22 de abril de 2009

De Machus Ludopedicum

Eu aqui envolto na antropologia estruturalista de Lévi-Strauss (o quê!? quem?!?) enquanto a única verdade universal é destilada, como sempre, na mente ludopédica do grande e inimitável Xico Sá. Texto completo, garçom, com fritas - e me vê mais uma dose de colírio alucinógeno porque hoje é dia de Majestoso:


Diante do sofrimento, digo, quase infarto, deste macho ludopédico na rodada da última quarta-feira, matutava, com a pitomba metafísica chacoalhando na boca: será que as mulheres têm um sacrifício do mesmo porte, tão de graça mas ao mesmo tempo tão de verdade como a nossa maluca devoção pelos times do peito?

A minha costela amada ria do meu estado de nervos. Palmeiras 1x1 Sport. O Leão resistia com apenas dez homens em campo no Palestra Itália. Eu respirava por milagrosos balões de oxigênio. Ufa, fim de jogo, o homem de preto, que fizera de tudo para ajudar o adversário paulista, assopra a latinha. Abro a cerveja do guerreiro justiçado.

Fim de jogo e começo da mesa-rendonda caseira. Que loucura essa dos machos pelo futiba. E o que diabo você, mulher, ganha com isso?

Foi ai que lembrei de uma pesquisa sobre o assunto, que vale repeteco. Coisa animadora para as fêmeas. Repare só: a quantidade de testosterona produzida por um homem fanático aumenta 27,6% quando o seu time do coração triunfa. Mesmo que seja contra o Íbis, considerado historicamente como o pior time do mundo.

É um desses estudos malucos feitos pelos norte-americanos. Neste caso, uma turma de acadêmicas da Universidade da Geórgia.

Sim, as mulheres devem tirar proveito desta pesquisa e aprender com os seus parceiros tudo que sempre quiseram saber sobre tiros de meta, meia ofensivos, escanteios e, queira Deus, até mesmo os mistérios da lei do impedimento _uma das coisas mais enigmáticas para as fêmeas.

Um dado cruel da pesquisa, principalmente naquelas fases capengas dos nossos clubes: nas seguidas derrotas, o "homo-fanaticus" perde um tanto da sua capacidade de produzir hormônios (os mesmos 27,6%) e apresenta-se inapetente para o amor ou o sexo propriamente dito.

Agora, as mulheres, que jamais compreenderam o banzo sartreano dos machos derrotados no futebol, podem entender aqueles domingões tristes e monossilábicos.

O pior é que não adianta nada pedir para um sujeito mudar de time e tornar-se mais vencedor. Mesmo com a promessa de 27,6%  de testosterona-plus, é mais fácil um homem-que-é-homem mudar de sexo do que de clube.

Lévi-Strauss e as interpretações possíveis da realidade

Claude Lévi-Strauss limita a abordagem humana sobre o real da seguinte maneira:

Primeiro, o homem é semelhante ao jogador que, quando se senta à mesa, toma na mão cartas que não inventou, pois o jogo de cartas é um dado da história e da civilização. Em segundo lugar, cada repetição das cartas resulta de uma distribuição contingente entre os jogadores e se faz sem que eles percebam. Há mãos aceitas passivamente mas que cada sociedade, assim como cada jogador, interpreta nos termos de vários sistemas, que podem ser comuns ou particulares: regras de um jogo ou regras de uma tática. E se sabe muito bem que com a mesma mão jogadores diferentes não farão a mesma partida, se bem que não possam, coagidos também pelas regras, jogar qualquer partida com qualquer mão.

O pensamento selvagem, pp. 111-2, 1962.

15 de abril de 2009

"Mente aberta"

Descrição do vídeo no Youtube, por QualiaSoup: 

Uma olhada em algumas falhas que levam pessoas que acreditam em certos conceitos não-científicos a aconselhar os que não acreditam a terem a mente mais aberta.



via De Rerum Natura

12 de abril de 2009

Paolo Rossi e o zeitgeist atual

Comecei a ler um livro de Paolo Rossi - o historiador da ciência e não aquele que matou onze canarinhos com três pedradas - que também atira contra o "espírito de nossa época": Naufrágios sem espectador: a ideia de progresso. Antes de colocar aqui nesse blog um trecho brilhante, um diagnóstico absolutamente certeiro do que está se passando, devo dizer que, pensando melhor, o relativismo radical é apenas um instrumento, o porrete intelectual, com o qual os elegantes pensadores proclamam o zeitgeist atual. As ideias que circulam hoje não se devem ao relativismo, mas o relativismo decorre delas; elas proclamam o ocaso do "ocidente", do humanismo, da razão, da ciência. Temem esta última, descartam-na. Pois ao fazê-lo, parecem pensar mais profundamente, parecem abordá-la criticamente.

