12 de novembro de 2009

ComCiência, update

A Revista ComCiência está com nova edição. Link direto pro meu texto, a quem interessar, aqui.

O mundo inteiro sabe e até já deve ter esquecido que o Lévi-Strauss foi dessa pruma melhor. Está prevista uma edição especial sobre ele para o mês que vem. Será uma reedição do especial de maio, com alguns bônus. Vai pintar por lá, ao que tudo indica, uma entrevista que fiz com o historiador José Carlos Reis. Provavelmente, faço também uma resenha de alguma obra do Lévi-Strauss. Passo o link aqui, quando sair.

Vou voltar pra caverna. See ya.

25 de outubro de 2009

Tchau

Este blog entrará em hibernação por tempo indefinido. Talvez por eras e eras geológicas. Ou pra sempre.

10 de outubro de 2009

Mensageiro das estrelas


Saiu a edição de outubro da Revista ComCiência, do Labjor/Unicamp e SBPC. E com mais um texto meu. Desta vez, exploro um pouco os significados das observações telescópicas de Galileu Galilei: lá se vão 400 anos desde que o pisano apontou aquela engenhoca óptica pro céu e ajudou a moldar o mundo moderno.

No final do ano de 1609, Galileu Galilei apontou seu rudimentar telescópio para o céu e enxergou o cosmos mais longe e com maior nitidez do que qualquer outro ser humano havia, até então, imaginado. As observações do famoso acadêmico pisano, comunicadas no ano seguinte por seu livro Sidereus nuncius (Mensageiro das estrelas, em tradução livre), causaram uma miríade de reações contraditórias, de surpresa e encantamento a estranhamento e negação. Nos quatrocentos anos seguintes, a ciência se institucionalizou como ferramenta poderosa de conhecimento e intervenção sobre a natureza, a física seguiu a rota dos pioneiros passos do início do século XVII e invadiu as explicações de fenômenos celestes, e a própria atividade de observar os confins do espaço expandiu nosso universo com seguidas revoluções técnicas que culminaram nos atuais telescópios espaciais. Se procurarmos os alicerces desses desenvolvimentos, encontraremos dentre eles os eventos protagonizados por Galileu, suas observações e escritos, cujos significados para a ciência ainda hoje geram controvérsias e debates no meio acadêmico.
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Nesta edição, também, tem um artigo deliciosamente bem escrito por um amigo, Rodolpho Gauthier, único torcedor da Ferroviária de Araraquara (sem contar o roupeiro). Neste artigo, Rodolpho fala um pouco daquilo que é o tema de sua dissertação de mestrado, recém-defendida aqui mesmo na Unicamp: representações de alienígenas e discos voadores na imprensa brasileira do pós-guerra. Ou, na linguagem mais simples e atraente de seu autor, A invenção dos discos voadores. Neste artigo para a ComCiência, Rodolpho se pergunta: por que a crença em alienígenas?

Leituras saborosas, de lunáticos para lunáticos.

8 de outubro de 2009

A melhor Enter Sandman já feita



Via Austrotrabi, um fanático por Trabants em Viena.

5 de outubro de 2009

Does dark matter matter?

Mera hipótese ad hoc?


Um texto, meu, de maio de 2007.

Notícia na Folha, via New Scientist, de hoje.

Existe mais matéria escura entre o céu e a terra do que sonha a nossa vã filosofia, ou nossa vã filosofia ficou gagá de vez?

4 de outubro de 2009

Imortalidade efêmera

Corro pro blog, às moscas, copiar uma passagem de Ptolomeu:

Mortal ainda que eu seja, efêmero, sim, se por um só momento
Ergo meus olhos para o domínio celestial estrelado da noite,
Já na Terra não mais estou; eu toco o Criador,
E meu espírito vivo bebe a imortalidade


Que está página 34 do livro Grandes Debates da Ciência, de Hal Hellman.

