16 de janeiro de 2009

Mar da tranquilidade

"Tudo mata tudo de uma maneira ou de outra. Pescar mata-me tal como me faz viver"
Santiago, o pescador
Ernest Hemingway, O Velho e o Mar, 1952.



Uma conexão inesperada une dois livros que li, esses dias, por acaso. Primeiro, escolhi um do Hemingway porque queria ler Hemingway, mas como não sabia por qual começar, decidi pelo menor deles. Depois, trombei com um livro do Amyr Klink.

Vocês conhecem o Amyr Klink. Diz ele que seus tios do Líbano lhe perguntaram: "Mas, filho, para que serve uma viagem dessas?". A viagem era dar uma volta na Terra pelo extremo sul do planeta, beirando a Antártida. Amyr conta essa história em Mar sem fim, onde também responde à pergunta dos tios assim:

"Precisamente para nada, e não há de fato nada de útil em viajar meses a fio para simplesmente voltar ao ponto de partida. Porém a inútil circunavegação que eu completara era a minha realização mais deliciosa. Difícil explicar. Há montanhas de inutilidades na história da humanidade, atos e obras que se tornaram importantes pelo simples fato de estarem completos, pelo modo como foram feitos, pelo símbolo que representaram."

Isso ele escreve lá pela página 205, mas o livro todo é uma resposta aos tios libaneses e ao leitor que faz a mesma indagação a cada agrura relatada por Amyr e antevê a própria resposta em toda descrição de sensação de felicidade e paz com o mundo.

Peguei o Mar sem fim nessas ocasiões em que o livro está lá dando sopa e você o aborda sem intenções maiores do que uma corrida de olho nas figuras. Mas o diabo é muito bom. Iniciada a leitura (em qualquer trecho), é quase impossível largá-lo, de tão bem escrito. Simples e honestamente bem escrito. É um culto à simplicidade, o livro. E é tão recomendável para quem tem, martelando a cabeça, grandes questões relacionadas à palavra sentido quanto o outro livro que li por esses dias e que também tem o mar no título e como grande palco, O Velho e o Mar.

Pra se ler de uma tacada, esse livro de Ernest Hemingway também é de uma simplicidade atordoante, cuidadosamente áspera. Hemingway escreve estritamente o necessário para pintar o quadro de simplicidade e rusticidade da vida do velho pescador, ao mesmo tempo em que penetra em suas elaborações sobre o mundo, a natureza e o mar. A história de Santiago e o maior embate de sua vida contra um peixe colossal rende um estranho sentimento desolador mas não completamente pessimista sobre o quê e porquê raios estamos vivendo nossas vidas e fazendo nossas coisas. O velho de Hemingway realiza um feito heróico sem que nunca houvesse passado pela sua cabeça ser um herói: ele queria apenas pescar, seu interesse era tão somente a luta contra o peixe. Ele vence a luta mas, quando o mar acaba sendo-lhe cruel e não lhe dá saídas, Santiago resigna-se, serenamente, à sua limitação perante a natureza.

A principal consonância entre Klink e Hemingway é a sensação de que aquilo que chamamos de sentido seja, talvez, apenas o fazer por querer fazer ou atingir um objetivo simplesmente por atingí-lo, em contraste com a busca idealista por um grande sentido das coisas ou sua versão secularizada, a do "sucesso profissional" e suas batalhas vencidas e obstáculos derrubados. Klink fala apenas de um prazer "de ter feito e visto o que fiz e vi", um "profundo prazer de poder resumir minha maior viagem num simples círculo de papel". A serena desistência quanto à procura do grande sentido é uma corrente profunda das duas obras e não é por acaso que ambas se encontrem na natureza implacável e impiedosa, vastidão sem referências, do mar.

1 de dezembro de 2008

O curriculum da Dilma

Dia desses recebi o seguinte e-mail (daqueles encaminhados, do tipo mais gracioso e bem-vindo: o tal de "Fwd"):

Sent: Wednesday, November 26, 2008 9:09 AM
Subject: Fw: CURRICULO DA DILMA -
A CANDIDATA DO LULA PARA O SEU LUGAR.....
BEM QUE FALAM QUE AQUI NA ÉPOCA DA
COLONIZAÇÃO FORAM ENVIADOS VÁRIAS CLASSES SOCIAIS, PRINCIPALMENTE
BANDIDOS...

POR ESTAS E OUTRAS ISTO TEM QUE SER
REPASSADO...REPASSADO...REPASSADO...REPASSADO...MANDA PRÁ
FRENTE...

(JÁ IMAGINARAM ISTO COMO
PRESIDENTE????????????????????????)


Este "Forward", escrito exatamente desse jeito elegante e em caixa alta, vinha com o seguinte anexo:

O tal de curriculum da Dilma.

A minha resposta (costumo responder aos "Fwd"; coisa mais indelicada de se fazer):

Ex-guerrilheira, militante contra o regime militar, mulher fantástica. Só por
ter atacado a casa do Adhemar de Barros já vale o voto.

Sim, adoraria ela como presidente da república.

[remetente], se for pra ficar mandando emails reacionários, "me inclua fora
dessa".

Abraços

Danilo


LOL. Eu si divirto com essa gente! Pelo menos o remetente não pode reclamar de nada: cá está repassada a mensagem.

26 de novembro de 2008

Fascista? Eu?

Num dos seus Cinco Escritos Morais, Umberto Eco se propõe a analisar o problema do fascismo tal como ele poderia se apresentar de maneira camuflada nos dias de hoje ou, para dizer as palavras dele, do problema de se identificar um "fascismo eterno". Mais adiante, transcrevo um trecho interessante deste ótimo ensaio e faço uma pergunta que mira um problema aparentemente distante. Mas antes, um esclarecimento.

O nazismo, diz Eco, assim como o stalinismo, tem um núcleo filosófico e ideológico bem delineado, um programa político claramente definido. O fascismo, surgido na Itália de Mussolini, ao contrário, é uma salada mal e porcamente alicerçada na retórica inflamada de seu líder. Apesar dessas diferenças, o termo se tornou moeda corrente para designar qualquer tipo de totalitarismo (categoria por si só problemática e já largamente questionada). Isso é um problema óbvio, na medida em que o fascismo é um fenômeno incoerente e desconjuntado. Umberto Eco encara o abacaxi, nesse texto, delineando algumas características que denunciariam a presença do tal de "fascismo eterno" ou "Ur-Fascismo", como ele o chama. Ou seja: tudo aquilo que pra nós, hoje, cheira a fascismo, mesmo que não se refira precisamente ao fenômeno histórico circunscrito à Itália dos anos 30.

