10 de Julho de 2009

Futuros do passado

Com vocês, o Autotutor:


No blog do Tiago Dória, um link fantástico: um arquivo dos futuros imaginados desde 1870. Eu estou começando a sentir a aquela euforia da ignorância, prestes a conhecer alguma coisa interessante (e imagine só as possibilidades de análise que coisas como esse Autotutor podem proporcionar).
Amanhã, ou depois de amanhã, sai a minha resenha de Futuros Imaginários. Lido em boa hora.

9 de Julho de 2009

McNamara e a cegueira moral, por Noam Chomsky

Em 1995, Robert McNamara publicou pela primeira vez seu mea culpa pelo desastre da guerra do Vietnã. In Retrospect reconhece "erros terríveis" que deveriam ser explicados para as "futuras gerações", mas defende que esses erros não eram de ordem moral e intencional. Ele, McNamara, e todos os outros responsáveis pela guerra das administrações Kennedy/Johnson, teriam agido "sob a luz dos princípios e tradições desta nação". Naquele mesmo ano, Chomsky reagiu de maneira ácida:



Actually, he's correct about the values. If somebody tries to disobey us, our values are that they have to be crushed and massacred. Those are our values. They go back hundreds of years, and those are exactly the values they acted upon.

[...]

There's only one criticism that he sees, or that any of his critics see, or even his supporters, the whole range of discussion, including people who were very active in the peace movement, I should say. I've been shocked by this, the people who are active in the peace movement who are saying, "We're vindicated because he finally recognized that we were right. It was an unwinnable war."

What about the maybe, if you count them up, four million Indochinese that died, something on that order? What about them? Actually, he has a sentence or two about them, and even that sentence is interesting. He talks about the North Vietnamese who were killed. An interesting fact about the book -- and you can't blame him for this, because he's just adopting the conventions of the culture that he comes from, he's completely uncritical and couldn't think of questioning it -- throughout the book the "South Vietnamese" are the collaborators whom we installed and supported. He recognizes that the population was mostly on the other side, but they're not "South Vietnamese." The attack on them doesn't appear.

[...]

On the bombing of the North, there was meticulous detailed planning. How far should we go? At what rate? What targets? The bombing of the South, at three times the rate and with far more vicious consequences, was unplanned. There's no discussion about it. Why? Very simple. The bombing of the North might cause us problems. When we started bombing the North, we were bombing, for example, Chinese railroads, which happened to go right through North Vietnam. We were going to hit Russian ships, as they did. And there could be a reaction somewhere in the world that might harm us. So therefore that you have to plan for. But massacring people in South Vietnam, nothing. B-52 bombing of the Mekong Delta, one of the most densely populated areas in the world, destroying hospitals and dams, nobody's going to bother us about that. So that doesn't require any planning or evaluation.

Not only is it interesting that this happened, but also interesting is the fact that no one noticed it. I wrote about it, but I have yet to find any commentator, scholar, or anyone else, who noticed this fact about the Pentagon Papers. And you see that in the contemporary discussion. We were "defending" South Vietnam, namely the country that we were destroying. The very fact that McNamara can say that and quote Bernard Fall, who was the most knowledgeable person, who was utterly infuriated and outraged over this assault against South Vietnam, even though he was a hawk, who thought Saigon ought to rule the whole country -- you can quote him and not see that that's what he's saying -- that reveals a degree of moral blindness, not just in McNamara, but in the whole culture, that surpasses comment.

Mais da interessantíssima entrevista com Chomsky sobre a guerra do Vietnã, aqui.

A "nossa" galáxia

Um comentário: chamamos "isso" de "nosso". Nosso por quê? "Nós" é que somos "disso", e não o contrário.

William Castleman, o autor da sequência, explica:

The time-lapse sequence was taken with the simplest equipment that I brought to the star party. I put the Canon EOS-5D (AA screen modified to record hydrogen alpha at 656 nm) with an EF 15mm f/2.8 lens on a weighted tripod. Exposures were 20 seconds at f/2.8 ISO 1600 followed by 40 second interval. Exposures were controlled by an interval timer shutter release (Canon TC80N3). Power was provided by a Hutech EOS203 12v power adapter run off a 12v deep cycle battery. Large jpg files shot in custom white balance were batch processed in Photoshop (levels, curves, contrast, Noise Ninja noise reduction, resize) and assembled in Quicktime Pro. Editing/assembly was with Sony Vegas Movie Studio 9.

Via Blog do Tas

8 de Julho de 2009

Apocalypse please

Você, que não tem dinheiro pra pagar Sportv, também achou que finalmente iria assistir um jogo da Libertadores? Achou, como eu, que iria assistir à FINAL da Libertadores? Pensou que a infâmia de Bragantino x Corinthians sendo transmitido em detrimento da FINAL da Libertadores, no ano passado, havia sido reconhecida e superada?

Pois é. Fiquemos com Fluminense x Corinthians.

Nessas horas eu me pergunto por quê a Skynet ainda não acordou e mandou uma bomba H nos seguintes endereços:

Rua Von Martius, 22 - Jardim Botânico
Rua Lopes Quintas, 303 - Jardim Botânico
Estrada dos Bandeirantes, 6900 - Curicica

E uma no Parque São Jorge também, por que não?

