15 de agosto de 2008
Crush me
Let´s go drive till the morning comes
And watch the sunrise
And fill our souls up
Drink some wine till
We get drunk, yeaaaahhh
It´s crazy, I´m thinking
Just knowing that the world is round.........................
12 de agosto de 2008
A verdade está lá fora
A Globo está passando Guerra dos Mundos. Enquanto os ETs invadem o planeta e vaporizam bilhões, Michael Phelps já bateu um recorde mundial, levou mais uma de ouro pra casa e na semi dos 200m borboleta decidiu nadar só nos últimos 50m. Estava meio corpo atrás, chegou com um corpo na frente.
Será mera coincidência? Ou há alguma conexão aí? Será que o Phelps...? Será que...?
Hein?
Ok, nevermind...
9 de agosto de 2008
Do olímpico desprezo pelo interesse público
O abuso em nome de interesses mercadológicos e o desprezo pelo interesse público continuariam.
O Corinthians se classificou para a final da Copa do Brasil contra o Sport Recife. O primeiro jogo da final coincidiu com o épico segundo jogo entre Flu e Boca no Maracanã e, pra variar, a Globo preferiu privilegiar uma única torcida do estado paulista em detrimento do interesse geral em torno de uma semi-final de peso do segundo mais importante torneio continental do mundo.
Até aí, tudo bem. Quer dizer, tudo bem nada, mas é compreensível em face da audiência gerada pelo Corinthians num jogo importante, não tão importante quanto uma semi de Libertadores com um time brasileiro e o Boca na parada, mas ainda assim, importante.
O que aconteceu em seguida ultrapassou os limites do compreensível.
O primeiro jogo da final da Libertadores entre Flu e LDU estava marcado para o dia 25 de junho. Finalmente, nós paulistas não-corintianos teríamos a oportunidade de ver um jogo que realmente interessasse. Ledo engano. O Corinthians tinha um compromisso contra o Bragantino pela segundona do Brasileiro marcado, desde o Paleolítico, para o dia 24. Inacreditavelmente, a Globo usou novamente sua força na CBF para mudar a data deste jogo, remarcando-o para o mesmo dia 25, no mesmo horário, da final do Flu. E nós, de São Paulo, tivemos que engolir a seco o mais do que xoxo 1 a 1 entre os dois times da série B, enquanto a LDU enfiava 4 a 2 numa ótima final contra o Fluminense.
Ora, a Globo só transmite seu sinal por obra de uma concessão pública. Se a emissora compra os direitos de transmissão de um evento como a Taça Libertadores com exclusividade, compra também a responsabilidade pública de exibir para todo o país os jogos mais importantes do torneio que pelo menos contem com a participação de algum time brasileiro. Em vez disso, sob a justificativa de atender à demanda comercial de uma única torcida de São Paulo (a maior delas, mas que está longe de constituir a maioria do público), exibiu um jogo da segunda divisão.
É óbvio que a Globo não vê qualquer responsabilidade pública naquilo que transmite. Está defecando e caminhando e assobiando para o interesse público como se nada fosse. Se a Globo é capaz de troçar da sociedade com tamanha indiferença quando a questão é futebol, imaginem o estrago que ela pode causar quando o assunto é mais "sério". Não precisa ir muito longe: em 2006, às vésperas das eleições presidenciais, o Jornal Nacional ignorou propositalmente o acidente do avião da Gol para dar livre curso e amplo destaque às denúncias de uma suposta compra de dossiê, por parte de petistas, contra políticos tucanos (dêem um pulo aqui e aqui). Então, qual é a responsabilidade pública de um departamento de jornalismo de um órgão que opera por concessão pública? Noticiar uma tragédia grave ou ignorá-la pelo bem do ritmo e dramaticidade de um script muito bem ensaiado contra inimigos políticos?
Bem, eu achei que esse tipo de desrespeito ao interesse público só acontecia por obra de redes de TV que exercem um domínio nacional amplo e sem concorrência. Nos Estados Unidos, a terra em que a audiência é disputada como uma zebra morta por leões famintos, não existe esse tipo de descaso, existe?