Eis o trecho:

A primeira característica de um Ur-Fascismo é o culto da tradição. O tradicionalismo é mais velho do que o fascismo. Não somente foi típico do pensamento contra-reformista católico depois da Revolução Francesa, mas nasceu no final da idade helenística como uma reação ao racionalismo grego clássico.

Na bacia do Mediterrâneo, povos de religiões diversas (todas aceitas com indulgências pelo Panteon romano) começaram a sonhar com uma revelação recebida na aurora da história humana. Essa revelação permaneceu longo tempo escondida sob o véu de línguas então esquecidas. Havia sido confiada aos hieróglifos egípcios, às runas dos celtas, aos textos sacros, ainda desconhecidos, das religiões asiáticas.

Essa nova cultura tinha que ser sincretista. 'Sincretismo' não é somente, como indicam os dicionários, a combinação de formas diversas de crenças ou práticas. Uma combinação assim deve tolerar contradições. Todas as mensagens originais contêm um germe de sabedoria e, quando parecem dizer coisas diferentes ou incompatíveis, é apenas porque todas aludem, alegoricamente, a alguma verdade primitiva.

Como consequência, não pode existir avanço do saber. A verdade já foi anunciada de uma vez por todas, e só podemos continuar a interpretar sua obscura mensagem. É suficiente observar o ideário de qualquer movimento fascista para encontrar os principais pensadores tradicionalistas. A gnose nazista nutria-se de elementos tradicionalistas, sincretistas, ocultos. A mais importante fonte teórica da nova direita italiana, Julius Evola, misturava o Graal com os Protocolos dos Sábios de Sion, a alquimia com o Sacro Império Romano. [...]

Se remexerem nas prateleiras que nas livrarias americanas trazem a indicação "New Age", irão encontrar até mesmo Santo Agostinho e, que eu saiba, ele não era fascista. Mas o próprio fato de juntar Santo Agostinho e Stonehenge, isto é um sintoma do Ur-Fascismo.


Vivemos num tempo em que expressões como procurar ou descobrir a verdade estão completamente fora de moda. A mera menção a isso é capaz de arrepiar os intelectuais mais sensíveis, desencadear reações de desdém a algo visto como ultrapassado, até mesmo perigoso. Não é raro nos depararmos a denominações como o "fascismo da ciência". Vivemos o kitsch da multiplicidade de interpretações, igualmente válidas de acordo com os sistemas de representações dos quais emanam, e dificilmente postas em situação de embate, em que algumas inevitavelmente se sairiam melhores do que outras.

A pergunta é: qual é a diferença prática entre "uma verdade que já foi anunciada de uma vez por todas" e que "só podemos continuar a interpretar sua obscura mensagem" e a afirmação da completa inexistência da verdade acompanhada da desistência em procurá-la?

E só para provocar: de que lado está o fascismo?

10 de novembro de 2008

Prometendo e cumprindo

Na campanha, Obama disse que haveria abertura para diálogo com lideranças "hostis" aos Estados Unidos.

No Talking Points Memo, a tirada do dia é de um leitor: "eu não acredito que o Obama já foi se encontrar com um líder mundial impopular e agressivo sem exigir pré-condições."

Obama se encontra com George W. Bush hoje.

5 de novembro de 2008

Pálido´s Live Blogging das Eleições Norte-Americanas (ou "Vai Obama!")

Este post é resultado de live blogging: leia-o de baixo pra cima.

____


03:25 - Com o slogan pop-grudento-mas-ainda-assim-bonito-e-convincente "Yes We Can", Barack Obama encerra seu discurso de aceitação da presidência dos EUA. Obama retomou o discurso da união, da tolerância, de uma só América (que marcou sua campanha presidencial) e ao mesmo tempo voltou a bater na tecla da mudança (que foi tão decisiva nas primárias contra Hillary). Nenhum conteúdo racial foi explicitamente explorado, mas nem precisava. Era um negro ali, falando como presidente eleito da maior potência militar e econômica do mundo. A quantidade de símbolos impressos por essa eleição é incontável. O meu preferido é a mais do que provável vitória de Obama na Carolina do Norte, estado racista e segregacionista por excelência, América das mais profundas - tal qual sua metade do sul, que há exatos 60 anos viu um de seus produtos políticos mais abjetos ser aplaudido ao dizer a plenos pulmões a seguinte frase: "I wanna tell you, ladies and gentlemen, that there's not enough troops in the army to force the southern people to break down segregation and admit the nigra race into our theaters, into our swimming pools, into our homes, and into our churches." Eu queria que esse palhaço, Thurmond, pudesse ter visto o que eu vi hoje pela internet: a igreja de King lotada com gente de tudo quanto é cor cantando, festejando a eleição de um Chefe de Estado negro. Queria poder dizê-lo: ei, clown, there is a "nigra" in the Oval Office.

Isso me faria feliz.

Mas já valeu. Foi ótimo registrar todo este momento.

03:06 - Rapaz! Enquanto o cara fala que "não há estados azuis e estados vermelhos, só há os Estados Unidos da América", Jesse Jackson aparece chorando como criança no meio do público. Que momento! A frase pode claramente funcionar como analogia a "não há pretos e brancos, só há seres humanos". O tempo acaba de mijar na lápide de Strom Thurmond e seu "Segregation Now, Segregation Forever!" e toda a visão de mundo que isso representa.

02:54 - Obama vira na Carolina do Norte, e na reta final da apuração lidera com quase 30.000 votos num universo de mais 4.000.000 de votantes. Em Indiana, 8.000 votos na frente de McCain faltando 3% das urnas serem apuradas. Ele ainda tem chances de virar até o vermelhinho Missouri. E é nesse pé que o homem vai começar a falar agora em Chicago. Vamos ver.

02:45 - Cacilda! Uma inexplicável multidão agora aparece agitando suas bandeirinhas respondendo ao lema Yes We Can de Obama em frente a um cenário de prédios e luzes apropriados a um show oitentista de Jean Michel Jarre. Na CNN, ao vivo.

