12 de março de 2009

Catálogo de exoplanetas

O De Rerum Natura linkou um catálogo de planetas extrasolares feito pela Sociedade Planetária (sim, aquela, fundada por Carl Sagan, entre outros). Trata-se de uma ferramenta maravilhosa porque é possível comparar facilmente dois planetas, inclusive os do "nosso" sistema solar, em uma infinidade de dados (massa, tamanho, período orbital, data e método de descoberta, etc.).
Cada planeta tem uma animação de sua órbita.
São 335 os exoplanetas no catálogo, 342 os que sabemos existir até a presente data.
Se o número tende a aumentar muito com o Corot (já em atividade) e agora com o lançamento do Kepler, talvez com programas mais sofisticados como o PLATO seja possível começar a juntar evidências para a idéia de que a formação de planetas seja algo inerente ao desenvolvimento das estrelas - se não de todas, pelo menos da maior parte delas. Estou falando de coisas num futuro próximo. Será um privilégio testemunhar essas descobertas. Somos todos uns privilegiados, às vezes.

Concepção artística do exoplaneta HD 189733b, em cuja atmosfera o telescópio espacial Hubble permitiu descobrir a presença de metano, molécula orgânica e tijolo da vida como a conhecemos. Clique aqui para uma versão da imagem em alta resolução.

Créditos da imagem: NASA, ESA, e G. Bacon (STScI).

11 de março de 2009

A small victory

Me inscrevi na seleção de pós-graduação em jornalismo científico do Labjor, da Unicamp, com aquele artigo improvisado sobre C&T. Depois de provas e entrevista, passei.

Isso quer dizer que, em breve, pode ser que eu faça o caminho inverso à tendência: do blog à publicação formal. Who knows? E o blog, talvez, fique menos errático.

Tinha me esquecido, aliás, de como é bom ser aprovado em alguma coisa. Fazia muito tempo que não prestava qualquer tipo de seleção, tirando o último concurso em que fiquei em 17º, mas que valia 10 vagas (argh!). É óbvio, mas é verdade: tem que dar a cara a tapa. Não sei que parte de "o pior que pode acontecer é não passar" eu não havia entendido. Como isso atrasa a vida! Tem o mestrado no fim do ano. Simbora.

10 de março de 2009

Está valendo!

olho no lance:
foi foi foi foi foi foi foi foi foi foi foi foi ELE!
OBAMA!
o CRAQUE da Casa Branca!
ela foi lá,
balançou o mato no fundo do gol da direita religiosa!
quando eram jogados, redondos, 50 dias de governo!
encha o peito, solte o grito da garganta e confira comigo no replay:





9 de março de 2009

O dia em que torci pro Corinthians

Ou O Curioso Caso de Ronaldo Nazário.


Créditos da imagem: Nelson Coelho, Diário de S. Paulo

7 de março de 2009

Como detectar planetas extrasolares

Desde uma inesquecível aula sobre o tema com um astrônomo argentino (de quem, porém, não me lembro o nome) no Observatório Nacional, eu tento explicar para as pessoas - geralmente incautos que não têm a mínima idéia de onde foram se meter - as duas principais formas de se detectar planetas extrasolares, até hoje. A mais compreensível delas é a do trânsito: se dermos sorte e a órbita do planeta estiver horizontalmente orientada para nós, veremos uma diminuição periódica no brilho da estrela observada - eis o planeta. A outra maneira mais usada de detecção usa o Efeito Doppler, mas provavelmente por causa da minha notória incompetência em física, as pessoas nunca parecem entender. É uma pena, embora a explicação também seja razoavelmente simples, e extremamente bonita.

Não, fiquem tranquilos. Não vou aborrecê-los com meu profundo (sic) conhecimento de física teórica. Mas, aproveitando o ensejo do lançamento do telescópio Kepler, que tal saber: como é que uma coisa corriqueira da física como o Efeito Doppler pode nos ajudar a detectar planetas extrasolares? São três vídeos.

Primeiro, o próprio. O que é o Efeito Doppler?




Segundo: o que é o redshift? (Foi com o redshift das galáxias que a teoria do universo inflacionário de Hubble apareceu, mas eu também não consigo ter muito sucesso tentando explicar isso).




Terceiro, e finalmente: como, então, isso tudo é usado para se detectar planetas extrasolares?


Got it?

O melhor de tudo é que, agora que sabe como detectar planetas extrasolares, você vai querer perturbar um monte de incautos por aí com suas explicações. E, talvez, despertar o maravilhamento pela ciência e pelo espaço em algum deles.

PS: Veja também o artigo da Wiki para um panorama geral dos métodos de detecção de planetas extrasolares. A descoberta de planetas orbitando pulsares é, também, uma coisa fantástica, mas o artigo da Wiki deixa a desejar. Melhor, muito melhor, aqui.

Edit: que preguiça! Uma pesquisinha de 5 minutos me deu o nome do astrônomo com quem tive aula: Fernando Roig. Ótimo professor. 
Com Google não existe mais desculpa.

Somnium

Há algumas horas, a Nasa lançou no espaço o telescópio espacial Kepler, que vai observar um campo com mais ou menos 130 mil estrelas em busca de planetas rochosos, parecidos com os do sistema solar, como a Terra ou Vênus. Os primeiros resultados chegam daqui a três meses. Não desgrudem do site oficial. Junto com o Corot, o Kepler será o responsável pela primeira busca sistematizada por planetas rochosos em órbitas habitáveis. Na melhor das hipóteses, a descoberta de planetas extrasolares parecidos com a Terra tenderá a ser corriqueira no noticiário científico dos próximos anos. Na pior, saberemos mais sobre sua raridade e onde tendem a se formar. 
A minha aposta é, claro, que teremos evidências abundantes de uma torrente de planetas extrasolares rochosos no espaço vizinho. Johannes Kepler também apostaria nisso.