7 de Julho de 2009

A Linha McNamara

O sonho da vigilância em tempo real

Enquanto minha resenha de Futuros Imaginários, de Richard Barbrook, ainda não é publicada junto com a próxima edição da ComCiência, deixo aqui um trecho interessante sobre a guerra do Vietnã no contexto das utopias tecnológicas da Guerra Fria, que são o tema principal do livro. É uma amostra da racionalidade industrial de Robert McNamara aplicada à guerra:

Em sua luta contra o comunismo vietnamita, o exército dos Estados Unidos se deparava com um problema inesperado: medir seu progresso no campo de batalha. [...] O grande problema era como estimar o resultado das ofensivas no interior. Incapaz de medir ganhos territoriais, o exército dos Estados Unidos decidiu então focar no número de combatentes inimigos mortos em cada operação: a 'contagem de corpos' (body count). Com esse dado, seus analistas poderiam programar computadores para calcular qual lado infligia o maior dano ao seu oponente: o 'índice de mortandade' (kill ratio). O exército dos Estados Unidos possuiam agora a medida matemática da vitória. [...]

Enquanto trabalhou para a Ford nos anos 1950, McNamara melhorou drasticamente a eficiência administrativa ao usar computadores para produzir estatísticas detalhadas sobre as diferentes atividades da empresa: 'análise de custo-benefício'. Em seu novo emprego como ministro da defesa, ele incitava o exército dos Estados Unidos a aplicar esse método de alta tecnologia para fabricar carros à tarefa de lutar em guerras. Felizes em colaborar, generais tornaram-se administradores da era do computador. No Vietnã, o exército dos Estados Unidos mataria comunistas de maneira tão eficiente quanto a Ford fabricava carros em casa.


Nada, no entanto, havia conseguido aplicar um golpe mortal contra os vietcongues. Barbrook continua (notem, de passagem, a fina ironia de "bala mágica"):


Em 1967, o governo Johnson acreditava que finalmente encontrara sua bala mágica. Uma equipe multidisciplinar de cientistas criou um plano para construir uma impenetrável barreira de alta tecnologia para separar as duas metades do Vietnã: a linha McNamara. Nessa versão militar do Panóptico informacional, milhões de sensores eletrônicos - intercalados com minas e armadilhas - seriam instalados ao longo das fronteiras do estado ao sul. Robôs móveis patrulhariam os céus. Computadores colheriam e classificariam os dados dos dispositivos de vigilância da barreira. [...]

Dentro de poucos minutos de detecção das forças inimigas por seus sensores ADSID, os Systems/360 da IBM calculariam sua localização e despachariam bombardeiros B-52 para destruí-los. [...]

Em 1972, mesmo após cinco anos de testes e refinamentos, a Linha McNamara falhou em detectar um grande número de barulhentos tanques vietnamitas e outros equipamentos pesados que moviam para baixo as rotas de abastecimento do norte para lançarem uma ofensiva no sul. [...] Muito antes desse fiasco constrangedor acontecer, os custos da ocupação tornaram-se insustentáveis para o império estadunidense.



Mais sobre a Linha McNamara, aqui, aqui e aqui.

6 de Julho de 2009

Sympathy for the devil

Lição número 1 da vida de Robert McNamara: sinta empatia pelo inimigo. A crise dos mísseis na visão do "arquiteto da guerra do Vietnã", abaixo.






Robert Strange McNamara, o odiado secretário de defesa dos Estados Unidos durante os governos Kennedy e Johnson, morreu hoje, aos 93 anos.

Chamado por Chomsky de "narrow technocrat", McNamara tinha ideias que talvez estivessem no oposto do que considero certo e bom pro mundo. Um "inimigo". Mesmo assim, é impossível não simpatizar com aquele velho e também aprender com as lições de sua vida.

No documentário Fog of War (torrent aqui), de 2004, McNamara reconhece erros, faz autocrítica, deixa entrever a culpa: "estávamos agindo como criminosos de guerra", diz sobre os bombardeios incendiários ao Japão, que ajudou a planejar. Projetou a guerra com a mesma racionalidade meticulosa e aposta na tecnologia que aplicou na ressurreição da Ford. "Uma vida para o complexo industrial-militar americano", poderia ser o subtítulo para uma biografia. Trabalhou duro, com muita eficiência, pela hegemonia americana na disputa da Guerra Fria.

Fog of War é dirigido por Errol Morris (que também fez o clássico A Brief History of Time, sobre a vida e as ideias de Stephen Hawking). Quando lançado, serviu de alerta para as decisões erradas da administração Bush sobre o Iraque. Significava um recado daquele experimentado senhor: "olhem aqui, criançada, isso não vai dar certo; eu já passei por isso, vocês vão fazer cagada; não se iludam com essa história de guerra tecnológica, racional, asséptica". A última lição de McNamara, que ele aprendeu às custas do próprio insucesso: a guerra não é inteiramente compreensível, racionalizável. Estamos sempre sob a 'névoa de guerra' que nos impede de enxergar adiante.

Talvez tenha sido um Adolf Eichmann com muito mais brilho e autoconsciência. "A lot of people think I´m a son of a bitch", reconheceu. Não se sabe como será lembrado. Merece respeito e empatia.

