e URSS era travada sem estardalhaço: a "corrida para inventar a Rede". A Central Intelligence Agency (CIA) havia chegado à conclusão alarmante de que os russos estavam prestes a superar os Estados Unidos no desenvolvimento de máquinas e programas, construindo uma rede de computadores que operasse a defesa aérea de Moscou em 1956. Barbrook mostra que a disputa não era apenas pela construção da grande rede, mas, principalmente, pelos fundamentos que a guiariam e as possibilidades de reorganização social que ela abriria. Sob o reformismo de Kruschev, cientistas da computação russos passaram a ver na ideia de rede uma redenção libertária que verdadeiramente fizesse jus aos ideais comunistas da revolução de 1917, sufocados por Stalin. Mas essa espécie de mcluhanismo marxista logo foi esmagada pela volta do autoritarismo ao poder. Com o fim do reformismo e a desventura do projeto libertário da rede russa, a União Soviética acabou entregando o jogo do futuro imaginário de bandeja para o outro lado.

Nos EUA, o governo exigiu que se inventasse a internet antes que os russos o fizessem. O objetivo era garantir o controle e hegemonia do país sobre a profetizada sociedade da informação. Nas entrelinhas do discurso da Uniesfera, o que não podia ser claramente dito: a aldeia global seguiria o modelo apontado pelos Estados Unidos. O projeto era financiado pelo Departamento de Defesa e tinha também uma clara função militar: manter o controle e as estruturas de poder com uma rede que sobrevivesse a um ataque devastador. No entanto, a arquitetura da internet foi toda projetada nos moldes de um comunitarismo acadêmico-científico, cuja produtividade precisa do compartilhamento, e não da propriedade comercial do conhecimento. Essa estrutura aberta, descentralizada, era financiada pela estrutura hierárquica e autoritária dos militares.

Esse aparente paradoxo é desvendado de maneira brilhante por Barbrook e constitui o grande mérito de Futuros imaginários. Para ele, como para os líderes mais sensatos das duas superpotências, a Guerra Fria nunca seria decidida pela força bruta. A “força suave” da disputa no campo cultural, simbólico, poderia ser uma arma mais devastadora do que uma bomba atômica. O embrião da internet da década de 1960 era um produto do que Barbrook chama de “esquerda da Guerra Fria”, formada por intelectuais americanos originalmente de esquerda, muitos ex-trotskistas. Com a histeria anticomunista e a radicalização do debate, o marxismo passou a ser sinônimo de stalinismo, ser de esquerda era ser antipatriótico. A “esquerda da Guerra Fria” passou a defender uma alternativa tanto ao liberalismo econômico quanto ao stalinismo, pregando um capitalismo do bem-estar social. Com o Partido Democrata no poder, essa “esquerda” começou a atuar com muita eficiência como “força suave” contra o comunismo, denunciando as falhas do sistema soviético e acolhendo o mcluhanismo de braços abertos.

Feridos pelas críticas da contracultura nos anos 1970, esses intelectuais penderam para o neoliberalismo. Se para a contracultura a internet era um embrião do “comunismo cibernético”, para os novos liberais ela seria a epítome da sociedade da informação e do livre mercado. Porém, enquanto a prometida sociedade da informação vai sendo gestada, o poder fica nas mãos de uma nova elite: a classe do conhecimento e da inovação tecnológica, cuja morada é o Vale do Silício. Como há quarenta anos, o futuro computadorizado está logo ali, mas nunca vai chegar.

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Sail to the moon


I sucked the moon
I spoke too soon
And how much did it cost?
I was dropped from
Moonbeams
And sailed on shooting stars

Maybe you'll
Be president
But know right from wrong
Or in the flood
You'll build an ark

And sail us to the moon
Sail us to the moon
Sail us to the moon

_________________


O nome do meu avô paterno era Haraldo Sergio Albergaria Pereira. Depois que o senhor Haraldo decidiu superar a perda trágica da mulher e da criança ainda em gestação, casou-se novamente e teve mais quatro filhos, além dos três do primeiro casamento. O mais novo é tão novo que foi, na minha infância, a figura de um irmão um pouco mais velho e não a do um tio, que é o que ele é. Depois a vida se encarregou de jogar as "duas famílias" cada uma prum canto. Não sei exatamente o porquê. E descobri agora que meu tio Nê, que carrega o nome do meu vô, fotografa como poucos. Ele gosta de fotografar a Lua e, como eu, estou certo que sente um claro fascínio pelas coisas que envolvem o espaço. A belíssima fotografia acima é dele, claro.

"Acho que você andou assistindo muito filme de ficção científica"

Rastros de uma história violenta
(foto de um certo Haraldo A. P. Filho)

Só para confirmar a ideia de que o Sistema Solar é uma pancadaria digna de Buddy Spencer e Terence Hill, há uns quinze dias Júpiter levou uma pancada similar à de 1994, causada pelo cometa Shoemaker-Levy. Ninguém, nos programas de levantamento de asteróides, detectou o bicho dessa vez. A descoberta foi feita por um astrônomo amador. O que levantou uma certa desconfiança nos Estados Unidos: será que a NASA está fazendo o trabalho direito?

Talvez em resposta a isso, o JPL (Laboratório de Propulsão a Jato) da Caltech colocou online, no último dia 6, o site Asteroid Watch. O levantamento amplo de objetos como asteróides e cometas que vagam pelo sistema solar e às vezes entram em sua parte interna (exatamente onde estamos) é umas das coisas mais importantes que a ciência espacial pode fazer. A maioria das pessoas descarta esse tipo de coisa como viagem de fã de sci-fi que leva filmes como Impacto Profundo muito a sério. Podem estar todos os nossos pobres pescocinhos, neste exato momento ou, mais provavelmente, em algum ponto da história das gerações futuras, na linha de tiro de um asteróide ou um cometa. Eu não consigo achar muitas outras coisas que sejam tão importantes e que deveriam estar no centro das agendas científicas.