02:39 - Mais um fundamental símbolo acaba de ser agregado à histórica vitória de Obama: a Flórida, ah, a Flórida, é dele, dizem a Associated Press e a NBC. Gol de bicicleta, na gaveta. A torcida delira. Nevada, outro estado Bush, também já debandou para o lado de Obama.

02:30 - McCain faz, nesse momento, um discurso de concessão histórico em frente ao seu público em Phoenix, Arizona, sua terra. McCain falou bem, falou bonito, destacou a importância dessa eleição para os "afro-americanos". Quando ele deu os parabéns ao Obama, a multidão vaiou. É a mesma gente que elegeu a turma que agora sai escorraçada da Casa Branca, uma gente que apoiou uma guerra insana, uma política de benefício aos ricos e às grandes corporações. Os Estados Unidos são uma coisa de louco. É uma terra que reune o que de melhor e o que de pior há na humanidade. E assim que escrevo, a multidão raivosa aplaude quando Sarah Palin sai da boca de McCain e vaia quando o velho senador toca no nome de Obama. Era pra ser uma concessão elegante. McCain bem que tentou. Eu gostaria que essa turba fosse colocada na linha de frente contra jihadistas iraquianos insanos. Eles se merecem.

02:19 - No site do NYT, em letras enormes: "OBAMA - Racial Barrier Falls in Heavy Turnout". E embaixo, "McCain Falls as Voters Reject Bush Legacy". O que dizer?

02:11 - Enquanto eu pensava nisso, a CNN mostra um lugar enorme, uma igreja protestante, e uma multidão nela cantando uma música bonita, quase toda ela formada por negros, mas com alguns brancos também, e todos eles abraçados, cantando aquela música. É a igreja de Martin Luther King, em Atlanta, Georgia, diz o âncora da CNN. História com H maiúsculo existe sim - às favas com Paul Veyne - e eu estou sem palavras aqui.

02:06 - Apita o árbitro! As redes aclamam Barack Obama o novo presidente dos Estados Unidos. Um negro. A História, aquela grandiosa, com H maiúsculo - e que, no fundo, no fundo, não existe - está sendo escrita na frente dos nossos olhos. Uau.

02:04 - Dória: "Enquanto isso, no ComedyCentral, um ator negro que fala como rapper está polindo a bancada do programa Colbert Report. Se prepara para substituí-lo pelos próximos 4 anos. E Colbert está desesperado. =)" Assistam este vídeo e vejam se esse cara, Colbert, não é corajoso.

01:58 - O quê? Obama virou a eleição no finalzinho em Indiana? No estado em que Bush enfiou 60x39 no Kerry? É. O mapa do NYT mostra que com 92% das urnas apuradas, Obama tem uma vantagem de 8.000 votos por lá, num universo de dois milhões e meio de eleitores. Isso está começando a ficar engraçado. Indiana, pelo jeito, é mais do que as 500 milhas, ehehe.

01:55 - Josh, do TPM, diz que a Fox News confirmou Obama como vencedor na Virginia. O mapa do NYT mostra 92% das urnas apuradas e uma crescente vantagem de Obama, agora na casa dos quase 60.000 votos. Golaço, golaço.

01:47 - CNN: 207 x 135 para Obama no Colégio Eleitoral. A costa oeste inteira é dele e ainda nem foi contabilizada. Vamos contar: Califórnia - 55 votos, Oregon - 7 votos, Washington - 11 votos. 207 + 73 = 280. Finish.

01:41 - Argh, McCain ultrapassa Glock, quer dizer, Obama, na última curva da Carolina do Norte e agora lidera por 16.000 votos num universo de 3 milhões com 86% das urnas apuradas. Esse é daqueles golzinhos do time visitante que esfria a torcida quando o time da casa tá vencendo por 5 a 0.

01:33 - A questão não é mais saber quem será o novo presidente dos Estados Unidos, mas em quais condições vai ser a derrota do GOP: se de goleada humilhante ou de lavada acachapante. Obama se consolida com mais de 40.000 votos de dianteira na Virginia, 170.000 na Flórida (ah, a Flórida, aquela Flórida em que Bush precisou de cinco Castrillis na Suprema Corte pra parar a recontagem que favoreceria Gore, fora os outros absurdos).

01:25 - Diz o Pedro Dória que Stephen Colbert declarou que "esta eleição não terminou enquanto a Suprema Corte não se manifestar". Colbert é um gênio! Bem, enquanto isso, as redes usam sua poderosa bola de cristal para projetar a vitória de McCain no Texas. E eu uso meus poderes extra-sensoriais para prever que daqui 1 minuto terão se passado sessenta segundos.

01:16 - Pedro Dória informa que "A melhor cobertura na tevê norte-americana, neste momento, é do Comedy Central. Na bancada, John Stewart e Steven Colbert. Colbert (que faz o personagem de um comentarista reacionário) fala de tudo menos de eleições. John Stewart se vira e diz: Steven, você tem que enfrentar a realidade. ‘Mas hoje mais duas velhinhas fizeram 100 anos! Isso é notícia!’ Daí Stewart olha duro. ‘Notícias do mundo animal, olha que bichinhos fantásticos trouxemos…’" Puxem o "Daily Show" do Stewart e o "Colbert Report" no eMule pra terem uma idéia do que o Dória está contando. Ou melhor, entrem no site e vejam os programas passados. Esses caras da Comedy Central são o que há. Alguém aí afim de fazer uma doação de urgência pra eu assinar esse canal? Que raiva, ser professor às vezes é uma coisa que joga contra a sua formação. Me ajudem a ter Comedy Central, por favor!

01:12 - Iowa vai para Obama, diz a CNN. Outro estado Bush em 2004 que vai para os democratas. Mas a força de Obama lá acabou tornando esse outrora BG state num estado democrata sólido muito antes de 4 de novembro. Os democratas começam a tocar a bola, fazendo o tempo passar e a torcida começa a gritar olé.

01:05 - 83% dos votos apurados na Virgínia e Obama acaba de ultrapassar McCain em 12.000 votos! As urnas de Richmond devem ter chegado. E o pessoal começa a dar Duplos Twists Carpados nas ruas de Chicago. Obama mantém vantagem de 40.000 votos na Carolina do Norte (isso já é como a Ponte vencer a Libertadores. Invicta). A vantagem de Obama diminuiu um pouco na Flórida assim que a apuração vai chegando ao final. Será que McCain vai marcar um Battleground state de honra?

