1 de dezembro de 2008

O curriculum da Dilma

Dia desses recebi o seguinte e-mail (daqueles encaminhados, do tipo mais gracioso e bem-vindo: o tal de "Fwd"):

Sent: Wednesday, November 26, 2008 9:09 AM
Subject: Fw: CURRICULO DA DILMA -
A CANDIDATA DO LULA PARA O SEU LUGAR.....
BEM QUE FALAM QUE AQUI NA ÉPOCA DA
COLONIZAÇÃO FORAM ENVIADOS VÁRIAS CLASSES SOCIAIS, PRINCIPALMENTE
BANDIDOS...

POR ESTAS E OUTRAS ISTO TEM QUE SER
REPASSADO...REPASSADO...REPASSADO...REPASSADO...MANDA PRÁ
FRENTE...

(JÁ IMAGINARAM ISTO COMO
PRESIDENTE????????????????????????)


Este "Forward", escrito exatamente desse jeito elegante e em caixa alta, vinha com o seguinte anexo:

O tal de curriculum da Dilma.

A minha resposta (costumo responder aos "Fwd"; coisa mais indelicada de se fazer):

Ex-guerrilheira, militante contra o regime militar, mulher fantástica. Só por
ter atacado a casa do Adhemar de Barros já vale o voto.

Sim, adoraria ela como presidente da república.

[remetente], se for pra ficar mandando emails reacionários, "me inclua fora
dessa".

Abraços

Danilo


LOL. Eu si divirto com essa gente! Pelo menos o remetente não pode reclamar de nada: cá está repassada a mensagem.

26 de novembro de 2008

Fascista? Eu?

Num dos seus Cinco Escritos Morais, Umberto Eco se propõe a analisar o problema do fascismo tal como ele poderia se apresentar de maneira camuflada nos dias de hoje ou, para dizer as palavras dele, do problema de se identificar um "fascismo eterno". Mais adiante, transcrevo um trecho interessante deste ótimo ensaio e faço uma pergunta que mira um problema aparentemente distante. Mas antes, um esclarecimento.

O nazismo, diz Eco, assim como o stalinismo, tem um núcleo filosófico e ideológico bem delineado, um programa político claramente definido. O fascismo, surgido na Itália de Mussolini, ao contrário, é uma salada mal e porcamente alicerçada na retórica inflamada de seu líder. Apesar dessas diferenças, o termo se tornou moeda corrente para designar qualquer tipo de totalitarismo (categoria por si só problemática e já largamente questionada). Isso é um problema óbvio, na medida em que o fascismo é um fenômeno incoerente e desconjuntado. Umberto Eco encara o abacaxi, nesse texto, delineando algumas características que denunciariam a presença do tal de "fascismo eterno" ou "Ur-Fascismo", como ele o chama. Ou seja: tudo aquilo que pra nós, hoje, cheira a fascismo, mesmo que não se refira precisamente ao fenômeno histórico circunscrito à Itália dos anos 30.

Eis o trecho:

A primeira característica de um Ur-Fascismo é o culto da tradição. O tradicionalismo é mais velho do que o fascismo. Não somente foi típico do pensamento contra-reformista católico depois da Revolução Francesa, mas nasceu no final da idade helenística como uma reação ao racionalismo grego clássico.

Na bacia do Mediterrâneo, povos de religiões diversas (todas aceitas com indulgências pelo Panteon romano) começaram a sonhar com uma revelação recebida na aurora da história humana. Essa revelação permaneceu longo tempo escondida sob o véu de línguas então esquecidas. Havia sido confiada aos hieróglifos egípcios, às runas dos celtas, aos textos sacros, ainda desconhecidos, das religiões asiáticas.

Essa nova cultura tinha que ser sincretista. 'Sincretismo' não é somente, como indicam os dicionários, a combinação de formas diversas de crenças ou práticas. Uma combinação assim deve tolerar contradições. Todas as mensagens originais contêm um germe de sabedoria e, quando parecem dizer coisas diferentes ou incompatíveis, é apenas porque todas aludem, alegoricamente, a alguma verdade primitiva.

Como consequência, não pode existir avanço do saber. A verdade já foi anunciada de uma vez por todas, e só podemos continuar a interpretar sua obscura mensagem. É suficiente observar o ideário de qualquer movimento fascista para encontrar os principais pensadores tradicionalistas. A gnose nazista nutria-se de elementos tradicionalistas, sincretistas, ocultos. A mais importante fonte teórica da nova direita italiana, Julius Evola, misturava o Graal com os Protocolos dos Sábios de Sion, a alquimia com o Sacro Império Romano. [...]

Se remexerem nas prateleiras que nas livrarias americanas trazem a indicação "New Age", irão encontrar até mesmo Santo Agostinho e, que eu saiba, ele não era fascista. Mas o próprio fato de juntar Santo Agostinho e Stonehenge, isto é um sintoma do Ur-Fascismo.


Vivemos num tempo em que expressões como procurar ou descobrir a verdade estão completamente fora de moda. A mera menção a isso é capaz de arrepiar os intelectuais mais sensíveis, desencadear reações de desdém a algo visto como ultrapassado, até mesmo perigoso. Não é raro nos depararmos a denominações como o "fascismo da ciência". Vivemos o kitsch da multiplicidade de interpretações, igualmente válidas de acordo com os sistemas de representações dos quais emanam, e dificilmente postas em situação de embate, em que algumas inevitavelmente se sairiam melhores do que outras.

A pergunta é: qual é a diferença prática entre "uma verdade que já foi anunciada de uma vez por todas" e que "só podemos continuar a interpretar sua obscura mensagem" e a afirmação da completa inexistência da verdade acompanhada da desistência em procurá-la?

E só para provocar: de que lado está o fascismo?

10 de novembro de 2008

Prometendo e cumprindo

Na campanha, Obama disse que haveria abertura para diálogo com lideranças "hostis" aos Estados Unidos.

No Talking Points Memo, a tirada do dia é de um leitor: "eu não acredito que o Obama já foi se encontrar com um líder mundial impopular e agressivo sem exigir pré-condições."

Obama se encontra com George W. Bush hoje.

5 de novembro de 2008

Pálido´s Live Blogging das Eleições Norte-Americanas (ou "Vai Obama!")

Este post é resultado de live blogging: leia-o de baixo pra cima.

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03:25 - Com o slogan pop-grudento-mas-ainda-assim-bonito-e-convincente "Yes We Can", Barack Obama encerra seu discurso de aceitação da presidência dos EUA. Obama retomou o discurso da união, da tolerância, de uma só América (que marcou sua campanha presidencial) e ao mesmo tempo voltou a bater na tecla da mudança (que foi tão decisiva nas primárias contra Hillary). Nenhum conteúdo racial foi explicitamente explorado, mas nem precisava. Era um negro ali, falando como presidente eleito da maior potência militar e econômica do mundo. A quantidade de símbolos impressos por essa eleição é incontável. O meu preferido é a mais do que provável vitória de Obama na Carolina do Norte, estado racista e segregacionista por excelência, América das mais profundas - tal qual sua metade do sul, que há exatos 60 anos viu um de seus produtos políticos mais abjetos ser aplaudido ao dizer a plenos pulmões a seguinte frase: "I wanna tell you, ladies and gentlemen, that there's not enough troops in the army to force the southern people to break down segregation and admit the nigra race into our theaters, into our swimming pools, into our homes, and into our churches." Eu queria que esse palhaço, Thurmond, pudesse ter visto o que eu vi hoje pela internet: a igreja de King lotada com gente de tudo quanto é cor cantando, festejando a eleição de um Chefe de Estado negro. Queria poder dizê-lo: ei, clown, there is a "nigra" in the Oval Office.

Isso me faria feliz.

Mas já valeu. Foi ótimo registrar todo este momento.

03:06 - Rapaz! Enquanto o cara fala que "não há estados azuis e estados vermelhos, só há os Estados Unidos da América", Jesse Jackson aparece chorando como criança no meio do público. Que momento! A frase pode claramente funcionar como analogia a "não há pretos e brancos, só há seres humanos". O tempo acaba de mijar na lápide de Strom Thurmond e seu "Segregation Now, Segregation Forever!" e toda a visão de mundo que isso representa.

02:54 - Obama vira na Carolina do Norte, e na reta final da apuração lidera com quase 30.000 votos num universo de mais 4.000.000 de votantes. Em Indiana, 8.000 votos na frente de McCain faltando 3% das urnas serem apuradas. Ele ainda tem chances de virar até o vermelhinho Missouri. E é nesse pé que o homem vai começar a falar agora em Chicago. Vamos ver.

02:45 - Cacilda! Uma inexplicável multidão agora aparece agitando suas bandeirinhas respondendo ao lema Yes We Can de Obama em frente a um cenário de prédios e luzes apropriados a um show oitentista de Jean Michel Jarre. Na CNN, ao vivo.

02:39 - Mais um fundamental símbolo acaba de ser agregado à histórica vitória de Obama: a Flórida, ah, a Flórida, é dele, dizem a Associated Press e a NBC. Gol de bicicleta, na gaveta. A torcida delira. Nevada, outro estado Bush, também já debandou para o lado de Obama.

02:30 - McCain faz, nesse momento, um discurso de concessão histórico em frente ao seu público em Phoenix, Arizona, sua terra. McCain falou bem, falou bonito, destacou a importância dessa eleição para os "afro-americanos". Quando ele deu os parabéns ao Obama, a multidão vaiou. É a mesma gente que elegeu a turma que agora sai escorraçada da Casa Branca, uma gente que apoiou uma guerra insana, uma política de benefício aos ricos e às grandes corporações. Os Estados Unidos são uma coisa de louco. É uma terra que reune o que de melhor e o que de pior há na humanidade. E assim que escrevo, a multidão raivosa aplaude quando Sarah Palin sai da boca de McCain e vaia quando o velho senador toca no nome de Obama. Era pra ser uma concessão elegante. McCain bem que tentou. Eu gostaria que essa turba fosse colocada na linha de frente contra jihadistas iraquianos insanos. Eles se merecem.

02:19 - No site do NYT, em letras enormes: "OBAMA - Racial Barrier Falls in Heavy Turnout". E embaixo, "McCain Falls as Voters Reject Bush Legacy". O que dizer?

02:11 - Enquanto eu pensava nisso, a CNN mostra um lugar enorme, uma igreja protestante, e uma multidão nela cantando uma música bonita, quase toda ela formada por negros, mas com alguns brancos também, e todos eles abraçados, cantando aquela música. É a igreja de Martin Luther King, em Atlanta, Georgia, diz o âncora da CNN. História com H maiúsculo existe sim - às favas com Paul Veyne - e eu estou sem palavras aqui.

02:06 - Apita o árbitro! As redes aclamam Barack Obama o novo presidente dos Estados Unidos. Um negro. A História, aquela grandiosa, com H maiúsculo - e que, no fundo, no fundo, não existe - está sendo escrita na frente dos nossos olhos. Uau.