3 de Julho de 2009

MP4/4 de volta

Lewis Hamilton e Bruno Senna vão guiar o bicho.



via Blog do Gomes

27 de Junho de 2009

A demarcação da pseudociência

Uma coisa recorrente em obras de divulgadores da ciência como Richard Dawkins e Carl Sagan é o ataque à pseudociência. Tentam alertar para um perigo das sociedades modernas: aquilo que parece ser ciência pode ser uma impostura. Em linguagem clara: você pode estar levando um Porsche com motor de Fusca e lataria de plástico.

Foi mais ou menos o que aconteceu recentemente com minha mãe. Crente de que havia encontrado a solução definitiva para meu notório problema de ronco e apneia do sono, ela não titubeou em gastar 50 reais na compra de um novo “aparelho hi-tech anti-ronco”, o No Ronco. O aparelho promete acabar com o ronco ao “enrijecer os nervos da faringe” com uma “pressão no septo nasal” levada a cabo por “dois chips eletromagnéticos que emitem ondas magnéticas”, eliminando assim o ronco com uma “taxa de eficiência superior a 90%”. A bula afirma que o No Ronco é “confeccionado com as maiores e mais inovadoras tecnologias do mercado” e que seu “chip” é “sintetizado com elementos raros da natureza”.

Não é preciso ser um cientista para perceber que há algo de errado nessas promessas, que “maiores e mais inovadoras tecnologias” casadas num “chip” fabricado com “elementos raros da natureza” só podem ser uma coisa: conversa fiada de vendedor. Desmontado o “aparelho”, percebe-se que os dois “chips” são simples e prosaicos imãs. No Ronco usa o jargão acadêmico, com referências a dois campos tecnocientíficos (a informática, na moda, e o eletromagnetismo, clássico referencial pseudocientífico), para sustentar promessas ilusórias. Não há dúvidas desde o primeiro momento em que se conhece o No Ronco: é um produto pseudocientífico.

No entanto, a detecção de pseudociência não vem sendo algo totalmente racionalizável. Passa mais pelo faro – a dita intuição – do que por passos racionais e lógicos. Como o bolso de minha mãe bem sabe, é necessário responder às indagações: o quê, de fato, é a pseudociência? Como estabelecer critérios inequívocos para saber o que é e o que não é pseudociência? Qual a linha demarcatória?

Pseudociência é todo discurso, saber ou crença, que se disfarça de ciência para conseguir credibilidade (fiquemos com essa definição, por enquanto). Apesar de todos os ataques céticos, a ciência ainda tem muita credibilidade na nossa sociedade. Quantos anúncios não vêm acompanhados da chancela de "cientificamente comprovado" ou similares para atestar que seus produtos são confiáveis? Por quê os autores de livros de auto-ajuda e boçalidades semelhantes têm a necessidade de acompanhar seus nomes dos títulos de "MD" ou "PhD"? A intenção é clara. A ciência se tornou, há muito, base para decisões públicas e ainda é considerada, em inúmeras direções, nossa maior fonte de conhecimento seguro sobre o mundo. Sua roupa, pelo menos, ainda vende. E muito.

O problema maior de se definir critérios que demarquem a pseudociência é que isto se desdobra numa questão ainda mais complicada: quais seriam, então, os critérios para demarcar a própria ciência? A demarcação e identificação do que é científico ocupou filósofos e epistemólogos durante séculos, desde a emergência da ciência moderna, sem que se chegasse a um acordo. Um breve catálogo das principais vertentes na filosofia da ciência que arriscaram propor critérios gerais para a definição de ciência – só no século XX – dá conta de demonstrar o tamanho do problema: os positivistas do Círculo de Viena e a ênfase na possibilidade de se verificar uma proposição empiricamente; Karl Popper e a ideia de que uma teoria só é científica se abre a possibilidades de ser refutada por observações ou experiências que fiquem nas raias do concebível; Thomas Kuhn e a imagem da ciência normal, em que a prática científica mais comum é identificada com a resolução de problemas dados por um paradigma teórico que só de vez em quando é desafiado pelas anomalias que surgem nas pesquisas; Imre Lakatos e o critério de progressividade, em que estamos diante de ciência quando um programa de pesquisa cria novas teorias que vão substituindo as velhas pela capacidade de previsão e maior embasamento empírico; e Robert Merton e seu ethos científico, com imperativos institucionais como o universalismo, o ceticismo organizado, o senso de comunidade e o desinteresse pessoal. Não há consenso entre estas diferentes demarcações. Quando muito, há uma certa convergência em certas questões específicas.

Como afirma o filósofo Sven Ove Hansson, em texto sobre a pseudociência na Stanford Encyclopedia of Philosophy, é paradoxal que haja tamanho consenso quando o assunto é meramente identificar os campos que devam ser considerados ciência, e ao mesmo tempo tanta dificuldade para encontrar critérios gerais que demarquem com clareza o que é ciência e o que não é.