Pois leiam o que me escreveu um amigo que está neste momento em Richmond, Virginia, USA. Justo ele, David, o corintiano que tirava um pêlo da minha indignação anti-corintiana e anti-global, me mandou o seguinte e-mail indignado na hora do almoço:
Hoje acordei mais cedo em plena sexta-feira simplesmente pelo fato de
querer acompanhar a abertura dos jogos olímpicos ao vivo pela televisão. Cheio
de ramela ainda nos zóio, liguei a tv e comecei a buscar por 1 dentre os mais de
400 canais de TV que a operadora Comcast provê. Os primeiros canais são de
esporte e então seria batata encontrar e não iria acabar com as pontas dos meus
dedos no botão do controle. Doce ilusão... Troquei os canais até que cheguei nos
canais de filmes e continuava a pensar: "Não, acho que não são tão egocêntricos
assim... são mais de 4 BILHÕES de telespectadores no mundo todo". Foi quando
cheguei nos canas em HD, onde os canais passam a ser repetidos, porém em alta
definição. Pensei comigo mesmo, "Vai que... ?", então tentei todos eles
também... A ilusão ficou mais doce ainda. Fui no banheiro dar aquele tapa
na cerâmica, tomei um banho, vim pro trabalho e ainda estando inquieto com o
fato dos EUA não transmitirem ao vivo a cerimônia, resolvi procurar na net. Se
existe uma dúvida, Google it! Foi o que fiz e constatei uma triste realidade do
sonho americano: a maldita NBC detêm os direitos de transmissão e pelo fato
de 8 PM em Beijing ser 8 AM Eastern Daylight Time (EDT), horário 'não' nobre, a
emissora decidiu transmitir a abertura apenas às 8 PM EDT e minha "indignância
se elevou-se" pela arrogância e descaso com "apenas" a cerimônia de abertura
das olimpíadas.
Detalhe, agora estou 'acompanhando' a abertura pela Rádio Jovem Pan On Line
do Brasil.
E David completa com trechos de um fórum de discussão ianque:
Open Questions
"Will the opening ceremony be broadcast live on any US television stations?
How about the Internet?I only see reference to a tape delayed ceremony airing on
NBC prime-time friday night. I'm wanting to watch it live, if possible."
(Ken)
Answers
"Where have you been? China is a day ahead of us so no they will not be
live. The opening ceremonies will be taped live and shown tomorrow on NBC at
7:30 P.M." (sis74100)
"As an expat living in Canada, the Olympics are being broadcasted live by
the CBC. Just another reason to live up north, live olympic coverage."
(lfwh3)
Como diria o meu amigo, ou melhor, James Hetfield: sad but true.
O capitalismo das corporações selvagens é uma merda.
8 de agosto de 2008
Onde está você no compasso político?
Tudo bem, a estrutura do teste é um tanto parecida com aqueles testes de revista Cláudia, Nova, "saiba se ele está te traindo", "saiba se ele é sua alma gêmea", essas merdas. Mas é irresistível. Eu respondi às perguntas e meu resultado foi esse aí embaixo, o que espantosamente me revelou um esquerdista libertário. Que novidade!
Economic Left/Right: -7.12
Social Libertarian/Authoritarian: -8.41

Se você tiver 10 minutos pra torrar nesta sexta-teira nublada, responda às perguntas. E deixe seu resultado aqui na caixa de comentário. Morro de curiosidade pra saber onde é que algumas pessoas seriam localizadas nesse gráfico. Só não vale ficar competindo pra ver quem é o mais esquerdista libertário!
Edit: a Vanessa respondeu às mesmas questões e seu resultado foi tão libertário quanto o meu, mas um pouco menos de esquerda:

Tudo mais ou menos nos conformes, pelo menos no campo das representações.
Aliás, queria ver onde a esquerda do Sasqua iria parar. A do Luis seria, claro, off the charts! Jácamo cairia, óbvio, nos azurzinhos, enquanto Juliano estaria radicalmente no centro. Já Joãozinho Jocoso é uma incógnita. E Duilio preferiria responder a questões sobre Tekken e WoW.
3 de agosto de 2008
Mousse
2 de agosto de 2008
space dementia geral
E o Muse veio, tocou uma hora e meia bem na nossa cara, e foi-se embora.
Há muito uma banda acostumada a lidar com públicos gigantes na Europa, onde lota estádios e arenas de grande porte, o Muse enfrentou uma platéia bem menor numa casa de médio pra pequeno porte em São Paulo, o HSBC Brasil. Foi exatamente isso que, talvez, tenha transformado uma apresentação de rotina numa noite inesquecível.
Houve apenas duas surpresas num setlist já esperado, uma versão um pouco menor do lançamento que eles vieram promover, o HAARP, gravação de um show no novíssimo e sofisticado estádio Wembley. Diferente daquele show em Londres, a produção foi enxutíssima. Só havia um telão atrás do palco, que exibia ótimas viagens psicodélicas fielmente sintonizadas com cada música. E uma ou outra explosão de gelo seco (foi o que me pareceu... aliás, isso existe?). Fora isso, não aconteceu nada que desviasse a atenção do público da música e da banda.