01:00 - O TPM acaba de informar que o Notícias das Montanhas Rochosas (Rocky Mountain News, mas fica mais bonito em português) chamou o Colorado para Obama. As grandes redes devem confirmar isso logo. O Colorado é outro outrora forte estado Bush a pular a cerca. Mas também isso já era esperado.

00:57 - Idelber Avelar decepciona e não consegue tornar a Louisiana um estado azul. Mas ok, um democrata vencer a Louisiana é como a Ponte vencer o Barcelona completo. No Camp Nou.

00:51 - CNN vai dando 199 x 78 para Obama. E acaba de projetar o Novo México para o negão. Já era mais ou menos esperado, mas o NM era um BG state no começo das eleições, um estado que votou Gore em 2000 por apenas 500 e poucos votos e votou Bush (também por pouco) em 2004! Faltam 71 votos no Colégio. Se não tiver nenhum Timo Glock dando sopa pro McCain na última curva, Obama fecha a conta daqui a pouco. Pois a Califórnia e seus 55 votos estariam no papo dos democratas mesmo se eles lançassem a Xuxa candidata a presidente dos EUA.

00:45 - Pena, mas parece que Obama não vai levar Indiana por pouco (3 pontos). Neste estado Bush humilhou Kerry com uma lavada de 20 pontos de diferença. Já foi uma vitória transformá-lo em Battleground State (vou começar a chamá-los de BG states, graças ao WoW). Seria humilhante demais vencê-lo. Mas, hei, que serventia tem Indiana a não ser a de abrigar as 500 Milhas de Indianápolis?

00:40 - Os resultados dos condados pró-Obama (mais populosos, mais urbanos, mais inteligentes, onde as pessoas comem de garfo e sabem localizar a França no mapa-mundi) começam a chegar de Virginia e a eleição por lá está absolutamente empatada. Talvez haja uma virada, embora o NYT esteja deixando o estado ainda pintado de vermelho. Essa vitória na Virginia seria histórica e teria um peso político enorme, já que a Virginia vota republicano desde o Paleolítico. O mesmo pode acontecer com a Carolina do Norte.

00:35 - CNN também acaba de confirmar Ohio para Obama. "Ai, ai, ai, ai ai, tá chegando a hora..." As incógnitas ainda são a Flórida e a Virgínia. Em VA, Obama vinha liderando por muito as pesquisas, mas os resultados estão sendo desfavoráveis. A explicação pode estar no mapa do NYT: os condados do nordeste, mais populosos e urbanos, estão demorando mais pra reportar.

00:32 - Josh do TPM: "MSNBC and Fox call Ohio for Obama. [...] For the moment, I'm not sure what else I have to say." É, parece que se não houver um Timo Glock na última curva, McCain pode começar a fazer aquele discurso congratulatório do derrotado.

00:26 - CNN vai dando 174 a 69 para Obama no Colégio Eleitoral, mas contando basicamente os estados que já eram praticamente favas contadas, exceto a Pennsylvania. E agora, OPA!! A Fox News acaba de dar Ohio para Obama. Se o Diário Oficial do Governo Bush já deu Ohio pros democratas, então o povo em Chicago já deve estar dando cambalhotas. E a MSNBC também acaba de confirmar Ohio para Obama. McCain sobe no telhado.

00:21 - NYT: Flórida com 50% dos votos apurados. Obama vai aumentando pra quase 200.000 sua vantagem e lidera com 2.870.000 votos. O Pollster deu 48.8 x 47.1 para Obama como projeção. Este é o estado das fraudes de 2000, então o negócio é aguardar. Se McCain perder aqui ou em Ohio, adeus.

00:15 - Ok, há um tempinho as redes deram a Pennsylvania para Obama. Este é um dos três Battleground States mais decisivos. Os outros são Ohio e Flórida. A Pennsylvania já era mais ou menos esperada nas contas de Obama. Ohio e Flórida vêm dando resultados positivos para Obama, mas nada que permita às redes jogá-los no balaio do negão ainda.

____

Meia-noite desta terça pra quarta-feira e aquilo que acompanhei com muita atenção e ansiedade desde janeiro deste ano chega ao clímax: as eleições dos Estados Unidos.

Vou escrevendo aqui enquanto as coisas acontecem. Este não é um blog com grande audiência, e o live blogging descompromissado de hoje não tem outro sentido de ser o de... eu mesmo acompanhar os resultados e registrar o que está sendo reportado na internet, nos melhores blogs do ramo. Se você, por acaso, tiver caído aqui no Pálido agora e quiser cobertura profissional de primeira, corra para o Talking Points Memo, Politico ou Pollster. Em português, temos o Idelber e o Dória. E dos grandes, o site do NYT é o que tem o melhor mapa para acompanhar a apuração, com reports de cada um dos condados.

2 de novembro de 2008

Notas sobre o Interlagazo

Porque pior do que perder um campeonato assim só levando 5 a 0 na final.

***

Glock é o Barbosa da Fórmula 1.

***

Diz o Flávio Gomes que Paulo Cobos, da Folha, falou com Timo Glock logo depois da corrida: “Acho que os brasileiros não vão me tratar muito bem daqui para a frente…”.

É engraçado como alguns personagens são criados pela história por puro acaso. Daqui a 50 anos, quando alguém for lembrar de alguma extraordinária decisão do esporte, o nome de Glock vai aparecer como aquele que em 2008 tirou o doce da boca das crianças sentadas na beirada das cadeiras - na frente da TV ou nas arquibancadas - torcendo por uma reviravolta quase impossível, que pareceu mais do que provável e que "por causa do Glock" não aconteceu.

***

Para o mesmo Paulo Cobos, Glock também disse: “Nem vi quando o cara me passou. Um monte de gente me passou”, disse. “Eu mal conseguia ficar na pista.” Fábio Seixas: "falei com Glock e fui ver o estado dos pneus dele. 'Fizemos uma aposta, mas a chuva apertou muito'. Ele estava com pneus para seco. Que estavam no bagaço, principalmente os do lado direito. Na lona. Não dava para ele, não havia condições."