Da mesma forma, é bastante comum encontrarmos convergência em opiniões na comunidade científica - e não somente dentro dela - que classificam o criacionismo, a astrologia e a homeopatia, por exemplo, como pseudociências. A divergência está no porquê disso tudo ser pseudociência. As possíveis respostas esbarram primeiro no problema muito comum de se misturar pseudociência com anticiência, e mesmo pseudociência com todos os discursos alheios ou estranhos ao discurso científico. Basicamente, como já dito, por pseudociência entende-se um saber ou crença que, não sendo científico, passa por ciência, veste sua roupa e emula suas maneiras na tentativa de criar uma impressão de ser científico. Apesar de muito útil, este é um critério problemático: a homeopatia oscila entre colocar-se como anticiência e como ciência. O mesmo ocorre com a astrologia – atualmente, com maior tendência a se considerar realmente não-ciência ou anticiência. A questão é que não há um corpus pseudocientífico coerente em oposição ao corpus científico mais ou menos definido. E, pior, em alguns casos aquilo que pode ser identificado como ciência mal-feita (ou seja, experimentos mal conduzidos, teorias logicamente mal elaboradas, etc.) tende, em alguns casos, a ser confundido com pseudociência. A única forma de separar o joio do trigo, neste caso, seria saber se, por trás de conclusões estranhas à ciência originadas de incompetência ou distorções propositais, há uma doutrina não-científica mais ou menos coerente tentando se passar por ciência.

O que torna a tarefa demarcatória entre ciência e pseudociência algo extremamente complexo (para alguns, impossível) é que a linha divisória varia com o tempo. É histórica. Se o próprio conhecimento científico é um fenômeno histórico, como, então, estabelecer critérios universalmente aceitos para o que é científico e o que só parece sê-lo? Ainda não há respostas. O que é certo, principalmente para aqueles que algum dia foram lesados por falsas promessas fabulosas vestidas de jaleco branco e com um tubo de ensaio na mão, é que ainda é necessário encarar o problema filosófico e epistemológico de se definir o que é ciência e pseudociência, mesmo que para isso se reconheça buscar estabelecer um critério imperfeito e limitado, fruto de seu tempo.


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Este texto é uma adaptação de um outro post, só que um pouco mais formal e ao mesmo tempo mais didático e mais "jornalístico", conforme as exigências da disciplina do Prof. Marcelo Knobel, do Labjor/Unicamp.

12 de Maio de 2009

Lévi-Strauss aos 101


Acabou de sair a edição de maio da revista ComCiência, do Labjor/Unicamp e SBPC. Esse mês o tema é a vida e a obra do antropólogo Claude Lévi-Strauss, o pai do estruturalismo que, hoje, dizem alguns, está fora de moda.
Minha matéria é um esboço de resposta à pergunta que fiz na reunião de pauta: qual a consequência epistemológica da noção de estrutura de Lévi-Strauss para as ciências?
Em poucas linhas, cheguei à seguinte conclusão: no fundo, Lévi-Strauss rejeita a possibilidade de avanço do conhecimento, ideia-chave da ciência moderna. Se tanto a ciência quanto o pensamento ameríndio se baseiam sobre as mesmas estruturas universais da mente humana, então as descobertas científicas nada mais são do que flutuações de uma equação, a mente, reflexo da natureza humana, do nosso caráter animal e orgânico. A humanidade compartilha uma razão, capaz de conhecer o mundo, muito mais profunda do que a razão iluminista. É uma ideia muito bonita, escrupulosamente construída e examinada, da qual discordo humildemente.
Lévi-Strauss não é o responsável, mas deu origem ao pós-estruturalismo, que está dentro do conceito vago de pós-modernismo. O relativismo radical bebe dessa fonte, mas às vezes disfarça.

Abaixo, deixo um trecho do meu texto, que explica isso tudo um pouco melhor:

A valorização do “científico”, por Lévi-Strauss, é ambígua, ou pelo menos abre um leque interpretativo bastante amplo sobre o valor da ciência. Por um lado, sua própria abordagem, em si mesma, pressupõe um forte modelo científico. José Carlos Reis afirma que “o estruturalismo impõe às ciências humanas a hegemonia das matemáticas e da lógica das ciências naturais”, tese que coincide com a de Mauro Almeida, para quem “o estruturalismo de Lévi-Strauss contribuiu para trazer às ciências humanas de maneira mais sistemática e autoconsciente o uso de modelos para representar fenômenos. O que Lévi-Strauss ensinou é que discernimos regularidades, leis, padrões, enfim ‘estruturas’ construindo tais modelos. Esse modo de fazer ciência era bem conhecido na física, e mesmo na biologia”. Por outro lado, o estruturalismo antropológico de Lévi-Strauss dá uma tremenda ferroada na ciência. Um dos pressupostos fundamentais da ciência moderna é o da possibilidade do avanço do saber. Desde seus pais fundadores do século XVII, a ciência moderna joga com a necessidade de avançar o conhecimento humano progressivamente além, mais profundamente, mais detalhadamente, com maior potencial de alteração da realidade e de controle da natureza para a felicidade humana. Por isso, de maneira geral, a ciência lida com a ideia de mudança histórica, de superação e abandono de teorias e modelos por outros que expliquem melhor e mais detalhadamente a realidade, num processo impulsionado pelos seres humanos como agentes da história. Lévi-Strauss faz um ataque claro à história e ao homem do sonho iluminista como o agente da mudança social e da sua própria liberdade. Como afirma Reis, do ponto de vista de Lévi-Strauss, “o intelecto humano é permanente e se impõe sobre a mudança histórica. As normas sociais têm uma estrutura lógica, que as mudanças históricas não abolem. A busca da inteligibilidade parte da história para aboli-la em ordens naturais permanentes, profundas. O espírito humano é sempre idêntico a si mesmo e predomina sobre o social e o histórico. Por isso, a antropologia não diferencia o ‘selvagem’ e o ‘civilizado’, pois têm a mesma estrutura lógico-intelectual, que torna irrelevante a sua aparente diferença histórica”. A conclusão seria, portanto, que a ciência moderna, fenômeno histórico característico a um determinado tempo e espaço, não difere fundamentalmente de outros saberes, mitológicos ou mágicos, todos estruturados de acordo com uma lógica universal do intelecto humano. As conquistas científicas do nosso tempo não significariam, pois, conhecimento melhor ou mais profundo: não haveria avanço do saber.

