23 de setembro de 2007

A culpa é do Nelsinho

Nelsinho: Tem culpa eu?


Tudo bem, a situação não era das melhores. Ontem, fui a Itu me misturar à maioria pontepretana presente no Novelli Júnior. A idéia era incentivar a querida macaquinha a chegar mais perto do grupo de acesso à série A, mas o que vi foi um futebol tenebroso, apavorante. Não fosse pelos seguidos milagres de Denis, o guarda-metas mais bestial do interior, e a Ponte sairia com mais uma derrota como visitante - dessa vez perdendo para o lanterninha. A torcida se revoltou e, como sempre, pediu a cabeça do treinador. Hoje, foi atendida. Devem estar soltando rojões com a saída do Nelsinho.

O que é inconcebível é que uma diretoria de um clube que se vê no direito de voltar à elite do futebol brasileiro aja como sua torcida, de maneira imediatista. Demitiram o Nelsinho, mas pra contratar quem? Minhas fichas vão para a contratação de Marco Aurélio Podreira, ou Moreira, como preferir. A Ponte deseja subir, mas Marco Aurélio é técnico pra não cair. Com ele, até o Brasil de 70 jogaria com quatro volantes.

Torcida de futebol, nem precisaria dizer, é o ser mais imediatista que existe. Chegou a Itu em paz com o time, mas o clima festivo não durou até o intervalo. Passou boa parte do segundo tempo azucrinando a maioria dos jogadores (com razão) e o treinador (não sem alguns bons motivos). Quando a derrota aparecia clara no horizonte, iniciou-se uma briga no meio da própria autoproclamada "nação pontepretana". E quando a muvuca - que quase sobrou pra quem não tinha nada com a história - instalava-se incontrolável no setor de visitantes, eis que a sorte sorriu a Alex Terra, sempre ele. De pronto, irromperam os gritos de guerra e de amor ao time. Reclamavam do árbitro, novamente, que anulou erradamente um gol legítimo de Simplício. E tentavam de novo criar uma briga, agora todos unidos, todos irmãos, contra a minúscula e apavorada torcida do Ituano.

Mas o jogo acabou, mais um empate, e os protestos foram murchos, daqueles que se comenta com o ilustre desconhecido que sentou ao seu lado e, como você, como todos, esconjurou as substituições de Nelsinho. Era a hora de apontar um culpado.

Nelsinho é um ótimo técnico. Apareceu numa campanha inacreditável do Novorizontino, que foi vice-campeão paulista em 90. Logo depois, levou o Corinthians ao seu primeiro título nacional. Pela Ponte, montou o melhor time que pisou no Majestoso nos últimos 25 anos. A Ponte de 2000/2001 era uma verdadeira pedreira, acredite se quiser. Merecia melhor sorte nos mata-matas que disputou e não foi campeã, como sempre. Nesta nova passagem por aqui, Nelsinho montou um time coeso e razoavelmente competitivo. Tinha poucos bons jogadores na mão e, no decorrer do ano, viu os dois melhores irem embora para o Corinthians. Depois da saída de Héverton, em especial, o time desabou. Para substituí-lo, contrataram Chumbinho. Que se mostrou um verdadeiro chumbo grosso, pesado mesmo.

Realmente, a culpa é do Nelsinho.

22 de setembro de 2007

Radiohead, por Dave Matthews

Em 2005, a Rolling Stone tomou uma iniciativa interessante: músicos escreveriam sobre outros músicos, ou bandas. Mas não seria algo aleatório. Deveria haver uma conexão entre os dois lados e uma profunda admiração por parte de quem fala. Os textos passam por situações óbvias, como Slash falando sobre Aerosmith; por outras nem tão óbvias assim, como o texto de Dave Navarro sobre o Black Sabbath; e, ainda, por combinações que beiram o burlesco, como a abordagem de Elton John sobre Eminem (com trocadilho, por favor). Nenhum deles, no entanto, tão significativos, pra mim e pra muita gente por aí, quanto o de Dave Matthews sobre Radiohead. Dave foi tão sincero quanto soa em suas letras. Em nenhum dos textos que li dessa série aparece com maior clareza a sensação simultânea de admiração e inveja diante da obra de um artista maior. Apreciem, por favor. E não se esqueçam de que quem escreve é a mente por trás de uma das maiores e melhores live bands do planeta.

A tradução é minha. Logo, as incorreções e distorção de estilo estão por minha conta.


Toda vez em que compro um álbum do Radiohead, há um momento em que digo pra mim mesmo, “talvez esse aqui será uma merda”. Mas nunca é. Eu imagino, mesmo, se é possível que eles façam um disco ruim.

Descrever a música do Radiohead como tendo “ganchos” é depreciá-la. Ela fala com você, de um jeito real. Ela pode te levar a uma rua pacata antes que te jogue uma linda bomba musical. Ela pode crescer até onde você pensa que tudo vai desmoronar por seu próprio peso – e então Thom Yorke canta alguma melodia que simplesmente arranca o seu coração do peito. Há um momento no
Kid A em que começo a me sentir claustrofóbico, preso numa selva de arame farpado – e então repentinamente caio sentado ao lado de uma piscina com pássaros cantando. O Radiohead pode fazer todas essas coisas num só momento, e isso me enlouquece.