Glock entrou para a história da Fórmula 1, desse jeito. É engraçado.

***

Alguém aí ouviu algo sobre queda de vendas de Corollas no Brasil?

***

A elasticidade anal de Lewis Hamilton é impressionante. Há duas voltas do fim, não passava nem agulha ali. Há quinhentos metros do fim, Hamilton poderia ser o passivo da relação com uma baleia jubarte.

No ano passado o rapaz já tinha terminado o campeonato inteiramente cagado, para o mal. Nada mais justo que ele o termine igualmente cagado este ano, para o bem.

***

Pensando bem, o final enervante de Interlagos teve um saldo bom: já imaginaram o que o Galvão Bueno faria se Massa tivesse conseguido mais 500 metros de sorte? Eu nem quero tentar pensar nisso.

***

Massa, só lamento.

***

Fui, e este blog está reativado.

10 de outubro de 2008

Naked king

No De Rerum Natura, o filósofo brasileiro Desidério Murcho matou a pau:

Quando se lê Carl Sagan ou outros grandes divulgadores de ciência,
compreende-se que estamos perante aspectos cognitivos dos mais sofisticados que os seres humanos alguma vez produziram; no entanto, tais conhecimentos são-nos oferecidos com clareza e simplicidade e o leitor não se sente colocado numa situação de inferioridade cognitiva. Em contraste com isto, basta folhear um suplemento cultural de um jornal para se encontrar um uso peculiar das palavras, em que estas perderam o poder de invocar pensamentos identificáveis, colocando-se ao invés toda a ênfase na transmissão da mensagem infantil de que o autor é culto — e com isso tudo o que se pretende realmente dizer é que é superior a nós, mais elevado, mais próximo dos deuses do Olimpo: um aristocrata. A filosofia, a história ou a teoria da literatura não são vistas como áreas acessíveis a todos, como a biologia, mas antes como disciplinas de cultura geral cuja vagueza de contornos é cuidadosamente acoplada à lama gramatical para assim poder servir de instrumento de opressão social e psicológica.


O rei das humanas está nu, gente. O problema é saber se algum dia ele já esteve vestido, ou se pelo menos usava cuecas até os anos 60.

28 de setembro de 2008

A despedida

Paul Newman e o Corvette GT1


Foi durante a transmissão do treino de F1 para a corrida noturna de daqui a pouco que fiquei sabendo da morte de Paul Newman. Nada demais, pensei. Ele já tinha mais de 80 anos. A notícia de que estava em estado terminal já havia circulado, bem como a da sua decisão de recusar mais tratamentos médicos e se recolher com a família para morrer em casa. Todas as agências de notícias vão dizer que era um grande ator, etc., e deve ter sido mesmo. Lembro-me apenas vagamente de alguns de seus papéis, como o do advogado nem-tão-bem-sucedido que consegue derrotar uma máquina jurídica num caso de erro médico (o Google acabou de me lembrar que o filme é "O Veredito", habituê dos Corujões e Sessões de Gala da vida). Enfim, Newman não era um dos meus favoritos. Por isso não fiquei triste como ficaria ao saber da morte de, digamos, Jack Nicholson.

Eu já sabia que Newman tinha um envolvimento muito grande com o mundo das corridas. Era dono de uma das melhores equipes de F-Indy, a Newman-Haas. Seus carros cinzas venceram campeonatos com Mario e Michael Andretti, Nigel Mansell e Sébastien Bourdais. Lembro-me que eu odiava esses carros cinzas quando criança porque eram alguns dos maiores rivais do Emerson Fittipaldi, pra quem eu torcia embalado pelo ufanismo histérico do Luciano do Valle. Além de dono, Newman era chefe de equipe, desses que ficam no box de macacão falando com os pilotos pelo rádio. Nunca vou me esquecer de um final de corrida, acho que era a de Vancouver, 1989, em que Michael Andretti jogou o carro em cima do Emerson na penúltima curva pra vencer, para delírio de Newman nos boxes. Não gostava dele.

Eu também já sabia que o ator se arriscava a acelerar esportivamente, mas só isso. Não sabia de alguns dos detalhes que tornam a história de Paul Newman uma coisa absolutamente fantástica: em 72, a primeira vitória numa corrida oficial; em 77 a primeira participação nas tradicionalíssimas 24 horas de Daytona; em 79 um segundo lugar nas mais tradicionais ainda 24 de Le Mans; e (por favor, leiam isso duas vezes) venceu as 24 horas de Daytona em 1995, aos 70 anos de idade. Paul Newman era um piloto de verdade. Um ótimo piloto de verdade.

Mas isso tudo não diz exatamente muita coisa além da pitoresca combinação ator-piloto de corridas. O que realmente me fez voltar a ter vontade de escrever um texto às 4 da manhã (com o "compromisso" de acordar às 9 para ver a sacrossanta F1) é que eu quero que vocês saibam que no fim de agosto, aos 83 anos e sabendo que tinha algumas poucas semanas de vida, Paul Newman, o piloto de corridas, pegou seu Corvette GT1, levou-o à pista de Lime Rock Park e guiou por uma hora e meia, observado por sua família e pelos mecânicos da Newman-Haas. É isso. Newman tinha 83 anos, câncer terminal nos pulmões, e foi se despedir de seu Corvette. À toda. Tenho certeza de que o velho não aliviou e sentou a bota como se...

Como se não houvesse amanhã.

Não é algo absolutamente comovente e inspirador e lindíssimo?
Agora estou triste por Paul Newman.
PS: Isso um dia vira livro, ou filme. Na certa, um certo sentido estético vai ser elaborado para a experiência de despedida, com a vida de Newman, os amores, os desgostos, o trabalho, tudo passando em flashbacks na cabeça daquele velho acelerando um carro de corridas pela última vez, intercalados com cenas da própria despedida. Eu tenho uma outra idéia do que Newman pensou naquela uma hora e meia de despedida: "... freio, terceira, segunda, tangência, dá o pé, corrige a traseira, rugido lá em cima, terceira, quarta, quinta, pé embaixo, pé embaixo, pé embaixo..." A estética está numa curva bem feita.