O estruturalismo de Lévi-Strauss experimentou seu auge de aceitação acadêmica nos anos 1950 e 60. Nas duas décadas posteriores, as críticas à antropologia estrutural deram origem a um movimento que procurou superá-la: o pós-estruturalismo. Vagamente identificados como pós-modernos, os pensadores pós-estruturalistas, em diversas áreas, tendem a recusar justamente as mais ambiciosas ideias de Lévi-Strauss: as estruturas universais, imutáveis, do pensamento humano. Se o estruturalismo de Lévi-Strauss recusava a racionalidade iluminista para encontrar uma outra onde menos se esperava, o pós-estruturalismo recusa qualquer racionalidade que governe o mundo. Os pós-estruturalistas “não buscam mais verdades históricas nem aparentes e nem essenciais, nem manifestas e nem ocultas. Eles recusam essências originais e fundamentais que se deveria reencontrar e coincidir.”, diz José Carlos Reis. Conclusão implícita em Lévi-Strauss, a recusa do acúmulo progressivo do saber, do avanço da ciência, torna-se explícita e radical no pós-estruturalismo. Nega-se qualquer acúmulo e qualquer avanço científico gerados racionalmente pela consciência do ser humano. 

Hoje, no meio intelectual, há uma guerra aberta acerca da ciência, sobre como ela funciona, qual o valor que damos a ela, o quê lhe devemos e o quê ela nos deve. De forma simplificada, pode-se dizer que há duas grandes tendências. De um lado, pós-modernos e pós-estruturalistas se aproximam de um relativismo epistêmico radical, hostil à ciência moderna, negando mérito à racionalidade ao mesmo tempo em que anulam o ser humano como sujeito consciente de poder mudar a história. De outro, os mais diversos e díspares herdeiros do Iluminismo procuram desafiar as correntes céticas, denunciando suas conclusões relativistas como reflexos de uma opção política de aceitação e assimilação do mundo pós-1989, o de um único sistema socioeconômico – que apareceria então como estrutura naturalizada e inquestionável: daí a recusa da mudança histórica que a ciência e a racionalidade podem proporcionar.


8 de Maio de 2009

Elogio da Loucura

Um carro potentíssimo no fio da navalha, o tempo todo. As pessoas assistindo ao lado da pista.

Diria Xico Sá: "Amigo, Fórmula 1 é video-game".



O rali é, realmente, a melhor definição do que Erasmo, o Tremendão de Roterdã, escreveu lá quando a modernidade nem tinha certidão de nascimento ainda.

5 de Maio de 2009

A autêntica piada de mau gosto

Viram a última de Nova York? Um 747 dublê do Air Force One, o avião da presidência dos Estados Unidos, andou voando em baixa altitude, em círculos, sobre Lower Manhattan. Bem, você já adivinhou o que é que ficava exatamente na parte sul da ilha até uns 8 anos atrás, não?
"As pessoas começaram a evacuar os prédios, até os caras daquela construção na puta que pariu. Todo mundo saiu dos seus edifícios. Ninguém sabia de nada. Até que um sujeito apareceu com um megafoninho, dizendo que era um teste. As pessoas não ficaram contentes", disse o fotógrafo Edward Acker, que estava no World Financial Center 3.
A FAA (Federal Aviation Administration) acabou reconhecendo mais tarde que tudo foi parte de uma sessão de fotos (!) do Air Force One. Obama se desculpou publicamente pelo incidente, e disse que as fotos agora não virão a público.
Depois da traulitada do 9/11, os newyorkers se borram até mesmo do Air Force One. Meu amigo Enéias, o Rei dos Provérbios, diria: gato escaldado...
Agora, vamos lá. Sinceridade. Veja o vídeo e diga se você não cagaria nas calças se estivesse num desses prédios novaiorquinos e visse essa belezinha aí passando bem perto.

Quando eu for pra lá, só subo num arranha-céus com um pára-quedas nas costas.


Diálogo entre Jack, o chefe sentado de costas pra janela do 50º andar, e Jim, o estagiário cuja lição de casa ficou um lixo:

Jack: "So, that´s all you´ve got?"

Jim: "Yes. I´m sorry. I tried hard, but never got to -- OH MY GOD, THERE´S A PLANE COMING TOWARDS US"

Jack (cético): "Yeah, right..."

Jim (apontando, horrorizado): "I´m not kidding! There´s a FUCKING JUMBO JET flying very low downtown"

Jack (cínico): "C´mon, dude, could you find a better excuse to distract me from this crappy work? By the way, what an awful sense of humor"

Jim (apavorado, saindo da sala): "I´m outta here"

Jack (imitando Donald Trump): "You´re fired!"

