31 de março de 2010

Small time crook

Estava eu numa aprazível, elegante e chic unidade de uma conhecida rede de supermercados quando, passando pela gôndola de queijos, avistei um gorgonzola apetitoso. Estava a fim de gastar um pouquinho a mais para ter um raro prazer e decidi comprar o gorgonzola. Porém, como minha situação financeira está se recuperando ainda mais lentamente do que a malfadada economia americana, me pus a escolher o queijo mais barato. Já identificado o gorgonzola com preço por quilo mais em conta, passei a procurar um que tivesse um pedacinho mais leve. Foi então que deparei-me com uma questão moral.

Achei um pedaço que tinha um preço estranhamente abaixo do normal. Enquanto a maioria custava sete, oito reais, aquele sairia por dois reais, era o que a etiqueta me dizia. Encafifado, procurei uma resposta (marca diferente? validade em cima? queijo estragado?), que logo achei: algum funcionário desatento tinha pesado aquele delicioso queijo gorgonzola como mussarela. 14,90 o quilo. O gorgonza é o triplo do preço. E ainda estava escrito na etiqueta: queijo mussarela. Que anta!

Era como levar picanha pelo preço de acém. Logo, o Gerson que existe dentro de cada um de nós passou a buzinar no meu ouvido. De pronto, presumindo que a besta quadrada não tinha cometido o erro com apenas um único pedaço, comecei a procurar outros espécimes anômalos de mussarelas com alma de gorgonzola e, para minha surpresa, achei mais quatro deles, a coisa de dois reais cada. Rapidamente, enfiei os queijos na cestinha.

Gerson diz que é preciso levar vantagem em tudo. Eu raramente levo vantagem em alguma coisa. Sou um sujeito meio cagado. Se eu compro um som pro meu humilde corsinha, em até dois meses vem um babaca e leva meu som embora, deixando uma porta torta de lembrança. Se é um notebook, em até dois meses o lazarento dá pau. A polícia rodoviária me parou uma vez na estrada e apreendeu meu carro justamente numa noite em que estava me encaminhando para um encontro amoroso. Entendeu? O universo anda levando mais vantagem sobre mim do que eu sobre ele.

Além dessa justificativa auto-complacente, encontrei outras tão poderosas quanto. Por exemplo: este funcionário pesou o queijo errado porque, provavelmente, estava cansado, ou melhor, extenuado após horas e mais horas de trabalho, um trabalho mecânico, desinteressante, desumano, ganhando quinhentos reais por mês e nunca tendo a chance de sequer provar o gosto de um queijo gorgonzola. Enquanto isso, o dono deste supermercado, graças à extração da mais-valia do pobre coitado fatigado e desatento, já teria comido os melhores gorgonzolas do mundo e, se não fosse fã, teria comido os melhores parmesões e outros queijos mais caros que não sei o nome do mundo. Não, merecia mesmo o górpe este abastado explorador, provavelmente rotundo de tanto comer queijo caro às expensas do trabalho suado do funcionário pesador de queijos e do lucro aferido diversas vezes nas minhas costas de consumidor. Mesmo porque 14,90 por um quilo de mussarela, afinal, já é uma exploração.

Enfim, com os os cinco gorgonzas na cesta, me mandei pro caixa. No caminho, construí a estratégia da defesa caso o caixa tivesse atenção na proporção inversa da do sujeito que pesou o queijo: estava escrito ali o preço, e se o preço está ali é porque o queijo custa aquilo. Não senhor, eu não vi que estava escrito mussarela. Mesmo assim, é direito do consumidor. Eu sou obrigado a ler tintim por tintim as informações da etiqueta? Eu leio é o preço. E, pôs o preço, é aquilo e acabou. Vou pagar doilão por cada queijo ou chamo o procon.

Cheguei em casa com os cinco pedações do delicioso gorgonzola e foi uma glória. Eu era o homem honesto mais esperto do mundo e minha mulher, a mulher do homem honesto mais esperto do mundo. Afinal, há quem, sem precisar, enfiaria o mesmo queijo no casaco e sairia do mercado assobiando, na maior. Não, isso eu jamais faria. Sou um homem honesto.

Qual uma família proletária inglesa do século XIX com um pedaço de carne de segunda na mesa, rapidamente lambuzamo-nos no extraterreno queijo. E havia ainda mais quatro pedaços.

Acabo de comer, agora, uns quatro dias depois do episódio supra-relatado, o penúltimo pedaço de gorgonzola. E, sabe, ele não desceu tão divinamente bem quanto os primeiros. O último pedaço está ali na geladeira olhando pra mim, e eu olhando pra ele, e a gente (eu e o pedaço) não sabe o que faz, não. Ele (o queijo) parece me olhar com reprovação. Não gosto disso. O mundo já me olhou com reprovação faz um certo tempo, quando cometi uma filhadaputice escrota. Não, não foi nada que envolvesse apropriação indébita, corrupção, sonegação de impostos - nada material. Mas não gosto do jeito que aquele queijo está olhando pra mim.

E agora, o que eu fiz? Tem culpa eu? Am I evil? O que eu faço? A única coisa que eu não vou fazer é voltar pro supermercado com o último queijo e, com muito boa e autêntica intenção, avisar ao mui honorável gerente daquela casa de que eles cometeram um erro e, ao percebê-lo, lá estou para retornar a mercadoria e pagar por ela o preço justo. Aí é ser hipócrita, e isso eu não sou.

4 comentários:

Anônimo disse...

Danilo,

Tem uma frase dos bicheiros que diz assim: "Vale o que está escrito"

Carlos Roberto

Désir La Vie disse...

E eu só tive a ganhar...

Heguiberto disse...

They made mistake undercharging for it. So what? It is all good, enjoy your cheese. Don't let it go to waste though.
Outro dia eu trouxe de volta ao meu escritório todas as canetas e clips esquecidos no bolso ou não esquecidos que acabei levantdo p/ casa durante vários meses. I felt good about it :)
Gostei de ler seu post.
Cheers,
heguiberto
http://weirdcombinations.com/

Monica disse...

É direito do consumidor pagar o preço que está na etiqueta, ora...

De onde você vem?