02:04 - Dória: "Enquanto isso, no ComedyCentral, um ator negro que fala como rapper está polindo a bancada do programa Colbert Report. Se prepara para substituí-lo pelos próximos 4 anos. E Colbert está desesperado. =)" Assistam este vídeo e vejam se esse cara, Colbert, não é corajoso.

01:58 - O quê? Obama virou a eleição no finalzinho em Indiana? No estado em que Bush enfiou 60x39 no Kerry? É. O mapa do NYT mostra que com 92% das urnas apuradas, Obama tem uma vantagem de 8.000 votos por lá, num universo de dois milhões e meio de eleitores. Isso está começando a ficar engraçado. Indiana, pelo jeito, é mais do que as 500 milhas, ehehe.

01:55 - Josh, do TPM, diz que a Fox News confirmou Obama como vencedor na Virginia. O mapa do NYT mostra 92% das urnas apuradas e uma crescente vantagem de Obama, agora na casa dos quase 60.000 votos. Golaço, golaço.

01:47 - CNN: 207 x 135 para Obama no Colégio Eleitoral. A costa oeste inteira é dele e ainda nem foi contabilizada. Vamos contar: Califórnia - 55 votos, Oregon - 7 votos, Washington - 11 votos. 207 + 73 = 280. Finish.

01:41 - Argh, McCain ultrapassa Glock, quer dizer, Obama, na última curva da Carolina do Norte e agora lidera por 16.000 votos num universo de 3 milhões com 86% das urnas apuradas. Esse é daqueles golzinhos do time visitante que esfria a torcida quando o time da casa tá vencendo por 5 a 0.

01:33 - A questão não é mais saber quem será o novo presidente dos Estados Unidos, mas em quais condições vai ser a derrota do GOP: se de goleada humilhante ou de lavada acachapante. Obama se consolida com mais de 40.000 votos de dianteira na Virginia, 170.000 na Flórida (ah, a Flórida, aquela Flórida em que Bush precisou de cinco Castrillis na Suprema Corte pra parar a recontagem que favoreceria Gore, fora os outros absurdos).

01:25 - Diz o Pedro Dória que Stephen Colbert declarou que "esta eleição não terminou enquanto a Suprema Corte não se manifestar". Colbert é um gênio! Bem, enquanto isso, as redes usam sua poderosa bola de cristal para projetar a vitória de McCain no Texas. E eu uso meus poderes extra-sensoriais para prever que daqui 1 minuto terão se passado sessenta segundos.

01:16 - Pedro Dória informa que "A melhor cobertura na tevê norte-americana, neste momento, é do Comedy Central. Na bancada, John Stewart e Steven Colbert. Colbert (que faz o personagem de um comentarista reacionário) fala de tudo menos de eleições. John Stewart se vira e diz: Steven, você tem que enfrentar a realidade. ‘Mas hoje mais duas velhinhas fizeram 100 anos! Isso é notícia!’ Daí Stewart olha duro. ‘Notícias do mundo animal, olha que bichinhos fantásticos trouxemos…’" Puxem o "Daily Show" do Stewart e o "Colbert Report" no eMule pra terem uma idéia do que o Dória está contando. Ou melhor, entrem no site e vejam os programas passados. Esses caras da Comedy Central são o que há. Alguém aí afim de fazer uma doação de urgência pra eu assinar esse canal? Que raiva, ser professor às vezes é uma coisa que joga contra a sua formação. Me ajudem a ter Comedy Central, por favor!

01:12 - Iowa vai para Obama, diz a CNN. Outro estado Bush em 2004 que vai para os democratas. Mas a força de Obama lá acabou tornando esse outrora BG state num estado democrata sólido muito antes de 4 de novembro. Os democratas começam a tocar a bola, fazendo o tempo passar e a torcida começa a gritar olé.

01:05 - 83% dos votos apurados na Virgínia e Obama acaba de ultrapassar McCain em 12.000 votos! As urnas de Richmond devem ter chegado. E o pessoal começa a dar Duplos Twists Carpados nas ruas de Chicago. Obama mantém vantagem de 40.000 votos na Carolina do Norte (isso já é como a Ponte vencer a Libertadores. Invicta). A vantagem de Obama diminuiu um pouco na Flórida assim que a apuração vai chegando ao final. Será que McCain vai marcar um Battleground state de honra?

01:00 - O TPM acaba de informar que o Notícias das Montanhas Rochosas (Rocky Mountain News, mas fica mais bonito em português) chamou o Colorado para Obama. As grandes redes devem confirmar isso logo. O Colorado é outro outrora forte estado Bush a pular a cerca. Mas também isso já era esperado.

00:57 - Idelber Avelar decepciona e não consegue tornar a Louisiana um estado azul. Mas ok, um democrata vencer a Louisiana é como a Ponte vencer o Barcelona completo. No Camp Nou.

00:51 - CNN vai dando 199 x 78 para Obama. E acaba de projetar o Novo México para o negão. Já era mais ou menos esperado, mas o NM era um BG state no começo das eleições, um estado que votou Gore em 2000 por apenas 500 e poucos votos e votou Bush (também por pouco) em 2004! Faltam 71 votos no Colégio. Se não tiver nenhum Timo Glock dando sopa pro McCain na última curva, Obama fecha a conta daqui a pouco. Pois a Califórnia e seus 55 votos estariam no papo dos democratas mesmo se eles lançassem a Xuxa candidata a presidente dos EUA.

00:45 - Pena, mas parece que Obama não vai levar Indiana por pouco (3 pontos). Neste estado Bush humilhou Kerry com uma lavada de 20 pontos de diferença. Já foi uma vitória transformá-lo em Battleground State (vou começar a chamá-los de BG states, graças ao WoW). Seria humilhante demais vencê-lo. Mas, hei, que serventia tem Indiana a não ser a de abrigar as 500 Milhas de Indianápolis?

00:40 - Os resultados dos condados pró-Obama (mais populosos, mais urbanos, mais inteligentes, onde as pessoas comem de garfo e sabem localizar a França no mapa-mundi) começam a chegar de Virginia e a eleição por lá está absolutamente empatada. Talvez haja uma virada, embora o NYT esteja deixando o estado ainda pintado de vermelho. Essa vitória na Virginia seria histórica e teria um peso político enorme, já que a Virginia vota republicano desde o Paleolítico. O mesmo pode acontecer com a Carolina do Norte.

00:35 - CNN também acaba de confirmar Ohio para Obama. "Ai, ai, ai, ai ai, tá chegando a hora..." As incógnitas ainda são a Flórida e a Virgínia. Em VA, Obama vinha liderando por muito as pesquisas, mas os resultados estão sendo desfavoráveis. A explicação pode estar no mapa do NYT: os condados do nordeste, mais populosos e urbanos, estão demorando mais pra reportar.

00:32 - Josh do TPM: "MSNBC and Fox call Ohio for Obama. [...] For the moment, I'm not sure what else I have to say." É, parece que se não houver um Timo Glock na última curva, McCain pode começar a fazer aquele discurso congratulatório do derrotado.

00:26 - CNN vai dando 174 a 69 para Obama no Colégio Eleitoral, mas contando basicamente os estados que já eram praticamente favas contadas, exceto a Pennsylvania. E agora, OPA!! A Fox News acaba de dar Ohio para Obama. Se o Diário Oficial do Governo Bush já deu Ohio pros democratas, então o povo em Chicago já deve estar dando cambalhotas. E a MSNBC também acaba de confirmar Ohio para Obama. McCain sobe no telhado.

00:21 - NYT: Flórida com 50% dos votos apurados. Obama vai aumentando pra quase 200.000 sua vantagem e lidera com 2.870.000 votos. O Pollster deu 48.8 x 47.1 para Obama como projeção. Este é o estado das fraudes de 2000, então o negócio é aguardar. Se McCain perder aqui ou em Ohio, adeus.

00:15 - Ok, há um tempinho as redes deram a Pennsylvania para Obama. Este é um dos três Battleground States mais decisivos. Os outros são Ohio e Flórida. A Pennsylvania já era mais ou menos esperada nas contas de Obama. Ohio e Flórida vêm dando resultados positivos para Obama, mas nada que permita às redes jogá-los no balaio do negão ainda.

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Meia-noite desta terça pra quarta-feira e aquilo que acompanhei com muita atenção e ansiedade desde janeiro deste ano chega ao clímax: as eleições dos Estados Unidos.

Vou escrevendo aqui enquanto as coisas acontecem. Este não é um blog com grande audiência, e o live blogging descompromissado de hoje não tem outro sentido de ser o de... eu mesmo acompanhar os resultados e registrar o que está sendo reportado na internet, nos melhores blogs do ramo. Se você, por acaso, tiver caído aqui no Pálido agora e quiser cobertura profissional de primeira, corra para o Talking Points Memo, Politico ou Pollster. Em português, temos o Idelber e o Dória. E dos grandes, o site do NYT é o que tem o melhor mapa para acompanhar a apuração, com reports de cada um dos condados.

2 de novembro de 2008

Notas sobre o Interlagazo

Porque pior do que perder um campeonato assim só levando 5 a 0 na final.

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Glock é o Barbosa da Fórmula 1.

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Diz o Flávio Gomes que Paulo Cobos, da Folha, falou com Timo Glock logo depois da corrida: “Acho que os brasileiros não vão me tratar muito bem daqui para a frente…”.

É engraçado como alguns personagens são criados pela história por puro acaso. Daqui a 50 anos, quando alguém for lembrar de alguma extraordinária decisão do esporte, o nome de Glock vai aparecer como aquele que em 2008 tirou o doce da boca das crianças sentadas na beirada das cadeiras - na frente da TV ou nas arquibancadas - torcendo por uma reviravolta quase impossível, que pareceu mais do que provável e que "por causa do Glock" não aconteceu.

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Para o mesmo Paulo Cobos, Glock também disse: “Nem vi quando o cara me passou. Um monte de gente me passou”, disse. “Eu mal conseguia ficar na pista.” Fábio Seixas: "falei com Glock e fui ver o estado dos pneus dele. 'Fizemos uma aposta, mas a chuva apertou muito'. Ele estava com pneus para seco. Que estavam no bagaço, principalmente os do lado direito. Na lona. Não dava para ele, não havia condições."

Glock entrou para a história da Fórmula 1, desse jeito. É engraçado.

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Alguém aí ouviu algo sobre queda de vendas de Corollas no Brasil?

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A elasticidade anal de Lewis Hamilton é impressionante. Há duas voltas do fim, não passava nem agulha ali. Há quinhentos metros do fim, Hamilton poderia ser o passivo da relação com uma baleia jubarte.

No ano passado o rapaz já tinha terminado o campeonato inteiramente cagado, para o mal. Nada mais justo que ele o termine igualmente cagado este ano, para o bem.

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Pensando bem, o final enervante de Interlagos teve um saldo bom: já imaginaram o que o Galvão Bueno faria se Massa tivesse conseguido mais 500 metros de sorte? Eu nem quero tentar pensar nisso.

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Massa, só lamento.

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Fui, e este blog está reativado.