Jack olha pra trás e vê o 747. Imediatamente pega o telefone. Liga para o seu corretor em Wall Street.

Jack: "Sell it all! Now! But buy some Halliburton stocks"

1 de Maio de 2009

Ninguém é só alguém

Quando um evento impactante acontece, desses dignos do rótulo de "histórico", acho que todo mundo guarda-o de maneira que se lembra muito tempo depois exatamente o que estava fazendo, com quem interagiu, o que sentiu, etc. E sentimos a necessidade de contar para os outros exatamente essa memória. Quando ainda somos bem jovens - e vivendo como vive uma criança de classe média sortuda, com uma redoma que parece proteger sua própria vida e a de seus queridos - talvez isso se amplifique porque as tragédias que estão no cerne da nossa própria existência não parecem existir, não fazem parte da realidade. Tragédias, só com os outros. Terremoto, só em São Francisco.

Eu não entendia porque se dizia que a Fórmula 1 era um esporte perigoso. Desde que havia começado a assistir as corridas, por volta de 86, 87, nenhum piloto sequer havia morrido. Elio de Angelis morreu num teste em Paul Ricard, pela Brabham, em 86, mas era só um teste. E era só Elio de Angelis. Era assim que eu pensava. Brutal, é verdade. Era só o Elio de Angelis.

Pois bem, todo mundo sabe o que aconteceu nos treinos do GP de San Marino de 1994, que ocorria na Itália (me lembro que fiquei espantado quando soube que Imola não ficava em San Marino porra nenhuma). Roland Ratzenberger, que corria por uma equipe nanica chamada Simtek - um carro roxo lindo e lento, o que o tornava feio e desinteressante - morreu quando bateu a trezentos por hora no muro da Villeneuve. Como havia levantado tarde naquele sábado, fiquei sabendo da morte do piloto pelo meu pai, no caminho para o Supertuba, um supermercado, que ficava a duas quadras. Mas o Senna conseguiu a pole? Sim, Senna na pole. Ah, então, tudo bem.

Encontrei minha vó e minha tia no Supertuba, que quando foram informadas da morte do ilustre desconhecido fizeram uma cara de tristeza e choque - afinal era um jovem que morreu praticando esporte, uma morte trágica. Eu me lembro de ter tentado simular a mesma tristeza. É uma convenção social que eu entendia muito bem, expressar a tristeza diante da morte, especialmente uma morte trágica. Fique triste, Danilo, um piloto morreu, pensava. E o Senna? Ficou com a pole, Vó. Era só o Ratzenberger, afinal.

Terremoto, só em São Francisco. Tragédias, só ali, não aqui. Com os outros, bem longe daqui.

Levantei cedo no domingo, como sempre fazia, como milhões de outros fiéis a postos para o culto da grande religião televisiva dos automóveis que ficam correndo em voltas seguidas pra não sair do lugar. Quando o Senna bateu - "Senna bateu forte!", berrou o Galvão - fui tomado de uma tristeza abissal. Aquela Williams desmantelando ao vivo, quase voltando pra pista pra descansar finalmente na área de escape, significava uma única coisa: Schumacher vai vencer de novo, Senna sem pontuar de novo, 30 a 0. E agora? Como é que Senna vai ser campeão no ano em que era pra ganhar todas as corridas? Duvido que algum sennista fanático tenha pensado diferente. Acidentes mais feios, o próprio Ayrton já tinha sofrido. Se você torcia pelo Senna como eu, você imediatamente pensou: fodeu, já era, acabou. 30 a 0 é a morte. 30 a 0 é adeus. Que tristeza.

Mas o cara não se mexia. O cara não saía do carro. Meu pai, já com seus quase 40 anos nas costas, ajudava na denegação do possível, que se transformava cada vez mais em provável: "ele mexeu a cabeça, está fazendo cera pra parar a corrida". Tomara que pare, tomara que cancele: Schumacher não vence, o campeonato se mantém vivo.

Quando o que passou a estar em jogo não era o campeonato e os 30 a 0, quando a morte começou a parecer possível, depois provável, depois certa, o terremoto não rachou apenas a Golden Gate, mas o teto do nosso sobrado. Aconteceu aqui, não ali. A morte existe, afinal. E agora?

Agora que Ratzenberger não era apenas Ratzenberger; Elio de Angelis não era apenas Elio de Angelis. A resposta, um tanto otimista, achei enquanto escrevia esse texto. Se não é genial, nem profunda, não é também uma mera tautologia. Me permitiu um título menos clichê para a efeméride e me deu a oportunidade de achar e me emocionar com essa bela foto, do pianista de Angelis. Ninguém é só alguém, mesmo.


Fotos:

1. Roland Ratzenberger, 1994.

2. Ayrton Senna e Elio de Angelis, 1985, companheiros de Lotus.

3. Elio de Angelis, 1986.

30 de Abril de 2009

A última pole

Há 15 anos, a última pole. Logo depois, Roland Ratzenberger, 33 anos, perderia parte de sua asa traseira na entrada da Villeneuve e morreria na frente do mundo todo. No dia seguinte, seria a vez do outro jovem de 34 anos, o mais conhecido deles. A Villeneuve não existe mais. A Tamburello, idem. Passaram uma borracha em forma de chicane nas duas curvas, no ano seguinte, para que carro nenhum, nunca mais, passasse por ali.