8 de agosto de 2009

Les Chants Magnétiques

Mais conhecido como Magnetic Fields, Les Chants Magnétiques é o quinto álbum de Jean Michel Jarre, lançado em 1981. Dos que eu conhecia até agora, é o terceiro. Está aqui, na íntegra, a quem possa interessar.

(Se o Sr. Jarre ou algum procurador se sentir ofendido pela distribuição gratuita, favor contactar-me para apagar o link, o que farei com o maior prazer, não sem antes fazê-lo(s) ouvir algumas coisas sobre a falta de publicação dessas obras aqui no Brasil, tornando o preço de importação proibitivo. Eu tenho esse disco em vinil e, portanto, detenho legalmente o direito de ouvir essa bagaça há, deixa eu ver… 20 anos!)

Les Chants Magnétiques é um dos favoritos da infância, redescoberto há pouco tempo, embora tenha pequenas passagens que eu não entendia quando tinha 8 anos e que continuo não entendendo. O miolo da longa primeira faixa é um mero intervalo entre a introdução e a terceira parte, brilhantes. Para a terceira faixa, o francês figuraça deveria nos indicar o quê ele estava fumando quando a compôs. A última é uma rumba bonitinha, legal demais, mas é um final tão excêntrico e fora de órbita que me permanece um místério completo. Vamos ao que interessa.

A segunda faixa é uma obra-prima dos primórdios da música eletrônica como arte pop. Típico Jarre. Vendeu dezenas de milhões de discos pois, além de grande artista e compositor, sempre teve um afinadíssimo ouvido comercial. Hoje, não tocaria numa rádio nem a porrete, mas em 81 chegou a #6 nas paradas britânicas com a brincadeira.

A número quatro é uma mistura de melancolia e esperança que parece ser uma marca registrada de Jarre. Essas duas palavras, melancolia e esperança, mesmo que, juntas, pudessem dar forma a um terceiro sentimento, não seriam o suficiente para Les Chants Magnétiques IV. Leonard Bernstein tinha razão: a música pode nomear o inominável e comunicar o inconhecível.

A primeira parte da faixa de abertura tornou-se uma das mais conhecidas da carreira de Jarre, obrigatória em qualquer show. É ótima essa primeira parte, de fato, seguida de uma chapação pelas galáxias do espaço sideral que culmina na seção mais genial de todo o disco. Quando eu punha a bolacha no meu três-em-um Phillips e queria ouvir exatamente essa música, procurava pela parte menos escura, mais pro fim da faixa, e tacava lá a agulha. Com cuidado. Se bobeasse, dava aquele zzzzziiipp que doía na alma. Sorte que eu havia treinado bastante com Thriller, do Michael Jackson. Ele não sobreviveu. O disco, não o Michael. Quer dizer, bem, deixa pra lá. Tá aqui embaixo este que é o trecho mais brilhante de todos os campos magnéticos:

Uma coisa que eu nunca tinha me ligado: de um lado da capa do vinil está escrito “Les Chants Magnétiques”, do outro, “Magnetic Fields”. Sempre pensei que se tratava de mera tradução. Qualquer ignorante em francês, como eu, sabe que campos não é chants, mas champs (Champs Élysées!), mas passei batido nessa por 20 anos! O título em francês contém uma ambiguidade legal, pois chants e champs são palavras homófonas. Em inglês, ou em qualquer outra língua, perde-se a possibilidade de jogar com “campos magnéticos” e “canções magnéticas”.

Quem sabe eu me animo, mais tarde, a fazer um post sobre Rendez-Vous.

Atualização:

Achei esse vídeo raro dos concertos na China, também em 81, que deram origem a um álbum ao vivo, clássico, do Jarre. Não sei vocês, mas eu vejo em cada segundo aí a expectativa de um futuro, a esperança de profetizar um porvir mecânico, robótico e computadorizado. O futuro de 1981:

(batera moendo)

7 de agosto de 2009

Tudo certo com o Kepler

O telescópio espacial Kepler, cujo objetivo é caçar planetas extrasolares rochosos, deu uma amostra de suas capacidades, hoje. Para testá-las, o pessoal da NASA examinou um exoplaneta já conhecido, HAT-P-7b, um “Júpiter quente”. A órbita desse gigante gasoso é tão próxima ao seu sol, que leva apenas 2,2 dias para ser completada. O Kepler conseguiu distinguir algumas coisas sobre a atmosfera do planeta, inclusive sua temperatura diurna: 2377 ºC. Segundo a NASA, essa descoberta “demonstra que Kepler tem a precisão para descobrir planetas do tamanho da Terra”.

Começou a era da caça às outras Terras.

SETI no Colbert Report

O radioastrônomo Seth Shostak, do programa SETI, lançou há uns três meses o livro Confessions of an Alien Hunter: A Scientist's Search for Extraterrestrial Intelligence e foi apresentá-lo no Colbert Report, possivelmente o melhor programa de humor televisivo do Sistema Solar. Pense numa fusão de Diogo Mainardi com Reinaldo Azevedo, dê-lhe bastante senso de humor e terá Stephen Colbert, a caricatura de um apresentador ultra-reacionário. Entrevistando Seth, ele arruina, como de praxe, qualquer possibilidade de sabermos alguma coisa de interessante sobre o entrevistado, com coisas do tipo:

Colbert: Eles podem não existir, e nesse caso sua vida não tem sentido! Você pode estar mijando contra o vento.