Minha reação diante do Radiohead não é tão simples quanto o ciúmes. Ciúmes é algo que apenas queima; o Radiohead me deixa enfurecido. Mas se fosse só isso, eu não voltaria a ouvir aqueles discos de novo e de novo. Ouvir Radiohead faz-me sentir como Salieri diante de Mozart. As letras do Yorke me fazem querer desistir. Nunca, nos sonhos mais doidos, eu poderia encontrar algo tão belo quanto o que eles encontram numa única música – pra não dizer em um álbum atrás do outro. E, toda hora, eles mostram o dedo para imprensa e críticos dizendo: “nada do que fazemos é para vocês!”. Ao disco mais aclamado pela crítica,
OK Computer, seguiu-se a mudança mais radical, Kid A. Não é que eles são diferentes: é que a força do caráter de sua música está além de seus controles.

Assistir a sua apresentação me deixa ainda mais com raiva. Não importa o quanto relaxem nos shows, eles nunca perdem a lucidez. Não há momentos em que Jonny Greenwood ou Ed O´Brien repentinamente olham pra cima, dizendo “onde raios estamos?”. Não há descarrilamentos no Radiohead; todo álbum e toda apresentação são arrebatadores. Deus, ou esses caras sofreram, ou fingem como ninguém.

20 de setembro de 2007

Pesquisinha fuleira

Caros 17 milhões de leitores, vejam como uma pesquisa pode ser ridiculamente mal feita. O assunto não tem nada de relevante para o mundo real, mas o caso é emblemático da forma como pesquisas podem ser dirigidas e manipuladas. Da Folha Online:


Você acha que a punição à McLaren por espionagem, com a exclusão do Mundial de construtores e multa de US$ 100 milhões, foi justa ?

  • Sim

  • Não, a punição foi severa demais

  • Não, a punição foi leve demais

O leitor tem pouquíssimas opções para se expressar numa pesquisa como essa. Se considera que a punição foi justa, tem opção. Se discorda da intensidade da punição, também tem opções. No entanto, se acha que a McLaren não deveria ter sido punida, o leitor não tem alternativa que acolha sua opinião. A Folha partiu do pressuposto de que não há quem não considere a McLaren culpada do rocambole de espionagem que quase afundou a F1. Errou. Pesquisas, mesmo essas de internet e que versam sobre assuntos irrelevantes, não deveriam excluir uma parte inteira do espectro de opiniões.

Não, eu não acredito que o Datafolha seja capaz de um amadorismo desses.

15 de setembro de 2007

Esgota-me, Ponte Preta!

É gooooooooool na garganta florida
rouca exausta, gol no peito meu aberto
gol na minha rua nos terraços
nos bares nas bandeiras nos morteiros
gol
na girandolarrugem das girândolas
gol
na chuva de papeizinhos celebrando
por conta própria no ar: cada papel,
riso de dança distribuído
pelo país inteiro em festa de abraçar
e beijar e cantar
é gol legal é gol natal é gol de mel e sol.


(Carlos Drummond de Andrade, O Momento Feliz)



Como foi a vitória da Macaca, hoje? Foi de virada. No segundo tempo. Mais: aos 44, saiu o primeiro. E aos 49!, o segundo.

Esgota-me, Ponte Preta!

12 de setembro de 2007

Tela Class

Toda semana, em horário nobre-de-toga, Hermes & Renato exibem obras-primas da sétima arte.

Fiquem com um trecho antológico de "Uma Obra do Barulho", Oscar de melhor roteiro adaptado, vencedor da Palma de Ouro, do Leão de Prata e do Cocô de Bronze.


Radiohead - parte 360



I'm on a roll, I'm on a roll
This time, I feel my luck could change
Kill me Sarah, kill me again with love
It's gonna be a glorious day

Pull me out of the aircrash
Pull me out of the lake
I'm your superhero
We are standing on the edge

The Head of State has called for me by name
But I don't have time for him
It's gonna be a glorious day
I feel my luck could change

Pull me out of the aircrash
Pull me out of the lake
I'm your superhero
We are standing on the edge

11 de setembro de 2007

10 de setembro de 2007

Fernando, o briguento

Se Lewis está com o queijo na mão, Alonso já mostrou estar com a faca. Além de dar um beijo no Ron Dennis em troca de trinta moedas, derrotou o grande gênio dos últimos 15 anos em batalha direta pelo título em 2006, e com classe.

Por razões indetermináveis, eu nutria uma certa antipatia pelo espanhol. Mas, depois da mais recente demonstração de coragem e de outra história que veio à tona, passei a gostar do cara.

Alguns momentos que não podem ser esquecidos:

2005. Alonso, já campeão, passa Schumacher por fora, no Japão, na 130R, "a curva".



2006. Alonso passa Schumacher por fora, de novo, na chuva, em Hungaroring.



2006. Schumacher dá o troco e passa Alonso para vencer na China, na chuva, na esperteza.





2005 e 2006. As duas batalhas de Imola.