25 de setembro de 2009

O Pelé já está de olho

Segundo reportagem de Eduardo Arruda na Folha de hoje, o governo federal pretende criar um benefício previdenciário para os jogadores de futebol campeões em Copas do Mundo. O valor será, aproximadamente, de dez salários mínimos (teto da previdência) e beneficiará, de início, os ex-jogadores (e famílias) da Copa de 1958. Discute-se se o benefício poderá ser dado no cinquentenário de cada conquista.

Se for verdade, é uma das piores decisões de Lula nos seus quase oito anos de mandato – dessas que decepcionam profundamente. Quase gratuitamente, o governo arranha sua bem construida imagem de responsabilidade no trato com a coisa pública e dá de bandeja uma oportunidade para que tucanos e democratas (sic) bradem a plenos pulmões que o governo é assistencialista, que o estado está virando um elefante, enfim, que entoem em coro a cantilena liberal que todo mundo conhece bem.

Seja você liberal ou não, deve-se reconhecer que a coisa é um disparate. Tem que haver um bom motivo pra engordar os gastos da previdência social. Muita gente pode argumentar, com razão, que ganhar uma Copa do Mundo não torna esses cidadãos mais especiais do que o meu ou o seu avô. Não perante o estado. Não para receber uma polpuda aposentadoria enquanto a maior parte dos velhinhos vive com a miséria de um salário mínimo.

O problema, contudo, não é tão simples.

O futebol está profundamente enraizado na cultura brasileira e, por isso, não se deve subestimar o valor que os grandes jogadores têm para boa parte da nossa população. Isso basta para rebater quem venha com o argumento preconceituoso de que esses cidadãos foram apenas jogadores de futebol. Aliás, não vou ficar repetindo velhos bordões – verdadeiros, é verdade – sobre o fato de que o futebol move e comove milhões, que seus herois são herois de fato pois povoam o nosso imaginário, brilham em nossos sonhos, nos dão 90 minutos de sentido e costumam tornar essa nossa existência sem nexo em algo tolerável. De fato, muitos ídolos que viveram o auge esportivo numa época em que o futebol não era sinônimo de milhões na conta bancária merecem ter cuidados e consideração social que não vêm recebendo. Não devem ser jogados às traças, esquecidos, experimentando a decadência física, o ocaso da vida, ao mesmo tempo em que testemunham o esquecimento de quem são, de quem foram, de como gostariam de ser lembrados. É uma dupla morte. Se temos alguma consideração por essas pessoas, precisamos evitar que isso ocorra.

O que torna esse benefício um verdadeiro absurdo, no entanto, não é apenas o fato de que o estado está assumindo para si uma atribuição que deve ser da sociedade (cuidar de seus herois). Mais do que uma categoria privilegiada de cidadãos, o estado está criando uma categoria privilegiada de herois. A começar dentro do próprio futebol: o que dizer de todos aqueles craques que marcaram a história do futebol brasileiro mas que - por ironias do destino que a seleção de 1982 conhece muito bem - não conseguiram conquistar aquele pequeno torneio de meia dúzia de jogos? Nessa categoria temos lendas como Domingos da Guia e Leônidas da Silva. O que dizer de Canhoteiro e Julinho Botelho, craques que não acabaram indo para a Suécia em 58? As famílias dessas pessoas, mencionadas no mesmíssimo fôlego dos campeões daquela Copa, não merecem o mesmo benefício do estado, caso seja concedido? O que dizer, então, de outros esportistas historicamente importantes? Maria Esther Bueno, a família de João do Pulo e de Adhemar Ferreira da Silva também devem receber uma aposentadoria? Por que não, então, amparar também antigos artistas esquecidos? É óbvio que não estou defendendo que o estado deveria amparar todo ex-boleiro ou esportista ou artista abandonado. É o contrário.

Que se traga para discussão o desamparo, ótimo. Que se chame a atenção para esse problema, que o estado tome iniciativas para ajudar a lembrar dos herois esquecidos e tome parte em campanhas para arrecadar ajuda, nada a reclamar. Que o estado chame para si toda essa responsabilidade, e arcando com ela com o meu e o seu dinheiro, isso é censurável. Que se transforme esse dinheiro, pelo menos, em Bolsa Família.