Shostak: Dentre um trilhão de planetas, muitos serão inúteis, mas alguns podem ser algo como a Terra, a não ser que isso aqui seja um milagre. Se você acha que isso aqui é um milagre…

Colbert: (interrompendo) Eu acho sim que isso aqui é um milagre! Criado por Deus em seis dias, amigo. Isso é o que eu chamo de milagre!

Ou, melhor ainda:

Colbert: Como vocês fazem para buscar os ETs?

Shostak: Usamos grandes antenas. Nós fazemos o que a Jodie Foster fez no filme “Contato”.

Colbert: Representar? Representar e tentar ser atraída por Matthew Mcconaughey?

The Colbert Report Mon - Thurs 11:30pm / 10:30c
Seth Shostak
www.colbertnation.com
Colbert Report Full Episodes Political Humor Tasers

É interessante notar que algumas das críticas jocosas de Colbert são feitas a sério por parcela considerável da comunidade científica. A última bolacha do pacote da divulgação científica, Michio Kaku, considera a ideia por trás do SETI algo bobo. A equação Drake não apenas é alvo de desconstruções críticas implacáveis como já virou piada. O SETI depende de uma grande carga de romantismo e idealismo, pra não dizer de devaneios da imaginação de seus criadores, Carl Sagan entre eles.

Mas, pensando bem, e daí? A ciência nunca deve ter totalmente os pés no chão. Ela se alimenta de sonhos. Já fui mais entusiasmado com o SETI, mas é impossível deixar de ser simpático ao programa. Continuemos torcendo para que o SETI não permaneça apenas uma bela ficção.

Edit 22h: teve gente que achou que o Colbert fala essas coisas a sério, que é um reaça de verdade. Colbert, na verdade, personifica uma sátira a alguns jornalistas reacionários (principalmente, Bill O´Reilly) da mídia de direita nos EUA, como a Fox News.

2 de agosto de 2009

Rodrigo y Gabriela

Descoberta desta manhã de domingo:


A história da dupla, segundo a Wiki: são da Cidade do México, onde formaram a banda Tierra Acida. Insatisfeitos com a cena musical na terra natal, os dois zanzaram pela Europa e se estabeleceram em Dublin. Alcançaram o sucesso. Abriram show em Wembley pro Muse, apareceram no Jools Holland, ganharam espaço na MTV americana, foram tocar no Letterman.

Tierra Acida era uma banda de thrash metal. Entre as influências listadas por estes dois grandes instrumentistas, estão Metallica, Megadeth e Slayer. Do Metallica, tocam Master of Puppets, Battery, One e a obra-prima do baixista Cliff Burton, Orion, uma das músicas mais bonitas já feitas, que você vê abaixo.



(clique aqui para o áudio da versão completa, em todo o seu esplendor)

Cliff teria ficado absolutamente extasiado.

21 de julho de 2009

Homens na Lua, homens na Terra, por Michael Collins


Little by little, they grew closer, steady, as if on rails, and I thought 'What a beautiful sight,' one that had to be recorded. As I reached for my Hasselblad, suddenly the Earth popped up over the horizon, directly behind Eagle. I could not have staged it any better, but the alignment was not of my doing, just a happy coincidence. I suspect a lot of good photography is like that, some serendipitous happenstance beyond the control of the photographer. But at any rate, as I clicked away, I realized that for the first time, in one frame, appeared three billion earthlings, two explorers, and one moon. The photographer, of course, was discreetly out of view.


Mais, aqui.

10 de julho de 2009

Futuros do passado

Com vocês, o Autotutor:


No blog do Tiago Dória, um link fantástico: um arquivo dos futuros imaginados desde 1870. Eu estou começando a sentir a aquela euforia da ignorância, prestes a conhecer alguma coisa interessante (e imagine só as possibilidades de análise que coisas como esse Autotutor podem proporcionar).
Amanhã, ou depois de amanhã, sai a minha resenha de Futuros Imaginários. Lido em boa hora.

9 de julho de 2009

McNamara e a cegueira moral, por Noam Chomsky

Em 1995, Robert McNamara publicou pela primeira vez seu mea culpa pelo desastre da guerra do Vietnã. In Retrospect reconhece "erros terríveis" que deveriam ser explicados para as "futuras gerações", mas defende que esses erros não eram de ordem moral e intencional. Ele, McNamara, e todos os outros responsáveis pela guerra das administrações Kennedy/Johnson, teriam agido "sob a luz dos princípios e tradições desta nação". Naquele mesmo ano, Chomsky reagiu de maneira ácida:



Actually, he's correct about the values. If somebody tries to disobey us, our values are that they have to be crushed and massacred. Those are our values. They go back hundreds of years, and those are exactly the values they acted upon.

[...]

There's only one criticism that he sees, or that any of his critics see, or even his supporters, the whole range of discussion, including people who were very active in the peace movement, I should say. I've been shocked by this, the people who are active in the peace movement who are saying, "We're vindicated because he finally recognized that we were right. It was an unwinnable war."

What about the maybe, if you count them up, four million Indochinese that died, something on that order? What about them? Actually, he has a sentence or two about them, and even that sentence is interesting. He talks about the North Vietnamese who were killed. An interesting fact about the book -- and you can't blame him for this, because he's just adopting the conventions of the culture that he comes from, he's completely uncritical and couldn't think of questioning it -- throughout the book the "South Vietnamese" are the collaborators whom we installed and supported. He recognizes that the population was mostly on the other side, but they're not "South Vietnamese." The attack on them doesn't appear.

[...]