4 de março de 2009

Distância - trechos 3 (Hemingway e as touradas)


Carlo Ginzburg, um intelectual, historiador, de cujos ensaios gosto muito, publicou há alguns anos uma coletânea deles em Olhos de Madeira. Todos os nove ensaios do livro tratam de um problema que atravessa literatura e epistemologia: o distanciamento. Trata-se de um problemaço sem solução à vista, mas que vale à pena encarar. Ele inspira tanto estes comentários, quanto a seleção do trecho de O Sol Também se Levanta, de Ernest Hemingway, mais abaixo.
Visões canônicas de ciência e filosofia indicam que o conhecimento deve ser objetivo, isto é, resultar da análise livre das vontades e paixões que o distorcem. Ser objetivo é distanciar-se do objeto, apagar as familiaridades para que se possa conhecê-lo e não ser inteiramente tragado por ele. Na literatura, a distância aparece como procedimento que oculta da descrição aquilo que é óbvio, tacitamente aceito, que dá sentido a algo. O intuito está próximo da objetividade epistemológica: desnudar a realidade e encará-la criticamente.
Assim, um belo filé de pintado pode muito bem ser descrito como "cadáver de peixe". Ou, como conta minha prima, no bandeijão da Unicamp, carne moída é "boi ralado". Quem nunca ouviu aqueles chatos que não gostam de futebol dizer que não são chegados a "ver um monte de homem correndo atrás de uma bola" ou mulheres avessas às corridas de carro afirmarem jocosamente que não entendem como alguém pode gostar de assistir "aquele monte de carro dando um monte de volta pra terminar no mesmo lugar"? Todas elas são descrições aparentemente e propositalmente descabidas, mas têm uma razão muito clara de existir.
Desqualificar, retirar as qualidades tacitamente aceitas, é uma forma de racionalização válida. A deserção da Honda, que pegou o mundo da Fórmula 1 de surpresa, tem motivações frias, distantes e compreensíveis no cenário de crise internacional. Mas foi uma decisão odiosa, para mim. Eu gosto de Fórmula 1. Tanto quanto gosto de futebol. Paguei 30 reais para assistir ao dérbi. Por mais que eu veja verdade em "um bando de homens correndo atrás de uma bola", esta descrição simplesmente não é suficiente para entender e explicar minha experiência na platéia daquele jogo.
Um ser humano apaixonado aceitaria que sexo é "esfregação de uma víscera e secreção de muco acompanhadas de espasmo"? Meu pai tem um adesivo da Ponte, que ganhou de uma namorada, em que se diz: "Paixão não se explica, se vive". Por mais que algumas circunstâncias tenham me impelido a explicar minhas paixões - "por que você torce pra Ponte Preta?" é a segunda pergunta que mais ouço e odeio ouvir (a primeira é a célebre "tá bom, mas pra qual time grande você torce?") -, qualquer justificativa está além da minha capacidade de racionalização, e começo a achar que a ingênua frase de porta de geladeira pode colocar sérias barreiras para o distanciamento como supremo dispositivo de desnudamento da realidade.
Penso nas touradas. Sempre me pareceram algo abjeto, horrível, sem sentido, um assassinato sem razão de ser. Da mesma forma com que Voltaire ridicularizou filósofos e teólogos, em Micromegas, colocando um extraterrestre para tentar entender as idéias dos minúsculos seres humanos com quem travou contato, é trivial para nós, alienígenas à cultura de Pamplona, desqualificar as touradas. "Uma multidão de animais assistindo e vibrando com um animal de sua espécie assassinando outro animal, de outra espécie, sem motivos" é o que diríamos nós, os alienígenas. É fácil. Estamos de fora, ao mesmo tempo em que nos abrigamos confortavelmente debaixo da amplamente segura correção das idéias de proteção e respeito aos outros animais, à natureza e ao meio-ambiente.
Ler Hemingway, sua descrição belíssima da arte do toureiro, da fiesta de Pamplona e da afición de seus amantes, complica tudo. Se a familiaridade nunca deve servir de justificativa, a distância também tem sérias dificuldades para apreender a misteriosa, talvez irracionalizável, afición humana pelas coisas mais improváveis e absurdas.


Páginas 140-2 de O Sol Também se Levanta:
Montoya pôs a mão no meu ombro.
- Vejo-o lá.
Sorriu novamente. Sorria sempre, como se as touradas tivessem um sentido especial para nós ambos, como se houvesse um segredo muito chocante, mas bastante profundo, que ambos conhecíamos. Sorria sempre, como se nesse segredo houvesse algo de obsceno para os outros, porém muito compreensível para nós. Não se deve divulgar um segredo entre pessoas que não compreenderiam.
- Seu amigo também é aficionado?
Montoya sorriu para Bill.
- Sim, veio de Nova York para ver os San Fermines.
- Realmente? - Montoya mostrou um ceticismo polido.
- Mas não tão aficionado quanto o senhor.
Pôs novamente a mão sobre meu ombro, constrangido.
- Sim - disse eu. - É um verdadeiro aficionado.
- Mas não aficionado como o senhor.
Afición significa paixão. Um aficionado é aquele que gosta apaixonadamente das touradas. Todos os bons toureiros iam para o Hotel Montoya. Isto é, os verdadeiramente possuídos pela afición. Os toureiros "homens de negócios" vinham possivelmente uma vez, mas não voltavam. Os bons vinham todos os anos. Montoya tinha as fotografias deles em seu quarto. As fotografias eram dedicadas a Juanito Montoya ou à sua irmã.
As fotografias dos toureiros nos quais Montoya acreditava realmente eram emolduradas; quanto às dos que não tinham afición, Montoya as conservava numa gaveta de sua secretária. Tinha geralmente dedicatórias muito lisonjeiras, porém nada significavam. Um dia ele tirou todas e jogou-as na cesta de papéis. Não as queria junto de si.
Falávamos sempre de touros e toureiros. Havia vários anos que eu me hospedava no Hotel Montoya. Nunca conversávamos muito tempo de cada vez. Era simplesmente o prazer de descobrir nossas impressões recíprocas. Chegavam homens de cidades distantes, e antes de deixar Pamplona paravam alguns minutos para conversar com Montoya sobre touros. Esses eram aficionados e tinham sempre certeza de conseguir quartos, mesmo com o hotel lotado. Montoya apresentou-me a alguns. Mostravam-se geralmente polidos no início; e depois, quando sabiam que eu era americano, achavam engraçado. Supunha-se, por assim dizer, de antemão, que um americano não podia ter afición. Talvez a simulasse ou a confundisse com entusiasmo, mas não podia senti-la realmente. Quando viam que eu possuía afición - e para isso não era preciso senha nem perguntas preparadas com antecedência e era antes uma espécie de exame oral, espiritual, com as questões sempre na defensiva e nunca aparentes -, tinham o mesmo gesto de pôr a mão sobre o ombro da gente, ou um mero buen hombre. Mas quase sempre havia contato físico. Pareciam ter necessidade de tocar, para ter certeza.
Montoya desculpava tudo num toureiro que tivesse afición. Desculpava os ataques de nervos, o pânico, os erros inexplicáveis, toda a sorte de lapsos. Em suma, àquele que possuía afición, Montoya perdoava tudo. Perdoou-me imediatamente por todos os meus amigos. Sem dizer coisa alguma, considerava-os simplesmente como algo um pouco vergonhoso entre nós, como o ventre rasgado dos cavalos, nas touradas.


