8 de julho de 2007

El Eclipse

Numa das primeiras aulas de "História das Ciências Naturais", nas geociências da Unicamp, fui apresentado a um pequeno conto em espanhol intitulado "El Eclipse". O texto, dizia a professora Margaret Lopes, causara furor às portas de um congresso de história da ciência no México, onde estava sendo informalmente distribuído. De autoria de Augusto Monterroso, guatemalteco radicado no México, "El Eclipse" atinge o alvo sem rodeios.

A tradução foi encontrada no blog Exílio (in)voluntário. Ao texto, portanto.


Quando Frei Bartolomé Arrazola se sentiu perdido, aceitou que nada poderia salvá-lo. A selva poderosa da Guatemala o havia sufocado, implacável e definitiva. Diante de sua ignorância topográfica, sentou-se com tranqüilidade a esperar a morte. Quis morrer ali, sem nenhuma esperança, isolado com o pensamento fixo na Espanha distante, particularmente no convento de Los Abrojos, onde Carlos V condescendera uma vez a descer de sua eminência para lhe dizer que confiava no zelo religioso de seu trabalho redentor.

Ao despertar viu-se rodeado por um grupo de indígenas de rosto impassível que se dispunham a sacrificá-lo ante um altar, um altar que a Bartolomé pareceu como o leito em que descansaria, por fim, de seus temores, de seu destino, de si mesmo.

Três anos no país lhe haviam conferido um domínio razoável das línguas nativas. Tentou algo. Disse algumas palavras que foram compreendidas.

Então floresceu nele uma idéia que teve por digna de seu talento, de sua cultura universal e de seu árduo conhecimento de Aristóteles. Recordou que para esse dia se esperava um eclipse total do sol. E dispôs-se, no mais íntimo, a valer-se desse conhecimento para enganar a seus opressores e salvar a vida.

- Se me matais – lhes disse – posso fazer com que o sol escureça na sua altura.

Os indígenas o miraram fixamente, e Bartolomé surpreendeu a incredulidade nos seus olhos. Viu que se produziu um pequeno conselho, e esperou confiante, não sem um certo desdém.

Duas horas depois o coração de Frei Bartolomé Arrazola jorrava seu sangue veemente sobre a pedra dos sacrifícios (brilhante sob a opaca luz de um sol eclipsado), enquanto um dos indígenas recitava sem nenhuma inflexão de voz, sem pressa, uma a uma, as infinitas datas em que se produziriam eclipses solares e lunares, que os astrônomos da comunidade maia haviam previsto e anotado em seus códices sem a valiosa ajuda de Aristóteles.

4 comentários:

vanessa disse...

Qual a sua opinião a respeito desse texto??
Há outros relatos semelhantes a esse???
Juro que nunca li algo parecido!

Danilo Albergaria disse...

Eu também nunca tinha lido algo desse tipo.

Mas o discurso tá longe de ser estranho: é a valorização dos saberes pré-colombianos. Isso é até comum.

vanessa disse...

Sim, eu já havia notado! Realmente o discurso não é estranho...Até me lembro de algo lá atrás...no colegial.
Mas só pedi sua opinião e tb impressão, pois nunca tinha lido algo parecido...E depois quem tem o textito és tu...
Realmente curioso

Sasqua disse...

Diga-se, Sherpa: valorização dos saberes pré-colombianos e crítica à postura européia. Bastante comum, é verdade. Mas ainda assim nos causa uma sensação de incrível prazer, hhehehe. Muito bom..

De onde você vem?