On the bombing of the North, there was meticulous detailed planning. How far should we go? At what rate? What targets? The bombing of the South, at three times the rate and with far more vicious consequences, was unplanned. There's no discussion about it. Why? Very simple. The bombing of the North might cause us problems. When we started bombing the North, we were bombing, for example, Chinese railroads, which happened to go right through North Vietnam. We were going to hit Russian ships, as they did. And there could be a reaction somewhere in the world that might harm us. So therefore that you have to plan for. But massacring people in South Vietnam, nothing. B-52 bombing of the Mekong Delta, one of the most densely populated areas in the world, destroying hospitals and dams, nobody's going to bother us about that. So that doesn't require any planning or evaluation.

Not only is it interesting that this happened, but also interesting is the fact that no one noticed it. I wrote about it, but I have yet to find any commentator, scholar, or anyone else, who noticed this fact about the Pentagon Papers. And you see that in the contemporary discussion. We were "defending" South Vietnam, namely the country that we were destroying. The very fact that McNamara can say that and quote Bernard Fall, who was the most knowledgeable person, who was utterly infuriated and outraged over this assault against South Vietnam, even though he was a hawk, who thought Saigon ought to rule the whole country -- you can quote him and not see that that's what he's saying -- that reveals a degree of moral blindness, not just in McNamara, but in the whole culture, that surpasses comment.

Mais da interessantíssima entrevista com Chomsky sobre a guerra do Vietnã, aqui.

A "nossa" galáxia

Um comentário: chamamos "isso" de "nosso". Nosso por quê? "Nós" é que somos "disso", e não o contrário.

William Castleman, o autor da sequência, explica:

The time-lapse sequence was taken with the simplest equipment that I brought to the star party. I put the Canon EOS-5D (AA screen modified to record hydrogen alpha at 656 nm) with an EF 15mm f/2.8 lens on a weighted tripod. Exposures were 20 seconds at f/2.8 ISO 1600 followed by 40 second interval. Exposures were controlled by an interval timer shutter release (Canon TC80N3). Power was provided by a Hutech EOS203 12v power adapter run off a 12v deep cycle battery. Large jpg files shot in custom white balance were batch processed in Photoshop (levels, curves, contrast, Noise Ninja noise reduction, resize) and assembled in Quicktime Pro. Editing/assembly was with Sony Vegas Movie Studio 9.

Via Blog do Tas

8 de julho de 2009

Apocalypse please

Você, que não tem dinheiro pra pagar Sportv, também achou que finalmente iria assistir um jogo da Libertadores? Achou, como eu, que iria assistir à FINAL da Libertadores? Pensou que a infâmia de Bragantino x Corinthians sendo transmitido em detrimento da FINAL da Libertadores, no ano passado, havia sido reconhecida e superada?

Pois é. Fiquemos com Fluminense x Corinthians.

Nessas horas eu me pergunto por quê a Skynet ainda não acordou e mandou uma bomba H nos seguintes endereços:

Rua Von Martius, 22 - Jardim Botânico
Rua Lopes Quintas, 303 - Jardim Botânico
Estrada dos Bandeirantes, 6900 - Curicica

E uma no Parque São Jorge também, por que não?

7 de julho de 2009

A Linha McNamara

O sonho da vigilância em tempo real

Enquanto minha resenha de Futuros Imaginários, de Richard Barbrook, ainda não é publicada junto com a próxima edição da ComCiência, deixo aqui um trecho interessante sobre a guerra do Vietnã no contexto das utopias tecnológicas da Guerra Fria, que são o tema principal do livro. É uma amostra da racionalidade industrial de Robert McNamara aplicada à guerra:

Em sua luta contra o comunismo vietnamita, o exército dos Estados Unidos se deparava com um problema inesperado: medir seu progresso no campo de batalha. [...] O grande problema era como estimar o resultado das ofensivas no interior. Incapaz de medir ganhos territoriais, o exército dos Estados Unidos decidiu então focar no número de combatentes inimigos mortos em cada operação: a 'contagem de corpos' (body count). Com esse dado, seus analistas poderiam programar computadores para calcular qual lado infligia o maior dano ao seu oponente: o 'índice de mortandade' (kill ratio). O exército dos Estados Unidos possuiam agora a medida matemática da vitória. [...]

Enquanto trabalhou para a Ford nos anos 1950, McNamara melhorou drasticamente a eficiência administrativa ao usar computadores para produzir estatísticas detalhadas sobre as diferentes atividades da empresa: 'análise de custo-benefício'. Em seu novo emprego como ministro da defesa, ele incitava o exército dos Estados Unidos a aplicar esse método de alta tecnologia para fabricar carros à tarefa de lutar em guerras. Felizes em colaborar, generais tornaram-se administradores da era do computador. No Vietnã, o exército dos Estados Unidos mataria comunistas de maneira tão eficiente quanto a Ford fabricava carros em casa.


Nada, no entanto, havia conseguido aplicar um golpe mortal contra os vietcongues. Barbrook continua (notem, de passagem, a fina ironia de "bala mágica"):


Em 1967, o governo Johnson acreditava que finalmente encontrara sua bala mágica. Uma equipe multidisciplinar de cientistas criou um plano para construir uma impenetrável barreira de alta tecnologia para separar as duas metades do Vietnã: a linha McNamara. Nessa versão militar do Panóptico informacional, milhões de sensores eletrônicos - intercalados com minas e armadilhas - seriam instalados ao longo das fronteiras do estado ao sul. Robôs móveis patrulhariam os céus. Computadores colheriam e classificariam os dados dos dispositivos de vigilância da barreira. [...]

Dentro de poucos minutos de detecção das forças inimigas por seus sensores ADSID, os Systems/360 da IBM calculariam sua localização e despachariam bombardeiros B-52 para destruí-los. [...]

Em 1972, mesmo após cinco anos de testes e refinamentos, a Linha McNamara falhou em detectar um grande número de barulhentos tanques vietnamitas e outros equipamentos pesados que moviam para baixo as rotas de abastecimento do norte para lançarem uma ofensiva no sul. [...] Muito antes desse fiasco constrangedor acontecer, os custos da ocupação tornaram-se insustentáveis para o império estadunidense.