O que Rossi fala sobre os adolescentes europeus, aqui, vale também para os adultos por volta dos seus trinta anos, aqueles que estão com o mundo nas mãos, moldando-o, fabricando-o neste exato momento. Eu não quero esse mundo pra mim. Eu quero um mundo em que conhecer a realidade seja não apenas possível, mas fundamental. Eu quero um mundo que não sinta incômodo em procurar saber com maior certeza o que é que está por trás de uma doença, o que é que está girando em torno de uma estrela. Quero esmagar a hipocrisia que descarta a importância da tecnologia ao construir seu discurso num monitor de LCD, conectado a uma rede mundial de computadores.

É, não vai ser fácil:

[Os adolescentes] (como sem dúvida ocorre hoje na Europa) crêem de verdade e intensamente no Ocaso da Civilização, identificam a Natureza com a Inocência e teorizam a sua Sacralidade; fazem um uso contínuo e cotidiano de máquinas da mais variada espécie e natureza e ao mesmo tempo detestam tudo o que é artificial, odeiam a indústria, a química, a tecnologia, a modernidade; mostram-se mais sensíveis aos massacres de filhotes de foca do que de crianças africanas ou brasileiras; são hostis ao presente em nome de uma inédita mistura de nostalgia pelo passado e expectativa sobre o futuro; associam, numa alarmante fusão, tradicionalismo de direita e utopismo de esquerda, comportamentos nostálgicos e futurísticos; vêem a Natureza como uma Deusa Amiga e o homem como Inimigo dessa benevolente Divindade; defendem o localismo e zombam do universalismo; aderem enfim (em muitos casos) a posições de radical anti-humanismo sem nunca ter lido nem Spengler nem Heidegger, sem nunca ter ouvido falar deles.

10 de abril de 2009

Mais (muito mais) darwinismo

Minha primeira e modesta produção como "jornalista de ciência" acabou de sair do forno. Humano, demasiadamente orgânico? é o título do meu texto, que procura esclarecer para um público amplo a conflituosa relação entre o darwinismo e as ciências humanas.

A revista eletrônica ComCiência é uma publicação do Laboratório de Estudos Avançados em Jornalismo (Labjor) da Unicamp, e da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC). Os artigos são produzidos por especialistas de cada área, e as reportagens (como é o caso do meu texto) ficam por conta da equipe de jornalistas e divulgadores.

A edição deste mês tem como tema, claro, o evolucionismo de Charles Darwin. É uma coleção de textos que podem ser muito interessantes pra quem quer saber um pouquinho mais sobre a história do darwinismo, o leque de possibilidades que ele ainda abre para os mais diversos campos do saber científico, e as polêmicas que seu evolucionismo ainda atrai.

Se interessar, leiam meu texto (e os dos outros) por lá e comentem, com críticas e sugestões, por aqui.

9 de abril de 2009

Gap

Um texto antigo, nunca publicado. De vez em quando me dá um impulso de reescrever as coisas que adoro. Este é um texto secreto, que não podia vir à tona. Como agora me sinto mais à vontade com isso, aqui vai minha interpretação ou releitura de Where I End and You Begin, do (adivinhem) Radiohead.



Há um espaço onde eu termino e você começa. Há um espaço onde termina a interpretação e começa o objeto. E há um pequeno espaço entre mim e o eu-lírico de Where I End and You Begin.

Onde eu termino e você começa há um espaço, uma lacuna, um buraco. Há uma barreira que me impede de tocá-la e de evitar amá-la. Você está quase ao meu alcance, quase. Eu te vejo, observo teus atos, esmiúço teus detalhes. E quando prendo meus olhos aos teus, estou nas nuvens.

