2 de junho de 2008

Identidade

É sempre assim: desde o instante em que a revê até o instante em que a
reconhece tal como a ama, ele tem um caminho a percorrer. Desde seu primeiro
encontro, na montanha, ele teve a oportunidade de se isolar com ela quase
imediatamente. Se, antes desse único encontro a sós, ela a tivesse encontrado
muitas vezes tal como ela era com os outros, teria reconhecido nela o ser amado?
Se ele a tivesse conhecido apenas com o rosto que ela mostra a seus colegas, a
seus chefes, a seus subordinados, teria ficado comovido e maravilhado com esse
rosto? Para essas perguntas, ele não tem resposta.

[...]

A frase de Chantal ecoava-lhe na cabeça e ele imaginava a história do seu
corpo: ele estava perdido entre milhões de outros corpos até o dia em que um
olhar de desejo pousou sobre ele e o tirou da multidão nebulosa; em seguida, os
olhares se multiplicaram e incendiaram esse corpo que desde então atravessa o
mundo como uma tocha; é o tempo de uma glória luminosa, mas, logo, depois, os
olhares vão começar a escassear, a luz se apagará pouco a pouco até o dia em que
esse corpo, translúcido, depois transparente, depois invisível, irá passear
pelas ruas como um pequeno nada ambulante. Nesse trajeto, que leva da primeira
invisibilidade à segunda, a frase "os homens não se viram mais para olhar para
mim" é a luzinha vermelha assinalando que a extinção progressiva do corpo
começou.

Por mais que dissesse que a amava e a achava bela, seu olhar amoroso não
podia consolá-la. Porque o olhar do amor é o olhar do isolamento. Jean-Marc
pensava na solidão amorosa de dois seres velhos que se tornaram invisíveis para
os outros: triste solidão que prefigura a morte. Não, o que ela precisa não é de
um olhar de amor, mas de uma inundação de olhares desconhecidos, grosseiros,
concupiscentes e que pousam nela sem simpatia, sem escolhar, sem ternura nem
polidez, fatalmente, inevitavelmente. Esses olhares a mantêm na sociedade dos
humanos. O olhar do amor a exclui.


Preparado o cenário de uma mulher em decadência física e seu companheiro que não resiste à compaixão, Milan Kundera leva essas suas duas crias, Chantal e Jean-Marc, a seu lugar preferido: o terreno dos mal-entendidos amorosos.

O real também pode ficar mais palpável, compreensível, inteligível, graças à ficção.

A Identidade, de Kundera, está esgotado.

Um comentário:

Désir La Vie disse...

Poético,
Sensível,
Realista,
Óbvio

Esse é Kundera.

De onde você vem?