Mais sobre a Linha McNamara, aqui, aqui e aqui.

6 de julho de 2009

Sympathy for the devil

Lição número 1 da vida de Robert McNamara: sinta empatia pelo inimigo. A crise dos mísseis na visão do "arquiteto da guerra do Vietnã", abaixo.






Robert Strange McNamara, o odiado secretário de defesa dos Estados Unidos durante os governos Kennedy e Johnson, morreu hoje, aos 93 anos.

Chamado por Chomsky de "narrow technocrat", McNamara tinha ideias que talvez estivessem no oposto do que considero certo e bom pro mundo. Um "inimigo". Mesmo assim, é impossível não simpatizar com aquele velho e também aprender com as lições de sua vida.

No documentário Fog of War (torrent aqui), de 2004, McNamara reconhece erros, faz autocrítica, deixa entrever a culpa: "estávamos agindo como criminosos de guerra", diz sobre os bombardeios incendiários ao Japão, que ajudou a planejar. Projetou a guerra com a mesma racionalidade meticulosa e aposta na tecnologia que aplicou na ressurreição da Ford. "Uma vida para o complexo industrial-militar americano", poderia ser o subtítulo para uma biografia. Trabalhou duro, com muita eficiência, pela hegemonia americana na disputa da Guerra Fria.

Fog of War é dirigido por Errol Morris (que também fez o clássico A Brief History of Time, sobre a vida e as ideias de Stephen Hawking). Quando lançado, serviu de alerta para as decisões erradas da administração Bush sobre o Iraque. Significava um recado daquele experimentado senhor: "olhem aqui, criançada, isso não vai dar certo; eu já passei por isso, vocês vão fazer cagada; não se iludam com essa história de guerra tecnológica, racional, asséptica". A última lição de McNamara, que ele aprendeu às custas do próprio insucesso: a guerra não é inteiramente compreensível, racionalizável. Estamos sempre sob a 'névoa de guerra' que nos impede de enxergar adiante.

Talvez tenha sido um Adolf Eichmann com muito mais brilho e autoconsciência. "A lot of people think I´m a son of a bitch", reconheceu. Não se sabe como será lembrado. Merece respeito e empatia.

27 de junho de 2009

A demarcação da pseudociência

Uma coisa recorrente em obras de divulgadores da ciência como Richard Dawkins e Carl Sagan é o ataque à pseudociência. Tentam alertar para um perigo das sociedades modernas: aquilo que parece ser ciência pode ser uma impostura. Em linguagem clara: você pode estar levando um Porsche com motor de Fusca e lataria de plástico.

Foi mais ou menos o que aconteceu recentemente com minha mãe. Crente de que havia encontrado a solução definitiva para meu notório problema de ronco e apneia do sono, ela não titubeou em gastar 50 reais na compra de um novo “aparelho hi-tech anti-ronco”, o No Ronco. O aparelho promete acabar com o ronco ao “enrijecer os nervos da faringe” com uma “pressão no septo nasal” levada a cabo por “dois chips eletromagnéticos que emitem ondas magnéticas”, eliminando assim o ronco com uma “taxa de eficiência superior a 90%”. A bula afirma que o No Ronco é “confeccionado com as maiores e mais inovadoras tecnologias do mercado” e que seu “chip” é “sintetizado com elementos raros da natureza”.

Não é preciso ser um cientista para perceber que há algo de errado nessas promessas, que “maiores e mais inovadoras tecnologias” casadas num “chip” fabricado com “elementos raros da natureza” só podem ser uma coisa: conversa fiada de vendedor. Desmontado o “aparelho”, percebe-se que os dois “chips” são simples e prosaicos imãs. No Ronco usa o jargão acadêmico, com referências a dois campos tecnocientíficos (a informática, na moda, e o eletromagnetismo, clássico referencial pseudocientífico), para sustentar promessas ilusórias. Não há dúvidas desde o primeiro momento em que se conhece o No Ronco: é um produto pseudocientífico.

No entanto, a detecção de pseudociência não vem sendo algo totalmente racionalizável. Passa mais pelo faro – a dita intuição – do que por passos racionais e lógicos. Como o bolso de minha mãe bem sabe, é necessário responder às indagações: o quê, de fato, é a pseudociência? Como estabelecer critérios inequívocos para saber o que é e o que não é pseudociência? Qual a linha demarcatória?

Pseudociência é todo discurso, saber ou crença, que se disfarça de ciência para conseguir credibilidade (fiquemos com essa definição, por enquanto). Apesar de todos os ataques céticos, a ciência ainda tem muita credibilidade na nossa sociedade. Quantos anúncios não vêm acompanhados da chancela de "cientificamente comprovado" ou similares para atestar que seus produtos são confiáveis? Por quê os autores de livros de auto-ajuda e boçalidades semelhantes têm a necessidade de acompanhar seus nomes dos títulos de "MD" ou "PhD"? A intenção é clara. A ciência se tornou, há muito, base para decisões públicas e ainda é considerada, em inúmeras direções, nossa maior fonte de conhecimento seguro sobre o mundo. Sua roupa, pelo menos, ainda vende. E muito.