10 de outubro de 2008

Naked king

No De Rerum Natura, o filósofo brasileiro Desidério Murcho matou a pau:

Quando se lê Carl Sagan ou outros grandes divulgadores de ciência,
compreende-se que estamos perante aspectos cognitivos dos mais sofisticados que os seres humanos alguma vez produziram; no entanto, tais conhecimentos são-nos oferecidos com clareza e simplicidade e o leitor não se sente colocado numa situação de inferioridade cognitiva. Em contraste com isto, basta folhear um suplemento cultural de um jornal para se encontrar um uso peculiar das palavras, em que estas perderam o poder de invocar pensamentos identificáveis, colocando-se ao invés toda a ênfase na transmissão da mensagem infantil de que o autor é culto — e com isso tudo o que se pretende realmente dizer é que é superior a nós, mais elevado, mais próximo dos deuses do Olimpo: um aristocrata. A filosofia, a história ou a teoria da literatura não são vistas como áreas acessíveis a todos, como a biologia, mas antes como disciplinas de cultura geral cuja vagueza de contornos é cuidadosamente acoplada à lama gramatical para assim poder servir de instrumento de opressão social e psicológica.


O rei das humanas está nu, gente. O problema é saber se algum dia ele já esteve vestido, ou se pelo menos usava cuecas até os anos 60.

28 de setembro de 2008

A despedida

Paul Newman e o Corvette GT1


Foi durante a transmissão do treino de F1 para a corrida noturna de daqui a pouco que fiquei sabendo da morte de Paul Newman. Nada demais, pensei. Ele já tinha mais de 80 anos. A notícia de que estava em estado terminal já havia circulado, bem como a da sua decisão de recusar mais tratamentos médicos e se recolher com a família para morrer em casa. Todas as agências de notícias vão dizer que era um grande ator, etc., e deve ter sido mesmo. Lembro-me apenas vagamente de alguns de seus papéis, como o do advogado nem-tão-bem-sucedido que consegue derrotar uma máquina jurídica num caso de erro médico (o Google acabou de me lembrar que o filme é "O Veredito", habituê dos Corujões e Sessões de Gala da vida). Enfim, Newman não era um dos meus favoritos. Por isso não fiquei triste como ficaria ao saber da morte de, digamos, Jack Nicholson.

Eu já sabia que Newman tinha um envolvimento muito grande com o mundo das corridas. Era dono de uma das melhores equipes de F-Indy, a Newman-Haas. Seus carros cinzas venceram campeonatos com Mario e Michael Andretti, Nigel Mansell e Sébastien Bourdais. Lembro-me que eu odiava esses carros cinzas quando criança porque eram alguns dos maiores rivais do Emerson Fittipaldi, pra quem eu torcia embalado pelo ufanismo histérico do Luciano do Valle. Além de dono, Newman era chefe de equipe, desses que ficam no box de macacão falando com os pilotos pelo rádio. Nunca vou me esquecer de um final de corrida, acho que era a de Vancouver, 1989, em que Michael Andretti jogou o carro em cima do Emerson na penúltima curva pra vencer, para delírio de Newman nos boxes. Não gostava dele.

Eu também já sabia que o ator se arriscava a acelerar esportivamente, mas só isso. Não sabia de alguns dos detalhes que tornam a história de Paul Newman uma coisa absolutamente fantástica: em 72, a primeira vitória numa corrida oficial; em 77 a primeira participação nas tradicionalíssimas 24 horas de Daytona; em 79 um segundo lugar nas mais tradicionais ainda 24 de Le Mans; e (por favor, leiam isso duas vezes) venceu as 24 horas de Daytona em 1995, aos 70 anos de idade. Paul Newman era um piloto de verdade. Um ótimo piloto de verdade.

Mas isso tudo não diz exatamente muita coisa além da pitoresca combinação ator-piloto de corridas. O que realmente me fez voltar a ter vontade de escrever um texto às 4 da manhã (com o "compromisso" de acordar às 9 para ver a sacrossanta F1) é que eu quero que vocês saibam que no fim de agosto, aos 83 anos e sabendo que tinha algumas poucas semanas de vida, Paul Newman, o piloto de corridas, pegou seu Corvette GT1, levou-o à pista de Lime Rock Park e guiou por uma hora e meia, observado por sua família e pelos mecânicos da Newman-Haas. É isso. Newman tinha 83 anos, câncer terminal nos pulmões, e foi se despedir de seu Corvette. À toda. Tenho certeza de que o velho não aliviou e sentou a bota como se...

Como se não houvesse amanhã.

Não é algo absolutamente comovente e inspirador e lindíssimo?
Agora estou triste por Paul Newman.
PS: Isso um dia vira livro, ou filme. Na certa, um certo sentido estético vai ser elaborado para a experiência de despedida, com a vida de Newman, os amores, os desgostos, o trabalho, tudo passando em flashbacks na cabeça daquele velho acelerando um carro de corridas pela última vez, intercalados com cenas da própria despedida. Eu tenho uma outra idéia do que Newman pensou naquela uma hora e meia de despedida: "... freio, terceira, segunda, tangência, dá o pé, corrige a traseira, rugido lá em cima, terceira, quarta, quinta, pé embaixo, pé embaixo, pé embaixo..." A estética está numa curva bem feita.

17 de setembro de 2008

Breaking news: José Saramago tem blog!


A partir de hoje, José Saramago é um blogueiro. E o Caderno do Saramago começou enfiando o pé no peito do Bush e do criacionismo.

13 de setembro de 2008

Filmes sobre o 11 de setembro

No post anterior prometi um artigo sobre alguns filmes inspirados pelo 11 de setembro. Me expressei mal. Dificilmente o que eu ia escrever pode ser considerado um artigo, e nem mesmo iria falar de filmes diretamente ligados aos ataques de 2001. Eram filmes, na verdade, sobre a Guerra do Iraque. Mas já que prometi, vou soltar alguns pitacos sobre uma pequena lista de filmes sobre os ataques.

O retrato mais cru dos ataques vem de um documentário muitíssimo conhecido do grande público: 9/11, filmado por dois franceses que acompanhavam uma divisão do corpo de bombeiros de NY. A dupla é responsável por algumas das cenas mais impressionantes do evento: o colapso da torre sul filmado de dentro do lobby da torre norte (clique aqui para uma versão de sete minutos) e a única filmagem clara do impacto do primeiro avião, pra não mencionar o alto som de impacto dos "jumpers". Nada mais, nada menos do que isso: o horror sendo experimentado in loco.

Outro documentário, este o mais visto da história, é Fahrenheit 9/11, de Michael Moore. Todo mundo sabe: é um panfleto que tentou arrancar os republicanos da Casa Branca. Um belíssimo panfleto, mas mal-sucedido em seu objetivo, infelizmente. Muita gente criticou Moore por ser manipulador, mas isso não tem sentido. Com tanques midiáticos como a Fox News dando total guarida aos neocons, a manipulação de Moore foi mais do que legítima e bem-vinda. E não foi nada grave, convenhamos: uma ediçãozinha esperta aqui, outra ali, e Fahrenheit consegue um retrato bastante próximo da realidade do governo Bush. Talvez o grande pecado tenha sido mirar tanto na figura do presidente, o que acabou gerando em muita gente a sensação de tudo ser apenas uma perseguição infantil (problema parecido com o de Roger & Eu, o primeiro de Moore). E, claro, o problema mais sério é que o filme só consegue, no fundo, pregar aos convertidos.

Entre o documentário e a ficção está Flight 93, a história do quarto avião sequestrado que caiu na Pensilvânia. Embora ainda haja uma ou outra controvérsia sobre o que realmente aconteceu naquele vôo, o certo é que o filme narra a história que foi mais aceita pelo público americano (e pelo mundo): passageiros conscientes de que estavam nas mãos de um piloto suicida reagem e tentam retomar o controle do avião, que cai. É uma história que interessa imensamente à construção da memória dos ataques, da criação de mártires e dos símbolos de "um povo que não se intimida pela ameaça estrangeira", etc. O drama humano contado pelo filme é fortíssimo e tem boas chances de ser verídico: a transcrição das caixas-pretas relata sons de luta na cabine durante os segundos finais de vôo. Será interessante acompanhar o desenvolvimento da memória do 11 de setembro neste caso em particular.

World Trade Center, de Oliver Stone, é outro que relata uma história dita verídica. Dois oficiais da Autoridade Portuária sobrevivem ao colapso da torre sul e são finalmente resgatados com vida. As cenas do colapso são ótimas, mas o restante é de uma direção pouco inspirada, com o filme parecendo caminhar numa direção um tanto equivocada com flashbacks insossos que atrapalham a narrativa. As melhores partes ficam por conta de Nicolas Cage, que salva o filme mesmo ficando o tempo todo debaixo dos escombros. O teor ideológico se mostra quando entra em cena a figura de um misterioso mariner que tem uma revelação diretamente enviada pelo Senhor, vai até Nova York com uma lanterninha na mão e entra no meio da montanha de concreto e aço retorcido à noite para achar os dois sobreviventes. Mariners, os anjos voluntários que vão salvar e proteger o país, ho ho ho, feliz natal. Quase tão inverossímil quanto sobreviver ao colapso pulando no fosso do elevador. (Ok, há informações de que umas 20 pessoas sobreviveram ao colapso das torres).

Há ainda filmes menos conhecidos, como os documentários The Falling Man e Loose Change (os links levam às versões completas dos filmes no Youtube). Falling Man é um belíssimo ensaio cujo ponto de partida é uma sequência de fotos da queda de um dos mais de 200 "jumpers", pessoas que pularam ou cairam do alto das torres. O filme busca identificar o jumper e analisa a reação das pessoas ao horror particular dessas vítimas do 9/11. Documentário sério e bem feito, ao contrário de Loose Change, uma compilação de teorias conspiratórias sem nexo, a começar pela teoria da demolição controlada - segundo essa explicação para o colapso das torres, o governo norte-americano teria implodido os edifícios. É interessante assistir esse documentário para ter uma idéia do quanto o 11 de setembro mexe com os dois lados da histeria norte-americana: de um lado, o evento deu vazão a um recrudescimento da xenofobia entre os conservadores e uma clara justificativa para os republicanos desdenharem da ONU e mobilizarem a maior máquina bélica já construída pelo homem; de outro, a falta de explicações definitivas sobre os detalhes mais difíceis do episódio (como: por que os aviões não foram abatidos? por que realmente as torres colapsaram?) abriram caminho para que os esquerdóides lunáticos de lá e o grande número de "libertários" que vêem o estado como inimigo elaborassem as mais tresloucadas teorias conspiratórias responsabilizando a administração Bush pelas mais de 3000 mortes daquele dia. O fato de que provavelmente muitas pessoas no Pentágono e na Casa Branca estivessem brindando a tragédia que lhes daria carta-branca não significa que os ataques foram um "inside job", uma coisa de autoria do governo. Noam Chomsky, aliás, pode defender muito melhor do que eu esse ponto de vista (aqui e aqui). Este é mais um dos aspectos do 11 de setembro cuja construção da memória será interessante acompanhar nos próximos anos.