26 de fevereiro de 2009

Trechos - parte 2 (contato)


Pouco antes de toparem com um pesadelo e trazê-lo inadvertidamente para dentro de sua própria nave, três humanos observam um engenho alienígena, outra espaçonave, fonte de um misterioso sinal de socorro ou alerta. Foi aí que

Dallas se deu conta de quão pequeno o barco espacial o tornava. A ele e aos outros. E não só fisicamente, embora o arco majestoso, desmesurado os reduzisse - pobres bichos da terra - a insetos; mas insignificantes também de um ponto de vista cósmico. A humanidade sabia ainda muito pouco do universo e apenas explorara uma fração mínima de um só setor.
Uma coisa é especular ao telescópio sobre o que poderá esconder-se na imensidão dos céus. Outra, fazê-lo no isolamento de um pequeno argueiro de mundo como aquele, confrontados por uma nave de manufatura alienígena, que mais parecia uma excrescência animal que um engenho familiar, maneiro, feito para superar leis naturais da física.
Isso, admitiu o capitão, era o que mais o perturbava acerca da nave sinistrada. Se se conformasse às linhas habituais, se fosse feita de material conhecido, não pareceria tão assustadora. E não punha tais sentimentos à conta de xenofobia. No fundo, não esperara que aquela coisa alienígena fosse tão alienígena assim...

Alan Dean Foster, Alien, 1979, p. 66. Altamente devorável, por $3lão no sebo. Tão bom quanto o filme.

24 de fevereiro de 2009

15 (f*cking) Step

No lugar da batida eletrônica, uns 15 percussionistas. Uma pancada de metais faz as vezes do baixo e do sintetizador. Thom Yorke e Johnny Greenwood no que fazem de melhor.

Eis uma 15 Step fantástica.




Uma versão com áudio (muito) superior pode ser encontrada abaixo - sem o video, porém.



Falta só um mês pro show.

21 de fevereiro de 2009

Trechos - parte 1

Como a vontade de ler é infinitamente maior do que a de escrever, de hoje em diante vão começar a pipocar alguns trechos que, acho eu, farão com que este blog volte a ter alguma serventia a vocês, 17 milhões de leitores. Vou poupá-los de reflexões minhas. Os textos serão jogados crus, aqui. Façam bom proveito, se possível.

O primeiro excerto é da apresentação a um artigo de Donna Haraway, "Manifesto Ciborgue", sobre nossa relação com as tecnologias. O texto é um marco do pensamento pós-moderno, feminista, mas é complicado e chato de doer. A apresentação, do jornalista britânico Hari Hunzru, é bem melhor. Quer dizer: é mais fácil de entender e não deixa de ser interessante por si mesmo.

Desde que Descartes anunciou que 'eu penso, logo existo', o mundo ocidental tem tido uma obsessão pouco sadia com a condição do eu. Do consumidor individual ao solitário mal compreendido, ensinam-se os cidadãos modernos a se pensarem como seres que existem no interior de suas cabeças, como seres que apenas secundariamente entram em contato com o resto do mundo. Desenhe um círculo. Dentro: eu. Fora: o mundo. Os filósofos se angustiam com a questão de determinar se existe qualquer realidade fora daquele círculo. Eles tem um termo técnico para suas neuroses - ceticismo - e fazem acrobacias intelectuais para dissipá-lo. Em um mundo feito de dúvidas, cruzar aquela fronteira torna-se um problema real, isto para não falar da questão de se romper o isolamento relativamente a outras pessoas.

Hari Kunzru, "'Você é um ciborgue': um encontro com Donna Haraway" in: Antropologia do Ciborgue: as vertigens do pós-moderno. Belo Horizonte: Autêntica, 2000.

Saúde!

Com um pouquinho de atraso - invariável atraso -, aqui vai uma homenagem ao sujeito responsável pela mais espantosa notícia do começo do ano. 

Que posse de Obama, que nada. Sasqua vai ser pai. 


A homenagem propriamente dita está mais pro final do vídeo. 

O tempo passa, o tempo voa, e do jeito que vai, daqui a pouco é o(a) pequeno(a) sasquinha aprendendo a usar um lendário instrumento de alcoolização expressa.

Vídeo via Idelber.

3 de fevereiro de 2009

O nascimento de Israel

Um post recente do Pedro Doria traz um excelente documentário da BCC, do ano passado, The Birth of Israel. Uma hora de história muito bem contada pelo editor da emissora britânica no Oriente Médio, Jeremy Bowen.



BBC The Birth of Israel 2008 legendado from olhocosmico on Vimeo.

C&T no desenvolvimento nacional

Precisei escrever o artigo abaixo, de 3 laudas (o que dá, na cotação atual, 4 prosts, 9 mansells ou 0,4 sennas) como inscrição para um curso de jornalismo científico. Como o blog anda meio às moscas, não custa nada encher uma linguicinha com idéias sobre o papel da ciência e da tecnologia no desenvolvimento do país.

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Vivemos os últimos anos da primeira década do século 21, um momento na história em que certamente é considerada óbvia e inquestionável a afirmação de que a ciência e a tecnologia são protagonistas do desenvolvimento das nações modernas. E justificadamente: o século passado foi prodigioso em exemplos que confirmam essa assertiva. Os últimos cento e poucos anos testemunharam um avanço tecnológico vertiginoso - impulsionado por algumas das mais profundas revoluções da história da ciência - que propiciou melhorias sem precedentes em virtualmente todos os aspectos da vida humana. O desenvolvimento da medicina e das técnicas de saneamento desencadeou uma diminuição acentuada dos números de mortalidade infantil e um aumento considerável na expectativa de vida. Os meios de transporte tornaram-se mais rápidos, seguros e confortáveis, facilitando inclusive a produção de bens de consumo e o comércio. As tecnologias da informação, fenômeno de desenvolvimento recente, revolucionaram a forma como produzimos e compartilhamos conhecimento, informação e arte. A construção de máquinas como o Grande Colisor de Hádrons e telescópios espaciais como o Hubble, Spitzer e Kepler, dá-nos a chance de saber um pouco mais sobre o infinitamente pequeno e o assustadoramente grande, abrindo possibilidades de interpretação filosófica do universo e da própria vida humana com as quais ainda só podemos sonhar. A lista é longa. Páginas e mais páginas poderiam ser preenchidas com exemplos similares que, no entanto, ainda não respondem satisfatoriamente à pergunta: que papel ciência e tecnologia (C&T) podem desempenhar no desenvolvimento nacional e, em especial, no desenvolvimento de um país com as peculiaridades sociais e econômicas do Brasil?