O problema maior de se definir critérios que demarquem a pseudociência é que isto se desdobra numa questão ainda mais complicada: quais seriam, então, os critérios para demarcar a própria ciência? A demarcação e identificação do que é científico ocupou filósofos e epistemólogos durante séculos, desde a emergência da ciência moderna, sem que se chegasse a um acordo. Um breve catálogo das principais vertentes na filosofia da ciência que arriscaram propor critérios gerais para a definição de ciência – só no século XX – dá conta de demonstrar o tamanho do problema: os positivistas do Círculo de Viena e a ênfase na possibilidade de se verificar uma proposição empiricamente; Karl Popper e a ideia de que uma teoria só é científica se abre a possibilidades de ser refutada por observações ou experiências que fiquem nas raias do concebível; Thomas Kuhn e a imagem da ciência normal, em que a prática científica mais comum é identificada com a resolução de problemas dados por um paradigma teórico que só de vez em quando é desafiado pelas anomalias que surgem nas pesquisas; Imre Lakatos e o critério de progressividade, em que estamos diante de ciência quando um programa de pesquisa cria novas teorias que vão substituindo as velhas pela capacidade de previsão e maior embasamento empírico; e Robert Merton e seu ethos científico, com imperativos institucionais como o universalismo, o ceticismo organizado, o senso de comunidade e o desinteresse pessoal. Não há consenso entre estas diferentes demarcações. Quando muito, há uma certa convergência em certas questões específicas.

Como afirma o filósofo Sven Ove Hansson, em texto sobre a pseudociência na Stanford Encyclopedia of Philosophy, é paradoxal que haja tamanho consenso quando o assunto é meramente identificar os campos que devam ser considerados ciência, e ao mesmo tempo tanta dificuldade para encontrar critérios gerais que demarquem com clareza o que é ciência e o que não é.

Da mesma forma, é bastante comum encontrarmos convergência em opiniões na comunidade científica - e não somente dentro dela - que classificam o criacionismo, a astrologia e a homeopatia, por exemplo, como pseudociências. A divergência está no porquê disso tudo ser pseudociência. As possíveis respostas esbarram primeiro no problema muito comum de se misturar pseudociência com anticiência, e mesmo pseudociência com todos os discursos alheios ou estranhos ao discurso científico. Basicamente, como já dito, por pseudociência entende-se um saber ou crença que, não sendo científico, passa por ciência, veste sua roupa e emula suas maneiras na tentativa de criar uma impressão de ser científico. Apesar de muito útil, este é um critério problemático: a homeopatia oscila entre colocar-se como anticiência e como ciência. O mesmo ocorre com a astrologia – atualmente, com maior tendência a se considerar realmente não-ciência ou anticiência. A questão é que não há um corpus pseudocientífico coerente em oposição ao corpus científico mais ou menos definido. E, pior, em alguns casos aquilo que pode ser identificado como ciência mal-feita (ou seja, experimentos mal conduzidos, teorias logicamente mal elaboradas, etc.) tende, em alguns casos, a ser confundido com pseudociência. A única forma de separar o joio do trigo, neste caso, seria saber se, por trás de conclusões estranhas à ciência originadas de incompetência ou distorções propositais, há uma doutrina não-científica mais ou menos coerente tentando se passar por ciência.

O que torna a tarefa demarcatória entre ciência e pseudociência algo extremamente complexo (para alguns, impossível) é que a linha divisória varia com o tempo. É histórica. Se o próprio conhecimento científico é um fenômeno histórico, como, então, estabelecer critérios universalmente aceitos para o que é científico e o que só parece sê-lo? Ainda não há respostas. O que é certo, principalmente para aqueles que algum dia foram lesados por falsas promessas fabulosas vestidas de jaleco branco e com um tubo de ensaio na mão, é que ainda é necessário encarar o problema filosófico e epistemológico de se definir o que é ciência e pseudociência, mesmo que para isso se reconheça buscar estabelecer um critério imperfeito e limitado, fruto de seu tempo.


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Este texto é uma adaptação de um outro post, só que um pouco mais formal e ao mesmo tempo mais didático e mais "jornalístico", conforme as exigências da disciplina do Prof. Marcelo Knobel, do Labjor/Unicamp.

12 de maio de 2009

Lévi-Strauss aos 101


Acabou de sair a edição de maio da revista ComCiência, do Labjor/Unicamp e SBPC. Esse mês o tema é a vida e a obra do antropólogo Claude Lévi-Strauss, o pai do estruturalismo que, hoje, dizem alguns, está fora de moda.
Minha matéria é um esboço de resposta à pergunta que fiz na reunião de pauta: qual a consequência epistemológica da noção de estrutura de Lévi-Strauss para as ciências?
Em poucas linhas, cheguei à seguinte conclusão: no fundo, Lévi-Strauss rejeita a possibilidade de avanço do conhecimento, ideia-chave da ciência moderna. Se tanto a ciência quanto o pensamento ameríndio se baseiam sobre as mesmas estruturas universais da mente humana, então as descobertas científicas nada mais são do que flutuações de uma equação, a mente, reflexo da natureza humana, do nosso caráter animal e orgânico. A humanidade compartilha uma razão, capaz de conhecer o mundo, muito mais profunda do que a razão iluminista. É uma ideia muito bonita, escrupulosamente construída e examinada, da qual discordo humildemente.
Lévi-Strauss não é o responsável, mas deu origem ao pós-estruturalismo, que está dentro do conceito vago de pós-modernismo. O relativismo radical bebe dessa fonte, mas às vezes disfarça.

