Abaixo, trecho de artigo de João Azevedo Fernandes sobre a interessante contribuição da teoria dos jogos para a compreensão de comportamentos "altruistas" de seres vivos que à primeira vista desafiam a "luta pela existência" da seleção natural darwiniana.
20. Axelrod e Hamilton estudaram a evolução da cooperação através do jogo conhecido como Dilema do Prisioneiro. Dois prisioneiros A e B são convidados a delatar o companheiro em troca da liberdade. As situações possíveis são as seguintes (os valores são arbitrários):
a) o prisioneiro A delata e o B não: A recebe 5 e B 1;
b) A não delata e B sim: A recebe 1 e B 5;
c) Os dois delatam: ambos recebem 2;
d) Nenhum dos dois delata: ambos recebem 3.
21. O melhor para A é delatar. Se B não delatar ele recebe 5, se B delatar recebe 2. Se A for solidário e não delatar poderá ser traído por B e receber apenas 1: assim delatar é sempre o melhor lance quando o jogo ocorrer apenas uma vez. Ora, no mundo real é extremamente comum que as interações entre dois indivíduos se repitam, o que leva a um Dilema do Prisioneiro com várias rodadas. Quanto mais avançamos na direção dos animais mais complexos estas interações tornam-se necessariamente mais ricas, já que estes - especialmente os primatas - tem uma memória muito desenvolvida e grande capacidade de processar informações, o que permite o reconhecimento de outros indivíduos e a possibilidade de punição a possíveis "trapaceiros" . A seleção natural deve favorecer indivíduos engajados em atos de altruísmo se e somente se os indivíduos beneficiados retribuírem, excluindo os trapaceiros de outros atos altruístas.
22. Ao realizar simulações de várias estratégias em computador, Axelrod descobriu que a única ESS possível em um Dilema do Prisioneiro de duração indefinida é a mais simples de todas: a "olho por olho" (TIT FOR TAT; não seria inútil lembrar a semelhança deste resultado com a estratégia Retaliator de Maynard Smith e Price).
23. A estratégia "olho por olho" permite, com várias rodadas, que se leve o Dilema do Prisioneiro ao melhor resultado possível para ambos os jogadores: a recompensa pela cooperação mútua. É assim que o altruísmo recíproco tornou-se um fator fundamental na evolução dos seres vivos, notadamente naquelas espécies com grandes cérebros e complexas organizações sociais, e que por isso mesmo apresentam maior possibilidade de ter que conviver com trapaceiros ou qualquer indivíduo que tenha a capacidade de receber um benefício sem dar nada em troca. Axelrod e Hamilton lembram que a área do cérebro humano responsável pelo reconhecimento individual é altamente específica e extensa, o que mostra a importância que esta capacidade teve no curso da evolução de nossa espécie (cf. Cronin, 1995, p.453-61, para estudos que mostram como a mente humana está adaptada para o reconhecimento de "fraudes").