A noite começou com Jay Vaquer. Não sei se é assim que se escreve o nome do cara (pouco importa), um sujeito meio mala que dá nome e até consegue estragar uma banda que é boa, principalmente pelo batera. A abertura correu normalmente, sem aquele tipo de manifestação de repulsa por parte do público, o usual num show de metal - mas afinal aquilo não era um show de metal e o público era outro, talvez um pouco menos religioso. A maioria do público, aliás, parecia ter saído de uma boutique que vendia um "uniforme básico de fã do Muse", sem mencionar os cabelinhos meticulosamente bagunçados.
Enfim, estávamos lá pra ver o Muse e não seus fãs padronizados. (Um ou outro trintão, quarentão ou cinquentão ali nas cadeiras conosco aliviava um pouco a nossa sensação de peixes fora d´água.) Às dez e meia (pouquíssimo atraso, portanto... ei, trata-se de uma banda inglesa, oras!) as luzes se apagaram e a intro instrumental do HAARP começou a soar. O trio então entrou no palco (na verdade, um quarteto, pois um cara fica encarregado de acompanhar a banda com a parte eletrônica do som) e os primeiros acordes de Knights of Cydonia aparecem, como todo mundo já sabia. O som estava ótimo e alto, tudo perfeitamente audível, e a banda estava tocando logo ali embaixo dos nossos narizes. A perfeição e previsibilidade com que tocaram as duas primeiras músicas dava a sensação de estarmos assistindo um DVD ali na nossa frente, algo que só foi quebrado com uma grande surpresa. Enquanto prevíamos a terceira música (se tudo saísse conforme o HAARP), Bliss começou a ser tocada. Sim, Bliss! Bliss! Desde que compramos o ingresso eu sabia que eles não tocariam Bliss, uma das favoritas. No caminho para o show, fiz questão de lamentar que não veríamos Bliss ao vivo, já que fazia tanto tempo que não a tocavam. Mas ali estava o Muse, e ali estava Bliss. Foi quando caiu a ficha de que tudo estava acontecendo naquele momento.
Das restantes 12 músicas do setlist, apenas uma parecia não estar no script, Citizen Erased, mais uma sensacional que, como Bliss, vem do Origin of Symmetry, álbum de 2001. Apenas uma, também, me soou dispensável: Invincible, do último álbum, a única em que um ponto negativo da banda, a canastrice, parece fora de controle. Ainda bem que Invincible foi logo engolida pela autenticidade da avalanche de New Born, Plug-in Baby e Time is Running Out, em sequência. Foram 15 minutos absolutamente memoráveis.
O que impressiona num show do Muse é que, apesar de todo o profissionalismo, a perfeição sonora, a execução meticulosa das músicas, a quase inexistente troca de palavras com o público e o setlist quase completamente previsível, a banda transpira paixão no que toca e consegue transmitir a empolgação para o público, que devolve na mesma moeda. A sensação de ouvir Matthew Bellamy e mais de três mil pessoas cantando em uníssono num lugar pequeno cada uma das 15 músicas foi arrepiante e quase surreal. No final, junto com sensação de que afinal havíamos visto Muse ao vivo, ficou apenas uma ponta de desgosto: esses ingleses baixinhos de meia tigela demoram 10 anos pra virem pro Brasil e tocam só uma hora e meia? Por quê não tocaram Space Dementia? Quem eles pensam que são?
31 de julho de 2008
É hoje que a musa bebe água
Hoje tem Muse em Sampa. Amanhã tem resenha no blog, a quem interessar.
É mais ou menos isso aí embaixo que vamos ver hoje à noite:
29 de julho de 2008
Construções, O Horror, O Horror

Conheci Juan Nieves Jr. neste mês de julho de 2008 e, no entanto, ele já está morto há quase 7 anos.
Sua morte faz aniversário no dia 11 de setembro.