Por fim, um filme que foi lançado em 11 de setembro de 2002, 11´09"01 e que fica aqui como dica pra você e pra mim, já que ainda não o assisti. Uma vergonha, já que Sean Penn e Iñarritu assinam dois dos curtos episódios que contêm 11 minutos, 9 segundos e 1 quadro. Mas vai pra lista de downloads agora. Se você já viu, me diga o que achou.

O próximo post vai abordar alguns filmes sobre a Guerra do Iraque. Filmes melhores, muito melhores.

11 de setembro de 2008

9/11

Lá se vão sete anos desde que alguns muçulmanos decidiram dar carta-branca para os neocons deitarem e rolarem no Oriente Médio. O império já matou mais de 30 vezes o número de vítimas do atentado por lá. O número de mortes de soldados americanos causadas pelas invasões do Afeganistão e do Iraque também já passou, há muito, os pouco mais de 3000 mortos do dia 11 de setembro de 2001.


Clique aqui para ler um artigo da Newsweek (de fim do ano passado) sobre como algumas famílias de vítimas do 11 de setembro estão levando a vida após a perda. Os menos abastados estão, claro, tendo muitas dificuldades, a exemplo da família de Juan Nieves Jr.

Mais tarde, no Pálido, um artigo sobre alguns filmes inspirados por este capítulo particular da longa história da estupidez humana.

8 de setembro de 2008

Le grand finale

Corra e veja o vídeo onboard de um dos melhores finais de corrida da história da F1 (antes que a FOM tire-o do ar):




Na visão onboard fica nítida a vantagem de tração obtida por Hamilton com o corte da chicane. Ele merecia ganhar, merece ser campeão, mas a punição foi justa.

Pneus

Dois clássicos do Youtube mostram a radical diferença entre um pneu raivoso...



... e um bem comportado.

6 de setembro de 2008

Primeiras impressões

Incrivelmente, o Metallica conseguiu arrancar um ótimo review da Rolling Stone. Primeiro parágrafo:

In the Eighties, thrash metal wasn't a scene, it was an arms race: riffs kept speeding up, drum kits got bigger. But with 1991's Black Album, Metallica opted for unilateral disarmament, slowing their tempos, shortening their songs and smelting their chugging guitars and piston-powered drums into armor-plated pop hooks. After that, the band rushed from one reinvention to another, starting with the Southern-rock infusion of 1996's Load and culminating in the muddled, bizarrely produced group-therapy session of 2003's St. Anger. No longer: Death Magnetic is the musical equivalent of Russia's invasion of Georgia — a sudden act of aggression from a sleeping giant.

As opiniões que estão pipocando por aí concordam de maneira quase unânime sobre a boa qualidade do disco novo, embora todas façam questão de lembrar que alguns clichês aparecem quase ao ponto da auto-paródia.

Clichês...

Há alguma coisa de ingênuo e sincero nos clichês. E bonito, por quê não?



Metallica - The Day That Never Comes

5 de setembro de 2008

MP4/4

O Gomes comentou que o Rubinho deve rezar por uma chuva pra não andar atrás até da Force India (a Minardi dos novos tempos). E completou: "é inacreditável o que se passa com a Honda. Quando vejo esse carro aí embaixo, não consigo acreditar que as carroças de Barrichello e Button tenham o mesmo DNA."


Qual era o carro?


O McLaren Honda MP4/4.


Esse aqui, ó:



Não sei se são os 2 litros de cerveja já na cabeça, ou alguma outra coisa, mas me deu uma baita vontade de chorar quando eu vi aquele McLaren Mp4/4 número 12 com aquele capacete amarelo-espanto enfiado nele, no blog do Gomes. Sei lá, vai saber, devem ser as reminiscências da infância, da aventura de ficar acordado direto até as duas da manhã pra ver a decisão do título, e o cara ficar ali parado na pole quando precisava ganhar, ir lá pro fundão, e ir passando todo mundo, até encostar naquele outro cara, o outro grande cara, com o mesmo carro que ele e deixá-lo comendo poeira no meio da garoa, e aquela voz do Galvão que emocionava os que restavam desemocionados, meu deus, meu deus, isso tudo aí vai fazer 20 anos em outubro, quando faço 28 anos, e olha só, foi nessa corrida que o cara viu Deus, com maiúscula pra ele, lógico, ele viu Deus lá no céu, ele viu, dentro desse carro, na última volta, e eu tinha 8 anos, e lembro da minha mãe e meu pai vibrando também porque aquele rapaz tinha conseguido o que queria, meu deus, que vontade de chorar...

O MP4/4 é o carro.

Os marcianos chegaram...

... e não sabendo absolutamente nada sobre o planeta Terra, decidiram se agrupar na convenção do Partido Republicano.


Veja a tabela publicada pelo New York Times e julgue por si mesmo se o pessoal do GOP está ou não vivendo no éter supralunar (clique na imagem para ampliar):


Ah, o Biscoito Fino está com um post bastante esclarecedor sobre Sarah W. Palin, a vice de John McCain. O discurso de Sarah na convenção foi tão, tão empolgante para os republicanos, que desde então o GOP arrecadou 1 milhão de dólares para a campanha. Estranho é que os democratas tenham batido o recorde de arrecadação em um só dia no mesmo momento, levando para os cofres da campanha 10 milhões de dólares. "Espero que ela faça um discurso por dia", disse o porta-voz de Obama.

via A Blog Around The Clock

BREAKING FUCKING NEWS!!!

Graças ao Amadeu, cá está um álbum que só será lançado oficialmente no dia 12 de setembro. Dizem que uma certa loja francesa vendeu alguns exemplares antes da hora por engano. Lars falou sobre o vazamento: "If this thing leaks all over the world today or tomorrow, happy days. Happy days. Trust me. Ten days out and it hasn't quote-unquote fallen off the truck yet? Everybody's happy. It's 2008 and it's part of how it is these days, so it's fine. We're happy." Será que esse é o mesmo cara que um dia processou o Napster?



O que dá pra dizer com apenas um giro do disco? Que é 2008 vestido de 1986. Mas um sincero 2008 vestido de 1986.

E, bem, The Unforgiven III pode ter um título que soe a piada, mas a música é muito boa.

3 de setembro de 2008

Denorex

Uma coisa recorrente em obras de divulgadores da ciência como Richard Dawkins e Carl Sagan é o ataque à pseudociência. Tentam alertar para um perigo das sociedades modernas: aquilo que parece ser ciência pode ser uma impostura. Em linguagem clara: você pode estar levando um Porsche com motor de Fusca.

Pseudociência é todo discurso, saber ou crença, que se disfarça de ciência para conseguir credibilidade (fiquemos com essa definição, por enquanto). Pelo menos é nisso que quero acreditar: a ciência ainda tem muita credibilidade na nossa sociedade. Quantos anúncios não vêm acompanhados da chancela de "cientificamente comprovado" ou similares para atestar que seus produtos são confiáveis? Por quê os autores de livros de auto-ajuda e boçalidades semelhantes têm a necessidade de acompanhar seus nomes dos títulos de "MD" ou "PhD"? A intenção é clara. A ciência se tornou, há muito, base para decisões públicas e ainda é considerada, em inúmeras direções, nossa maior fonte de conhecimento seguro sobre o mundo. Sua roupa, pelo menos, ainda vende. E muito.

No post anterior eu indiquei, via De Rerum Natura, um artigo sobre ciência e pseudociência que apareceu há pouco na SEP. Sven Ove Hansson, o autor, prudentemente, tratou de apenas colocar o problema como algo a ser resolvido. O que já era de se esperar. Isso é coisa pra se tentar resolver em teses ou em tratados, e não num artigo de enciclopédia. Não deixa de ser interessante, mesmo assim, então vamos rapidamente a ele.

Hansson coloca uma questão que inevitavelmente se desdobra num problema muito maior: como estabelecer critérios para identificar a pseudociência? O problema maior é claro: quais, então, os critérios para demarcar a própria ciência? O artigo se desenvolve mais em torno disso, da demarcação e identificação do que é científico, e como fica bastante claro em seu desfecho, é paradoxal que haja tamanho consenso quando o assunto é meramente identificar os campos que devem ser considerados ciência, e ao mesmo tempo tanta dificuldade para encontrar critérios gerais que demarquem com clareza o que é ciência e o que não o é.

Da mesma forma, é bastante comum encontrarmos convergência em opiniões na comunidade científica - e não somente dentro dela - que classificam o criacionismo, a astrologia e a homeopatia, por exemplo, como pseudociências. A divergência está no porquê disso tudo ser pseudociência. As possíveis respostas esbarram primeiro no problema muito comum de se misturar pseudociência com anticiência, e mesmo pseudociência com todos os discursos alheios ou estranhos ao discurso científico. Basicamente, por pseudociência entende-se um saber ou crença que, não sendo científico, passa por ciência, veste sua roupa e emula suas maneiras na tentativa de criar uma impressão de ser científico. Apesar de muito útil, este é um critério problemático: a homeopatia oscila entre colocar-se como anticiência e como ciência, como afirma Hansson. O mesmo ocorre com a astrologia, atualmente, penso, com maior tendência a se considerar realmente não-ciência ou anticiência. A questão é que não há um corpus pseudocientífico em oposição ao corpus científico mais ou menos definido. E, pior, em alguns casos aquilo que pode ser identificado como ciência mal-feita (ou seja, experimentos mal conduzidos, teorias logicamente mal elaboradas, etc.) tende, em alguns casos, a ser confundido com pseudociência. A única forma de separar o joio do trigo, neste caso, seria saber se, por trás de conclusões estranhas à ciência originadas de incompetência ou distorsões propositais, há uma doutrina não-científica mais ou menos coerente. Dá pra ver que é muito pano pra manga, óbvio.

O pepino todo está na própria definição de ciência. Hansson faz um breve catálogo das principais vertentes na filosofia da ciência que arriscaram propor critérios gerais para a definição de ciência. Os positivistas do Círculo de Viena e a ênfase na possibilidade de se verificar uma proposição empiricamente; Karl Popper e a idéia de que uma teoria só é científica se abre a possibilidades de ser refutada por observações ou experiências que fiquem nas raias do concebível; Thomas Kuhn e a imagem da ciência normal, em que a prática científica mais comum é identificada com a resolução de problemas dados por um paradigma teórico que só de vez em quando é desafiado pelas anomalias que surgem nas pesquisas; Imre Lakatos e o critério de progressividade, em que estamos diante de ciência quando um programa de pesquisa cria novas teorias que, progressivamente, substituem as velhas pela capacidade de previsão e maior embasamento empírico; e Robert Merton e seu ethos científico, com imperativos institucionais como o universalismo, o ceticismo organizado, o senso de comunidade e o desinteresse pessoal. Não há consenso entre estas diferentes demarcações. Quando muito, há uma certa convergência em certas questões específicas. Isso pra não dizer que estamos falando só de gente que, se não eram epistemólogos de ofício, encararam a epistemologia de maneira propositiva, digamos. Pois eu não queria nem ver o fuzuê se no meio desse balaio todo Hansson tivesse tentado incluir as abordagens destruidoras das linhas mais relativistas da história da ciência.