13 de setembro de 2008

Filmes sobre o 11 de setembro

No post anterior prometi um artigo sobre alguns filmes inspirados pelo 11 de setembro. Me expressei mal. Dificilmente o que eu ia escrever pode ser considerado um artigo, e nem mesmo iria falar de filmes diretamente ligados aos ataques de 2001. Eram filmes, na verdade, sobre a Guerra do Iraque. Mas já que prometi, vou soltar alguns pitacos sobre uma pequena lista de filmes sobre os ataques.

O retrato mais cru dos ataques vem de um documentário muitíssimo conhecido do grande público: 9/11, filmado por dois franceses que acompanhavam uma divisão do corpo de bombeiros de NY. A dupla é responsável por algumas das cenas mais impressionantes do evento: o colapso da torre sul filmado de dentro do lobby da torre norte (clique aqui para uma versão de sete minutos) e a única filmagem clara do impacto do primeiro avião, pra não mencionar o alto som de impacto dos "jumpers". Nada mais, nada menos do que isso: o horror sendo experimentado in loco.

Outro documentário, este o mais visto da história, é Fahrenheit 9/11, de Michael Moore. Todo mundo sabe: é um panfleto que tentou arrancar os republicanos da Casa Branca. Um belíssimo panfleto, mas mal-sucedido em seu objetivo, infelizmente. Muita gente criticou Moore por ser manipulador, mas isso não tem sentido. Com tanques midiáticos como a Fox News dando total guarida aos neocons, a manipulação de Moore foi mais do que legítima e bem-vinda. E não foi nada grave, convenhamos: uma ediçãozinha esperta aqui, outra ali, e Fahrenheit consegue um retrato bastante próximo da realidade do governo Bush. Talvez o grande pecado tenha sido mirar tanto na figura do presidente, o que acabou gerando em muita gente a sensação de tudo ser apenas uma perseguição infantil (problema parecido com o de Roger & Eu, o primeiro de Moore). E, claro, o problema mais sério é que o filme só consegue, no fundo, pregar aos convertidos.

Entre o documentário e a ficção está Flight 93, a história do quarto avião sequestrado que caiu na Pensilvânia. Embora ainda haja uma ou outra controvérsia sobre o que realmente aconteceu naquele vôo, o certo é que o filme narra a história que foi mais aceita pelo público americano (e pelo mundo): passageiros conscientes de que estavam nas mãos de um piloto suicida reagem e tentam retomar o controle do avião, que cai. É uma história que interessa imensamente à construção da memória dos ataques, da criação de mártires e dos símbolos de "um povo que não se intimida pela ameaça estrangeira", etc. O drama humano contado pelo filme é fortíssimo e tem boas chances de ser verídico: a transcrição das caixas-pretas relata sons de luta na cabine durante os segundos finais de vôo. Será interessante acompanhar o desenvolvimento da memória do 11 de setembro neste caso em particular.

World Trade Center, de Oliver Stone, é outro que relata uma história dita verídica. Dois oficiais da Autoridade Portuária sobrevivem ao colapso da torre sul e são finalmente resgatados com vida. As cenas do colapso são ótimas, mas o restante é de uma direção pouco inspirada, com o filme parecendo caminhar numa direção um tanto equivocada com flashbacks insossos que atrapalham a narrativa. As melhores partes ficam por conta de Nicolas Cage, que salva o filme mesmo ficando o tempo todo debaixo dos escombros. O teor ideológico se mostra quando entra em cena a figura de um misterioso mariner que tem uma revelação diretamente enviada pelo Senhor, vai até Nova York com uma lanterninha na mão e entra no meio da montanha de concreto e aço retorcido à noite para achar os dois sobreviventes. Mariners, os anjos voluntários que vão salvar e proteger o país, ho ho ho, feliz natal. Quase tão inverossímil quanto sobreviver ao colapso pulando no fosso do elevador. (Ok, há informações de que umas 20 pessoas sobreviveram ao colapso das torres).

Há ainda filmes menos conhecidos, como os documentários The Falling Man e Loose Change (os links levam às versões completas dos filmes no Youtube). Falling Man é um belíssimo ensaio cujo ponto de partida é uma sequência de fotos da queda de um dos mais de 200 "jumpers", pessoas que pularam ou cairam do alto das torres. O filme busca identificar o jumper e analisa a reação das pessoas ao horror particular dessas vítimas do 9/11. Documentário sério e bem feito, ao contrário de Loose Change, uma compilação de teorias conspiratórias sem nexo, a começar pela teoria da demolição controlada - segundo essa explicação para o colapso das torres, o governo norte-americano teria implodido os edifícios. É interessante assistir esse documentário para ter uma idéia do quanto o 11 de setembro mexe com os dois lados da histeria norte-americana: de um lado, o evento deu vazão a um recrudescimento da xenofobia entre os conservadores e uma clara justificativa para os republicanos desdenharem da ONU e mobilizarem a maior máquina bélica já construída pelo homem; de outro, a falta de explicações definitivas sobre os detalhes mais difíceis do episódio (como: por que os aviões não foram abatidos? por que realmente as torres colapsaram?) abriram caminho para que os esquerdóides lunáticos de lá e o grande número de "libertários" que vêem o estado como inimigo elaborassem as mais tresloucadas teorias conspiratórias responsabilizando a administração Bush pelas mais de 3000 mortes daquele dia. O fato de que provavelmente muitas pessoas no Pentágono e na Casa Branca estivessem brindando a tragédia que lhes daria carta-branca não significa que os ataques foram um "inside job", uma coisa de autoria do governo. Noam Chomsky, aliás, pode defender muito melhor do que eu esse ponto de vista (aqui e aqui). Este é mais um dos aspectos do 11 de setembro cuja construção da memória será interessante acompanhar nos próximos anos.

Por fim, um filme que foi lançado em 11 de setembro de 2002, 11´09"01 e que fica aqui como dica pra você e pra mim, já que ainda não o assisti. Uma vergonha, já que Sean Penn e Iñarritu assinam dois dos curtos episódios que contêm 11 minutos, 9 segundos e 1 quadro. Mas vai pra lista de downloads agora. Se você já viu, me diga o que achou.

O próximo post vai abordar alguns filmes sobre a Guerra do Iraque. Filmes melhores, muito melhores.

11 de setembro de 2008

9/11

Lá se vão sete anos desde que alguns muçulmanos decidiram dar carta-branca para os neocons deitarem e rolarem no Oriente Médio. O império já matou mais de 30 vezes o número de vítimas do atentado por lá. O número de mortes de soldados americanos causadas pelas invasões do Afeganistão e do Iraque também já passou, há muito, os pouco mais de 3000 mortos do dia 11 de setembro de 2001.