Por fim, Alonso diz com o dedo o que todo mundo gostaria de dizer para Ralf (Half) Schumacher. Monte Carlo, 2004.



É, nem tudo é procissão e intriga na F1.

Tiro no pé

Bernie Ecclestone mandou tirar o vídeo da ultrapassagem de Lewis do Daily Motion. Reproduzo aqui o que Fábio Seixas, da Folha, postou há pouco em seu blog:

Como vocês já devem ter percebido aí embaixo, a FOM mandou o Daily Motion tirar do ar as cenas da ultrapassagem do Hamilton sobre o Raikkonen. Pena. Assim como é uma pena o fato de eu não perder mais meu tempo procurando coisas assim no Youtube: é achar para, horas depois, ver que foi retirado do ar. É um erro crasso de Ecclestone. Entendo perfeitamente a questão dos direitos autorais, de privilegiar quem paga pelas imagens. Mas, peraí... Não estamos falando de transmissão ao vivo nem de reprodução do GP na íntegra. Enquanto a IRL, por exemplo, coloca no seu site os trechos cruciais de cada corrida, a FOM ainda engatinha na internet. Ao tirar do ar as cenas das corridas, cenas como as da magnífica ultrapassagem de Monza, a FOM está jogando contra a popularização da F-1, está virando as costas para uma mídia que tem como principais trunfos a disseminação rápida da informação, com uma abrangência nunca antes experimentada no planeta. É um tiro, um tirombaço, no pé. E tem a ver com a empáfia da categoria.

A F1 não está apenas alheia ao mundo. Está na contra-mão, mesmo.

Ave Lewis! (e Viva Kimi!)

No último post sobre a Fórmula 1, eu disse que a vida da categoria só pulsava fora das pistas. Dentro delas, a coisa não passava de uma procissão, insinuei.

Que o marasmo toma conta das pistas de F1, até a FIA concorda - vide a recente formação de um comitê exclusivamente voltado para o estudo da viabilização de ultrapassagens. Querem, muito logicamente, acabar com a perda de pressão aerodinâmica sofrida pelo carro que persegue outro de muito perto.

Mas eis que surge um solitário braço erguido no meio de todos, como se quisesse discordar e protestar contra o rebanho de pilotos conformados e avessos ao risco. É justamente o novato, o líder do campeonato. Ele podou Raikkonen no quintal da Ferrari, na frente dos tifosi.

Ave Lewis!




Deve-se fazer justiça a Raikkonen, um pilotaço que anda meio apagado. O finlandês foi o autor de uma das mais belas e empolgantes ultrapassagens dos últimos tempos. Que fica melhor ainda dentro do contexto: era a última volta do GP do Japão de 2005, em Suzuka. Kimi havia largado em 17º. A briga era pela vitória e a vítima foi Fisichella.

Lembro-me de, em plena madrugada, pular do colchão e soltar um sonoro "YEEEEEESSSS!!!" com o punho em riste. Essa vitória de Raikkonen foi a vitória de todo mundo que gosta de corridas.

Viva Kimi!


9 de setembro de 2007

to my soulmate

we think the same things at the same time

we just cant do anything about it

nós pensamos as mesmas coisas ao mesmo tempo

nós só não podemos fazer nada a respeito

7 de setembro de 2007

Sangue e excremento

Tal qual o mundinho fashion, a Fórmula 1 constitui uma realidade à parte. Motorhomes milionários erguem-se em cada GP para garantir a imagem asséptica de um ambiente que em nada se assemelha ao mundo real, de carne e osso. Garagens mais limpas que o meu quarto vivem povoadas de mecânicos mais bem vestidos do que a imensa maioria das pessoas deste país. Pilotos-robôs concedem entrevistas robotizadas para jornalistas robotizados.

Pois bem.

Recentemente, os acontecimentos extra-pista que vêm ganhando destaque na imprensa especializada trouxeram à tona algo que os aficcionados por este esporte já haviam quase esquecido: a F1 é feita por seres humanos. As implicações dessa bombástica e surpreendente revelação não são menos previsíveis: há muito sangue correndo nas veias dessa gente com cara de outdoor, e também há muito excremento por trás de seus óculos escuros. Como se estivessem acordando de um sono profundo, sites e blogs de automobilismo comemoram o óbvio: há vida pulsante na F1.

Tudo gira em torno do maior escândalo de espionagem da história da categoria. Quem não acompanhou o noticiário automobilístico pode se inteirar do assunto neste breve resumo. Quem já sabe do essencial pode ficar agora com a bomba que promete virar o circo de cabeça pra baixo.

Nas retas infindáveis de Monza, tudo continua inerte. A conturbada McLaren disputa com a Ferrari pra ver quem larga na frente e, por conseguinte, vence a procissão no domingo. A vida só pulsa fora das pistas.

6 de setembro de 2007

Coronado Beach, Califórnia, 1930










May I...?
Would you...?
Can we...?










Imagem retirada da coleção de fotografias do New York Museum of Modern Art - MoMA.
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De onde você vem?