Só pra dar um gostinho do incêndio: o item 3.6, ao qual Hansson não dá lá muita atenção, chama-se a time-bound demarcation. "The demarcation of science cannot be timeless, for the simple reason that science itself is not timeless", diz Hansson. "The mutability of science", continua, "is one of the factors that renders the demarcation between science and pseudoscience difficult". É aí que os historiadores têm uma chance de enriquecer o debate. A conclusão é, hoje, óbvia demais para ser usada como objetivo da pesquisa histórica sobre ciência (e pseudociência). "A ciência não está fora do tempo": isso é um ponto de partida, não de chegada. Mas, aproveitando a deixa, isso é outra história, pra outro post.

Pseudo

Agora há pouco, o pessoal do De Rerum Natura deu uma dica daquelas: um novo artigo na Stanford Encyclopedia of Philosophy sobre ciência e pseudociência. O início é auspicioso, dá uma olhada:

The demarcation between science and pseudoscience is part of the larger task to determine which beliefs are epistemically warranted. The entry clarifies the specific nature of pseudoscience in relation to other forms of non-scientific doctrines and practices. The major proposed demarcation criteria are discussed and some of their weaknesses are pointed out. In conclusion, it is emphasized that there is much more agreement in particular issues of demarcation than on the general criteria that such judgments should be based upon. This is an indication that there is still much important philosophical work to be done on the demarcation between science and pseudoscience.

Opa, o negócio deve ser muito bom.

Só o termo pseudociência já causa arrepios no pessoal das humanas mais inclinado ao relativismo. Se ciência já é um campo razoavelmente complicado de se definir, o que dizer da pseudociência? Ou pior: para aqueles que não vêem lá grande diferença entre teoria científica e mito, onde é que entra a pseudociência? Não entra. Porque quem vê tudo embaçado assim já jogou a epistemologia pela janela faz tempo. E não vai querer perder tempo com coisa tão pueril, não é?

Pseudoprofundidade é foda.

Eu vou ver qual é a da pseudociência. Impressões a seguir, aqui no blog.

31 de agosto de 2008

Reforma (e Contra-Reforma)

Como vocês podem notar, o Pálido Ponto Branco passou por uma reforma. O visual mudou um pouco, alguns recursos foram adicionados, e o foco do blog tentou ser amplamente modificado.

Bem, algumas mudanças na substância vocês vão notar, mas toda reforma acaba encarando uma contra-reforma. Os luteros, calvinos e melanchthons da minha cabeça diziam que eu tinha de escrever sobre história e ciência, apenas. Martelaram tanto que, quando fui escrever o subtítulo do banner, milhões de neurônios jesuítas acordaram. E aí arte, futebol e F1 foram salvos da danação eterna.

O que vai mudar de fato é a organização. Alguns posts serão periódicos. O objetivo é tornar este blog menos pessoal e mais interessante para desconhecidos, mas não menos relevante para os amigos, que são a alma deste troço.

27 de agosto de 2008

Lamoterapia selvagem

Ok, enquanto o Pálido não vira outra coisa, fiquem com Xico Sá, que usa William Blake pra terminar em Wander Wildner. Se "só o caminho do excesso conduz ao palácio da sabedoria" - como disse o velho místico inglês - então SÓ A LAMA CURA!:

Leve a sua dor para as ruas, seus bares/seus mares, nade com ela no seco por debaixo das mesas, exponha-se, seja a vitrine de suas próprias escoriações, não se envergonhe, molhe o ombro do garçom amigo, derrame uma para o santo e entorne a próxima bagaceira com gosto de sangue e luto.

Esqueça a água imantada da jarra azul, o psiquiatra, o vidrinho dinamizado à milésima potência, o gingko biloba e o acupunturista da esquina: só a lama cura. Se for a metafórica, melhor ainda. E se for guerra de lama metafórica, aí o efeito é imediato.

Eu garanto.

23 de agosto de 2008

O cerne

Este blog vai deixar de ser o que era pra ser o que sempre deveria ter sido. Um blog de história, ciência, e história da ciência. Alguns pitacos sobre baboseiras mil ainda estarão presentes, mas não serão o foco. Aliás, quê foco?

Foco. Ir ao que interessa. A vida é curta, os interesses são muitos, mas poucas são as coisas realmente relevantes que a gente tem pra dizer ao mundo. Espero acertar na escolha.

Um abraço, um forte abraço, a todos os 17 milhões de leitores que passam por aqui todos os dias.

21 de agosto de 2008

Costanza pede uma mãozinha para Seinfeld

A Microsoft vai descarregar um caminhão de dinheiro na porta de Jerry Seinfeld para tê-lo ao lado de Bill Gates numa campanha publicitária que visa contra-atacar uma recente bem-humorada série de comerciais da Apple que retrata o PC/Windows como um cara antiquado, quadrado, lento e frágil, frente a um moderno, descolado, ágil e criativo Mac. A campanha da Apple é sensacional. Destaque para o bloco em que o Mac se entende perfeitamente com uma "câmera digital" japonesa:




Pode-se esperar algo na mesma moeda com Seinfeld. Faz tempo que ele não faz algo bom. Isso quando faz algo. Tudo o que fez por anos depois de encher o rabo de dinheiro e acabar com sua sitcom foi "nada, absolutamente nada", como fazia questão de dizer orgulhosamente (para a gargalhada geral). Bee Movie (em que Jerry dubla a abelha protagonista) não passou de um fiasco. Tomara que seja o início da volta de Jerry Seinfeld, o das situações geniais e do timing perfeito. Como num especial de 98, pouco depois do final da sitcom, em que apresentou pela última vez sua rotina de piadas. É uma hora de stand-up, mas o tempo parece voar. O vídeo está legendado e separado em 8 episódios (contando com uma introdução de 5 minutos - agradecimentos ao brenorgs do youtube!). A versão em boa qualidade (bem como as legendas) você pode achar por aí nas boas casas de torrent do ramo. Ah, o vídeo está em playlist aí embaixo, então dá pra selecionar os capítulos sossegadamente. Bons risos.




Aguardemos, portanto, as peças da MS. Se bem que o PC está realmente mais pra George Costanza do que pra Jerry. Eu só não tenho um Mac porque é caro demais.

20 de agosto de 2008

Don´t laugh on me, Argentina

Leia o trecho a seguir e responda:

"sabemos como eles são quando estão perdendo, sempre aparece a perna forte, a patada. Mas já passou, obviamente ninguém gosta de perder, te dá impotência e isso te leva a bater."

Quem proferiu essas palavras?

a) um jogador brasileiro, sobre jogadores argentinos

b) um jogador argentino, sobre jogadores brasileiros

Desde sempre aprendi, seja por comentários de sofá do meu pai e do meu tio, seja por comentários do pessoal que narra jogos para a TV, que os argentinos eram desleais, só jogavam na defesa, não sabiam perder, e batiam. Muito. Todo mundo também deve ter aprendido o mesmo. Fossem outros tempos, responderíamos com a letra "a", pouco percebendo o quanto havia de xenofobia em nossa resposta.

Mas o que vimos ontem foi a essência do dunguismo e a resposta só pode ser a "b", portanto. O jogador argentino é Javier Mascherano (que também bate bastante, convenhamos) em entrevista para o Terra. Quando perguntado se ficou surpreso com a performance pífia da seleção brasileira, respondeu na lata e com toda a razão: "o Brasil vem sendo isso. O bom é que nós dissemos isso antes da partida. Tínhamos claro que o plantel deles era limitado, bastante defensivo. E ontem foi possível notar que estávamos certos, que vemos bem o futebol." E completou: "o Brasil já faz um tempo que não vem respeitando muito sua história".

Depende, Mascherano. Se você quis dizer que o Brasil não respeita o fio de sua história que une Garrincha, Pelé, Rivellino, Zico, Sócrates, Romário, Ronaldinho Gaúcho, e tantos outros jedis da pelota, acho que é inevitável concordar com você. Mas se o fio for outro, o do lado negro, então você está enganado. Este é o fio que tem na figura de Zagallo seu Darth Vader e que culminou na trágica vingança dos sith na Copa de 1994, quando, segundo o Xico Sá, foi criado o dunguismo que hoje nos causa tanta agonia. Desse jeito, o Brasil está seguindo sim uma boa parte de sua história. Darth Parreira começou com um trabalho esplendoroso na Copa de 2006, quando jogou no lixo a melhor geração brasileira desde 82, e agora Darth Dunga está levando em frente o sabre vermelho da retranca sem imaginação.

Por falar em 82, Zico tinha razão: foi na derrota de 82 que toda essa pataquada defensiva opaca começou no Brasil. Mas isso não é desculpa. A Argentina passou por algo mais ou menos semelhante em 2002. Tinha um time fantástico, montado por Marcelo Bielsa. Foi ali que comecei a notar que a Argentina estava ocupada em jogar futebol, diferente dos nossos amarelinhos. O time de El Loco Bielsa passeou nas eliminatórias e chegou à Copa como clara favorita. Caiu num grupo terrivelmente difícil, bobeou e inesperadamente caiu na primeira fase. Quem foi campeão, todo mundo sabe, foi o Brasil improvisado de Felipão. Agora, perguntem se os argentinos desistiram. Perguntem se chegaram à Alemanha, em 2006, dispostos a ganhar sem jogar futebol de verdade. Perguntem se eles desistiram de jogar mesmo após montarem outro time maravilhoso e perderem a Copa América em 2007 para o Brasil dunguista.

Realmente, eles são melhores do que nós. E não é de hoje. Concordo com o Idelber.

Na sombra

Leroi Moore, o óculos e o saxofone

Fui dar uma checada de praxe na DMBrasil.net, o maior e melhor site brasileiro sobre a DMB, e para minha triste surpresa descobri que Leroi Moore, o saxofonista da banda, morreu ontem, dia 19 de agosto.

Leroi havia sofrido um acidente com um quadriciclo em julho e estava começando o processo de recuperação física. Sua morte ainda não foi completamente esclarecida, mas provavelmente está relacionada ao acidente. Tinha 46 anos.

Leroi Moore era do tipo que quase não aparece no palco. Ficava sempre no extremo canto direito, meio na penumbra, de óculos escuros. Sua especialidade era o sax, mas também deixava as músicas da DMB mais coloridas com flauta e até pennywhistle. Era sempre sutil, sem estardalhaços, seja num solo, seja ao encaixar uma frase de maneira a pensarmos que ela deveria estar sempre ali.

Ele não viria ao Brasil. Mesmo assim, ainda é difícil prever se a banda vai cancelar ou adiar os shows por aqui. Tomara que não.

Dê um tempo, aproveite a hora do almoço, aumente o som, dê um play aí embaixo e ganhe dez minutos de vida com #41. Leroi no sax, na flauta, e no sax de novo.





Obrigado por estas e tantas outras, Leroi.

Banda do Davi Mateus no Brasil!

Tá certo, a notícia vem com alguns dias de atraso, mas quê importa?