Celebrar a morte não faz sentido. Celebremos o que esse cara aí fazia de melhor (e o fazia melhor do que qualquer outro que sentasse a bunda num carro de corridas): andar mais rápido do que todos os outros numa única volta.

Na primeira parte, ele supera Schumacher em quase 2 décimos.



Depois, bate o próprio tempo em quase 3 décimos.

22 de Abril de 2009

Lévi-Strauss, de novo

É realmente muito, muito bonita a ideia de que toda a humanidade compartilha uma "ânsia por conhecimento objetivo" que transborda as culturas. Eis um exemplo de relativismo perfeitamente razoável:

Como nas linguagens profissionais, a proliferação conceitual corresponde a uma atenção mais firme em relação às propriedades do real, a um interesse mais desperto para as distinções que aí possam ser introduzidas. Essa ânsia de conhecimento objetivo constitui um dos aspectos mais negligenciados do pensamento daqueles que chamamos "primitivos". Se ele é raramente dirigido para realidades do mesmo nível daquelas às quais a ciência moderna está ligada, implica diligências intelectuais e métodos de observação semelhantes. Nos dois casos, o universo é objeto de pensamento, pelo menos como meio de satisfazer a necessidades.

Cada civilização tende a superestimar a orientação objetiva de seu pensamento; é por isso, portanto, que ela jamais está ausente. Quando cometemos o erro de ver o selvagem como exclusivamente governado por suas necessidades orgânicas ou econômicas, não percebemos que ele nos dirige a mesma censura e que, para ele, seu próprio desejo de conhecimento parece melhor equilibrado que o nosso.

Claude Lévi-Strauss, O pensamento selvagem, p. 17, 1962.

De Machus Ludopedicum

Eu aqui envolto na antropologia estruturalista de Lévi-Strauss (o quê!? quem?!?) enquanto a única verdade universal é destilada, como sempre, na mente ludopédica do grande e inimitável Xico Sá. Texto completo, garçom, com fritas - e me vê mais uma dose de colírio alucinógeno porque hoje é dia de Majestoso:


Diante do sofrimento, digo, quase infarto, deste macho ludopédico na rodada da última quarta-feira, matutava, com a pitomba metafísica chacoalhando na boca: será que as mulheres têm um sacrifício do mesmo porte, tão de graça mas ao mesmo tempo tão de verdade como a nossa maluca devoção pelos times do peito?

A minha costela amada ria do meu estado de nervos. Palmeiras 1x1 Sport. O Leão resistia com apenas dez homens em campo no Palestra Itália. Eu respirava por milagrosos balões de oxigênio. Ufa, fim de jogo, o homem de preto, que fizera de tudo para ajudar o adversário paulista, assopra a latinha. Abro a cerveja do guerreiro justiçado.

Fim de jogo e começo da mesa-rendonda caseira. Que loucura essa dos machos pelo futiba. E o que diabo você, mulher, ganha com isso?

Foi ai que lembrei de uma pesquisa sobre o assunto, que vale repeteco. Coisa animadora para as fêmeas. Repare só: a quantidade de testosterona produzida por um homem fanático aumenta 27,6% quando o seu time do coração triunfa. Mesmo que seja contra o Íbis, considerado historicamente como o pior time do mundo.

É um desses estudos malucos feitos pelos norte-americanos. Neste caso, uma turma de acadêmicas da Universidade da Geórgia.

Sim, as mulheres devem tirar proveito desta pesquisa e aprender com os seus parceiros tudo que sempre quiseram saber sobre tiros de meta, meia ofensivos, escanteios e, queira Deus, até mesmo os mistérios da lei do impedimento _uma das coisas mais enigmáticas para as fêmeas.

Um dado cruel da pesquisa, principalmente naquelas fases capengas dos nossos clubes: nas seguidas derrotas, o "homo-fanaticus" perde um tanto da sua capacidade de produzir hormônios (os mesmos 27,6%) e apresenta-se inapetente para o amor ou o sexo propriamente dito.

Agora, as mulheres, que jamais compreenderam o banzo sartreano dos machos derrotados no futebol, podem entender aqueles domingões tristes e monossilábicos.

O pior é que não adianta nada pedir para um sujeito mudar de time e tornar-se mais vencedor. Mesmo com a promessa de 27,6%  de testosterona-plus, é mais fácil um homem-que-é-homem mudar de sexo do que de clube.

Lévi-Strauss e as interpretações possíveis da realidade

Claude Lévi-Strauss limita a abordagem humana sobre o real da seguinte maneira:

Primeiro, o homem é semelhante ao jogador que, quando se senta à mesa, toma na mão cartas que não inventou, pois o jogo de cartas é um dado da história e da civilização. Em segundo lugar, cada repetição das cartas resulta de uma distribuição contingente entre os jogadores e se faz sem que eles percebam. Há mãos aceitas passivamente mas que cada sociedade, assim como cada jogador, interpreta nos termos de vários sistemas, que podem ser comuns ou particulares: regras de um jogo ou regras de uma tática. E se sabe muito bem que com a mesma mão jogadores diferentes não farão a mesma partida, se bem que não possam, coagidos também pelas regras, jogar qualquer partida com qualquer mão.

O pensamento selvagem, pp. 111-2, 1962.