Há tempo para evitar o meu fim e o seu começo? Não houve tempo para Thom. Ele foi deixado pra trás, sozinho, enquanto sua vida desmoronava no mar. Thom perdeu o sentido da temporalidade. Ele vê novamente os minutos caindo num instante como grãos em uma ampulheta. Ele vê os milhões de anos disso tudo passando como um raio. Thom está fora do tempo, sua existência não existe. Ele vive tanto quanto um fóssil, o fóssil viveu, Thom viveu, o fóssil vive, qual a diferença entre Thom e um dinossauro?

Eu sou diferente do dinossauro. Eu estou nas nuvens. As nuvens são tudo, as nuvens são eu e você e tudo o mais, o mundo à nossa volta. As nuvens são a realidade da dor e a fantasia do prazer. Eu não consigo me livrar das nuvens. Eu não quero me livrar das nuvens.

O que há no espaço entre a minha experiência que começa e a de Thom, que termina? Essa coisa que queima e se instala em todas as mentes. Essa coisa que nos come inteiros, vivos. Esse desejo mais profundo individualmente personalizado na figura de uma outra pessoa, da qual não mais conseguimos desviar o olhar, as mãos, a boca, o sexo. Essa ilusão enraizada na mais profunda essência dos animais que copulam, essa ilusão que se apodera de nós e nos faz dizer a verdade quando realmente a sentimos, olho no olho, eu te adoro, eu te amo, eu preciso de você.

Lapidar

Hoje, a transmissão do futebol da Globo foi, digamos, profunda:

"O Palmeiras está sendo pressionado. Mas a pressão do Sport é apenas subjetiva"
Caio Ribeiro, boleiro com sotaque de automobilista, comentarista e filósofo pós-moderno


Frequentadores e demais transeuntes desse blog, favor arranjar nos comentários uma explicação para o que vem a ser uma pressão subjetiva no futebol.

8 de abril de 2009

Darwinismo x criacionisno, de novo

Reproduzo aqui, na íntegra, post de Pedro Dória sobre a guerra entre darwinistas e criacionistas no ensino do Texas:

Repercutiu pouco fora da comunidade científica, mas a discussão é particularmente importante aqui nos EUA: na semana passada, o Conselho de Educação do Texas fez mudanças no currículo das escolas de primeiro e segundo grau. No primeiro instante, o resultado da reunião do conselho foi divulgado como uma vitória para a trupe de Darwin.

Mas não tão rápido.

Os criacionistas – inclua-se na lista o presidente do Conselho – queriam inserir a exigência de que os professores de ciência do estado ensinassem ‘o que é forte e o que é fraco’ a respeito de cada teoria científica. Tais palavras não foram aprovadas – e por isso alguns acharam que se tratava de uma vitória. Mas o texto terminou incluindo a exigência de que ‘todos os lados das evidências científicas’ deveriam ser apresentadas aos alunos.

Para impor sua visão religiosa, os criacionistas aproveitam-se da diferença de significado da palavra teoria. No uso coloquial, teoria é um chute, uma tentativa de explicação. Em ciência, teoria é mais que um fato. Teoria científica é o conjunto de vários fatos observados independentemente e a explicação de como eles se relacionam.

A Teoria Atômica, portanto, não é uma suspeita de que átomos existam. É a detalhada explicação de como átomos funcionam. A Teoria da Gravidade não sugere que a maçã deverá cair. Ela explica como corpos com massas se atraem e determina que a maçã, de massa menor, será irremediavelmente atraída em direção à Terra, de massa maior. (A Terra também será atraída em direção à maçã, diga-se.) A Teoria da Evolução tampouco é uma possibilidade. A Evolução aconteceu. A Teoria explica como.

O Texas é o estado mais importante dos EUA nessas questões educacionais. Por um motivo: a educação de base norte-americana é pública e nenhum estado tem tantos alunos em sua rede quanto o Texas. É, portanto, o maior comprador de livros didáticos do país. Se os editores tiverem que adaptar seus livros para vender no estado, tais serão os livros consumidos em todo o país.

Nessas horas, o que salva é o humor. Escrevendo na Newsweek, Cristopher Hitchens sugere que a idéia de obrigatoriedade do ensino ‘do que é forte e do que é fraco’ no argumento seja estendida. Toda igreja e instituição religiosa que receba algum tipo de benefício fiscal deveria, de presto, apresentar em seus sermões e cursos os argumentos contrários a suas crenças.