Se esse tipo de coisa passar, imagine você, em 2044 vamos começar a sustentar o Mauro Silva, o Dunga, o Jorginho, o Mazinho, o Taffarel. Ah, não! Seria melhor dar toda a grana pro Baggio, logo.

22 de setembro de 2009

Outra pergunta

Vocês viram o fodíssimo discurso do Obama no Congresso, dia 9 de setembro?

19 de setembro de 2009

Pergunta

Vocês viram a fodida entrevista do Lula no Valor Econômico?

18 de setembro de 2009

O que se passou naquelas ruas, naquela semana



"I was pulling body parts [...] I don´t know how to process this"

17 de setembro de 2009

O narcisismo, por Contardo Calligaris

Contardo Calligaris na Folha de hoje (continua aberta a nova versão digital do jornal):

[…] o uso do não e do sim permitem o diálogo humano. Mas é um diálogo que (sejamos otimistas) nem sempre tem a ver com as questões que estão sendo discutidas: ele tem mais a ver com uma necessidade subjetiva: digo “não” para me separar do outro ou digo “sim” para obter dele um olhar agradecido. Nos dois casos, tento apenas alimentar a ilusão de que existo.

14 de setembro de 2009

Beirut, 11/9

Acho que eu nunca assisti a um show com um sorriso tão grande no rosto.

9 de setembro de 2009

Lars von Trier se diz o melhor diretor do mundo…

… e eu teria feito um filme muito melhor do que Anticristo. Nunca faria uma primeira metade tão brilhante, pois não sou um gênio, mas não a teria arruinado com tanto nonsense ladeira abaixo, pois não estou acostumado a ser chamado de gênio - o que, certamente, estraga as pessoas e suas obras de arte.

É um grande filme de terror, de qualquer maneira. Se um dia eu o entender, escrevo alguma coisa aqui.

8 de setembro de 2009

Besta

Why do we always talk about things like this
Why do we always haunt each other down
Why do we always smoke those cigarettes
And drink a lot of wine
I know the kind of beast that Ive become
I know I dont always show my gratitude
I dont always shut it when Im spoken to
And I dont understand the things that you say. Anymore
I know it doesnt show that I love you
I know that I dont always like when children laugh
And I dont give a damn about your 14 year old
But who am I trying to fool by acting this way
I need a lot of wine
I know the kind of beast that Ive become

Nina Kinert, Beast

7 de setembro de 2009

Mês 9

Setembro está um prato cheio pra quem gosta de sci-fi: 9 e District 9.

Enquanto os filmes não chegam por aqui, o Hermenauta chamou a atenção para a relação entre AI e dilemas morais inspirado no que deve vir com 9, do Tim Burton; no Primate Diaries, tem uma bem escrita análise antropológica sobre District 9, que deve ser um filmaço.

31 de agosto de 2009

A ciência segundo Carl Sagan

Poucos cientistas se dedicaram à divulgação da ciência de maneira tão impactante e bem sucedida quanto o astrônomo Carl Sagan. Morto aos 62 anos por um tipo raro de câncer em 1996, Sagan deixou uma vasta obra de divulgação científica que marcou a cultura popular norte-americana do final do século XX. Sua série televisiva Cosmos foi exibida em mais de 60 países e seu livro homônimo chegou ao segundo lugar no ranking dos mais vendidos nos Estados Unidos, em 1980. Chamado por Stephen Jay Gould – outro importante cientista-divulgador – de “o maior advogado que a ciência já teve”, Sagan não apenas procurou tornar o conhecimento científico um saber palatável para o público não-especializado, mas também se ocupou de fazer uma defesa apaixonada da ciência. O profundo e persistente impacto de sua obra de divulgação, especialmente entre os mais jovens, parece pedir uma indagação: que visão da ciência foi propagada e advogada por Sagan?