Naquela terça-feira, no dia de sua morte, Juan acordou bem cedo como sempre, condicionado pela eternidade de 37 anos como trabalhador de restaurantes em Nova York. Durante 30 anos preparou saladas no Russian Tea Room - algo de que humildemente se orgulhava, pois havia adquirido o rótulo de especialista - e quando a direção do estabelecimento decidiu que o lugar deveria passar por uma "renovação", Juan se viu na rua. Para a sua sorte e de sua família, logo arranjou uma vaga no famoso Windows on the World, graças à sua especialidade, o que lhe garantiu o modesto salário de 7 dólares por hora. Quando morreu, seu salário já havia chegado a 12 dólares por hora, o que não deixava de ser uma tênue motivação pra pular da cama. Se ele soubesse que sua vida não passaria além daquela manhã, teria amado sua mulher como se fosse a última? Teria beijado cada filho seu como se fosse o único? Teria ido trabalhar com seu adorado Mustang ´67? Certamente. Mas como ele não sabia - ninguém pode saber, sinto que devo frisar ao leitor - Juan não fez nada disso. Saiu de casa com a quase certeza de voltar no fim do dia - da forma como todos fazemos, com quase certeza da volta - e atravessou a rua com seu passo tímido em direção à jornada pelo transporte público de Nova York, que o levava desde 1994 ao topo do mundo, o 107o. andar da Torre Norte do World Trade Center.
Da mesma maneira com que faz a todos, a rotina havia amortecido nele a capacidade de se maravilhar com o que havia se habituado a ver no caminho para o trabalho. A silhueta dos arranha-céus de Manhattan, especialmente a das Torres Gêmeas, há muito deixara de o impressionar, da mesma forma com que nós nos habituamos aos móveis da casa. Como um gorila que divisa as árvores que delimitam seu espaço, sentia familiaridade (e uma ponta de orgulho) ao ver os dois idênticos prodígios arquitetônicos que marcavam o horizonte. Everything in its right place, in its right place. Isso livrava sua mente para voar enquanto rumava para o trabalho, o que não quer dizer algo necessariamente prazeroso. É um prazer, certamente, sonhar acordado quando se é jovem e as janelas do mundo estão abertas, mas Juan tinha já seus 56 anos. À medida que sua vida se acelerava cada vez mais rapidamente, seus sonhos voltavam-se para o passado. Poderia ele, Juan, ter sido alguém diferente? Talvez um dos inúmeros engravatados que trabalhavam no WTC, com quem cruzava nos Sky Lobbies à espera de um elevador, quem sabe? Quem sabe tivesse sido até mesmo um daqueles CEOs que tomavam café da manhã olhando para Manhattan de seu lugar mais alto, como imperadores que avaliam seus domínios e o que ainda resta conquistar. Não, sua realidade lhe censurava algo tão inalcançável, tão diferente de sua vida, e costumeiramente descartava um sonho tão alto em favor de uma fantasia como corretor de seguros, por exemplo. Pensou que poderia ser o corretor ao seu lado no elevador (a rotina e a familiaridade também haviam lhe apagado a admiração que sentia nos primeiros tempos ao pensar em como aquelas máquinas poderiam subir dezenas de andares tão rapidamente). Logo olhou para o ascensorista e pensou que poderia ter sido ele. Sentiu uma inevitável compaixão por aquele homem, horas e horas dentro de uma caixa, subindo e descendo, esforçando-se em ser simpático, inventando papos pra puxar com desconhecidos. Enquanto deixava o elevador expresso, dirigiu uma despedida especialmente fraternal ao ascensorista. Sentiu enfim que tinha sorte de ser um preparador de saladas.
Era sorte mesmo, já que era um trabalho que exigia atenção mediana e Juan havia desenvolvido a habilidade necessária para executá-lo com a precisão de uma máquina. Sua mente ficava quase sempre livre para voar. Naquela terça-feira, Juan foi encarregado de preparar parte dos canapés que o Windows on the World serviria numa conferência sobre tecnologia da informação. Enquanto enchia meticulosamente uma bandeja de canapés, Juan perguntava-se o que diabos aquele pessoal tinha a dizer sobre tecnologias da informação. Seria sobre internet, algo com que ele, "burro velho", ainda não tinha se familiarizado? Um dia talvez a internet ligasse seres humanos habitando diferentes planetas, imaginou. Então, quando sua mente preparava-se para chegar a Vênus e sua mão caminhava em direção a mais um canapé, um evento inusitado trouxe bruscamente sua cabeça de volta ao corpo. Uma enorme explosão, um choque, o chão tremendo e o prédio balançando pra lá e pra cá como uma antena. Juan teve que se segurar na bancada para não perder o equilíbrio. Pratos caíram e quebraram no chão. O parco equilíbrio de suas pernas enviava seguidas informações para seu cérebro sentir medo, muito medo, e o cérebro respondia ao corpo com a respiração ofegante, o coração disparado, os olhos arregalados, a pele sentindo cada toque. Por alguns segundos Juan não era mais Juan, não tinha nome, era um animal querendo sobreviver. Separados pouco antes pelo torpor da rotina, corpo e alma eram agora uma coisa só.
Depois de alguns segundos o prédio parou de tremer e a confusão instalou-se no Windows on the World.