Importa é que a Dave Matthews Band confirmou as datas para tocar aqui no Brasil! 26/9 em Manaus, 28/9 em São Paulo e 30/8 no Rio. 

Tenho sonhado com isso desde 2001.

Será que eu vou ver The Stone ao vivo?



PS: Agora só falta o Radiohead.

15 de agosto de 2008

Crush me

Música, porque hoje é sexta e a DMB deve vir pro Brasil este ano!



Let´s go drive till the morning comes
And watch the sunrise
And fill our souls up
Drink some wine till
We get drunk, yeaaaahhh
It´s crazy, I´m thinking
Just knowing that the world is round.........................

12 de agosto de 2008

A verdade está lá fora

A Globo está passando Guerra dos Mundos. Enquanto os ETs invadem o planeta e vaporizam bilhões, Michael Phelps já bateu um recorde mundial, levou mais uma de ouro pra casa e na semi dos 200m borboleta decidiu nadar só nos últimos 50m. Estava meio corpo atrás, chegou com um corpo na frente.

Será mera coincidência? Ou há alguma conexão aí? Será que o Phelps...? Será que...?

Hein?

Ok, nevermind...

9 de agosto de 2008

Do olímpico desprezo pelo interesse público

Quando a Taça Libertadores deste ano começou a chegar em sua fase decisiva, Fluminense e São Paulo se enfrentaram pelas quartas-de-final. Os jogos ocorreram nos dias 14 e 21 de maio. Para o dia 21, outro jogo de destaque (um pouco menor, diga-se) estava marcado: era uma das semi-finais da Copa do Brasil, que seria disputada entre Botafogo e Corinthians. A Globo tinha a exclusividade de exibição da Libertadores mas havia vendido os direitos de transmissão (mas não a exclusividade) da Copa do Brasil para a Bandeirantes. Como a coincidência de datas entre a segunda perna da Libertadores e a primeira da Copa do Brasil poderia significar perda de audiência para a Globo (já que os corintianos provavelmente migrariam para a Band), a emissora oficial da nação conseguiu que a CBF mudasse a data da semi-final, antecipando-a em um dia. A Band, com isso, não pôde exibir o evento que comprou, e do alto de sua magnânima bondade a Globo disponibilizou o sinal do segundo jogo entre Flu e São Paulo pela Libertadores para compensar a perda da concorrente. Obviamente prejudicados, os corintianos festejariam uma semana depois a decisão da Globo em transmitir para o estado de São Paulo o segundo jogo entre Bota e Corinthians em detrimento da exibição da primeira semi-final entre Boca e Flu, um jogo claramente de maior interesse geral.

O abuso em nome de interesses mercadológicos e o desprezo pelo interesse público continuariam.

O Corinthians se classificou para a final da Copa do Brasil contra o Sport Recife. O primeiro jogo da final coincidiu com o épico segundo jogo entre Flu e Boca no Maracanã e, pra variar, a Globo preferiu privilegiar uma única torcida do estado paulista em detrimento do interesse geral em torno de uma semi-final de peso do segundo mais importante torneio continental do mundo.

Até aí, tudo bem. Quer dizer, tudo bem nada, mas é compreensível em face da audiência gerada pelo Corinthians num jogo importante, não tão importante quanto uma semi de Libertadores com um time brasileiro e o Boca na parada, mas ainda assim, importante.

O que aconteceu em seguida ultrapassou os limites do compreensível.

O primeiro jogo da final da Libertadores entre Flu e LDU estava marcado para o dia 25 de junho. Finalmente, nós paulistas não-corintianos teríamos a oportunidade de ver um jogo que realmente interessasse. Ledo engano. O Corinthians tinha um compromisso contra o Bragantino pela segundona do Brasileiro marcado, desde o Paleolítico, para o dia 24. Inacreditavelmente, a Globo usou novamente sua força na CBF para mudar a data deste jogo, remarcando-o para o mesmo dia 25, no mesmo horário, da final do Flu. E nós, de São Paulo, tivemos que engolir a seco o mais do que xoxo 1 a 1 entre os dois times da série B, enquanto a LDU enfiava 4 a 2 numa ótima final contra o Fluminense.

Ora, a Globo só transmite seu sinal por obra de uma concessão pública. Se a emissora compra os direitos de transmissão de um evento como a Taça Libertadores com exclusividade, compra também a responsabilidade pública de exibir para todo o país os jogos mais importantes do torneio que pelo menos contem com a participação de algum time brasileiro. Em vez disso, sob a justificativa de atender à demanda comercial de uma única torcida de São Paulo (a maior delas, mas que está longe de constituir a maioria do público), exibiu um jogo da segunda divisão.

É óbvio que a Globo não vê qualquer responsabilidade pública naquilo que transmite. Está defecando e caminhando e assobiando para o interesse público como se nada fosse. Se a Globo é capaz de troçar da sociedade com tamanha indiferença quando a questão é futebol, imaginem o estrago que ela pode causar quando o assunto é mais "sério". Não precisa ir muito longe: em 2006, às vésperas das eleições presidenciais, o Jornal Nacional ignorou propositalmente o acidente do avião da Gol para dar livre curso e amplo destaque às denúncias de uma suposta compra de dossiê, por parte de petistas, contra políticos tucanos (dêem um pulo aqui e aqui). Então, qual é a responsabilidade pública de um departamento de jornalismo de um órgão que opera por concessão pública? Noticiar uma tragédia grave ou ignorá-la pelo bem do ritmo e dramaticidade de um script muito bem ensaiado contra inimigos políticos?

Bem, eu achei que esse tipo de desrespeito ao interesse público só acontecia por obra de redes de TV que exercem um domínio nacional amplo e sem concorrência. Nos Estados Unidos, a terra em que a audiência é disputada como uma zebra morta por leões famintos, não existe esse tipo de descaso, existe?

Pois leiam o que me escreveu um amigo que está neste momento em Richmond, Virginia, USA. Justo ele, David, o corintiano que tirava um pêlo da minha indignação anti-corintiana e anti-global, me mandou o seguinte e-mail indignado na hora do almoço:

Hoje acordei mais cedo em plena sexta-feira simplesmente pelo fato de
querer acompanhar a abertura dos jogos olímpicos ao vivo pela televisão. Cheio
de ramela ainda nos zóio, liguei a tv e comecei a buscar por 1 dentre os mais de
400 canais de TV que a operadora Comcast provê. Os primeiros canais são de
esporte e então seria batata encontrar e não iria acabar com as pontas dos meus
dedos no botão do controle. Doce ilusão... Troquei os canais até que cheguei nos
canais de filmes e continuava a pensar: "Não, acho que não são tão egocêntricos
assim... são mais de 4 BILHÕES de telespectadores no mundo todo". Foi quando
cheguei nos canas em HD, onde os canais passam a ser repetidos, porém em alta
definição. Pensei comigo mesmo, "Vai que... ?", então tentei todos eles
também... A ilusão ficou mais doce ainda. Fui no banheiro dar aquele tapa
na cerâmica, tomei um banho, vim pro trabalho e ainda estando inquieto com o
fato dos EUA não transmitirem ao vivo a cerimônia, resolvi procurar na net. Se
existe uma dúvida, Google it! Foi o que fiz e constatei uma triste realidade do
sonho americano: a maldita NBC detêm os direitos de transmissão e pelo fato
de 8 PM em Beijing ser 8 AM Eastern Daylight Time (EDT), horário 'não' nobre, a
emissora decidiu transmitir a abertura apenas às 8 PM EDT e minha "indignância
se elevou-se" pela arrogância e descaso com "apenas" a cerimônia de abertura
das olimpíadas.

Detalhe, agora estou 'acompanhando' a abertura pela Rádio Jovem Pan On Line
do Brasil.



E David completa com trechos de um fórum de discussão ianque:


Open Questions
"Will the opening ceremony be broadcast live on any US television stations?
How about the Internet?I only see reference to a tape delayed ceremony airing on
NBC prime-time friday night. I'm wanting to watch it live, if possible."
(Ken)

Answers
"Where have you been? China is a day ahead of us so no they will not be
live. The opening ceremonies will be taped live and shown tomorrow on NBC at
7:30 P.M." (sis74100)

"As an expat living in Canada, the Olympics are being broadcasted live by
the CBC. Just another reason to live up north, live olympic coverage."
(lfwh3)


Como diria o meu amigo, ou melhor, James Hetfield: sad but true.

O capitalismo das corporações selvagens é uma merda.

8 de agosto de 2008

Onde está você no compasso político?

No Biscoito Fino, uma dica divertida: The Political Compass. Você responde a algumas perguntas sobre os mais variados assuntos (economia, política, educação, aborto, sexo, pena de morte, etc.) e, ao final, o site localiza você num gráfico com dois eixos: na vertical, libertário/autoritário, e na horizontal, esquerda/direita. A justificativa do site é que o espectro que opõe esquerda e direita não dá conta de explicar as diferenças políticas. "Não é suficiente dizer que Stalin estava simplesmente mais à esquerda do que Gandhi", diz a página inicial.

Tudo bem, a estrutura do teste é um tanto parecida com aqueles testes de revista Cláudia, Nova, "saiba se ele está te traindo", "saiba se ele é sua alma gêmea", essas merdas. Mas é irresistível. Eu respondi às perguntas e meu resultado foi esse aí embaixo, o que espantosamente me revelou um esquerdista libertário. Que novidade!


Economic Left/Right: -7.12
Social Libertarian/Authoritarian: -8.41



Se você tiver 10 minutos pra torrar nesta sexta-teira nublada, responda às perguntas. E deixe seu resultado aqui na caixa de comentário. Morro de curiosidade pra saber onde é que algumas pessoas seriam localizadas nesse gráfico. Só não vale ficar competindo pra ver quem é o mais esquerdista libertário!


Edit: a Vanessa respondeu às mesmas questões e seu resultado foi tão libertário quanto o meu, mas um pouco menos de esquerda:



Tudo mais ou menos nos conformes, pelo menos no campo das representações.

Aliás, queria ver onde a esquerda do Sasqua iria parar. A do Luis seria, claro, off the charts! Jácamo cairia, óbvio, nos azurzinhos, enquanto Juliano estaria radicalmente no centro. Já Joãozinho Jocoso é uma incógnita. E Duilio preferiria responder a questões sobre Tekken e WoW.

3 de agosto de 2008

Mousse

Logo abaixo, em boa qualidade, as três primeiras músicas do show do Muse em São Paulo. Na ordem: Knights of Cydonia, Hysteria e, claro, Bliss.





2 de agosto de 2008

space dementia geral


E o Muse veio, tocou uma hora e meia bem na nossa cara, e foi-se embora.

Há muito uma banda acostumada a lidar com públicos gigantes na Europa, onde lota estádios e arenas de grande porte, o Muse enfrentou uma platéia bem menor numa casa de médio pra pequeno porte em São Paulo, o HSBC Brasil. Foi exatamente isso que, talvez, tenha transformado uma apresentação de rotina numa noite inesquecível.