Não importa se os argumentos não forem religiosos. Afinal – não é isso que querem? Impor argumentos religiosos nas aulas de ciência?


Quando o Dória não escreve sobre Protógenes e Dantas, acerta na mosca.

7 de abril de 2009

Vivendo o futebol


O Flávio Gomes escreveu mais um de seus belos textos, ontem. Sobre o futebol, o tempo e um menino chorando:

Ontem fui o mais feliz dos seres humanos a cada gol do meu time, a cada gol do outro, e o pior dos miseráveis quando tudo acabou, quando o futuro chegou. É só um campeonato, uma bola e um gramado, já passou, é passado, mas na hora em que vi esse menino chorando no jornal, a dor voltou para o presente, porque a graça está aí: sorrir, chorar, sorrir, sofrer, e depois esquecer.

Gomes é torcedor da Portuguesa de Desportos, o segundo time de todo paulistano. Como a Ponte, a Lusa sofre com a superexposição dos chamados "times grandes". Como a Ponte, tem um estádio próprio decente (ao contrário de Corinthians e Flamengo). Como a Ponte, tem mais tragédias do que glórias pra contar.

Fiel, meus amigos, é o torcedor que vê o time ficar anos a fio na segunda divisão, ser arrebentado por más administrações, ser solenemente ignorado pela grande mídia e vai ao estádio compartilhar com mais 3 ou 4 mil semelhantes a esperança, a angústia, a dor e a delícia de torcer. Amar o futebol é isso. Me desculpem os meus amigos que torcem pro Corinthians, São Paulo ou Santos. A maioria de vocês, a imensa maioria, não sabe o que é amar e viver o futebol in loco, sem filtros televisivos, sentindo a fugacidade da vida. A vida não tem replay, o golaço ou o frango não vão acontecer de novo.

Ponte e Portuguesa jogavam juntas na última rodada do Paulista. Eu vi o limitado, talvez medíocre time atual da Ponte, que não brigava por mais nada no campeonato, triturar o Santos aqui em Campinas. Mas o futebol é o que é, e vocês sabem o resto da história.

Ponte e Portuguesa têm histórias e torcidas muito parecidas. Torcedores dos times "grandes", vocês não sabem o que é, para um pontepretano ou torcedor da Lusa, comemorar uma ida à final do campeonato, uma mera classificação, ou o rebaixamento do maior rival. Não sabem pois não têm o mesmo laço que tacitamente nos une aos outros presentes no estádio, a noção compartilhada de que não somos muitos mas não somos fracos, todos irmanados pelo amor por um time que dificilmente ganhará campeonatos inteiros mas que se justifica a cada gol, a cada jogada, a cada drible, a cada defesa do goleiro, a cada esperança ilusória acalentada.

No domingo, por 40 minutos tiramos um sarro, com a certeza da vitória que não veio, da cara da torcida do "ê-limina-dô!" Santos. É claro que no fim os babacas fizeram a festa na cabeceira, cantarolaram a usual "não é mole, não; mais de cem anos sem gritar é campeão", ao que a torcida da Ponte sempre mostra indiferença, da mesma forma como eu costumo reagir: "você tem título? enfie no cú". Porque essas coisas não têm nada a ver com viver o futebol em toda a sua fugacidade, sua peculiar paixão efêmera, vibrando e sofrendo, no estádio, com o seu time e seus seletos semelhantes das arquibancadas, fiéis devotos, companheiros eternos até o apito final e a saída do estádio, na derrota ou na vitória, amém.

5 de abril de 2009

O maravilhoso sentimento oceânico (ao ver um megatsunami vindo)

Sit down,
Stand up.

Walk         into the jaws                                            of hell

Anytime
Anytime

Sit down,
Stand up.

We can wipe you out         anytime

Anytime, os genes e os sóis gigantes explodindo em supernova com asteróides excêntricos em órbitas elípticas enquanto líderes obtusos em momentos agudos emergem tripods de uma falha mecânica em plena decolagem do busão sem freio que capota e entra na pista contrária da viagem tranquila de cada um de nós com nossas tromboses coronárias fulminantes, nossos cânceres agressivos, nossas balas e bombas, nossos nine-eleven improváveis, nossos dilúvios, nossos pára-quedas que não abrem justo quando esperamos os raios gama da redenção e do momentâneo-eterno inferno inenarrável da extinção iminente.



