22 de setembro de 2007

Radiohead, por Dave Matthews

Em 2005, a Rolling Stone tomou uma iniciativa interessante: músicos escreveriam sobre outros músicos, ou bandas. Mas não seria algo aleatório. Deveria haver uma conexão entre os dois lados e uma profunda admiração por parte de quem fala. Os textos passam por situações óbvias, como Slash falando sobre Aerosmith; por outras nem tão óbvias assim, como o texto de Dave Navarro sobre o Black Sabbath; e, ainda, por combinações que beiram o burlesco, como a abordagem de Elton John sobre Eminem (com trocadilho, por favor). Nenhum deles, no entanto, tão significativos, pra mim e pra muita gente por aí, quanto o de Dave Matthews sobre Radiohead. Dave foi tão sincero quanto soa em suas letras. Em nenhum dos textos que li dessa série aparece com maior clareza a sensação simultânea de admiração e inveja diante da obra de um artista maior. Apreciem, por favor. E não se esqueçam de que quem escreve é a mente por trás de uma das maiores e melhores live bands do planeta.

A tradução é minha. Logo, as incorreções e distorção de estilo estão por minha conta.


Toda vez em que compro um álbum do Radiohead, há um momento em que digo pra mim mesmo, “talvez esse aqui será uma merda”. Mas nunca é. Eu imagino, mesmo, se é possível que eles façam um disco ruim.

Descrever a música do Radiohead como tendo “ganchos” é depreciá-la. Ela fala com você, de um jeito real. Ela pode te levar a uma rua pacata antes que te jogue uma linda bomba musical. Ela pode crescer até onde você pensa que tudo vai desmoronar por seu próprio peso – e então Thom Yorke canta alguma melodia que simplesmente arranca o seu coração do peito. Há um momento no
Kid A em que começo a me sentir claustrofóbico, preso numa selva de arame farpado – e então repentinamente caio sentado ao lado de uma piscina com pássaros cantando. O Radiohead pode fazer todas essas coisas num só momento, e isso me enlouquece.

Minha reação diante do Radiohead não é tão simples quanto o ciúmes. Ciúmes é algo que apenas queima; o Radiohead me deixa enfurecido. Mas se fosse só isso, eu não voltaria a ouvir aqueles discos de novo e de novo. Ouvir Radiohead faz-me sentir como Salieri diante de Mozart. As letras do Yorke me fazem querer desistir. Nunca, nos sonhos mais doidos, eu poderia encontrar algo tão belo quanto o que eles encontram numa única música – pra não dizer em um álbum atrás do outro. E, toda hora, eles mostram o dedo para imprensa e críticos dizendo: “nada do que fazemos é para vocês!”. Ao disco mais aclamado pela crítica,
OK Computer, seguiu-se a mudança mais radical, Kid A. Não é que eles são diferentes: é que a força do caráter de sua música está além de seus controles.

Assistir a sua apresentação me deixa ainda mais com raiva. Não importa o quanto relaxem nos shows, eles nunca perdem a lucidez. Não há momentos em que Jonny Greenwood ou Ed O´Brien repentinamente olham pra cima, dizendo “onde raios estamos?”. Não há descarrilamentos no Radiohead; todo álbum e toda apresentação são arrebatadores. Deus, ou esses caras sofreram, ou fingem como ninguém.

10 comentários:

Sasqua disse...

Tá. Muito legal.
Agora já sei que além de você, o Saulo, a Vanessa e a Aline, o Dave Matthews também é fãnzasso do Radio-Cabeça.

Ainda assim, não me convense muito. Continuo achando Radiohead uma banda "legal pra de vez em quando". O que não quer dizer que eu não reconheça a qualidade da banda nem o talento do caras, é claro, mas digamos apenas que não apetece meu paladar musical.

Continuo preferindo toda a simplicidade posuda do Kiss da época do Destroyer, do Hotter Than Hell, do Creatures of the Night e por aí vai...

vanessa disse...

...mas olha que Matthews simplesmente conseguiu definir a tortura e o orgasmo mental que sinto ao escutar Radiocabeça. É viciante. Nunca enjoo. Escuto 30 vezes a mesma música com a sensação de estar ouvindo-a pela primeiríssima vez.