Houve apenas duas surpresas num setlist já esperado, uma versão um pouco menor do lançamento que eles vieram promover, o HAARP, gravação de um show no novíssimo e sofisticado estádio Wembley. Diferente daquele show em Londres, a produção foi enxutíssima. Só havia um telão atrás do palco, que exibia ótimas viagens psicodélicas fielmente sintonizadas com cada música. E uma ou outra explosão de gelo seco (foi o que me pareceu... aliás, isso existe?). Fora isso, não aconteceu nada que desviasse a atenção do público da música e da banda.

A noite começou com Jay Vaquer. Não sei se é assim que se escreve o nome do cara (pouco importa), um sujeito meio mala que dá nome e até consegue estragar uma banda que é boa, principalmente pelo batera. A abertura correu normalmente, sem aquele tipo de manifestação de repulsa por parte do público, o usual num show de metal - mas afinal aquilo não era um show de metal e o público era outro, talvez um pouco menos religioso. A maioria do público, aliás, parecia ter saído de uma boutique que vendia um "uniforme básico de fã do Muse", sem mencionar os cabelinhos meticulosamente bagunçados.

Enfim, estávamos lá pra ver o Muse e não seus fãs padronizados. (Um ou outro trintão, quarentão ou cinquentão ali nas cadeiras conosco aliviava um pouco a nossa sensação de peixes fora d´água.) Às dez e meia (pouquíssimo atraso, portanto... ei, trata-se de uma banda inglesa, oras!) as luzes se apagaram e a intro instrumental do HAARP começou a soar. O trio então entrou no palco (na verdade, um quarteto, pois um cara fica encarregado de acompanhar a banda com a parte eletrônica do som) e os primeiros acordes de Knights of Cydonia aparecem, como todo mundo já sabia. O som estava ótimo e alto, tudo perfeitamente audível, e a banda estava tocando logo ali embaixo dos nossos narizes. A perfeição e previsibilidade com que tocaram as duas primeiras músicas dava a sensação de estarmos assistindo um DVD ali na nossa frente, algo que só foi quebrado com uma grande surpresa. Enquanto prevíamos a terceira música (se tudo saísse conforme o HAARP), Bliss começou a ser tocada. Sim, Bliss! Bliss! Desde que compramos o ingresso eu sabia que eles não tocariam Bliss, uma das favoritas. No caminho para o show, fiz questão de lamentar que não veríamos Bliss ao vivo, já que fazia tanto tempo que não a tocavam. Mas ali estava o Muse, e ali estava Bliss. Foi quando caiu a ficha de que tudo estava acontecendo naquele momento.

Das restantes 12 músicas do setlist, apenas uma parecia não estar no script, Citizen Erased, mais uma sensacional que, como Bliss, vem do Origin of Symmetry, álbum de 2001. Apenas uma, também, me soou dispensável: Invincible, do último álbum, a única em que um ponto negativo da banda, a canastrice, parece fora de controle. Ainda bem que Invincible foi logo engolida pela autenticidade da avalanche de New Born, Plug-in Baby e Time is Running Out, em sequência. Foram 15 minutos absolutamente memoráveis.

O que impressiona num show do Muse é que, apesar de todo o profissionalismo, a perfeição sonora, a execução meticulosa das músicas, a quase inexistente troca de palavras com o público e o setlist quase completamente previsível, a banda transpira paixão no que toca e consegue transmitir a empolgação para o público, que devolve na mesma moeda. A sensação de ouvir Matthew Bellamy e mais de três mil pessoas cantando em uníssono num lugar pequeno cada uma das 15 músicas foi arrepiante e quase surreal. No final, junto com sensação de que afinal havíamos visto Muse ao vivo, ficou apenas uma ponta de desgosto: esses ingleses baixinhos de meia tigela demoram 10 anos pra virem pro Brasil e tocam só uma hora e meia? Por quê não tocaram Space Dementia? Quem eles pensam que são?

31 de julho de 2008

É hoje que a musa bebe água

Hoje tem Muse em Sampa. Amanhã tem resenha no blog, a quem interessar.

É mais ou menos isso aí embaixo que vamos ver hoje à noite: 





out of the blue


às vezes eu gostaria de ser menos estranho praqueles que eu amo

29 de julho de 2008

Construções, O Horror, O Horror


Conheci Juan Nieves Jr. neste mês de julho de 2008 e, no entanto, ele já está morto há quase 7 anos.

Sua morte faz aniversário no dia 11 de setembro.

Naquela terça-feira, no dia de sua morte, Juan acordou bem cedo como sempre, condicionado pela eternidade de 37 anos como trabalhador de restaurantes em Nova York. Durante 30 anos preparou saladas no Russian Tea Room - algo de que humildemente se orgulhava, pois havia adquirido o rótulo de especialista - e quando a direção do estabelecimento decidiu que o lugar deveria passar por uma "renovação", Juan se viu na rua. Para a sua sorte e de sua família, logo arranjou uma vaga no famoso Windows on the World, graças à sua especialidade, o que lhe garantiu o modesto salário de 7 dólares por hora. Quando morreu, seu salário já havia chegado a 12 dólares por hora, o que não deixava de ser uma tênue motivação pra pular da cama. Se ele soubesse que sua vida não passaria além daquela manhã, teria amado sua mulher como se fosse a última? Teria beijado cada filho seu como se fosse o único? Teria ido trabalhar com seu adorado Mustang ´67? Certamente. Mas como ele não sabia - ninguém pode saber, sinto que devo frisar ao leitor - Juan não fez nada disso. Saiu de casa com a quase certeza de voltar no fim do dia - da forma como todos fazemos, com quase certeza da volta - e atravessou a rua com seu passo tímido em direção à jornada pelo transporte público de Nova York, que o levava desde 1994 ao topo do mundo, o 107o. andar da Torre Norte do World Trade Center.

Da mesma maneira com que faz a todos, a rotina havia amortecido nele a capacidade de se maravilhar com o que havia se habituado a ver no caminho para o trabalho. A silhueta dos arranha-céus de Manhattan, especialmente a das Torres Gêmeas, há muito deixara de o impressionar, da mesma forma com que nós nos habituamos aos móveis da casa. Como um gorila que divisa as árvores que delimitam seu espaço, sentia familiaridade (e uma ponta de orgulho) ao ver os dois idênticos prodígios arquitetônicos que marcavam o horizonte. Everything in its right place, in its right place. Isso livrava sua mente para voar enquanto rumava para o trabalho, o que não quer dizer algo necessariamente prazeroso. É um prazer, certamente, sonhar acordado quando se é jovem e as janelas do mundo estão abertas, mas Juan tinha já seus 56 anos. À medida que sua vida se acelerava cada vez mais rapidamente, seus sonhos voltavam-se para o passado. Poderia ele, Juan, ter sido alguém diferente? Talvez um dos inúmeros engravatados que trabalhavam no WTC, com quem cruzava nos Sky Lobbies à espera de um elevador, quem sabe? Quem sabe tivesse sido até mesmo um daqueles CEOs que tomavam café da manhã olhando para Manhattan de seu lugar mais alto, como imperadores que avaliam seus domínios e o que ainda resta conquistar. Não, sua realidade lhe censurava algo tão inalcançável, tão diferente de sua vida, e costumeiramente descartava um sonho tão alto em favor de uma fantasia como corretor de seguros, por exemplo. Pensou que poderia ser o corretor ao seu lado no elevador (a rotina e a familiaridade também haviam lhe apagado a admiração que sentia nos primeiros tempos ao pensar em como aquelas máquinas poderiam subir dezenas de andares tão rapidamente). Logo olhou para o ascensorista e pensou que poderia ter sido ele. Sentiu uma inevitável compaixão por aquele homem, horas e horas dentro de uma caixa, subindo e descendo, esforçando-se em ser simpático, inventando papos pra puxar com desconhecidos. Enquanto deixava o elevador expresso, dirigiu uma despedida especialmente fraternal ao ascensorista. Sentiu enfim que tinha sorte de ser um preparador de saladas.

Era sorte mesmo, já que era um trabalho que exigia atenção mediana e Juan havia desenvolvido a habilidade necessária para executá-lo com a precisão de uma máquina. Sua mente ficava quase sempre livre para voar. Naquela terça-feira, Juan foi encarregado de preparar parte dos canapés que o Windows on the World serviria numa conferência sobre tecnologia da informação. Enquanto enchia meticulosamente uma bandeja de canapés, Juan perguntava-se o que diabos aquele pessoal tinha a dizer sobre tecnologias da informação. Seria sobre internet, algo com que ele, "burro velho", ainda não tinha se familiarizado? Um dia talvez a internet ligasse seres humanos habitando diferentes planetas, imaginou. Então, quando sua mente preparava-se para chegar a Vênus e sua mão caminhava em direção a mais um canapé, um evento inusitado trouxe bruscamente sua cabeça de volta ao corpo. Uma enorme explosão, um choque, o chão tremendo e o prédio balançando pra lá e pra cá como uma antena. Juan teve que se segurar na bancada para não perder o equilíbrio. Pratos caíram e quebraram no chão. O parco equilíbrio de suas pernas enviava seguidas informações para seu cérebro sentir medo, muito medo, e o cérebro respondia ao corpo com a respiração ofegante, o coração disparado, os olhos arregalados, a pele sentindo cada toque. Por alguns segundos Juan não era mais Juan, não tinha nome, era um animal querendo sobreviver. Separados pouco antes pelo torpor da rotina, corpo e alma eram agora uma coisa só.

Depois de alguns segundos o prédio parou de tremer e a confusão instalou-se no Windows on the World.

A fumaça imediatamente começou a aparecer, sinal de que a explosão dera origem a um incêndio. Mais de uma centena de pessoas no Windows on the World tentava descobrir informações sobre o que havia se passado. Logo, alguém soube que um avião grande havia se chocado com a Torre. Juan, agora altamente sensível, raciocinava sobre como é que uma máquina maravilhosa e tão dotada tecnologicamente como um avião poderia bater de maneira tão besta num prédio, e podia imaginar os horrores que se passavam andares debaixo dos pés dele. Enquanto a gerente do restaurante, agora com centenas de vidas sob sua batuta, tentava planejar uma evacuação, as condições se deterioravam rapidamente. A fumaça preenchia o ar cada vez mais rápido. E uma outra explosão, desta vez surda e sem os choques estruturais da primeira, só fez lembrar ao corpo de Juan o perigo de morte que corria. Estava sob um ataque proposital, soube logo depois por meio de um engravatado, que tanto podia ser um CEO quanto um alguém de posição irrelevante, tanto fazia naquele momento. Logo lhe veio à mente uma metáfora que lhe era cara: no fim do jogo, o rei e os peões voltam pra mesma caixa.

Para infortúnio de dois mil, oitocentos e tantos seres humanos, as torres teriam este mesmo destino.