3 de abril de 2009

Trechos 6 - mais Dawkins e o(s) relativismo(s)

Os posts abaixo suscitaram - como é ainda de se esperar quando tocamos na relação entre darwinismo, criacionismo, ciência e relativismo - uma acalorada discussão nos comentários. Mas acho que boa parte dela poderia ser mais produtiva se tivesse havido, desde o início, uma definição mais clara sobre qual o tipo de relativismo que estou atacando, via Dawkins. My bad.

Na nota de rodapé ao trecho aqui citado, o próprio Dawkins esclarece melhor a questão:

Esta não foi a primeira vez que utilizei este argumento arrasador, e devo chamar a atenção para que ele deva ser estritamente utilizado contra pessoas que pensam como o meu colega da cabaça. Há outros que, confusamente, também chamam a si próprios de relativistas culturais, embora seus pontos de vista sejam completamente diferentes e perfeitamente sensatos. Para estes, o relativismo cultural significa apenas que você não pode entender uma cultura se você tentar interpretar suas crenças em termos de sua própria cultura. Tenho suspeitas de que esta forma sensata de relativismo cultural seja a original, e aquela que critiquei como radical, embora alarmantemente comum, uma forma perversa da original. Os relativistas sensatos deveriam trabalhar mais duramente para distanciar-se dos relativistas do tipo tolo.

Minhas únicas reservas para este trecho são os termos "perversa" e "tolo" para designar o relativismo radical (é o bom e velho Dawkins, oras!). De resto, o que este ferrenho advogado do darwinismo falou, tá falado.

1 de abril de 2009

Comovente!

Não é primeiro de abril, galinhada:

Porque sete rebaixamentos numa mesma década não é pra qualquer time de Campinas, e nem tudo é possível (*)

Imagem retirada do Planeta Guarani, que já jogou a toalha.

30 de março de 2009

Teoria dos jogos e a biologia

Abaixo, trecho de artigo de João Azevedo Fernandes sobre a interessante contribuição da teoria dos jogos para a compreensão de comportamentos "altruistas" de seres vivos que à primeira vista desafiam a "luta pela existência" da seleção natural darwiniana.


20. Axelrod e Hamilton estudaram a evolução da cooperação através do jogo conhecido como Dilema do Prisioneiro. Dois prisioneiros A e B são convidados a delatar o companheiro em troca da liberdade. As situações possíveis são as seguintes (os valores são arbitrários):

a) o prisioneiro A delata e o B não: A recebe 5 e B 1;

b) A não delata e B sim: A recebe 1 e B 5;

c) Os dois delatam: ambos recebem 2;

d) Nenhum dos dois delata: ambos recebem 3.

21. O melhor para A é delatar. Se B não delatar ele recebe 5, se B delatar recebe 2. Se A for solidário e não delatar poderá ser traído por B e receber apenas 1: assim delatar é sempre o melhor lance quando o jogo ocorrer apenas uma vez. Ora, no mundo real é extremamente comum que as interações entre dois indivíduos se repitam, o que leva a um Dilema do Prisioneiro com várias rodadas. Quanto mais avançamos na direção dos animais mais complexos estas interações tornam-se necessariamente mais ricas, já que estes - especialmente os primatas - tem uma memória muito desenvolvida e grande capacidade de processar informações, o que permite o reconhecimento de outros indivíduos e a possibilidade de punição a possíveis "trapaceiros" . A seleção natural deve favorecer indivíduos engajados em atos de altruísmo se e somente se os indivíduos beneficiados retribuírem, excluindo os trapaceiros de outros atos altruístas.

22. Ao realizar simulações de várias estratégias em computador, Axelrod descobriu que a única ESS possível em um Dilema do Prisioneiro de duração indefinida é a mais simples de todas: a "olho por olho" (TIT FOR TAT; não seria inútil lembrar a semelhança deste resultado com a estratégia Retaliator de Maynard Smith e Price).