A fumaça imediatamente começou a aparecer, sinal de que a explosão dera origem a um incêndio. Mais de uma centena de pessoas no Windows on the World tentava descobrir informações sobre o que havia se passado. Logo, alguém soube que um avião grande havia se chocado com a Torre. Juan, agora altamente sensível, raciocinava sobre como é que uma máquina maravilhosa e tão dotada tecnologicamente como um avião poderia bater de maneira tão besta num prédio, e podia imaginar os horrores que se passavam andares debaixo dos pés dele. Enquanto a gerente do restaurante, agora com centenas de vidas sob sua batuta, tentava planejar uma evacuação, as condições se deterioravam rapidamente. A fumaça preenchia o ar cada vez mais rápido. E uma outra explosão, desta vez surda e sem os choques estruturais da primeira, só fez lembrar ao corpo de Juan o perigo de morte que corria. Estava sob um ataque proposital, soube logo depois por meio de um engravatado, que tanto podia ser um CEO quanto um alguém de posição irrelevante, tanto fazia naquele momento. Logo lhe veio à mente uma metáfora que lhe era cara: no fim do jogo, o rei e os peões voltam pra mesma caixa.
Para infortúnio de dois mil, oitocentos e tantos seres humanos, as torres teriam este mesmo destino.
A fumaça preencheu rapidamente o ambiente e o calor já fazia o chão começar a vergar. A esta altura, Juan e as outras cento e tantas pessoas que dividiam o espaço do Windows on the World com ele já tinham a informação de que não havia saída para baixo. Não se enxergava a mais de dois, três metros, e se respirava com dificuldade. As pessoas, já agora menos pessoas e mais animais sem nome, buscavam ar nas janelas quebradas, amontoando-se, dependurando-se para o lado de fora que dava para um precipício de 400 metros. Juan, ou aquele homem de meia idade, aquele ser vivo, também estava ali, lutando por seu espaço por ar. O calor já era insuportável. Se ficasse ali, iria cozinhar. Mas não havia para onde ir.
Nos especiais de televisão, em documentários, ouvem-se frases que devolvem a essas criaturas desesperadas um pouco de orgulho, auto-estima, autonomia, poder. Um ato de coragem, um último ato de controle sobre como se vai morrer: esta é a descrição comum. Dá-se ênfase especial ao caráter de decisão que acompanha o ato. As condições estavam tão "extremas", tão "inóspitas", que as pessoas decidiram pular. Elas decidiram, escolheram, dizem narradores em off, “especialistas”, testemunhas oculares, cinegrafistas. Todos, testemunhas e “especialistas”, animais amedrontados como Juan, como os outros 1300 presos nos últimos andares da Torre Norte, mas que não estavam lá no alto, e que não podem arriscar sentir o mesmo que as vítimas, ciosos que estão de suas identidades, daquilo que torna-os humanos, que os fazem pensar e dizer que têm alma e que não são passageiros de um mundo sem sentido numa viagem sem sentido. Recorrem a uma fantasia de controle e coragem das vítimas para não se jogarem eles próprios no vazio da não-existência.
Não há decisão, não há controle, não há escolha. Nem razão, pesos e contrapesos, prós e contras, should I stay or should I go. Mas também não há mero reflexo, um ato de susto que não passa por nenhum fio de pensamento. O ar fresco, o céu azul, as ruas minúsculas, tudo o que Juan podia imaginar lá fora parecia apenas ressoar profundamente na boca de seu estômago uma necessidade, um tem de ser assim!, pois faziam um contraste cruel com o fogo - que ele não via mas que era real demais (não precisava da imaginação para sentí-lo cozinhando as pernas) - e com a fumaça, que lhe preenchia a visão, os pulmões e o cérebro. E quando sentia este chamado surdo das ruas e a repelência eloqüente do Windows on the World, sentia atravessar-lhe a coluna vertebral uma onda de choque em direção à nuca que o fazia perder completamente a força do abdome, arquejando seu corpo, o pescoço dobrando involuntariamente, pendendo a cabeça para o lado, tremendo, quase no mesmo instante em que sentia a mesma onda refluir em direção ao intestino e à bexiga.
Não me sai da cabeça a imagem de Juan já dependurado na janela, o tronco inteiro pra fora do prédio. Mal conseguia segurar na coluna de aço que lhe queimava a palma da mão. Vejo cada linha de expressão de sua testa, franzida como nunca, e a vermelhidão dos olhos. Agora, Juan podia vislumbrar as ruas 400 metros lá embaixo, tomadas por luzes coloridas e sirenes estridentes. O formigueiro sempre inquieto agora estava em polvorosa, as ruas cheias de formigas confluindo para ajudar e salvar outras formigas. Para muitas, não haverá tempo.