Clique aqui para ler um artigo da Newsweek (de fim do ano passado) sobre como algumas famílias de vítimas do 11 de setembro estão levando a vida após a perda. Os menos abastados estão, claro, tendo muitas dificuldades, a exemplo da família de Juan Nieves Jr.

Mais tarde, no Pálido, um artigo sobre alguns filmes inspirados por este capítulo particular da longa história da estupidez humana.

8 de setembro de 2008

Le grand finale

Corra e veja o vídeo onboard de um dos melhores finais de corrida da história da F1 (antes que a FOM tire-o do ar):




Na visão onboard fica nítida a vantagem de tração obtida por Hamilton com o corte da chicane. Ele merecia ganhar, merece ser campeão, mas a punição foi justa.

Pneus

Dois clássicos do Youtube mostram a radical diferença entre um pneu raivoso...



... e um bem comportado.

6 de setembro de 2008

Primeiras impressões

Incrivelmente, o Metallica conseguiu arrancar um ótimo review da Rolling Stone. Primeiro parágrafo:

In the Eighties, thrash metal wasn't a scene, it was an arms race: riffs kept speeding up, drum kits got bigger. But with 1991's Black Album, Metallica opted for unilateral disarmament, slowing their tempos, shortening their songs and smelting their chugging guitars and piston-powered drums into armor-plated pop hooks. After that, the band rushed from one reinvention to another, starting with the Southern-rock infusion of 1996's Load and culminating in the muddled, bizarrely produced group-therapy session of 2003's St. Anger. No longer: Death Magnetic is the musical equivalent of Russia's invasion of Georgia — a sudden act of aggression from a sleeping giant.

As opiniões que estão pipocando por aí concordam de maneira quase unânime sobre a boa qualidade do disco novo, embora todas façam questão de lembrar que alguns clichês aparecem quase ao ponto da auto-paródia.

Clichês...

Há alguma coisa de ingênuo e sincero nos clichês. E bonito, por quê não?



Metallica - The Day That Never Comes

5 de setembro de 2008

MP4/4

O Gomes comentou que o Rubinho deve rezar por uma chuva pra não andar atrás até da Force India (a Minardi dos novos tempos). E completou: "é inacreditável o que se passa com a Honda. Quando vejo esse carro aí embaixo, não consigo acreditar que as carroças de Barrichello e Button tenham o mesmo DNA."


Qual era o carro?


O McLaren Honda MP4/4.


Esse aqui, ó:



Não sei se são os 2 litros de cerveja já na cabeça, ou alguma outra coisa, mas me deu uma baita vontade de chorar quando eu vi aquele McLaren Mp4/4 número 12 com aquele capacete amarelo-espanto enfiado nele, no blog do Gomes. Sei lá, vai saber, devem ser as reminiscências da infância, da aventura de ficar acordado direto até as duas da manhã pra ver a decisão do título, e o cara ficar ali parado na pole quando precisava ganhar, ir lá pro fundão, e ir passando todo mundo, até encostar naquele outro cara, o outro grande cara, com o mesmo carro que ele e deixá-lo comendo poeira no meio da garoa, e aquela voz do Galvão que emocionava os que restavam desemocionados, meu deus, meu deus, isso tudo aí vai fazer 20 anos em outubro, quando faço 28 anos, e olha só, foi nessa corrida que o cara viu Deus, com maiúscula pra ele, lógico, ele viu Deus lá no céu, ele viu, dentro desse carro, na última volta, e eu tinha 8 anos, e lembro da minha mãe e meu pai vibrando também porque aquele rapaz tinha conseguido o que queria, meu deus, que vontade de chorar...

O MP4/4 é o carro.

Os marcianos chegaram...

... e não sabendo absolutamente nada sobre o planeta Terra, decidiram se agrupar na convenção do Partido Republicano.


Veja a tabela publicada pelo New York Times e julgue por si mesmo se o pessoal do GOP está ou não vivendo no éter supralunar (clique na imagem para ampliar):


Ah, o Biscoito Fino está com um post bastante esclarecedor sobre Sarah W. Palin, a vice de John McCain. O discurso de Sarah na convenção foi tão, tão empolgante para os republicanos, que desde então o GOP arrecadou 1 milhão de dólares para a campanha. Estranho é que os democratas tenham batido o recorde de arrecadação em um só dia no mesmo momento, levando para os cofres da campanha 10 milhões de dólares. "Espero que ela faça um discurso por dia", disse o porta-voz de Obama.

via A Blog Around The Clock

BREAKING FUCKING NEWS!!!

Graças ao Amadeu, cá está um álbum que só será lançado oficialmente no dia 12 de setembro. Dizem que uma certa loja francesa vendeu alguns exemplares antes da hora por engano. Lars falou sobre o vazamento: "If this thing leaks all over the world today or tomorrow, happy days. Happy days. Trust me. Ten days out and it hasn't quote-unquote fallen off the truck yet? Everybody's happy. It's 2008 and it's part of how it is these days, so it's fine. We're happy." Será que esse é o mesmo cara que um dia processou o Napster?



O que dá pra dizer com apenas um giro do disco? Que é 2008 vestido de 1986. Mas um sincero 2008 vestido de 1986.

E, bem, The Unforgiven III pode ter um título que soe a piada, mas a música é muito boa.

3 de setembro de 2008

Denorex

Uma coisa recorrente em obras de divulgadores da ciência como Richard Dawkins e Carl Sagan é o ataque à pseudociência. Tentam alertar para um perigo das sociedades modernas: aquilo que parece ser ciência pode ser uma impostura. Em linguagem clara: você pode estar levando um Porsche com motor de Fusca.

Pseudociência é todo discurso, saber ou crença, que se disfarça de ciência para conseguir credibilidade (fiquemos com essa definição, por enquanto). Pelo menos é nisso que quero acreditar: a ciência ainda tem muita credibilidade na nossa sociedade. Quantos anúncios não vêm acompanhados da chancela de "cientificamente comprovado" ou similares para atestar que seus produtos são confiáveis? Por quê os autores de livros de auto-ajuda e boçalidades semelhantes têm a necessidade de acompanhar seus nomes dos títulos de "MD" ou "PhD"? A intenção é clara. A ciência se tornou, há muito, base para decisões públicas e ainda é considerada, em inúmeras direções, nossa maior fonte de conhecimento seguro sobre o mundo. Sua roupa, pelo menos, ainda vende. E muito.