23. A estratégia "olho por olho" permite, com várias rodadas, que se leve o Dilema do Prisioneiro ao melhor resultado possível para ambos os jogadores: a recompensa pela cooperação mútua. É assim que o altruísmo recíproco tornou-se um fator fundamental na evolução dos seres vivos, notadamente naquelas espécies com grandes cérebros e complexas organizações sociais, e que por isso mesmo apresentam maior possibilidade de ter que conviver com trapaceiros ou qualquer indivíduo que tenha a capacidade de receber um benefício sem dar nada em troca. Axelrod e Hamilton lembram que a área do cérebro humano responsável pelo reconhecimento individual é altamente específica e extensa, o que mostra a importância que esta capacidade teve no curso da evolução de nossa espécie (cf. Cronin, 1995, p.453-61, para estudos que mostram como a mente humana está adaptada para o reconhecimento de "fraudes").

29 de março de 2009

E agora, José? Qual "narrativa sobre o real" você prefere que tente salvar sua vida?

Quadrinho achado no Hermenauta (não tenho idéia de quem seja o autor// edit: como informou o Hermenauta nos comentários abaixo, os quadrinhos são os Doonesbury, de Garry Trudeau):




Ah, mas nada tira das cabeças de boa parte do meio acadêmico de que a ciência é "apenas mais uma narrativa sobre o real, nem pior, nem melhor epistemologicamente do que outras narrativas". Ouvi isso de uma professora da Unicamp, do Departamento de Políticas Científicas e Tecnológicas do Instituto de Geociências. Numa sala de aula.

Avisa lá esse pessoal que o movimento da contracultura teve o seu papel, ótimo, lindo, mas já acabou. Move on. Avisa que não é necessário ser um Nixon para se defender a possibilidade e a necessidade de haver explicações melhores do que outras sobre a realidade.

28 de março de 2009

Trechos 5 - Dawkins e o relativismo radical

Richard Dawkins costuma ser contundente com seus adversários e às vezes peca por carregar demais na tinta. Mas o trecho abaixo acerta na mosca o tiro contra o zeitgeist acadêmico atual, essa "filosofia de salão elegante" que se transformou num dogma, verdade autoevidente inatacável do nosso tempo.

Muitas vezes pensamos que é inteligente dizer que a ciência não é mais do que nosso mito de origem moderno. Os judeus tinham Adão e Eva, os sumérios, Marduk e Gilgamesh, os gregos, Zeus e os deuses do Olimpo, os nórdicos, o Valhala. O que é a evolução, dizem algumas pessoas espertas, senão o nosso equivalente moderno dos deuses e dos heróis épicos, nem melhor nem pior, nem mais verdadeira ou mais falsa? Há uma filosofia de salão elegante chamada relativismo cultural que afirma, na sua versão radical, que a ciência não tem mais direito em afirmar a verdade do que o mito tribal: a ciência é apenas a mitologia favorecida por nossa tribo ocidental moderna. Uma vez fui provocado por um colega antropólogo e coloquei uma questão claramente, do modo que se segue: suponha que existe uma tribo, disse eu, que acredita que a Lua é uma cabaça velha lançada aos céus, pendurada fora de alcance um pouco acima do topo das árvores. Você afirma realmente que nossa verdade científica - que afirma que a Lua está a 382 mil quilômetros afastada e tem um quarto do diâmetro da Terra - não é mais verdadeira do que a cabaça da tribo? "Sim", disse o antropólogo. "Nós apenas fomos criados em uma cultura que vê o mundo de outro modo. Nenhum destes modos é mais verdadeiro do que o outro.
Aponte-me um relativista cultural a 10 quilômetros de distância [altitude] e lhe mostrarei um hipócrita. Aviões construídos de acordo com princípios científicos funcionam. Eles mantêm-se no ar e o levam ao seu destino escolhido. Aviões construídos de acordo com especificações tribais ou mitológicas, tais como os aviões de imitação dos cultos de carregamento nas clareiras das selvas ou as asas coladas com cera de abelha de Ícaro, não funcionam. Se você estiver voando para um congresso internacional de antropólogos ou de críticos literários, a razão pela qual você provavelmente chegará lá - a razão pela qual você não se esborrachará em um campo cultivado - é que uma multidão de engenheiros ocidentais cientificamente treinados realizou os cálculos corretamente. A ciência ocidental, com base na evidência confiável de que a Lua orbita em torno da Terra a uma distância de 382 mil quilômetros, conseguiu colocar pessoas em sua superfície. A ciência tribal, acreditando que a Lua estava um pouco acima do topo das árvores, nunca chegará a tocá-la, exceto em sonhos.

Richard Dawkins, O Rio que saía do Éden, pp. 40-1.

