Poucos cientistas se dedicaram à divulgação da ciência de maneira tão impactante e bem sucedida quanto o astrônomo Carl Sagan. Morto aos 62 anos por um tipo raro de câncer em 1996, Sagan deixou uma vasta obra de divulgação científica que marcou a cultura popular norte-americana do final do século XX. Sua série televisiva Cosmos foi exibida em mais de 60 países e seu livro homônimo chegou ao segundo lugar no ranking dos mais vendidos nos Estados Unidos, em 1980. Chamado por Stephen Jay Gould – outro importante cientista-divulgador – de “o maior advogado que a ciência já teve”, Sagan não apenas procurou tornar o conhecimento científico um saber palatável para o público não-especializado, mas também se ocupou de fazer uma defesa apaixonada da ciência. O profundo e persistente impacto de sua obra de divulgação, especialmente entre os mais jovens, parece pedir uma indagação: que visão da ciência foi propagada e advogada por Sagan?
Carl Sagan foi um otimista. Apesar de suas preocupações em alertar o perigo da corrida armamentista entre Estados Unidos e União Soviética ou os riscos ambientais do acentuado processo de industrialização – vez por outra soltando uma ironia acerca da inteligência da espécie humana – Sagan foi um crente na atividade humana de conhecer o universo. Não apenas na tarefa de conhecer latu sensu, Sagan acreditava fundamentalmente no projeto científico de estabelecer verdades objetivas acerca da realidade.
Esta crença estava baseada tanto em ideias externas à ciência, quanto em proposições intrinsecamente do campo científico. Seu solo era a profunda reverência que a contemplação do universo pode causar num ser humano, o chamado sentimento oceânico. Base para a experiência de revelação religiosa, o sentimento de espanto e temor diante da realidade e de ao mesmo tempo sentir-se parte de um todo universal era o que impulsionava a crença de Sagan na ciência. Embora o sentimento oceânico, tal como uma epifania, possa ser experimentado diante das mais diversas situações (tornando-o, portanto, bastante pessoal), para Sagan a reverência poderia nascer a partir das realizações da astronomia. A exposição cuidadosa de imagens de planetas, estrelas, nebulosas e galáxias – aspecto marcante em algumas de suas publicações, como Pálido Ponto Azul – tem o intuito de despertar a sensação e o discurso da reverência perante uma espantosa realidade.
Nietzsche recorre à descrição textual da imagem de um mundo insignificante num universo indiferente, para afirmar a arrogância de seres espacial e temporalmente irrisórios que sonham em conhecer a realidade. Ele teve que recorrer à imaginação pois não podia contar, no fim do século XIX, com os avanços tecnocientíficos de sondas e telescópios espaciais para montar sua concepção cética sobre a ciência moderna.
Sagan, pelo contrário, podia.
A história é bem conhecida. A sonda Voyager 1 havia chegado às fronteiras do sistema solar e Sagan pediu que os técnicos virassem a câmera da nave para a própria Terra. O registro fotográfico não teria qualquer utilidade científica prática. Filosoficamente, no entanto, aquele registro era valioso. A imagem resultante – um pixel em meio à escuridão – representava a Terra como um ponto insignificante na imensidão cósmica, da mesma forma como Nietzsche a descreveu. Porém, as conclusões de Sagan, no sentido epistemológico, seriam diametralmente opostas. Ao passo em que a imagem da insignificância também deveria significar a humildade moral, ela deveria inspirar a admiração, o maravilhamento com a realidade – e impulsionar a sede de conhecimento por ela. A revelação e o sentimento oceânico não deveriam ser fins em si mesmos. Nas religiões, a conversão se dá por meio da revelação. No projeto filosófico de Carl Sagan, o conhecimento do absoluto não é dado pela revelação. Ela seria o ponto de partida de um conhecimento que deve ser tateado, buscado às apalpadelas pelo empreendimento científico – não o único, mas o melhor e mais seguro método de conhecer o mundo até agora concebido pela humanidade.
Sagan era um otimista da ciência, mas não um fundamentalista. Uma das maiores preocupações de suas obras de divulgação científica foi reservada ao discurso ambientalista – que ele também tentou inspirar nos leitores pela imagem do pálido ponto terrestre. Dentro desse discurso, há uma ambivalência com relação à ciência e ao progresso tecnológico: ambos são vistos como vilões e redentores do próprio problema que causaram.
Inspirado por este discurso, Sagan denunciou parte da produção de ciência como cúmplice do progresso que ameaçava tornar o planeta inabitável. No mesmo sentido, procurou mostrar como a ciência se depara frequentemente com questões éticas e morais e como os cientistas não são dotados de discernimento superior quando confrontados por esses dilemas. Usando a metáfora de Oppenheimer, Sagan procurou mostrar o quão frequentemente a ciência suja suas mãos de sangue e paga caro por isso. Suas críticas ferozes a Edward Teller e o ativismo pelo fim da corrida armamentista (presente até mesmo em algumas de suas pesquisas científicas, como a responsável pela cunhagem do popular termo “inverno nuclear”) são exemplos claros desse posicionamento.
