16 de janeiro de 2009

Mar da tranquilidade

"Tudo mata tudo de uma maneira ou de outra. Pescar mata-me tal como me faz viver"
Santiago, o pescador
Ernest Hemingway, O Velho e o Mar, 1952.



Uma conexão inesperada une dois livros que li, esses dias, por acaso. Primeiro, escolhi um do Hemingway porque queria ler Hemingway, mas como não sabia por qual começar, decidi pelo menor deles. Depois, trombei com um livro do Amyr Klink.

Vocês conhecem o Amyr Klink. Diz ele que seus tios do Líbano lhe perguntaram: "Mas, filho, para que serve uma viagem dessas?". A viagem era dar uma volta na Terra pelo extremo sul do planeta, beirando a Antártida. Amyr conta essa história em Mar sem fim, onde também responde à pergunta dos tios assim:

"Precisamente para nada, e não há de fato nada de útil em viajar meses a fio para simplesmente voltar ao ponto de partida. Porém a inútil circunavegação que eu completara era a minha realização mais deliciosa. Difícil explicar. Há montanhas de inutilidades na história da humanidade, atos e obras que se tornaram importantes pelo simples fato de estarem completos, pelo modo como foram feitos, pelo símbolo que representaram."

Isso ele escreve lá pela página 205, mas o livro todo é uma resposta aos tios libaneses e ao leitor que faz a mesma indagação a cada agrura relatada por Amyr e antevê a própria resposta em toda descrição de sensação de felicidade e paz com o mundo.

Peguei o Mar sem fim nessas ocasiões em que o livro está lá dando sopa e você o aborda sem intenções maiores do que uma corrida de olho nas figuras. Mas o diabo é muito bom. Iniciada a leitura (em qualquer trecho), é quase impossível largá-lo, de tão bem escrito. Simples e honestamente bem escrito. É um culto à simplicidade, o livro. E é tão recomendável para quem tem, martelando a cabeça, grandes questões relacionadas à palavra sentido quanto o outro livro que li por esses dias e que também tem o mar no título e como grande palco, O Velho e o Mar.

Pra se ler de uma tacada, esse livro de Ernest Hemingway também é de uma simplicidade atordoante, cuidadosamente áspera. Hemingway escreve estritamente o necessário para pintar o quadro de simplicidade e rusticidade da vida do velho pescador, ao mesmo tempo em que penetra em suas elaborações sobre o mundo, a natureza e o mar. A história de Santiago e o maior embate de sua vida contra um peixe colossal rende um estranho sentimento desolador mas não completamente pessimista sobre o quê e porquê raios estamos vivendo nossas vidas e fazendo nossas coisas. O velho de Hemingway realiza um feito heróico sem que nunca houvesse passado pela sua cabeça ser um herói: ele queria apenas pescar, seu interesse era tão somente a luta contra o peixe. Ele vence a luta mas, quando o mar acaba sendo-lhe cruel e não lhe dá saídas, Santiago resigna-se, serenamente, à sua limitação perante a natureza.

A principal consonância entre Klink e Hemingway é a sensação de que aquilo que chamamos de sentido seja, talvez, apenas o fazer por querer fazer ou atingir um objetivo simplesmente por atingí-lo, em contraste com a busca idealista por um grande sentido das coisas ou sua versão secularizada, a do "sucesso profissional" e suas batalhas vencidas e obstáculos derrubados. Klink fala apenas de um prazer "de ter feito e visto o que fiz e vi", um "profundo prazer de poder resumir minha maior viagem num simples círculo de papel". A serena desistência quanto à procura do grande sentido é uma corrente profunda das duas obras e não é por acaso que ambas se encontrem na natureza implacável e impiedosa, vastidão sem referências, do mar.

Um comentário:

Désir La Vie disse...

É.
Realmente é incrível essa relação ser e natureza.

Me lembro que num dos meus episódios depressivos/extremamente fundo de poço, algo me trouxe vida e uma sensação deliciosa. Estava assistindo esses programas estilo 'National Geographic' que mostram comportamentos de mamíferos e outros animais, mas enfim, na ocasião era um grupo de primatas. E pode soar babaca ou distante de compreensão, mas garanto que me enxerguei ali, naquele grupo. E também não sei por qual razão, até porque acho extremamente difícil racionalizar esses tipos de sensações, mas o fato é que me trouxe uma paz e um conforto absurdo.

Também sou um ser praticamente 'a toa' desprovido de qualquer ideal e sentido, mas posso lhe garantir que isso é muito doloroso por um lado.
Mas enfim, também acho incrível que os 'pormenores, porém nada mucho', como a natureza, nos causem sentimentos tão plenos.


Kisses, kisses
lol ;)

De onde você vem?