Abaixo, deixo um trecho do meu texto, que explica isso tudo um pouco melhor:

A valorização do “científico”, por Lévi-Strauss, é ambígua, ou pelo menos abre um leque interpretativo bastante amplo sobre o valor da ciência. Por um lado, sua própria abordagem, em si mesma, pressupõe um forte modelo científico. José Carlos Reis afirma que “o estruturalismo impõe às ciências humanas a hegemonia das matemáticas e da lógica das ciências naturais”, tese que coincide com a de Mauro Almeida, para quem “o estruturalismo de Lévi-Strauss contribuiu para trazer às ciências humanas de maneira mais sistemática e autoconsciente o uso de modelos para representar fenômenos. O que Lévi-Strauss ensinou é que discernimos regularidades, leis, padrões, enfim ‘estruturas’ construindo tais modelos. Esse modo de fazer ciência era bem conhecido na física, e mesmo na biologia”. Por outro lado, o estruturalismo antropológico de Lévi-Strauss dá uma tremenda ferroada na ciência. Um dos pressupostos fundamentais da ciência moderna é o da possibilidade do avanço do saber. Desde seus pais fundadores do século XVII, a ciência moderna joga com a necessidade de avançar o conhecimento humano progressivamente além, mais profundamente, mais detalhadamente, com maior potencial de alteração da realidade e de controle da natureza para a felicidade humana. Por isso, de maneira geral, a ciência lida com a ideia de mudança histórica, de superação e abandono de teorias e modelos por outros que expliquem melhor e mais detalhadamente a realidade, num processo impulsionado pelos seres humanos como agentes da história. Lévi-Strauss faz um ataque claro à história e ao homem do sonho iluminista como o agente da mudança social e da sua própria liberdade. Como afirma Reis, do ponto de vista de Lévi-Strauss, “o intelecto humano é permanente e se impõe sobre a mudança histórica. As normas sociais têm uma estrutura lógica, que as mudanças históricas não abolem. A busca da inteligibilidade parte da história para aboli-la em ordens naturais permanentes, profundas. O espírito humano é sempre idêntico a si mesmo e predomina sobre o social e o histórico. Por isso, a antropologia não diferencia o ‘selvagem’ e o ‘civilizado’, pois têm a mesma estrutura lógico-intelectual, que torna irrelevante a sua aparente diferença histórica”. A conclusão seria, portanto, que a ciência moderna, fenômeno histórico característico a um determinado tempo e espaço, não difere fundamentalmente de outros saberes, mitológicos ou mágicos, todos estruturados de acordo com uma lógica universal do intelecto humano. As conquistas científicas do nosso tempo não significariam, pois, conhecimento melhor ou mais profundo: não haveria avanço do saber.

O estruturalismo de Lévi-Strauss experimentou seu auge de aceitação acadêmica nos anos 1950 e 60. Nas duas décadas posteriores, as críticas à antropologia estrutural deram origem a um movimento que procurou superá-la: o pós-estruturalismo. Vagamente identificados como pós-modernos, os pensadores pós-estruturalistas, em diversas áreas, tendem a recusar justamente as mais ambiciosas ideias de Lévi-Strauss: as estruturas universais, imutáveis, do pensamento humano. Se o estruturalismo de Lévi-Strauss recusava a racionalidade iluminista para encontrar uma outra onde menos se esperava, o pós-estruturalismo recusa qualquer racionalidade que governe o mundo. Os pós-estruturalistas “não buscam mais verdades históricas nem aparentes e nem essenciais, nem manifestas e nem ocultas. Eles recusam essências originais e fundamentais que se deveria reencontrar e coincidir.”, diz José Carlos Reis. Conclusão implícita em Lévi-Strauss, a recusa do acúmulo progressivo do saber, do avanço da ciência, torna-se explícita e radical no pós-estruturalismo. Nega-se qualquer acúmulo e qualquer avanço científico gerados racionalmente pela consciência do ser humano. 

Hoje, no meio intelectual, há uma guerra aberta acerca da ciência, sobre como ela funciona, qual o valor que damos a ela, o quê lhe devemos e o quê ela nos deve. De forma simplificada, pode-se dizer que há duas grandes tendências. De um lado, pós-modernos e pós-estruturalistas se aproximam de um relativismo epistêmico radical, hostil à ciência moderna, negando mérito à racionalidade ao mesmo tempo em que anulam o ser humano como sujeito consciente de poder mudar a história. De outro, os mais diversos e díspares herdeiros do Iluminismo procuram desafiar as correntes céticas, denunciando suas conclusões relativistas como reflexos de uma opção política de aceitação e assimilação do mundo pós-1989, o de um único sistema socioeconômico – que apareceria então como estrutura naturalizada e inquestionável: daí a recusa da mudança histórica que a ciência e a racionalidade podem proporcionar.


8 de maio de 2009

Elogio da Loucura

Um carro potentíssimo no fio da navalha, o tempo todo. As pessoas assistindo ao lado da pista.

Diria Xico Sá: "Amigo, Fórmula 1 é video-game".



O rali é, realmente, a melhor definição do que Erasmo, o Tremendão de Roterdã, escreveu lá quando a modernidade nem tinha certidão de nascimento ainda.

5 de maio de 2009

A autêntica piada de mau gosto

Viram a última de Nova York? Um 747 dublê do Air Force One, o avião da presidência dos Estados Unidos, andou voando em baixa altitude, em círculos, sobre Lower Manhattan. Bem, você já adivinhou o que é que ficava exatamente na parte sul da ilha até uns 8 anos atrás, não?
"As pessoas começaram a evacuar os prédios, até os caras daquela construção na puta que pariu. Todo mundo saiu dos seus edifícios. Ninguém sabia de nada. Até que um sujeito apareceu com um megafoninho, dizendo que era um teste. As pessoas não ficaram contentes", disse o fotógrafo Edward Acker, que estava no World Financial Center 3.
A FAA (Federal Aviation Administration) acabou reconhecendo mais tarde que tudo foi parte de uma sessão de fotos (!) do Air Force One. Obama se desculpou publicamente pelo incidente, e disse que as fotos agora não virão a público.
Depois da traulitada do 9/11, os newyorkers se borram até mesmo do Air Force One. Meu amigo Enéias, o Rei dos Provérbios, diria: gato escaldado...
Agora, vamos lá. Sinceridade. Veja o vídeo e diga se você não cagaria nas calças se estivesse num desses prédios novaiorquinos e visse essa belezinha aí passando bem perto.