Carl Sagan foi um otimista. Apesar de suas preocupações em alertar o perigo da corrida armamentista entre Estados Unidos e União Soviética ou os riscos ambientais do acentuado processo de industrialização – vez por outra soltando uma ironia acerca da inteligência da espécie humana – Sagan foi um crente na atividade humana de conhecer o universo. Não apenas na tarefa de conhecer latu sensu, Sagan acreditava fundamentalmente no projeto científico de estabelecer verdades objetivas acerca da realidade.

Esta crença estava baseada tanto em ideias externas à ciência, quanto em proposições intrinsecamente do campo científico. Seu solo era a profunda reverência que a contemplação do universo pode causar num ser humano, o chamado sentimento oceânico. Base para a experiência de revelação religiosa, o sentimento de espanto e temor diante da realidade e de ao mesmo tempo sentir-se parte de um todo universal era o que impulsionava a crença de Sagan na ciência. Embora o sentimento oceânico, tal como uma epifania, possa ser experimentado diante das mais diversas situações (tornando-o, portanto, bastante pessoal), para Sagan a reverência poderia nascer a partir das realizações da astronomia. A exposição cuidadosa de imagens de planetas, estrelas, nebulosas e galáxias – aspecto marcante em algumas de suas publicações, como Pálido Ponto Azul – tem o intuito de despertar a sensação e o discurso da reverência perante uma espantosa realidade.

Nietzsche recorre à descrição textual da imagem de um mundo insignificante num universo indiferente, para afirmar a arrogância de seres espacial e temporalmente irrisórios que sonham em conhecer a realidade. Ele teve que recorrer à imaginação pois não podia contar, no fim do século XIX, com os avanços tecnocientíficos de sondas e telescópios espaciais para montar sua concepção cética sobre a ciência moderna.

Sagan, pelo contrário, podia.

A história é bem conhecida. A sonda Voyager 1 havia chegado às fronteiras do sistema solar e Sagan pediu que os técnicos virassem a câmera da nave para a própria Terra. O registro fotográfico não teria qualquer utilidade científica prática. Filosoficamente, no entanto, aquele registro era valioso. A imagem resultante – um pixel em meio à escuridão – representava a Terra como um ponto insignificante na imensidão cósmica, da mesma forma como Nietzsche a descreveu. Porém, as conclusões de Sagan, no sentido epistemológico, seriam diametralmente opostas. Ao passo em que a imagem da insignificância também deveria significar a humildade moral, ela deveria inspirar a admiração, o maravilhamento com a realidade – e impulsionar a sede de conhecimento por ela. A revelação e o sentimento oceânico não deveriam ser fins em si mesmos. Nas religiões, a conversão se dá por meio da revelação. No projeto filosófico de Carl Sagan, o conhecimento do absoluto não é dado pela revelação. Ela seria o ponto de partida de um conhecimento que deve ser tateado, buscado às apalpadelas pelo empreendimento científico – não o único, mas o melhor e mais seguro método de conhecer o mundo até agora concebido pela humanidade.

Sagan era um otimista da ciência, mas não um fundamentalista. Uma das maiores preocupações de suas obras de divulgação científica foi reservada ao discurso ambientalista – que ele também tentou inspirar nos leitores pela imagem do pálido ponto terrestre. Dentro desse discurso, há uma ambivalência com relação à ciência e ao progresso tecnológico: ambos são vistos como vilões e redentores do próprio problema que causaram.

Inspirado por este discurso, Sagan denunciou parte da produção de ciência como cúmplice do progresso que ameaçava tornar o planeta inabitável. No mesmo sentido, procurou mostrar como a ciência se depara frequentemente com questões éticas e morais e como os cientistas não são dotados de discernimento superior quando confrontados por esses dilemas. Usando a metáfora de Oppenheimer, Sagan procurou mostrar o quão frequentemente a ciência suja suas mãos de sangue e paga caro por isso. Suas críticas ferozes a Edward Teller e o ativismo pelo fim da corrida armamentista (presente até mesmo em algumas de suas pesquisas científicas, como a responsável pela cunhagem do popular termo “inverno nuclear”) são exemplos claros desse posicionamento.