Realmente, ainda não consegui encontrar um musiquinha do Yorke para poder dar uma esculachada.
Todas as bandas que conheço já fizeram uma vez na vida musical um som mediano ou ruim de verdade.
Mas estou aqui, esperando como nunca o dia de Yorke chegar...Será?

Enquanto isso, vou escutar meus albuns mais umas 40 vezes e tentar encontrar algum defeito...Não é possível!!!

vanessa disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Juliano disse...

Milk, fantástico!

Danilo Albergaria disse...

Sasqua, Sasqua, você não sabe de nada mesmo.

E assino embaixo do que a Van falou.

Radiocabeça sempre!

Sasqua disse...

Caramba, Sherpa, lembra quando eu disse que Dave Matthews era "no máximo legalzinho" e vc disse que "essa era pior coisa que alguém já tinha dito a respeito deles"? Pois é... "Sasqua, vc não sabe de nada mesmo" é a pior coisa que já disseram a meu respeito, hhuahuahua.

Msa enfim, vamos lá....eis que estou em casa pensando com meus botões e me vem na cabeça: "tá, eu não consigo amar o Radiohead. Ouço umas 4 ou 5 músicas e já me dá no saco...mas...o que de fato eu ouvi de Radiohead?" E foi aí que eu percebi que o máximo que eu tinha ouvido de Radiocabeça foi uma coletânea que o Luiz me deu. E não dá pra julgar uma banda só por apanhado geral de algumas músicas...
Então pra tirar a dúvida, resolvi pegar um album inteiro, pra ouvir de "cabo a rabo" como dizem por aí. Baixei o Easy Star All Star, coloquei um fone de ouvido daqueles que faz você perceber os mínimos detalhes das músicas e ouvi o disco todo. Não mudei de opinião.
Muitas músicas legais. Coisas absurdas e uma criatividade realmente acima da média. Mas depois de Karma Police, a sexta faixa, precisei fazer um esforço pra continuar ouvindo.
Como eu disse. Não sou louco de dizer que Radiocabeça é uma banda ruim. Pelo contrário, a capacidade criativa deles beira a genialidade. Nisso eu concordo. Mas o estilo me cansa depois de um tempo.
Paranoid Android é legal pra caralho. Mas o que me causa ereções mesmo é Paranoid, a original, do Black Sabbath. Mesmo sabendo que qualquer comparação entre elas não passaria de um sofismo barato.

Ademais, continuo firme e forte no meu mundo "trivial": Motorhead no talo pra enlouquecer a vizinhança.
Pra mim, vale a máxima da música do Devotos de Nossa Senhora de Aparecida: ficar em casa lendo batman e mad, escutando só Ramones e Motorhead...

Danilo Albergaria disse...

"Easy Star All Star"?

Tinha Let Down e Lucky?

Se for o OK Computer, é depois de Karma Police que a coisa esquenta de verdade.

Acho que é uma questão de acostumar o ouvido. Ouvi durante muito tempo algumas músicas apenas. Depois fui pulando lentamente pra outras. Quando você cai em si já tá amando a banda.

E eu reitero aqui que não tem uma única música do Radiohead que eu não goste.

vanessa disse...

Como assim??? Não é possível que o Sasqua não goste...

Ainda não compreendo o "porque"...se é que esse existe! É questão de gosto mesmo

O engraçado é que adoro Ramones, Toy Dolls(uma banda punk-meia tigela que zua pra caralho), Sabbath e uma série de outras bandas que destoam completamente de Radiocabeça...Mas não consigo escutá-las mais de uma hora, enquanto Yorke coloco no repeat...Assim como Bjork.

Realmente, como dizia minha bisavozinha: Gosto é que nem cú!

Sasqua disse...

Sábias palavras, Vanessa, sábias palavras.
Acho que eu vou ouvir tanto Radiohead pra entender por que vcs são viciados, que eu mesmo vou acabar me viciando...

danikosh disse...

Milk, Milk... Nunca imaginei você gostando de Radiohead. James Hetfield deve estar decepcionado e chorando em algum canto deste planeta.

De onde você vem?