23 de março de 2009

Diário, anotações, 22 de março de 2009



(...)

Então eu gritei "PYRAMID SONG!", com a certeza de que nunca seria tocada. Thom Yorke ouviu meu apelo dentre 30 mil pessoas a 50 metros de distância e disse para os roadies: "bring me the piano! Danilo is asking me to play Pyramid Song, let´s do it, Ed". E foi tocada a mais bela Pyramid Song de todos os tempos.

(...)

Foi aí que o palco ficou todo vermelho, como havia ficado todo vermelho em Tóquio antes de que fosse tocada a primeira música do Radiohead que sequestrou meus neurônios. Phil Selway bateu duas vezes nos tons da bateria com aquelas baquetas de ponta gorda. Colin Greenwood deu outra dica tocando aquela linha de baixo e seu irmão Jonny, a da guitarra. E, desde então eu sabia, nada mais poderia impedir que a mais perfeita Optimistic fosse executada.

(...)

A música que começava a sair do violão de Thom Yorke, Exit Music, era a mais inesperada de todas as músicas da noite e a cada segundo dela eu sabia que se produzia um momento inesquecível, particularmente inesquecível, para duas pessoas que se abraçavam e se beijavam em outro plano sem olhar por um segundo sequer para o palco. Everything in its right place, in its right place, in its right place. É, Thom, você tem razão.
(...)
The head of state has called for me by name, but I don´t have time for him. It´s gonna be a glôôooôôoorius daaaay. Está sendo, obrigado. We are standing on the edge, Thom.
(...)
Creep, por fim, me lembrou que o show não era só pra mim e pra ela, mas para outras 29.998 pessoas naquele descampado. O que, também, não deixava de ser lindo.

___


Ah, qual o problema em, por duas horas e meia, ser romântico, sentir-se no centro do mundo? Dizem que Luis XVI, no dia 14 de julho de 1789, escreveu em seu diário: "Nada". Se eu também escrevesse um, registraria lá no dia 22/03/09: "Tudo".

22 de março de 2009

Trechos 4 - Radiohead!

É hoje. Daqui a pouco.

Os cinco vídeos que postei como contagem regressiva para o show de hoje foram retirados da apresentação de 5 de outubro do ano passado, na arena Saitama, em Tóquio. Para quem quiser baixar o show inteiro (4GB), aqui está o link para o torrent. Não é a melhor performance do Radiohead que já vi. Mas é a mais atual e bem gravada.

Antes de ir pro show, deixo a letra de Idioteque que, tenho certeza, vou ouvir lá. Pra mim, nenhuma outra poesia/música captou tanto o mundo quanto essa:

Who's in the bunker? 
Who's in the bunker?
Women and the children first 
And the children first 
And the children 
I laugh until my head comes off 
I swallow till I burst 
Until I burst 
Until I 

Who's in the bunker?
Who's in the bunker?
I have seen too much 
You haven't seen enough 
You haven't seen it 
I laugh until my head comes off 
Women and the children first 
And children first 
And children 

Here I'm allowed
Everything all of the time 
Here I'm allowed
Everything all of the time 

Ice age coming 
Ice age coming
Let me hear both sides 
Let me hear both sides 
Let me hear both 
Ice age coming
Ice age coming 
Throw them in the fire 
Throw them in the fire 
Throw them in the 

We're not scaremongering 
This is really happening 
Happening 
We're not scaremongering 
This is really happening 
Happening 
Mobiles quirking 
Mobiles chirping 
Take the money and run 
Take the money and run 
Take the money 

Here I'm allowed
Everything all of the time 
Here I'm allowed
Everything all of the time

Rádiocabeça 1 - (Optimistic)

This one´s optimistic
This one went to market:

you can try the best you can
if you try the best you can
the best you can is good enough
you can try the best you can
try the best you can
the best you can is good enough





É hoje.

21 de março de 2009

Rádiocabeça 2 - (Arpeggi/Weird Fishes)

Arpegios   ,     in the deepest ocean   ,     the bottom of the sea

.
.
.

                                                    your eyes
                                                       they turn me


É amanhã.

20 de março de 2009

Rádiocabeça 3 - (All I Need)

You´re all I need                                                       You´re all I need

You´re all I need

I´m in the middle of the picture
Lying in the reeds



De onde você vem?