Na visão de Sagan, não há uma aura mística, uma superioridade moral da ciência sobre as outras esferas da organização social. Mas se a própria ciência era causadora de pesadelos tecnológicos, a resposta correta era mais ciência, e não menos. Seu esforço no campo da divulgação científica denota sua postura sobre essa questão: numa democracia tecnocrática, sujeita-se facilmente uma população que não possui (in)formação científica básica. Para que a democracia norte-americana funcionasse, mais ciência.

O subtítulo de um livro importante de Sagan não poderia representar mais claramente suas concepções: “a ciência vista como uma vela no escuro”. Em O Mundo Assombrado pelos Demônios, Sagan defende o ponto de vista científico da realidade. Denuncia as pseudociências, o fundamentalismo religioso, a admiração com representações pueris da realidade travestidas de grandes revelações. Destila, sobretudo, o ceticismo informado pela ciência. A ciência não apenas ilumina a realidade, tornando possível o seu conhecimento, como também nos liberta das enganações e das falsas promessas da era do espetáculo midiático.

Muito espertamente, Sagan percebeu que a mídia televisiva, no entanto, poderia funcionar a seu favor. Em 1980, uma série de 13 episódios foi televisionada nos Estados Unidos. Cosmos e seu livro homônimo, lançado no mesmo ano, trataram de apresentar a um público amplo as maravilhas que já foram e que ainda poderiam ser descobertas pela ciência. Com o carisma do autor/apresentador e marketing bem feito, série e livro foram, talvez, as peças publicitárias mais bem sucedidas da história da ciência. Este faro pela utilização de mídias atraentes para o grande público se revelou também na produção do filme Contato, um blockbuster adaptado de seu primeiro e único romance de ficção científica.

Embora apresente nestas e em outras obras uma definição bastante ampla do que seja ciência – chega a estender o conceito à pré-história, por vezes – Sagan se atém a uma concepção linear do progresso do conhecimento humano. Nessa visão linear, há aliados e inimigos. E há um caminho bem definido que foi e deve ser trilhado. A matemática aparece, então, como linguagem da ciência pois que é representada como universal. As mesmas assertivas lógicas da matemática podem se desenvolver e ser compreendidas tanto no cérebro humano quanto em qualquer outra mente surgida em algum canto do universo. São universalmente válidas, tanto quanto as leis da física. Existem objetivamente no mundo, não são meras representações. Um extraterrestre cientista, com o instrumental certo, acharia as mesmas respostas na realidade.

O próprio progresso tecnológico humano é visto nesta ótica universalizante. O caminho que percorremos até aqui, com aviões e armas nucleares, é visto como uma adolescência tecnológica. Todas as outras espécies, extraterrestres, que desenvolvessem uma civilização tecnológica, passariam mais ou menos pelos mesmos estágios que nós. Se mais avançados do que nós neste caminho trilhado e moldado pelas respostas objetivas extraídas da realidade, estes extraterrestres já teriam inventado a radioastronomia e tentariam se comunicar com outros mundos. O projeto SETI, que busca inteligências extraterrestres via radioastronomia, depende desta ideia – o SETI (Search for Extra-Terrestrial Inteligence) é a estrela principal de Contato.

A obra de Carl Sagan celebra o prazer, o valor lúdico, da descoberta científica, este conceito há muito questionado, para não dizer demolido e abandonado, por historiadores, filósofos e sociólogos da ciência. Se sua obra transparece uma certa ingenuidade epistemológica, sua sensibilidade refinada foi e continua sendo fator responsável de atração para carreiras científicas. Captura profundamente um valor quase transcendental da ciência moderna e amplifica com muita felicidade o sentimento de admiração pelo complexo mundo construído por este empreendimento humano. Uma análise pormenorizada de seu trabalho mostra-se essencial para a compreensão da mentalidade científica do presente.