15 de Abril de 2009

"Mente aberta"

Descrição do vídeo no Youtube, por QualiaSoup

Uma olhada em algumas falhas que levam pessoas que acreditam em certos conceitos não-científicos a aconselhar os que não acreditam a terem a mente mais aberta.



via De Rerum Natura

12 de Abril de 2009

Paolo Rossi e o zeitgeist atual

Comecei a ler um livro de Paolo Rossi - o historiador da ciência e não aquele que matou onze canarinhos com três pedradas - que também atira contra o "espírito de nossa época": Naufrágios sem espectador: a ideia de progresso. Antes de colocar aqui nesse blog um trecho brilhante, um diagnóstico absolutamente certeiro do que está se passando, devo dizer que, pensando melhor, o relativismo radical é apenas um instrumento, o porrete intelectual, com o qual os elegantes pensadores proclamam o zeitgeist atual. As ideias que circulam hoje não se devem ao relativismo, mas o relativismo decorre delas; elas proclamam o ocaso do "ocidente", do humanismo, da razão, da ciência. Temem esta última, descartam-na. Pois ao fazê-lo, parecem pensar mais profundamente, parecem abordá-la criticamente.

O que Rossi fala sobre os adolescentes europeus, aqui, vale também para os adultos por volta dos seus trinta anos, aqueles que estão com o mundo nas mãos, moldando-o, fabricando-o neste exato momento. Eu não quero esse mundo pra mim. Eu quero um mundo em que conhecer a realidade seja não apenas possível, mas fundamental. Eu quero um mundo que não sinta incômodo em procurar saber com maior certeza o que é que está por trás de uma doença, o que é que está girando em torno de uma estrela. Quero esmagar a hipocrisia que descarta a importância da tecnologia ao construir seu discurso num monitor de LCD, conectado a uma rede mundial de computadores.

É, não vai ser fácil:

[Os adolescentes] (como sem dúvida ocorre hoje na Europa) crêem de verdade e intensamente no Ocaso da Civilização, identificam a Natureza com a Inocência e teorizam a sua Sacralidade; fazem um uso contínuo e cotidiano de máquinas da mais variada espécie e natureza e ao mesmo tempo detestam tudo o que é artificial, odeiam a indústria, a química, a tecnologia, a modernidade; mostram-se mais sensíveis aos massacres de filhotes de foca do que de crianças africanas ou brasileiras; são hostis ao presente em nome de uma inédita mistura de nostalgia pelo passado e expectativa sobre o futuro; associam, numa alarmante fusão, tradicionalismo de direita e utopismo de esquerda, comportamentos nostálgicos e futurísticos; vêem a Natureza como uma Deusa Amiga e o homem como Inimigo dessa benevolente Divindade; defendem o localismo e zombam do universalismo; aderem enfim (em muitos casos) a posições de radical anti-humanismo sem nunca ter lido nem Spengler nem Heidegger, sem nunca ter ouvido falar deles.

10 de Abril de 2009

Mais (muito mais) darwinismo

Minha primeira e modesta produção como "jornalista de ciência" acabou de sair do forno. Humano, demasiadamente orgânico? é o título do meu texto, que procura esclarecer para um público amplo a conflituosa relação entre o darwinismo e as ciências humanas.

A revista eletrônica ComCiência é uma publicação do Laboratório de Estudos Avançados em Jornalismo (Labjor) da Unicamp, e da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC). Os artigos são produzidos por especialistas de cada área, e as reportagens (como é o caso do meu texto) ficam por conta da equipe de jornalistas e divulgadores.

A edição deste mês tem como tema, claro, o evolucionismo de Charles Darwin. É uma coleção de textos que podem ser muito interessantes pra quem quer saber um pouquinho mais sobre a história do darwinismo, o leque de possibilidades que ele ainda abre para os mais diversos campos do saber científico, e as polêmicas que seu evolucionismo ainda atrai.

Se interessar, leiam meu texto (e os dos outros) por lá e comentem, com críticas e sugestões, por aqui.

9 de Abril de 2009

Porquê homeopatia não funciona

A última aula sobre ciência e pseudociência no Labjor da Unicamp esquentou os ânimos, principalmente os dos defensores da homeopatia como ciência.

Reproduzo aqui, então, um trecho traduzido de um artigo breve, de divulgação científica, do Sense About Science, sobre a homeopatia. É coisa há muito conhecida, mas tem gente que teima em afirmar a validade científica dos tratamentos homeopáticos.



Preparados homeopáticos têm sido diluídos em tal escala que muitos não contêm uma única molécula do princípio ativo. Por exemplo, uma diluição comum de 30C quer dizer que uma gota do princípio ativo está diluída em 100 gotas de água, cuja única gota da solução resultante é diluída em outras 100 gotas de água, e assim por diante, até que 30 diluições tenham sido realizadas. A chance de um preparado homeopático em 30C conter uma molécula do princípio ativo é menor do que a chance de ganhar na loteria nacional [do Reino Unido] por cinco semanas seguidas.

Os homeopatas acreditam que a água "lembra" do princípio ativo. Se a água tivesse essa habilidade, ela lembraria também de outras substâncias que foram diluídas nela com o tempo, como dejetos animais e humanos, plantas mortas, bactérias e minerais; ela lembraria do tubo de ensaio em que o preparado homeopático foi feito.

A tradução é minha. Portanto, erros e distorções estão por minha conta.

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