A resposta pode começar a surgir de um aparente dilema que vez ou outra aparece, especialmente nos meios de comunicação: o Brasil é um país com tantos problemas sociais graves que a destinação de recursos públicos para C&T pode configurar-se como supérfluo frente às necessidades mais prementes e imediatas da sociedade brasileira. Este dilema existe apenas na aparência, e por uma razão muito simples: ciência e tecnologia não apenas são essenciais para a resolução das contradições e desigualdades sociais a longo prazo, como podem mesmo preparar o país para solucionar imediatamente problemas inesperados que, do contrário, continuariam a existir e a contribuir para a estagnação do desenvolvimento. Exemplo claro disso é a atuação do Instituto Agronômico de Campinas (IAC) na década de 1930.

Um dos efeitos da crise econômica mundial de 1929 no Brasil foi a quebra do setor cafeeiro, uma das locomotivas da economia nacional. Entrementes, a Seção de Algodão do IAC, criada em 1923, vinha realizando pesquisas para a adaptação de variedades do algodão trazidas dos Estados Unidos e, como narra o historiador da ciência Shozo Motoyama, “após quase dez anos de experimentação, esse programa conseguiu êxito em adaptar as variedades mais promissoras às condições climáticas da região Sul” . As pesquisas do IAC, alvo de interesse genuíno por parte de pesquisadores norte-americanos, foram centrais para a então surpreendente cotonicultura brasileira, responsável por salvar a economia paulista da estagnação.

Esse tipo de pesquisa, voltada para o desenvolvimento da agricultura, continua a desempenhar até hoje um papel importante no cenário brasileiro. A Embrapa Cerrados - braço da Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária, órgão do Ministério da Agricultura –, por exemplo, vem se dedicando com sucesso na obtenção de conhecimento e melhorias técnicas para a exploração agrícola dos cerrados brasileiros. Se os objetivos elencados no 4º plano diretor (vigente de 2008 a 2011) do órgão forem minimamente atingidos, estaremos diante de uma ótima contribuição da C&T para o desenvolvimento ambientalmente sustentável da agricultura brasileira, com atenção para a diminuição da desigualdade social nas regiões estudadas. Outro exemplo de pesquisa brasileira voltada para a agricultura visando resultados práticos não muito longínquos foi o sequenciamento do material genético da Xylella Fastidiosa, bactéria causadora da clorose variegada dos citrus, a “praga do amarelinho” que causa perdas de cem milhões de dólares anuais aos citricultores paulistas . Financiada pela Fapesp, a pesquisa ganhou especial atenção da comunidade científica internacional e das principais revistas científicas do mundo, inclusive ganhando capa e editorial da revista Nature. O trabalho abre possibilidades de acabar com a praga pela manipulação genética da bactéria.

Estes exemplos mostram, de maneira até bastante clara, a importância da C&T para o desenvolvimento do setor produtivo, com aplicabilidade mais ou menos no curto prazo e com resultados perceptíveis aos olhos do público. Trata-se de algumas das principais contribuições da C&T, pelo menos no que se refere a sua aplicação prática na resolução de problemas do presente, para o desenvolvimento nacional. Devo, no entanto, ressaltar que seria um erro satisfazer-se com uma visão meramente utilitarista da ciência. Sua importância não reside apenas naquilo que pode fazer por nós agora, em quantos milhões de dólares pode salvar hoje ou quantas pessoas alimentará amanhã. Porque pensar o contrário disso é desconsiderar a beleza e a importância do aspecto imaginativo da ciência. O desenvolvimento de um país não parte somente de sua produção material. Ciência e tecnologia devem servir, também, como instrumento da liberdade de pensamento e de imaginação das pessoas - é neste aspecto que a ciência se aproxima da arte, que contribui também, à sua maneira, para que um país se desenvolva nos mais variados sentidos da realidade.

Não se está defendendo aqui, contudo, a visão da C&T como panacéia do desenvolvimento nacional. Ciência e tecnologia são apenas alguns dos principais elementos – essenciais, é verdade – que podem levar ao desenvolvimento brasileiro. O papel desempenhado pela C&T depende também da conjuntura econômica, política e social; depende de como serão levadas a cabo políticas de educação, de redução das desigualdades sociais, de incentivo ao setor produtivo. Sociedade e ciência estão, neste sentido, numa intrincada relação de interdependência.

Além de estar longe de ser a panacéia que alguns otimistas podem imaginar, a ciência também pode ter suas responsabilidades nos próprios problemas que afligem o mundo e, por conseqüência, o Brasil. É flagrante, por exemplo, a importância da C&T na consolidação do processo da globalização, de cujas benesses em boa parte podemos desfrutar, ao preço de experimentarmos os silenciosos efeitos negativos da concentração de poder e riquezas pelos países desenvolvidos. Mais perceptível, ainda, é o seu papel na deterioração do meio-ambiente, no desenvolvimento da indústria bélica e suas máquinas de matar cada vez mais eficientes, no arsenal atômico das grandes potências.

Entretanto, se a ciência é responsável por encruzilhadas e becos sem saída, ela também pode servir de guia para retomarmos o rumo correto. Em outras palavras, a ciência, capaz de criar mazelas terríveis, é também a mais poderosa ferramenta de questionamento, desconstrução e resolução não apenas destes mesmos problemas mas de grande parte das questões mais importantes que nos aflige, hoje. Trata-se, portanto, de elemento essencial, conjuntamente com a tecnologia, no projeto de desenvolvimento pleno de um país como o Brasil.

__________________

Retirei as citações porque, afinal, isso aqui não é academia. Mas as referências são o site da Embrapa Cerrados e, principalmente, Prelúdio para uma história: ciência e tecnologia no Brasil, organizado por Shozo Motoyama.

22 de janeiro de 2009

and the Oscar goes to...

Eu sabia que, cedo ou tarde, o reconhecimento viria.



Al Pacino who?

Edit 3 de fev.: aparentemente, há alguém em Hollywood afim de me sacanear. O filme Milk "é a cinebiografia de Harvey Milk (1930-1978), político norte-americano que assumiu sua homossexualidade publicamente nos anos 70, sendo o primeiro homossexual assumido a ser eleito a um cargo público nos Estados Unidos." LOL!!

