25 de março de 2010

Senzala

I´m ahead
I´m the man
I´m the first mammal to wear pants
I´m in peace with my lust
I can kill ´cause in God I trust
It´s evolution, baby

Pearl Jam, Do the Evolution


Acabo de voltar do Centro de Ciências Agrárias da UFSCar, em Araras, onde tive a honra de dividir a aula da manhã na pós-graduação em Agricultura e Ambiente com Leonor Assad.

Pra mim, foi excelente. Obrigado pelo convite, Leonor. Devo agradecer, também, à paciência dos alunos, que enfrentaram algumas questões abstratas propostas por este que escreve, sobre a historicidade em torno da natureza e do progresso, e viagens afins. Aprendi horrores sobre um monte de coisa com os alunos e, claro, com a Leonor.

Mas escrevo este post, principalmente, pra dizer que entrei numa senzala do século XIX, pela primeira vez na vida. Abri o portão do século XIX, virei dobradiças do século XIX, toquei em paredes do século XIX, o século da razão, da ciência, do progresso, do otimismo da humanidade consigo mesma. Humanidade que, mesmo assim, permitiu parte de si continuar escravizada, pois, oras, era gente da parte inferior, menos civilizada, bárbara, selvagem, enfim. Conheci também a não menos impressionante casa-grande, que abriga a diretoria do CCA. Nela, as paredes tinham mais de meio metro de largura. Linda, a casa-grande. Onde morava a família do senhor, pois, oras, era gente de verdade, da parte superior, mais civilizada, culta, evoluída, graças a Deus e a Nosso Senhor Jesus Cristo, distante da natureza, da animalidade, da irracionalidade, enfim.

Hoje mesmo, o Excelentíssimo Ministro da Educação apareceu por lá para inaugurar, em sessão solene, a nova biblioteca do campus. Já a senzala da fazenda da UFSCar de Araras, infelizmente, virou uma espécie de depósito de quinquilharias e precisa urgentemente ser tombada como patrimônio histórico, transformada em testemunho do horror, em memória permanente daquilo que nunca deve ser esquecido. Há um projeto da universidade pronto para isso, mas faltam pessoas especializadas em conservação e restauro desse tipo de construção.

Foi uma sensação inspiradora e terrível, ao mesmo tempo, estar dentro daquele antigo depósito de escravos. Minha imaginação voou para um lugar desconfortável, onde vidas passaram, e passaram sem que tivessem a chance de escapar dos escombros da história humana.

O Anjo da História, parece, está mesmo fadado a perder sua batalha.

4 comentários:

Waleska disse...

Olá Danilo, tudo bem?? adorei o comentário sobre o CCA!! emocionante como vc descreveu! eu tenho medo daquela senzala hehe.. confesso que sempre fui mto mal em história, mas sua aula foi mto bacana! o jeito que vc aborda os assuntos é mtooo interessante!! aprendemos mto com vc!! abração!

Waleska disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Désir La Vie disse...

Só espero que alguém faça algo urgente. Aliás, a própria universidade é que tem que fazer.

Podem até não entender necas de história, conservação e restauro, mas há inúmeros cursos de história em federais por aí.

Vão esperar o anjo pousar na senzala e soar socorro na corneta?

Cada uma.

(Sem dizer o que se perde por aí devido a própria burocracia)

Danilo Albergaria disse...

Oi Waleska.

Aquela senzala, à noite, deve dar um verdadeiro cagaço! ahahahahaha

Valeu pelo comentário!

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