________

Nota:

Por causa de procrastinação e algumas escolhas erradas, acabei com pouquíssimo tempo pra escrever este ensaio final para uma matéria da pós. Não tinha tempo de consultar, aparar arestas, pensar e repensar. As palavras tinham que passar direto do cérebro pra tela. Então, é claro, a estrutura do texto não ficou lá essas coisas.

Só que, acho, é a coisa mais honesta e segura que já escrevi. Não havia tempo pra filtros, nem pra insegurança. Se não estivesse tão pressionado, não teria cometido algumas ousadias. De longe, o texto que mais gostei de escrever até hoje. Pouquíssimas alterações foram feitas (tirei referências e consertei um e outro erro de digitação, repetição e omissão). Espero que seja interessante para quem quer conhecer um pouco mais sobre o pensamento deste que foi um cara verdadeiramente apaixonado pela ciência.

29 de agosto de 2009

O triunfo da irracionalidade

O bate-boca sobre o sistema de saúde nos Estados Unidos na visão de Johann Hari, do britânico The Independent: o triunfo da irracionalidade.

Brilhante artigo.

Via Revista Fórum

28 de agosto de 2009

Saramago, o Mecânico

Indicado pelo Gomes, vai aqui um trecho do texto do Caderno do Saramago sobre a senhora cagada que o gênio luso (sem qualquer tipo de piadinha, ora pois) cometeu em sua juventude como mecânico. Depois daquilo, largou mão de dirigir, foi ser escritor. Fez um bem danado pra humanidade. Como poderia um bom mecânico que não tivesse talento para a escrita descrever, de maneira tão natural e engraçada, a peripécia de se encher um radiador mal montado?

Desenrosquei pois o tampão e comecei a deitar para a boca do radiador a água com que tinha enchido o velho regador que para esse e outros efeitos havia na oficina. Um radiador é um depósito, tem uma capacidade limitada e não aceita nem um mililitro mais do que a quantidade de água que lá caiba. Água que continue a deitar-se-lhe é água que transborda. Algo de estranho, porém, se estava a passar com aquele radiador, a água entrava, entrava, e por mais água que lhe metesse não a via subir dançando até à boca, que seria o sinal de estar acabado o enchimento. A água que já vertera por aquela insaciável garganta abaixo teria bastado para satisfazer dois ou três radiadores de camião, e era como se nada. Às vezes penso que, sessenta e muitos anos passados, ainda hoje estaria a tentar encher aquele tonel das Danaides se em certa altura não me tivesse apercebido de um rumor de água a cair, como se dentro da oficina houvesse uma pequena cascata. Fui ver.

26 de agosto de 2009

Estranhamento

Eis a mais fantástica introdução que eu já vi para uma crítica musical:

We used to listen to music in an entirely different way. There was once a time when music was organized into 45- to 75-minute chunks-- often a few standout tracks padded with a lot of mediocre filler, but occasionally designed so that the parts built up a larger structure. Used to be, people would sit down and listen to that lengthy piece of music from front to back in one sitting, resisting the urge to jump to their favorite parts or skip over the instrumental interlude that served as grout between two fuller compositions. These antiques were called CDs. Here's a story about the last of its kind.

Vejam agora como Jonathan Swift imagina um relatório de dois pequeninos seres sobre um objeto, para nós, muitíssimo familiar. O objeto de Gulliver tinha

uma grossa corrente de prata, com uma maravilhosa espécie de engenhoca na ponta. Mandamos que tirasse aquilo que estava pendurado na corrente: era um globo feito metade de prata, metade de um metal transparente. Pelo lado transparente vimos certas figuras esquisitas traçadas num círculo; julgamos que lhes poderíamos tocar, mas os dedos foram retidos por uma substância luminosa. Ele levou essa engenhoca aos nossos ouvidos; ela fazia um barulho incessante, semelhante ao de um moinho d’água. E conjecturamos que, ou é qualquer animal desconhecido, ou, então, o deus que ele adorava; mas esta última hipótese é mais verossímil, porque nos afirmou, (se nós assim o compreendemos, pois se exprimia muito imperfeitamente), que raramente fazia qualquer coisa sem que o consultasse; chamava-lhe o seu oráculo, e dizia que designava o tempo para todas as ações da sua vida.