PS: "not that there´s anything wrong with that!" (Seinfeld, Jerry, 1994), que fique claro.

16 de janeiro de 2009

Mar da tranquilidade

"Tudo mata tudo de uma maneira ou de outra. Pescar mata-me tal como me faz viver"
Santiago, o pescador
Ernest Hemingway, O Velho e o Mar, 1952.



Uma conexão inesperada une dois livros que li, esses dias, por acaso. Primeiro, escolhi um do Hemingway porque queria ler Hemingway, mas como não sabia por qual começar, decidi pelo menor deles. Depois, trombei com um livro do Amyr Klink.

Vocês conhecem o Amyr Klink. Diz ele que seus tios do Líbano lhe perguntaram: "Mas, filho, para que serve uma viagem dessas?". A viagem era dar uma volta na Terra pelo extremo sul do planeta, beirando a Antártida. Amyr conta essa história em Mar sem fim, onde também responde à pergunta dos tios assim:

"Precisamente para nada, e não há de fato nada de útil em viajar meses a fio para simplesmente voltar ao ponto de partida. Porém a inútil circunavegação que eu completara era a minha realização mais deliciosa. Difícil explicar. Há montanhas de inutilidades na história da humanidade, atos e obras que se tornaram importantes pelo simples fato de estarem completos, pelo modo como foram feitos, pelo símbolo que representaram."

Isso ele escreve lá pela página 205, mas o livro todo é uma resposta aos tios libaneses e ao leitor que faz a mesma indagação a cada agrura relatada por Amyr e antevê a própria resposta em toda descrição de sensação de felicidade e paz com o mundo.

Peguei o Mar sem fim nessas ocasiões em que o livro está lá dando sopa e você o aborda sem intenções maiores do que uma corrida de olho nas figuras. Mas o diabo é muito bom. Iniciada a leitura (em qualquer trecho), é quase impossível largá-lo, de tão bem escrito. Simples e honestamente bem escrito. É um culto à simplicidade, o livro. E é tão recomendável para quem tem, martelando a cabeça, grandes questões relacionadas à palavra sentido quanto o outro livro que li por esses dias e que também tem o mar no título e como grande palco, O Velho e o Mar.

Pra se ler de uma tacada, esse livro de Ernest Hemingway também é de uma simplicidade atordoante, cuidadosamente áspera. Hemingway escreve estritamente o necessário para pintar o quadro de simplicidade e rusticidade da vida do velho pescador, ao mesmo tempo em que penetra em suas elaborações sobre o mundo, a natureza e o mar. A história de Santiago e o maior embate de sua vida contra um peixe colossal rende um estranho sentimento desolador mas não completamente pessimista sobre o quê e porquê raios estamos vivendo nossas vidas e fazendo nossas coisas. O velho de Hemingway realiza um feito heróico sem que nunca houvesse passado pela sua cabeça ser um herói: ele queria apenas pescar, seu interesse era tão somente a luta contra o peixe. Ele vence a luta mas, quando o mar acaba sendo-lhe cruel e não lhe dá saídas, Santiago resigna-se, serenamente, à sua limitação perante a natureza.

A principal consonância entre Klink e Hemingway é a sensação de que aquilo que chamamos de sentido seja, talvez, apenas o fazer por querer fazer ou atingir um objetivo simplesmente por atingí-lo, em contraste com a busca idealista por um grande sentido das coisas ou sua versão secularizada, a do "sucesso profissional" e suas batalhas vencidas e obstáculos derrubados. Klink fala apenas de um prazer "de ter feito e visto o que fiz e vi", um "profundo prazer de poder resumir minha maior viagem num simples círculo de papel". A serena desistência quanto à procura do grande sentido é uma corrente profunda das duas obras e não é por acaso que ambas se encontrem na natureza implacável e impiedosa, vastidão sem referências, do mar.

1 de dezembro de 2008

O curriculum da Dilma

Dia desses recebi o seguinte e-mail (daqueles encaminhados, do tipo mais gracioso e bem-vindo: o tal de "Fwd"):

Sent: Wednesday, November 26, 2008 9:09 AM
Subject: Fw: CURRICULO DA DILMA -
A CANDIDATA DO LULA PARA O SEU LUGAR.....
BEM QUE FALAM QUE AQUI NA ÉPOCA DA
COLONIZAÇÃO FORAM ENVIADOS VÁRIAS CLASSES SOCIAIS, PRINCIPALMENTE
BANDIDOS...

POR ESTAS E OUTRAS ISTO TEM QUE SER
REPASSADO...REPASSADO...REPASSADO...REPASSADO...MANDA PRÁ
FRENTE...

(JÁ IMAGINARAM ISTO COMO
PRESIDENTE????????????????????????)


Este "Forward", escrito exatamente desse jeito elegante e em caixa alta, vinha com o seguinte anexo:

O tal de curriculum da Dilma.

A minha resposta (costumo responder aos "Fwd"; coisa mais indelicada de se fazer):

Ex-guerrilheira, militante contra o regime militar, mulher fantástica. Só por
ter atacado a casa do Adhemar de Barros já vale o voto.

Sim, adoraria ela como presidente da república.

[remetente], se for pra ficar mandando emails reacionários, "me inclua fora
dessa".

Abraços

Danilo


LOL. Eu si divirto com essa gente! Pelo menos o remetente não pode reclamar de nada: cá está repassada a mensagem.

26 de novembro de 2008

Fascista? Eu?

Num dos seus Cinco Escritos Morais, Umberto Eco se propõe a analisar o problema do fascismo tal como ele poderia se apresentar de maneira camuflada nos dias de hoje ou, para dizer as palavras dele, do problema de se identificar um "fascismo eterno". Mais adiante, transcrevo um trecho interessante deste ótimo ensaio e faço uma pergunta que mira um problema aparentemente distante. Mas antes, um esclarecimento.

O nazismo, diz Eco, assim como o stalinismo, tem um núcleo filosófico e ideológico bem delineado, um programa político claramente definido. O fascismo, surgido na Itália de Mussolini, ao contrário, é uma salada mal e porcamente alicerçada na retórica inflamada de seu líder. Apesar dessas diferenças, o termo se tornou moeda corrente para designar qualquer tipo de totalitarismo (categoria por si só problemática e já largamente questionada). Isso é um problema óbvio, na medida em que o fascismo é um fenômeno incoerente e desconjuntado. Umberto Eco encara o abacaxi, nesse texto, delineando algumas características que denunciariam a presença do tal de "fascismo eterno" ou "Ur-Fascismo", como ele o chama. Ou seja: tudo aquilo que pra nós, hoje, cheira a fascismo, mesmo que não se refira precisamente ao fenômeno histórico circunscrito à Itália dos anos 30.