Na visão de Sagan, não há uma aura mística, uma superioridade moral da ciência sobre as outras esferas da organização social. Mas se a própria ciência era causadora de pesadelos tecnológicos, a resposta correta era mais ciência, e não menos. Seu esforço no campo da divulgação científica denota sua postura sobre essa questão: numa democracia tecnocrática, sujeita-se facilmente uma população que não possui (in)formação científica básica. Para que a democracia norte-americana funcionasse, mais ciência.
O subtítulo de um livro importante de Sagan não poderia representar mais claramente suas concepções: “a ciência vista como uma vela no escuro”. Em O Mundo Assombrado pelos Demônios, Sagan defende o ponto de vista científico da realidade. Denuncia as pseudociências, o fundamentalismo religioso, a admiração com representações pueris da realidade travestidas de grandes revelações. Destila, sobretudo, o ceticismo informado pela ciência. A ciência não apenas ilumina a realidade, tornando possível o seu conhecimento, como também nos liberta das enganações e das falsas promessas da era do espetáculo midiático.
Muito espertamente, Sagan percebeu que a mídia televisiva, no entanto, poderia funcionar a seu favor. Em 1980, uma série de 13 episódios foi televisionada nos Estados Unidos. Cosmos e seu livro homônimo, lançado no mesmo ano, trataram de apresentar a um público amplo as maravilhas que já foram e que ainda poderiam ser descobertas pela ciência. Com o carisma do autor/apresentador e marketing bem feito, série e livro foram, talvez, as peças publicitárias mais bem sucedidas da história da ciência. Este faro pela utilização de mídias atraentes para o grande público se revelou também na produção do filme Contato, um blockbuster adaptado de seu primeiro e único romance de ficção científica.
Embora apresente nestas e em outras obras uma definição bastante ampla do que seja ciência – chega a estender o conceito à pré-história, por vezes – Sagan se atém a uma concepção linear do progresso do conhecimento humano. Nessa visão linear, há aliados e inimigos. E há um caminho bem definido que foi e deve ser trilhado. A matemática aparece, então, como linguagem da ciência pois que é representada como universal. As mesmas assertivas lógicas da matemática podem se desenvolver e ser compreendidas tanto no cérebro humano quanto em qualquer outra mente surgida em algum canto do universo. São universalmente válidas, tanto quanto as leis da física. Existem objetivamente no mundo, não são meras representações. Um extraterrestre cientista, com o instrumental certo, acharia as mesmas respostas na realidade.
O próprio progresso tecnológico humano é visto nesta ótica universalizante. O caminho que percorremos até aqui, com aviões e armas nucleares, é visto como uma adolescência tecnológica. Todas as outras espécies, extraterrestres, que desenvolvessem uma civilização tecnológica, passariam mais ou menos pelos mesmos estágios que nós. Se mais avançados do que nós neste caminho trilhado e moldado pelas respostas objetivas extraídas da realidade, estes extraterrestres já teriam inventado a radioastronomia e tentariam se comunicar com outros mundos. O projeto SETI, que busca inteligências extraterrestres via radioastronomia, depende desta ideia – o SETI (Search for Extra-Terrestrial Inteligence) é a estrela principal de Contato.
A obra de Carl Sagan celebra o prazer, o valor lúdico, da descoberta científica, este conceito há muito questionado, para não dizer demolido e abandonado, por historiadores, filósofos e sociólogos da ciência. Se sua obra transparece uma certa ingenuidade epistemológica, sua sensibilidade refinada foi e continua sendo fator responsável de atração para carreiras científicas. Captura profundamente um valor quase transcendental da ciência moderna e amplifica com muita felicidade o sentimento de admiração pelo complexo mundo construído por este empreendimento humano. Uma análise pormenorizada de seu trabalho mostra-se essencial para a compreensão da mentalidade científica do presente.
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Nota:
Por causa de procrastinação e algumas escolhas erradas, acabei com pouquíssimo tempo pra escrever este ensaio final para uma matéria da pós. Não tinha tempo de consultar, aparar arestas, pensar e repensar. As palavras tinham que passar direto do cérebro pra tela. Então, é claro, a estrutura do texto não ficou lá essas coisas.
Só que, acho, é a coisa mais honesta e segura que já escrevi. Não havia tempo pra filtros, nem pra insegurança. Se não estivesse tão pressionado, não teria cometido algumas ousadias. De longe, o texto que mais gostei de escrever até hoje. Pouquíssimas alterações foram feitas (tirei referências e consertei um e outro erro de digitação, repetição e omissão). Espero que seja interessante para quem quer conhecer um pouco mais sobre o pensamento deste que foi um cara verdadeiramente apaixonado pela ciência.