Quando eu for pra lá, só subo num arranha-céus com um pára-quedas nas costas.


Diálogo entre Jack, o chefe sentado de costas pra janela do 50º andar, e Jim, o estagiário cuja lição de casa ficou um lixo:

Jack: "So, that´s all you´ve got?"

Jim: "Yes. I´m sorry. I tried hard, but never got to -- OH MY GOD, THERE´S A PLANE COMING TOWARDS US"

Jack (cético): "Yeah, right..."

Jim (apontando, horrorizado): "I´m not kidding! There´s a FUCKING JUMBO JET flying very low downtown"

Jack (cínico): "C´mon, dude, could you find a better excuse to distract me from this crappy work? By the way, what an awful sense of humor"

Jim (apavorado, saindo da sala): "I´m outta here"

Jack (imitando Donald Trump): "You´re fired!"

Jack olha pra trás e vê o 747. Imediatamente pega o telefone. Liga para o seu corretor em Wall Street.

Jack: "Sell it all! Now! But buy some Halliburton stocks"

1 de maio de 2009

Ninguém é só alguém

Quando um evento impactante acontece, desses dignos do rótulo de "histórico", acho que todo mundo guarda-o de maneira que se lembra muito tempo depois exatamente o que estava fazendo, com quem interagiu, o que sentiu, etc. E sentimos a necessidade de contar para os outros exatamente essa memória. Quando ainda somos bem jovens - e vivendo como vive uma criança de classe média sortuda, com uma redoma que parece proteger sua própria vida e a de seus queridos - talvez isso se amplifique porque as tragédias que estão no cerne da nossa própria existência não parecem existir, não fazem parte da realidade. Tragédias, só com os outros. Terremoto, só em São Francisco.

Eu não entendia porque se dizia que a Fórmula 1 era um esporte perigoso. Desde que havia começado a assistir as corridas, por volta de 86, 87, nenhum piloto sequer havia morrido. Elio de Angelis morreu num teste em Paul Ricard, pela Brabham, em 86, mas era só um teste. E era só Elio de Angelis. Era assim que eu pensava. Brutal, é verdade. Era só o Elio de Angelis.

Pois bem, todo mundo sabe o que aconteceu nos treinos do GP de San Marino de 1994, que ocorria na Itália (me lembro que fiquei espantado quando soube que Imola não ficava em San Marino porra nenhuma). Roland Ratzenberger, que corria por uma equipe nanica chamada Simtek - um carro roxo lindo e lento, o que o tornava feio e desinteressante - morreu quando bateu a trezentos por hora no muro da Villeneuve. Como havia levantado tarde naquele sábado, fiquei sabendo da morte do piloto pelo meu pai, no caminho para o Supertuba, um supermercado, que ficava a duas quadras. Mas o Senna conseguiu a pole? Sim, Senna na pole. Ah, então, tudo bem.

Encontrei minha vó e minha tia no Supertuba, que quando foram informadas da morte do ilustre desconhecido fizeram uma cara de tristeza e choque - afinal era um jovem que morreu praticando esporte, uma morte trágica. Eu me lembro de ter tentado simular a mesma tristeza. É uma convenção social que eu entendia muito bem, expressar a tristeza diante da morte, especialmente uma morte trágica. Fique triste, Danilo, um piloto morreu, pensava. E o Senna? Ficou com a pole, Vó. Era só o Ratzenberger, afinal.

Terremoto, só em São Francisco. Tragédias, só ali, não aqui. Com os outros, bem longe daqui.

Levantei cedo no domingo, como sempre fazia, como milhões de outros fiéis a postos para o culto da grande religião televisiva dos automóveis que ficam correndo em voltas seguidas pra não sair do lugar. Quando o Senna bateu - "Senna bateu forte!", berrou o Galvão - fui tomado de uma tristeza abissal. Aquela Williams desmantelando ao vivo, quase voltando pra pista pra descansar finalmente na área de escape, significava uma única coisa: Schumacher vai vencer de novo, Senna sem pontuar de novo, 30 a 0. E agora? Como é que Senna vai ser campeão no ano em que era pra ganhar todas as corridas? Duvido que algum sennista fanático tenha pensado diferente. Acidentes mais feios, o próprio Ayrton já tinha sofrido. Se você torcia pelo Senna como eu, você imediatamente pensou: fodeu, já era, acabou. 30 a 0 é a morte. 30 a 0 é adeus. Que tristeza.

Mas o cara não se mexia. O cara não saía do carro. Meu pai, já com seus quase 40 anos nas costas, ajudava na denegação do possível, que se transformava cada vez mais em provável: "ele mexeu a cabeça, está fazendo cera pra parar a corrida". Tomara que pare, tomara que cancele: Schumacher não vence, o campeonato se mantém vivo.

Quando o que passou a estar em jogo não era o campeonato e os 30 a 0, quando a morte começou a parecer possível, depois provável, depois certa, o terremoto não rachou apenas a Golden Gate, mas o teto do nosso sobrado. Aconteceu aqui, não ali. A morte existe, afinal. E agora?

Agora que Ratzenberger não era apenas Ratzenberger; Elio de Angelis não era apenas Elio de Angelis. A resposta, um tanto otimista, achei enquanto escrevia esse texto. Se não é genial, nem profunda, não é também uma mera tautologia. Me permitiu um título menos clichê para a efeméride e me deu a oportunidade de achar e me emocionar com essa bela foto, do pianista de Angelis. Ninguém é só alguém, mesmo.


Fotos:

1. Roland Ratzenberger, 1994.

2. Ayrton Senna e Elio de Angelis, 1985, companheiros de Lotus.

3. Elio de Angelis, 1986.

De onde você vem?