Quem tiver interesse em saber mais sobre esse “procedimento literário”, pode ir direto aonde eu o descobri: aqui, e também, aqui.

25 de agosto de 2009

Pêlo em ovo

Piada do Jorge Pontual no Twitter: “Se você receber um email intitulado: ‘Fotos nuas de Dilma Roussef’. Não abra!!! Pode realmente conter fotos de Dilma Roussef nua”.

Engraçada. De baixo nível, convenhamos. Mas engraçada.

Agora vem o pessoal do MSH (Movimento dos Sem-Humor) e começa a achar pêlo em ovo. Aqui, também.

Uma internauta, de apelido “Dani”, comentou no blog da Marjorie o seguinte: “Querida, Sou Brasileira, 30 anos, formada, trabalho, acho a Dilma feia e amei a tiradinha do Jorge Pontual. Sou sexista? Não voto em mulher por ser mulher, aliás, voto em competência e inteligência. Por Favor, antes de procurar pelo em ovo, se preocupe com o que estão fazendo com o dinheiro do povo.”

E a Marjorie: “não, você não é sexista simplesmente por achar a Dilma feia. Mas existe uma grande diferença entre ser uma pessoa comum que comenta isso no boteco e ser um jornalista renomado que decide publicar isso. Principalmente, se levarmos em conta que os candidatos homens não são tratados dessa maneira pelos jornalistas. E que a baixa participação feminina na politica brasileira se deve, entre outros motivos, ao fato de que muitas pessoas não levam as candidatas tão a sério.”

Bem-vindos à Fantástica Fábrica de Argumentos Rasteiros.

Eu, então, comentei na mesma linha da Dani:

Foi bastante baixo, o nível. Preconceito estético. Aquele velho problema dos padrões de beleza. Mas só.

Suponha que a Lilian Witte Fibe diga que “se você receber um e-mail que diz ter fotos do Boris Casoy nu, não abra! Pode realmente conter fotos do Boris Casoy nu”.

É sexista?

De novo, vendo pêlo em ovo, Marjorie.

A Marjorie:

eu prefiro uma campanha a favor do respeito a todos, feios ou bonitos. Em vez das pessoas ficarem se ridicularizando mutuamente, feito crianças do pré.

Se a Lilian falasse isso do Boris Casoy, não seria sexista (porque, oi, contexto, meu filho! A sociedade é machista. São as mulheres que são tratadas como se tivessem obrigação de ser bonitas antes de qualquer outra coisa, não os homens). Mas seria uma extrema falta de respeito. E eu condenaria da mesma maneira, afinal, é um comportamento que não cabe para um(a) jornalista.

E se você acha que eu só faço ver pêlo em ovo, não sei o que está fazendo aqui, sinceramente. Não se auto-flagele. Há milhões de blogs internet afora. Procure um que combine contigo.

Ah, o respeito.

Rrrrrespeito! Onde já se viu falar assim dos outros? Vai lavar a boca com sabão, Jorge Pontual! Principalmente por ter a profissão de jornalista! E quem vier aqui desmontar meus argumentos que vá pra outro blog!

Estamos falando aqui do horrível e velho politicamente correto, e da boa e velha falta de consistência lógica numa argumentação.

A piada do Jorge Pontual pode ser censurável sob diversos aspectos, menos o sexista.

A discussão não deve parar por aí.

E tem uma última: daqui a pouco, neguinho (meu deus, que medo de ser patrulhado aqui!) o pessoal tem que consultar livro de boas maneiras politicamente corretas para ver se pode ou não dar risada de uma piada qualquer. A fazer uma, então, ninguém vai se atrever.

Hubblecast

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