A fumaça preencheu rapidamente o ambiente e o calor já fazia o chão começar a vergar. A esta altura, Juan e as outras cento e tantas pessoas que dividiam o espaço do Windows on the World com ele já tinham a informação de que não havia saída para baixo. Não se enxergava a mais de dois, três metros, e se respirava com dificuldade. As pessoas, já agora menos pessoas e mais animais sem nome, buscavam ar nas janelas quebradas, amontoando-se, dependurando-se para o lado de fora que dava para um precipício de 400 metros. Juan, ou aquele homem de meia idade, aquele ser vivo, também estava ali, lutando por seu espaço por ar. O calor já era insuportável. Se ficasse ali, iria cozinhar. Mas não havia para onde ir.

Nos especiais de televisão, em documentários, ouvem-se frases que devolvem a essas criaturas desesperadas um pouco de orgulho, auto-estima, autonomia, poder. Um ato de coragem, um último ato de controle sobre como se vai morrer: esta é a descrição comum. Dá-se ênfase especial ao caráter de decisão que acompanha o ato. As condições estavam tão "extremas", tão "inóspitas", que as pessoas decidiram pular. Elas decidiram, escolheram, dizem narradores em off, “especialistas”, testemunhas oculares, cinegrafistas. Todos, testemunhas e “especialistas”, animais amedrontados como Juan, como os outros 1300 presos nos últimos andares da Torre Norte, mas que não estavam lá no alto, e que não podem arriscar sentir o mesmo que as vítimas, ciosos que estão de suas identidades, daquilo que torna-os humanos, que os fazem pensar e dizer que têm alma e que não são passageiros de um mundo sem sentido numa viagem sem sentido. Recorrem a uma fantasia de controle e coragem das vítimas para não se jogarem eles próprios no vazio da não-existência.

Não há decisão, não há controle, não há escolha. Nem razão, pesos e contrapesos, prós e contras, should I stay or should I go. Mas também não há mero reflexo, um ato de susto que não passa por nenhum fio de pensamento. O ar fresco, o céu azul, as ruas minúsculas, tudo o que Juan podia imaginar lá fora parecia apenas ressoar profundamente na boca de seu estômago uma necessidade, um tem de ser assim!, pois faziam um contraste cruel com o fogo - que ele não via mas que era real demais (não precisava da imaginação para sentí-lo cozinhando as pernas) - e com a fumaça, que lhe preenchia a visão, os pulmões e o cérebro. E quando sentia este chamado surdo das ruas e a repelência eloqüente do Windows on the World, sentia atravessar-lhe a coluna vertebral uma onda de choque em direção à nuca que o fazia perder completamente a força do abdome, arquejando seu corpo, o pescoço dobrando involuntariamente, pendendo a cabeça para o lado, tremendo, quase no mesmo instante em que sentia a mesma onda refluir em direção ao intestino e à bexiga.

Não me sai da cabeça a imagem de Juan já dependurado na janela, o tronco inteiro pra fora do prédio. Mal conseguia segurar na coluna de aço que lhe queimava a palma da mão. Vejo cada linha de expressão de sua testa, franzida como nunca, e a vermelhidão dos olhos. Agora, Juan podia vislumbrar as ruas 400 metros lá embaixo, tomadas por luzes coloridas e sirenes estridentes. O formigueiro sempre inquieto agora estava em polvorosa, as ruas cheias de formigas confluindo para ajudar e salvar outras formigas. Para muitas, não haverá tempo.

Não me esqueço de Juan. Sua mente, sua alma, tenta se desprender do corpo, viajar para perto dos filhos, da mulher, do Mustang ´67 que comprou quando era novo, do sangue correndo pelo corpo quando o acelerou pela primeira vez. Acelerou o Mustang o suficiente? Amou o suficiente? Criou os filhos de maneira digna? Rende-se à última fantasia tentando resistir à inevitável tentação de ser apenas um animal desesperado, o que é, imagina-se acelerando o Mustang com sua família numa maravilhosa joy ride que nunca houve, e cai para uma última jornada solitária de 10 segundos.

7 de julho de 2008

Item de sobrevivência

Achei no blog do Pedro Dória, e a coisa foi passada pra ele pelo André Fucs. Um trecho de South Park, em tom de prelúdio de filme-desastre. Muito apropriado ao "dia em que a internet foi embora". A internet da Telefônica, diga-se. Foi um dos poucos dias em que abençoei o fato de ter Virtua, a net que só scavurska seus clientes.

5 de julho de 2008

Old silly joke

Williams fazem dobradinha na Inglaterra.

In hot blood

Eu nunca mais vou dizer
O que realmente penso
Eu nunca mais vou dizer
O que realmente sinto
Eu juro
Eu juro
(Titãs)


E este blog acaba de se transformar naquilo que nunca deveria ser: um diarinho confessional.

...

Nenhum homem é uma ilha, mas que têm umas montanhas gigantescas no caminho que leva a cada península, ah, isso têm.

...

Os mal-entendidos são uma coisa odiosa, sempre pensei. Claro, nunca me preocupei muito se havia interpretado errado alguma pessoa, ou alguma coisa que me foi dita. Nunca me preocupei demais, por exemplo, se apenas estava projetando meus preconceitos numa determinada pessoa, ou num discurso qualquer. O que sempre me preocupou era como eu e meus atos poderiam ser mal-interpretados. Ou o preconceito que poderia ser projetado sobre mim. Por isso, sempre me esforcei para ser o mais possivelmente claro nas minhas intenções, naquilo que dizia, nos gestos e olhares, para que não houvesse traço de dúvida sobre o que eu sou. É um egocentrismo do caralho, eu sei, eu sei. Mas não me entendam mal.

Foi lendo Milan Kundera que pude perceber que a comunicação humana está fadada ao fracasso, em grande medida. Trata-se de uma característica inerente a nossa condição, acho. Sempre haverá ruídos, distorções, e as mensagens que jogamos pros outros nunca serão recebidas sem os ruídos e as distorções.

Recentemente, agi com uma ingenuidade imensa ao pensar que poderia explicar com sinceridade e honestidade, evitando os ruídos, as minhas desonestidades e insinceridades. Pensei que explicar algumas coisas, os conflitos, as contradições, seriam uma forma de amenizar o sofrimento, meu e da pessoa afetada pelas minhas sujeiras. Não estava nem um pouco confortável com a imagem que se fazia de mim, embora essa imagem fosse mais do que compreensível e esperada. E queria que essa pessoa entendesse o incompreensível, e se livrasse de uma carga que pode ser eterna, uma ferida que nunca fecha, dessas que acabam guiando o destino da pessoa dali por diante. Mas - e é aí que entram os ruídos - como esperar que se acredite na sinceridade de alguém que agiu com desonestidade? Como acreditar numa sinceridade que tenta explicar o seu oposto, a insinceridade? E como esperar que se acreditasse que alguém desesperadamente egocêntrico poderia agir não apenas preocupado com a sua própria imagem, mas com a vida de alguém importante demais pra ser tratado com a indiferença da falta de comunicação? "Qualquer pessoa que pensa conhece o paradoxo". A ingenuidade está em pensar que aquela pessoa importante, fundamental em muitas coisas, pensasse num momento de puro ódio e raiva.

Se já é difícil a comunicação com alguém que pensa, alguém muito longe de ser uma pessoa convencional, o que dizer do diálogo com um poço de convencionalidade? Uma idéia pairava na minha cabeça até ontem: explicar, me explicar, para algumas outras pessoas também muito importantes, fundamentais. Mas se o diálogo já era improvável numa situação em que nenhum ato meu era questionado, o que dizer de agora? Se minhas opiniões sobre filmes, livros e, pior, religiosidade, eram solenemente descartadas por preconceito, o que dizer dos meus atos recentes? A idéia vira-e-mexe zunia pela minha cabeça: escrevendo como escrevo sempre, com o sangue no papel, com a sinceridade e abertura que garantiriam pureza na comunicação.

Descobri tardiamente o valor inestimável da literatura com Kundera. Quanto tempo perdido! Foi com ele que pude perceber que um historiador e ensaísta que adoro tinha razão ao dizer que história e literatura estão irmanadas por um objetivo cognitivo (indo mais longe, pude perceber a mesma coisa na relação entre ciência e arte, algo incensado aos quatro cantos, mas que eu nunca tinha entendido antes - se bem que essa relação sempre foi puxada mais pro lado do subjetivismo e eu, claro, gosto de ver pelo lado oposto. Enfim, este não é um texto de epistemologia). Kundera me revelou determinados traços da realidade, o principal deles o do mal-entendido entre as pessoas, nossa malfadada tentativa de comunicação. Ele me enfiou uma pulga atrás da orelha que só foi sentida de verdade mesmo quando li uma outra coisa.

A Sangue Frio (In Cold Blood), de Truman Capote, narra a história de um assassinato horroroso no interior do Kansas. Quatro pessoas de uma mesma família foram brutalmente executadas e Capote, jornalista novaiorquino, reuniu um corpo gigantesco de evidências para contar a história na forma de um romance de não-ficção. (A história da gestação desse livro foi recentemente contada no ótimo Capote. Quem ainda não viu o filme já deve saber o que está perdendo.) O livro (e a história) são especialmente saborosos por causa do problema incrível que é a personagem de Perry, um dos dois assassinos. Perry é um mestiço, meio índio, meio "caucasiano", o que já dá muito pano pra manga. Ele é especialmente sensível, toca violão e canta um repertório vasto para platéias imaginárias, escreve um diário. Se não me falha a memória, Capote, o do filme, chega a dizer que ele e Perry são o mesmo, só que Perry entrou para a vida pela porta dos fundos. Quando Perry esteve preso pela primeira vez, escreveu uma carta para a irmã (talvez seu único elo com o mundo exterior), tentando se explicar. A resposta da irmã, então, acabou por ser analisada de maneira inacreditavelmente perspicaz por um amigo da prisão, o "superinteligente Willie-Jay". O que Willie-Jay escreveu para Perry chegou, por vias tortuosas e inesperadas, a mim, com muitos ruídos, claro, inclusive os que tenho aqui dentro:


A sua carta para ela, e esta, a resposta, falharam em seus objetivos. Sua
carta era uma tentativa de explicar sua maneira de encarar a vida, já que você é
necessariamente afetado por ela. Destinava-se a não ser compreendida, ou
interpretada literalmente demais, porque suas idéias se opõem ao
convencionalismo. Que poderia ser mais convencional que uma dona de casa com
três crianças, "dedicada à sua família"? Nada mais natural que ela se
ressentisse de uma pessoa não convencional. Há uma considerável hipocrisia nas
convenções. Qualquer pessoa que pensa conhece o paradoxo. Mas ao lidar com
pessoas convencionais é sempre vantajoso tratá-las como se não fossem
hipócritas. Não se trata de infidelidade aos próprios conceitos. Trata-se de uma
concessão para que se possa continuar a ser um indivíduo livre da ameaça
constante das pressões convencionais. A carta dela fracassou porque ela é
incapaz de conceber a profundidade do seu problema - não pode medir as pressões
sofridas por você devido ao meio ambiente, à frustração intelectual e uma
tendência crescente ao isolacionismo.


Como explicar o paradoxo para pessoas que são incapazes de compreender o que está fora do mundo das convenções, da normalidade? Não se explica nada. Acho que eu nunca mais vou dizer o que realmente penso para essas pessoas.

De onde você vem?