No post anterior eu indiquei, via De Rerum Natura, um artigo sobre ciência e pseudociência que apareceu há pouco na SEP. Sven Ove Hansson, o autor, prudentemente, tratou de apenas colocar o problema como algo a ser resolvido. O que já era de se esperar. Isso é coisa pra se tentar resolver em teses ou em tratados, e não num artigo de enciclopédia. Não deixa de ser interessante, mesmo assim, então vamos rapidamente a ele.

Hansson coloca uma questão que inevitavelmente se desdobra num problema muito maior: como estabelecer critérios para identificar a pseudociência? O problema maior é claro: quais, então, os critérios para demarcar a própria ciência? O artigo se desenvolve mais em torno disso, da demarcação e identificação do que é científico, e como fica bastante claro em seu desfecho, é paradoxal que haja tamanho consenso quando o assunto é meramente identificar os campos que devem ser considerados ciência, e ao mesmo tempo tanta dificuldade para encontrar critérios gerais que demarquem com clareza o que é ciência e o que não o é.

Da mesma forma, é bastante comum encontrarmos convergência em opiniões na comunidade científica - e não somente dentro dela - que classificam o criacionismo, a astrologia e a homeopatia, por exemplo, como pseudociências. A divergência está no porquê disso tudo ser pseudociência. As possíveis respostas esbarram primeiro no problema muito comum de se misturar pseudociência com anticiência, e mesmo pseudociência com todos os discursos alheios ou estranhos ao discurso científico. Basicamente, por pseudociência entende-se um saber ou crença que, não sendo científico, passa por ciência, veste sua roupa e emula suas maneiras na tentativa de criar uma impressão de ser científico. Apesar de muito útil, este é um critério problemático: a homeopatia oscila entre colocar-se como anticiência e como ciência, como afirma Hansson. O mesmo ocorre com a astrologia, atualmente, penso, com maior tendência a se considerar realmente não-ciência ou anticiência. A questão é que não há um corpus pseudocientífico em oposição ao corpus científico mais ou menos definido. E, pior, em alguns casos aquilo que pode ser identificado como ciência mal-feita (ou seja, experimentos mal conduzidos, teorias logicamente mal elaboradas, etc.) tende, em alguns casos, a ser confundido com pseudociência. A única forma de separar o joio do trigo, neste caso, seria saber se, por trás de conclusões estranhas à ciência originadas de incompetência ou distorsões propositais, há uma doutrina não-científica mais ou menos coerente. Dá pra ver que é muito pano pra manga, óbvio.

O pepino todo está na própria definição de ciência. Hansson faz um breve catálogo das principais vertentes na filosofia da ciência que arriscaram propor critérios gerais para a definição de ciência. Os positivistas do Círculo de Viena e a ênfase na possibilidade de se verificar uma proposição empiricamente; Karl Popper e a idéia de que uma teoria só é científica se abre a possibilidades de ser refutada por observações ou experiências que fiquem nas raias do concebível; Thomas Kuhn e a imagem da ciência normal, em que a prática científica mais comum é identificada com a resolução de problemas dados por um paradigma teórico que só de vez em quando é desafiado pelas anomalias que surgem nas pesquisas; Imre Lakatos e o critério de progressividade, em que estamos diante de ciência quando um programa de pesquisa cria novas teorias que, progressivamente, substituem as velhas pela capacidade de previsão e maior embasamento empírico; e Robert Merton e seu ethos científico, com imperativos institucionais como o universalismo, o ceticismo organizado, o senso de comunidade e o desinteresse pessoal. Não há consenso entre estas diferentes demarcações. Quando muito, há uma certa convergência em certas questões específicas. Isso pra não dizer que estamos falando só de gente que, se não eram epistemólogos de ofício, encararam a epistemologia de maneira propositiva, digamos. Pois eu não queria nem ver o fuzuê se no meio desse balaio todo Hansson tivesse tentado incluir as abordagens destruidoras das linhas mais relativistas da história da ciência.

Só pra dar um gostinho do incêndio: o item 3.6, ao qual Hansson não dá lá muita atenção, chama-se a time-bound demarcation. "The demarcation of science cannot be timeless, for the simple reason that science itself is not timeless", diz Hansson. "The mutability of science", continua, "is one of the factors that renders the demarcation between science and pseudoscience difficult". É aí que os historiadores têm uma chance de enriquecer o debate. A conclusão é, hoje, óbvia demais para ser usada como objetivo da pesquisa histórica sobre ciência (e pseudociência). "A ciência não está fora do tempo": isso é um ponto de partida, não de chegada. Mas, aproveitando a deixa, isso é outra história, pra outro post.

Pseudo

Agora há pouco, o pessoal do De Rerum Natura deu uma dica daquelas: um novo artigo na Stanford Encyclopedia of Philosophy sobre ciência e pseudociência. O início é auspicioso, dá uma olhada:

The demarcation between science and pseudoscience is part of the larger task to determine which beliefs are epistemically warranted. The entry clarifies the specific nature of pseudoscience in relation to other forms of non-scientific doctrines and practices. The major proposed demarcation criteria are discussed and some of their weaknesses are pointed out. In conclusion, it is emphasized that there is much more agreement in particular issues of demarcation than on the general criteria that such judgments should be based upon. This is an indication that there is still much important philosophical work to be done on the demarcation between science and pseudoscience.

Opa, o negócio deve ser muito bom.

Só o termo pseudociência já causa arrepios no pessoal das humanas mais inclinado ao relativismo. Se ciência já é um campo razoavelmente complicado de se definir, o que dizer da pseudociência? Ou pior: para aqueles que não vêem lá grande diferença entre teoria científica e mito, onde é que entra a pseudociência? Não entra. Porque quem vê tudo embaçado assim já jogou a epistemologia pela janela faz tempo. E não vai querer perder tempo com coisa tão pueril, não é?

Pseudoprofundidade é foda.

Eu vou ver qual é a da pseudociência. Impressões a seguir, aqui no blog.

De onde você vem?