Não me esqueço de Juan. Sua mente, sua alma, tenta se desprender do corpo, viajar para perto dos filhos, da mulher, do Mustang ´67 que comprou quando era novo, do sangue correndo pelo corpo quando o acelerou pela primeira vez. Acelerou o Mustang o suficiente? Amou o suficiente? Criou os filhos de maneira digna? Rende-se à última fantasia tentando resistir à inevitável tentação de ser apenas um animal desesperado, o que é, imagina-se acelerando o Mustang com sua família numa maravilhosa joy ride que nunca houve, e cai para uma última jornada solitária de 10 segundos.
7 de julho de 2008
Item de sobrevivência
5 de julho de 2008
In hot blood
E este blog acaba de se transformar naquilo que nunca deveria ser: um diarinho confessional.
...
Nenhum homem é uma ilha, mas que têm umas montanhas gigantescas no caminho que leva a cada península, ah, isso têm.
...
Os mal-entendidos são uma coisa odiosa, sempre pensei. Claro, nunca me preocupei muito se havia interpretado errado alguma pessoa, ou alguma coisa que me foi dita. Nunca me preocupei demais, por exemplo, se apenas estava projetando meus preconceitos numa determinada pessoa, ou num discurso qualquer. O que sempre me preocupou era como eu e meus atos poderiam ser mal-interpretados. Ou o preconceito que poderia ser projetado sobre mim. Por isso, sempre me esforcei para ser o mais possivelmente claro nas minhas intenções, naquilo que dizia, nos gestos e olhares, para que não houvesse traço de dúvida sobre o que eu sou. É um egocentrismo do caralho, eu sei, eu sei. Mas não me entendam mal.Foi lendo Milan Kundera que pude perceber que a comunicação humana está fadada ao fracasso, em grande medida. Trata-se de uma característica inerente a nossa condição, acho. Sempre haverá ruídos, distorções, e as mensagens que jogamos pros outros nunca serão recebidas sem os ruídos e as distorções.
Recentemente, agi com uma ingenuidade imensa ao pensar que poderia explicar com sinceridade e honestidade, evitando os ruídos, as minhas desonestidades e insinceridades. Pensei que explicar algumas coisas, os conflitos, as contradições, seriam uma forma de amenizar o sofrimento, meu e da pessoa afetada pelas minhas sujeiras. Não estava nem um pouco confortável com a imagem que se fazia de mim, embora essa imagem fosse mais do que compreensível e esperada. E queria que essa pessoa entendesse o incompreensível, e se livrasse de uma carga que pode ser eterna, uma ferida que nunca fecha, dessas que acabam guiando o destino da pessoa dali por diante. Mas - e é aí que entram os ruídos - como esperar que se acredite na sinceridade de alguém que agiu com desonestidade? Como acreditar numa sinceridade que tenta explicar o seu oposto, a insinceridade? E como esperar que se acreditasse que alguém desesperadamente egocêntrico poderia agir não apenas preocupado com a sua própria imagem, mas com a vida de alguém importante demais pra ser tratado com a indiferença da falta de comunicação? "Qualquer pessoa que pensa conhece o paradoxo". A ingenuidade está em pensar que aquela pessoa importante, fundamental em muitas coisas, pensasse num momento de puro ódio e raiva.
Se já é difícil a comunicação com alguém que pensa, alguém muito longe de ser uma pessoa convencional, o que dizer do diálogo com um poço de convencionalidade? Uma idéia pairava na minha cabeça até ontem: explicar, me explicar, para algumas outras pessoas também muito importantes, fundamentais. Mas se o diálogo já era improvável numa situação em que nenhum ato meu era questionado, o que dizer de agora? Se minhas opiniões sobre filmes, livros e, pior, religiosidade, eram solenemente descartadas por preconceito, o que dizer dos meus atos recentes? A idéia vira-e-mexe zunia pela minha cabeça: escrevendo como escrevo sempre, com o sangue no papel, com a sinceridade e abertura que garantiriam pureza na comunicação.