Eis o trecho:

A primeira característica de um Ur-Fascismo é o culto da tradição. O tradicionalismo é mais velho do que o fascismo. Não somente foi típico do pensamento contra-reformista católico depois da Revolução Francesa, mas nasceu no final da idade helenística como uma reação ao racionalismo grego clássico.

Na bacia do Mediterrâneo, povos de religiões diversas (todas aceitas com indulgências pelo Panteon romano) começaram a sonhar com uma revelação recebida na aurora da história humana. Essa revelação permaneceu longo tempo escondida sob o véu de línguas então esquecidas. Havia sido confiada aos hieróglifos egípcios, às runas dos celtas, aos textos sacros, ainda desconhecidos, das religiões asiáticas.

Essa nova cultura tinha que ser sincretista. 'Sincretismo' não é somente, como indicam os dicionários, a combinação de formas diversas de crenças ou práticas. Uma combinação assim deve tolerar contradições. Todas as mensagens originais contêm um germe de sabedoria e, quando parecem dizer coisas diferentes ou incompatíveis, é apenas porque todas aludem, alegoricamente, a alguma verdade primitiva.

Como consequência, não pode existir avanço do saber. A verdade já foi anunciada de uma vez por todas, e só podemos continuar a interpretar sua obscura mensagem. É suficiente observar o ideário de qualquer movimento fascista para encontrar os principais pensadores tradicionalistas. A gnose nazista nutria-se de elementos tradicionalistas, sincretistas, ocultos. A mais importante fonte teórica da nova direita italiana, Julius Evola, misturava o Graal com os Protocolos dos Sábios de Sion, a alquimia com o Sacro Império Romano. [...]

Se remexerem nas prateleiras que nas livrarias americanas trazem a indicação "New Age", irão encontrar até mesmo Santo Agostinho e, que eu saiba, ele não era fascista. Mas o próprio fato de juntar Santo Agostinho e Stonehenge, isto é um sintoma do Ur-Fascismo.


Vivemos num tempo em que expressões como procurar ou descobrir a verdade estão completamente fora de moda. A mera menção a isso é capaz de arrepiar os intelectuais mais sensíveis, desencadear reações de desdém a algo visto como ultrapassado, até mesmo perigoso. Não é raro nos depararmos a denominações como o "fascismo da ciência". Vivemos o kitsch da multiplicidade de interpretações, igualmente válidas de acordo com os sistemas de representações dos quais emanam, e dificilmente postas em situação de embate, em que algumas inevitavelmente se sairiam melhores do que outras.

A pergunta é: qual é a diferença prática entre "uma verdade que já foi anunciada de uma vez por todas" e que "só podemos continuar a interpretar sua obscura mensagem" e a afirmação da completa inexistência da verdade acompanhada da desistência em procurá-la?

E só para provocar: de que lado está o fascismo?

10 de novembro de 2008

Prometendo e cumprindo

Na campanha, Obama disse que haveria abertura para diálogo com lideranças "hostis" aos Estados Unidos.

No Talking Points Memo, a tirada do dia é de um leitor: "eu não acredito que o Obama já foi se encontrar com um líder mundial impopular e agressivo sem exigir pré-condições."

Obama se encontra com George W. Bush hoje.

5 de novembro de 2008

Pálido´s Live Blogging das Eleições Norte-Americanas (ou "Vai Obama!")

Este post é resultado de live blogging: leia-o de baixo pra cima.

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03:25 - Com o slogan pop-grudento-mas-ainda-assim-bonito-e-convincente "Yes We Can", Barack Obama encerra seu discurso de aceitação da presidência dos EUA. Obama retomou o discurso da união, da tolerância, de uma só América (que marcou sua campanha presidencial) e ao mesmo tempo voltou a bater na tecla da mudança (que foi tão decisiva nas primárias contra Hillary). Nenhum conteúdo racial foi explicitamente explorado, mas nem precisava. Era um negro ali, falando como presidente eleito da maior potência militar e econômica do mundo. A quantidade de símbolos impressos por essa eleição é incontável. O meu preferido é a mais do que provável vitória de Obama na Carolina do Norte, estado racista e segregacionista por excelência, América das mais profundas - tal qual sua metade do sul, que há exatos 60 anos viu um de seus produtos políticos mais abjetos ser aplaudido ao dizer a plenos pulmões a seguinte frase: "I wanna tell you, ladies and gentlemen, that there's not enough troops in the army to force the southern people to break down segregation and admit the nigra race into our theaters, into our swimming pools, into our homes, and into our churches." Eu queria que esse palhaço, Thurmond, pudesse ter visto o que eu vi hoje pela internet: a igreja de King lotada com gente de tudo quanto é cor cantando, festejando a eleição de um Chefe de Estado negro. Queria poder dizê-lo: ei, clown, there is a "nigra" in the Oval Office.

Isso me faria feliz.

Mas já valeu. Foi ótimo registrar todo este momento.

03:06 - Rapaz! Enquanto o cara fala que "não há estados azuis e estados vermelhos, só há os Estados Unidos da América", Jesse Jackson aparece chorando como criança no meio do público. Que momento! A frase pode claramente funcionar como analogia a "não há pretos e brancos, só há seres humanos". O tempo acaba de mijar na lápide de Strom Thurmond e seu "Segregation Now, Segregation Forever!" e toda a visão de mundo que isso representa.

02:54 - Obama vira na Carolina do Norte, e na reta final da apuração lidera com quase 30.000 votos num universo de mais 4.000.000 de votantes. Em Indiana, 8.000 votos na frente de McCain faltando 3% das urnas serem apuradas. Ele ainda tem chances de virar até o vermelhinho Missouri. E é nesse pé que o homem vai começar a falar agora em Chicago. Vamos ver.

02:45 - Cacilda! Uma inexplicável multidão agora aparece agitando suas bandeirinhas respondendo ao lema Yes We Can de Obama em frente a um cenário de prédios e luzes apropriados a um show oitentista de Jean Michel Jarre. Na CNN, ao vivo.

02:39 - Mais um fundamental símbolo acaba de ser agregado à histórica vitória de Obama: a Flórida, ah, a Flórida, é dele, dizem a Associated Press e a NBC. Gol de bicicleta, na gaveta. A torcida delira. Nevada, outro estado Bush, também já debandou para o lado de Obama.