Descobri tardiamente o valor inestimável da literatura com Kundera. Quanto tempo perdido! Foi com ele que pude perceber que um historiador e ensaísta que adoro tinha razão ao dizer que história e literatura estão irmanadas por um objetivo cognitivo (indo mais longe, pude perceber a mesma coisa na relação entre ciência e arte, algo incensado aos quatro cantos, mas que eu nunca tinha entendido antes - se bem que essa relação sempre foi puxada mais pro lado do subjetivismo e eu, claro, gosto de ver pelo lado oposto. Enfim, este não é um texto de epistemologia). Kundera me revelou determinados traços da realidade, o principal deles o do mal-entendido entre as pessoas, nossa malfadada tentativa de comunicação. Ele me enfiou uma pulga atrás da orelha que só foi sentida de verdade mesmo quando li uma outra coisa.
A Sangue Frio (In Cold Blood), de Truman Capote, narra a história de um assassinato horroroso no interior do Kansas. Quatro pessoas de uma mesma família foram brutalmente executadas e Capote, jornalista novaiorquino, reuniu um corpo gigantesco de evidências para contar a história na forma de um romance de não-ficção. (A história da gestação desse livro foi recentemente contada no ótimo Capote. Quem ainda não viu o filme já deve saber o que está perdendo.) O livro (e a história) são especialmente saborosos por causa do problema incrível que é a personagem de Perry, um dos dois assassinos. Perry é um mestiço, meio índio, meio "caucasiano", o que já dá muito pano pra manga. Ele é especialmente sensível, toca violão e canta um repertório vasto para platéias imaginárias, escreve um diário. Se não me falha a memória, Capote, o do filme, chega a dizer que ele e Perry são o mesmo, só que Perry entrou para a vida pela porta dos fundos. Quando Perry esteve preso pela primeira vez, escreveu uma carta para a irmã (talvez seu único elo com o mundo exterior), tentando se explicar. A resposta da irmã, então, acabou por ser analisada de maneira inacreditavelmente perspicaz por um amigo da prisão, o "superinteligente Willie-Jay". O que Willie-Jay escreveu para Perry chegou, por vias tortuosas e inesperadas, a mim, com muitos ruídos, claro, inclusive os que tenho aqui dentro:
A sua carta para ela, e esta, a resposta, falharam em seus objetivos. Sua
carta era uma tentativa de explicar sua maneira de encarar a vida, já que você é
necessariamente afetado por ela. Destinava-se a não ser compreendida, ou
interpretada literalmente demais, porque suas idéias se opõem ao
convencionalismo. Que poderia ser mais convencional que uma dona de casa com
três crianças, "dedicada à sua família"? Nada mais natural que ela se
ressentisse de uma pessoa não convencional. Há uma considerável hipocrisia nas
convenções. Qualquer pessoa que pensa conhece o paradoxo. Mas ao lidar com
pessoas convencionais é sempre vantajoso tratá-las como se não fossem
hipócritas. Não se trata de infidelidade aos próprios conceitos. Trata-se de uma
concessão para que se possa continuar a ser um indivíduo livre da ameaça
constante das pressões convencionais. A carta dela fracassou porque ela é
incapaz de conceber a profundidade do seu problema - não pode medir as pressões
sofridas por você devido ao meio ambiente, à frustração intelectual e uma
tendência crescente ao isolacionismo.
Como explicar o paradoxo para pessoas que são incapazes de compreender o que está fora do mundo das convenções, da normalidade? Não se explica nada. Acho que eu nunca mais vou dizer o que realmente penso para essas pessoas.
28 de junho de 2008
Pelas barbas de Deckard Cain!
12 de junho de 2008
Musa no Brasil!
Come on and spread a sense of urgency
And put us through...
Melhor notícia do ano: dia 31/07 vai ter Muse em São Paulo.
Apocalipse, por favor:
Só falta o Radiohead vir também este ano. Aí é ouvir e morrer. Há!
10 de junho de 2008
Olha o processo!
6 de junho de 2008
O tempo vai passando, a idade vai chegando...
"... e o pior é que outro dia eu fui ver, agora o bicho não cresce nem mais do que isso, ó."5 de junho de 2008
Ensaio sensual sobre a cegueira

yes you can
Comecei a acompanhar com bastante atenção as eleições presidenciais nos Estados Unidos em 2000, o ano do golpe da direita corporativo-carniceira na Flórida, o ano que levou o almofadinha com cara de chimpanzé ao trono do salão oval. Desde então, de todos os candidatos, nem Gore, nem Kerry, e nem mesmo Hillary me pareceram alternativas que empolgassem mais do que pelo simples fato de oporem-se à patota de Cheney, Rumsfeld, Condoleeza, etc.
Obama parece ser um pouco diferente.
O vídeo acompanha tradução, de minha responsabilidade, baseada nesta transcrição. Apreciaria sugestões de gente mais qualificada no assunto (Aline?).
Foi um credo escrito nos documentos de fundação que declararam o destino de uma nação.
Sim, nós podemos.
Foi sussurrado por escravos e abolicionistas enquanto trilhavam o caminho para a liberdade.
Sim, nós podemos.
Foi cantado por imigrantes assim que chegaram de praias distantes e pioneiros que avançaram a oeste contra uma natureza impiedosa.
Sim, nós podemos.
Foi o grito de trabalhadores organizados; mulheres que alcançaram as urnas; um presidente que escolheu a lua como nossa nova fronteira; e um King que nos levou ao topo da montanha e apontou o caminho para a Terra Prometida.
Sim, nós podemos ter justiça e igualdade.
Sim, nós podemos ter oportunidade e prosperidade.
Sim, nós podemos curar esta nação.
Sim, nós podemos consertar este mundo.
Sim, nós podemos.
Sabemos que a batalha pela frente será longa, mas lembrem sempre que, não importa quê obstáculos apareçam em nosso caminho, nada pode barrar o poder de milhões de vozes clamando por mudança.
Fomos avisados, por um coral de cínicos, que não podemos fazer isso... eles apenas vão gritar mais alto e ficar mais dissonantes... nos pediram uma pausa para cairmos na real. Fomos alertados sobre oferecer às pessoas desta nação uma falsa esperança.
Mas na história incomum da América nunca houve nada falso sobre a esperança.
Agora as esperanças de uma garotinha que frequenta uma escola caindo aos pedaços em Dillon são os mesmos sonhos de um garoto que aprende nas ruas de LA; nós lembraremos que há algo acontecendo na América: que nós não estamos divididos como sugerem nossos políticos, que nós somos um único povo, uma única nação, e juntos iniciaremos o próximo grande capítulo da história americana com três palavras que vão vibrar de costa a costa, do mar ao brilhante mar...
Sim. Nós. Podemos.
PS: Até Mahmoud Ahmadinejad saindo da boca de Scarlett Johansson soa bonito. Parafraseando Jerry Seinfeld, se ela dissesse prum sujeito "you have cancer", este diria, ajeitando o colarinho: "really? sounds pretty good".
2 de junho de 2008
Identidade
É sempre assim: desde o instante em que a revê até o instante em que a
reconhece tal como a ama, ele tem um caminho a percorrer. Desde seu primeiro
encontro, na montanha, ele teve a oportunidade de se isolar com ela quase
imediatamente. Se, antes desse único encontro a sós, ela a tivesse encontrado
muitas vezes tal como ela era com os outros, teria reconhecido nela o ser amado?
Se ele a tivesse conhecido apenas com o rosto que ela mostra a seus colegas, a
seus chefes, a seus subordinados, teria ficado comovido e maravilhado com esse
rosto? Para essas perguntas, ele não tem resposta.
[...]
A frase de Chantal ecoava-lhe na cabeça e ele imaginava a história do seu
corpo: ele estava perdido entre milhões de outros corpos até o dia em que um
olhar de desejo pousou sobre ele e o tirou da multidão nebulosa; em seguida, os
olhares se multiplicaram e incendiaram esse corpo que desde então atravessa o
mundo como uma tocha; é o tempo de uma glória luminosa, mas, logo, depois, os
olhares vão começar a escassear, a luz se apagará pouco a pouco até o dia em que
esse corpo, translúcido, depois transparente, depois invisível, irá passear
pelas ruas como um pequeno nada ambulante. Nesse trajeto, que leva da primeira
invisibilidade à segunda, a frase "os homens não se viram mais para olhar para
mim" é a luzinha vermelha assinalando que a extinção progressiva do corpo
começou.
Por mais que dissesse que a amava e a achava bela, seu olhar amoroso não
podia consolá-la. Porque o olhar do amor é o olhar do isolamento. Jean-Marc
pensava na solidão amorosa de dois seres velhos que se tornaram invisíveis para
os outros: triste solidão que prefigura a morte. Não, o que ela precisa não é de
um olhar de amor, mas de uma inundação de olhares desconhecidos, grosseiros,
concupiscentes e que pousam nela sem simpatia, sem escolhar, sem ternura nem
polidez, fatalmente, inevitavelmente. Esses olhares a mantêm na sociedade dos
humanos. O olhar do amor a exclui.
Preparado o cenário de uma mulher em decadência física e seu companheiro que não resiste à compaixão, Milan Kundera leva essas suas duas crias, Chantal e Jean-Marc, a seu lugar preferido: o terreno dos mal-entendidos amorosos.
O real também pode ficar mais palpável, compreensível, inteligível, graças à ficção.
A Identidade, de Kundera, está esgotado.