02:30 - McCain faz, nesse momento, um discurso de concessão histórico em frente ao seu público em Phoenix, Arizona, sua terra. McCain falou bem, falou bonito, destacou a importância dessa eleição para os "afro-americanos". Quando ele deu os parabéns ao Obama, a multidão vaiou. É a mesma gente que elegeu a turma que agora sai escorraçada da Casa Branca, uma gente que apoiou uma guerra insana, uma política de benefício aos ricos e às grandes corporações. Os Estados Unidos são uma coisa de louco. É uma terra que reune o que de melhor e o que de pior há na humanidade. E assim que escrevo, a multidão raivosa aplaude quando Sarah Palin sai da boca de McCain e vaia quando o velho senador toca no nome de Obama. Era pra ser uma concessão elegante. McCain bem que tentou. Eu gostaria que essa turba fosse colocada na linha de frente contra jihadistas iraquianos insanos. Eles se merecem.

02:19 - No site do NYT, em letras enormes: "OBAMA - Racial Barrier Falls in Heavy Turnout". E embaixo, "McCain Falls as Voters Reject Bush Legacy". O que dizer?

02:11 - Enquanto eu pensava nisso, a CNN mostra um lugar enorme, uma igreja protestante, e uma multidão nela cantando uma música bonita, quase toda ela formada por negros, mas com alguns brancos também, e todos eles abraçados, cantando aquela música. É a igreja de Martin Luther King, em Atlanta, Georgia, diz o âncora da CNN. História com H maiúsculo existe sim - às favas com Paul Veyne - e eu estou sem palavras aqui.

02:06 - Apita o árbitro! As redes aclamam Barack Obama o novo presidente dos Estados Unidos. Um negro. A História, aquela grandiosa, com H maiúsculo - e que, no fundo, no fundo, não existe - está sendo escrita na frente dos nossos olhos. Uau.

02:04 - Dória: "Enquanto isso, no ComedyCentral, um ator negro que fala como rapper está polindo a bancada do programa Colbert Report. Se prepara para substituí-lo pelos próximos 4 anos. E Colbert está desesperado. =)" Assistam este vídeo e vejam se esse cara, Colbert, não é corajoso.

01:58 - O quê? Obama virou a eleição no finalzinho em Indiana? No estado em que Bush enfiou 60x39 no Kerry? É. O mapa do NYT mostra que com 92% das urnas apuradas, Obama tem uma vantagem de 8.000 votos por lá, num universo de dois milhões e meio de eleitores. Isso está começando a ficar engraçado. Indiana, pelo jeito, é mais do que as 500 milhas, ehehe.

01:55 - Josh, do TPM, diz que a Fox News confirmou Obama como vencedor na Virginia. O mapa do NYT mostra 92% das urnas apuradas e uma crescente vantagem de Obama, agora na casa dos quase 60.000 votos. Golaço, golaço.

01:47 - CNN: 207 x 135 para Obama no Colégio Eleitoral. A costa oeste inteira é dele e ainda nem foi contabilizada. Vamos contar: Califórnia - 55 votos, Oregon - 7 votos, Washington - 11 votos. 207 + 73 = 280. Finish.

01:41 - Argh, McCain ultrapassa Glock, quer dizer, Obama, na última curva da Carolina do Norte e agora lidera por 16.000 votos num universo de 3 milhões com 86% das urnas apuradas. Esse é daqueles golzinhos do time visitante que esfria a torcida quando o time da casa tá vencendo por 5 a 0.

01:33 - A questão não é mais saber quem será o novo presidente dos Estados Unidos, mas em quais condições vai ser a derrota do GOP: se de goleada humilhante ou de lavada acachapante. Obama se consolida com mais de 40.000 votos de dianteira na Virginia, 170.000 na Flórida (ah, a Flórida, aquela Flórida em que Bush precisou de cinco Castrillis na Suprema Corte pra parar a recontagem que favoreceria Gore, fora os outros absurdos).

01:25 - Diz o Pedro Dória que Stephen Colbert declarou que "esta eleição não terminou enquanto a Suprema Corte não se manifestar". Colbert é um gênio! Bem, enquanto isso, as redes usam sua poderosa bola de cristal para projetar a vitória de McCain no Texas. E eu uso meus poderes extra-sensoriais para prever que daqui 1 minuto terão se passado sessenta segundos.

01:16 - Pedro Dória informa que "A melhor cobertura na tevê norte-americana, neste momento, é do Comedy Central. Na bancada, John Stewart e Steven Colbert. Colbert (que faz o personagem de um comentarista reacionário) fala de tudo menos de eleições. John Stewart se vira e diz: Steven, você tem que enfrentar a realidade. ‘Mas hoje mais duas velhinhas fizeram 100 anos! Isso é notícia!’ Daí Stewart olha duro. ‘Notícias do mundo animal, olha que bichinhos fantásticos trouxemos…’" Puxem o "Daily Show" do Stewart e o "Colbert Report" no eMule pra terem uma idéia do que o Dória está contando. Ou melhor, entrem no site e vejam os programas passados. Esses caras da Comedy Central são o que há. Alguém aí afim de fazer uma doação de urgência pra eu assinar esse canal? Que raiva, ser professor às vezes é uma coisa que joga contra a sua formação. Me ajudem a ter Comedy Central, por favor!

01:12 - Iowa vai para Obama, diz a CNN. Outro estado Bush em 2004 que vai para os democratas. Mas a força de Obama lá acabou tornando esse outrora BG state num estado democrata sólido muito antes de 4 de novembro. Os democratas começam a tocar a bola, fazendo o tempo passar e a torcida começa a gritar olé.

01:05 - 83% dos votos apurados na Virgínia e Obama acaba de ultrapassar McCain em 12.000 votos! As urnas de Richmond devem ter chegado. E o pessoal começa a dar Duplos Twists Carpados nas ruas de Chicago. Obama mantém vantagem de 40.000 votos na Carolina do Norte (isso já é como a Ponte vencer a Libertadores. Invicta). A vantagem de Obama diminuiu um pouco na Flórida assim que a apuração vai chegando ao final. Será que McCain vai marcar um Battleground state de honra?

01:00 - O TPM acaba de informar que o Notícias das Montanhas Rochosas (Rocky Mountain News, mas fica mais bonito em português) chamou o Colorado para Obama. As grandes redes devem confirmar isso logo. O Colorado é outro outrora forte estado Bush a pular a cerca. Mas também isso já era esperado.

00:57 - Idelber Avelar decepciona e não consegue tornar a Louisiana um estado azul. Mas ok, um democrata vencer a Louisiana é como a Ponte vencer o Barcelona completo. No Camp Nou.

00:51 - CNN vai dando 199 x 78 para Obama. E acaba de projetar o Novo México para o negão. Já era mais ou menos esperado, mas o NM era um BG state no começo das eleições, um estado que votou Gore em 2000 por apenas 500 e poucos votos e votou Bush (também por pouco) em 2004! Faltam 71 votos no Colégio. Se não tiver nenhum Timo Glock dando sopa pro McCain na última curva, Obama fecha a conta daqui a pouco. Pois a Califórnia e seus 55 votos estariam no papo dos democratas mesmo se eles lançassem a Xuxa candidata a presidente dos EUA.

00:45 - Pena, mas parece que Obama não vai levar Indiana por pouco (3 pontos). Neste estado Bush humilhou Kerry com uma lavada de 20 pontos de diferença. Já foi uma vitória transformá-lo em Battleground State (vou começar a chamá-los de BG states, graças ao WoW). Seria humilhante demais vencê-lo. Mas, hei, que serventia tem Indiana a não ser a de abrigar as 500 Milhas de Indianápolis?

00:40 - Os resultados dos condados pró-Obama (mais populosos, mais urbanos, mais inteligentes, onde as pessoas comem de garfo e sabem localizar a França no mapa-mundi) começam a chegar de Virginia e a eleição por lá está absolutamente empatada. Talvez haja uma virada, embora o NYT esteja deixando o estado ainda pintado de vermelho. Essa vitória na Virginia seria histórica e teria um peso político enorme, já que a Virginia vota republicano desde o Paleolítico. O mesmo pode acontecer com a Carolina do Norte.

00:35 - CNN também acaba de confirmar Ohio para Obama. "Ai, ai, ai, ai ai, tá chegando a hora..." As incógnitas ainda são a Flórida e a Virgínia. Em VA, Obama vinha liderando por muito as pesquisas, mas os resultados estão sendo desfavoráveis. A explicação pode estar no mapa do NYT: os condados do nordeste, mais populosos e urbanos, estão demorando mais pra reportar.

00:32 - Josh do TPM: "MSNBC and Fox call Ohio for Obama. [...] For the moment, I'm not sure what else I have to say." É, parece que se não houver um Timo Glock na última curva, McCain pode começar a fazer aquele discurso congratulatório do derrotado.

00:26 - CNN vai dando 174 a 69 para Obama no Colégio Eleitoral, mas contando basicamente os estados que já eram praticamente favas contadas, exceto a Pennsylvania. E agora, OPA!! A Fox News acaba de dar Ohio para Obama. Se o Diário Oficial do Governo Bush já deu Ohio pros democratas, então o povo em Chicago já deve estar dando cambalhotas. E a MSNBC também acaba de confirmar Ohio para Obama. McCain sobe no telhado.

00:21 - NYT: Flórida com 50% dos votos apurados. Obama vai aumentando pra quase 200.000 sua vantagem e lidera com 2.870.000 votos. O Pollster deu 48.8 x 47.1 para Obama como projeção. Este é o estado das fraudes de 2000, então o negócio é aguardar. Se McCain perder aqui ou em Ohio, adeus.

00:15 - Ok, há um tempinho as redes deram a Pennsylvania para Obama. Este é um dos três Battleground States mais decisivos. Os outros são Ohio e Flórida. A Pennsylvania já era mais ou menos esperada nas contas de Obama. Ohio e Flórida vêm dando resultados positivos para Obama, mas nada que permita às redes jogá-los no balaio do negão ainda.

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Meia-noite desta terça pra quarta-feira e aquilo que acompanhei com muita atenção e ansiedade desde janeiro deste ano chega ao clímax: as eleições dos Estados Unidos.

Vou escrevendo aqui enquanto as coisas acontecem. Este não é um blog com grande audiência, e o live blogging descompromissado de hoje não tem outro sentido de ser o de... eu mesmo acompanhar os resultados e registrar o que está sendo reportado na internet, nos melhores blogs do ramo. Se você, por acaso, tiver caído aqui no Pálido agora e quiser cobertura profissional de primeira, corra para o Talking Points Memo, Politico ou Pollster. Em português, temos o Idelber e o Dória. E dos grandes, o site do NYT é o que tem o melhor mapa para acompanhar a apuração, com reports de cada um dos condados.

2 de novembro de 2008

Notas sobre o Interlagazo

Porque pior do que perder um campeonato assim só levando 5 a 0 na final.

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Glock é o Barbosa da Fórmula 1.

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Diz o Flávio Gomes que Paulo Cobos, da Folha, falou com Timo Glock logo depois da corrida: “Acho que os brasileiros não vão me tratar muito bem daqui para a frente…”.

É engraçado como alguns personagens são criados pela história por puro acaso. Daqui a 50 anos, quando alguém for lembrar de alguma extraordinária decisão do esporte, o nome de Glock vai aparecer como aquele que em 2008 tirou o doce da boca das crianças sentadas na beirada das cadeiras - na frente da TV ou nas arquibancadas - torcendo por uma reviravolta quase impossível, que pareceu mais do que provável e que "por causa do Glock" não aconteceu.

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Para o mesmo Paulo Cobos, Glock também disse: “Nem vi quando o cara me passou. Um monte de gente me passou”, disse. “Eu mal conseguia ficar na pista.” Fábio Seixas: "falei com Glock e fui ver o estado dos pneus dele. 'Fizemos uma aposta, mas a chuva apertou muito'. Ele estava com pneus para seco. Que estavam no bagaço, principalmente os do lado direito. Na lona. Não dava para ele, não havia condições."

Glock entrou para a história da Fórmula 1, desse jeito. É engraçado.

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Alguém aí ouviu algo sobre queda de vendas de Corollas no Brasil?

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A elasticidade anal de Lewis Hamilton é impressionante. Há duas voltas do fim, não passava nem agulha ali. Há quinhentos metros do fim, Hamilton poderia ser o passivo da relação com uma baleia jubarte.

No ano passado o rapaz já tinha terminado o campeonato inteiramente cagado, para o mal. Nada mais justo que ele o termine igualmente cagado este ano, para o bem.

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Pensando bem, o final enervante de Interlagos teve um saldo bom: já imaginaram o que o Galvão Bueno faria se Massa tivesse conseguido mais 500 metros de sorte? Eu nem quero tentar pensar nisso.

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Massa, só lamento.

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Fui, e este blog está reativado.

De onde você vem?