10 de março de 2008

Ainda sobre a Tropa

O post anterior, sobre Tropa de Elite, rendeu. Até mesmo meu pai, avesso a comentários diretos no blog, pôs o bedelho na discussão. Mas sua inaptidão crônica com a "nova" tecnologia da internet o impediu de postar o comentário diretamente no post. Melhor assim, pois o blog acaba de ganhar uma belíssima contribuição na tentativa de responder àquela pergunta: o filme de José Padilha é ou não fascista?


Por Sérgio Albergaria

Qualquer análise sobre uma questão polêmica tende a ser também polêmica.

Toda produção cultural está visceralmente ligada às condições materiais de vida daqueles que a elaboraram e atrelada às condições sociais da realidade específica em que essa cultura surgiu.

É certo que o fascismo se caracteriza pela “dialética dos punhos e dos revólveres”, como dizia um fascista espanhol.

Mussolini se orgulhava da truculência do movimento fascista e incentivava seus ímpetos violentos.

No início, o fascismo era categórico: “a violência é imoral quando é fria e calculada, mas não quando é instintiva e impulsiva”. Com crescimento do movimento fascista o Duce procurou organizar e sistematizar a violência de modo mais conseqüente. Deixou de ser “instintiva” para ser calculada: “A violência fascista deve ser pensante, racional, cirúrgica”. É o que diz a “Ópera Omnia” de Mussolini, citada por Leandro Konder em sua “Introdução ao Fascismo”, obra de apenas 122 páginas, mas fundamental para quem queira entender o que é o fascismo.

Baseado nessas premissas é um exagero rotular o filme “Tropa de Elite” como fascista, com fez o camarada Luís Fernando, moço bem intencionado e de boa formação que tem como característica pessoal o exagero da mordacidade e a exacerbação da ironia corrosiva.

Para um professor de escol, como o é o camarada Luís Fernando, é preciso ter cuidado com as afirmações categóricas e cautela com certas rotulações sectárias, sob pena de deixá-las comprometer a análise e vincular a reflexão sob apenas um aspecto: o ideológico.

Não creio que o filme de José Padilha seja fascista nem que ele, como autor da obra, tenha tido propósitos unicamente capitalistas, ou seja, de obter lucro financeiro fácil, apenas, como resultado.

Tropa de Elite não é fascista. É um ponto de vista sobre o fascismo. Não é uma apologia, mas uma provocação. Não faz proselitismo da violência, mas a retrata, a fotografa, a radiografa vista de uma perspectiva particular e peculiar: a de um policial formado no arcabouço de um Estado fascista que exacerba o paradoxo de que a violência da corrupção policial se combate com a violência da crueldade.

Talvez, de fato, tenha cometido um deslize ao não proporcionar um contraponto à perspectiva narrativa do Capitão Nascimento, ou de nessa narrativa não colocar um outro ego do protagonista como elemento fomentador de reflexão. Não chega, porém, a ser um pecado, como de certa forma entendeu o camarada Danilo, mesmo porque, segundo minha – talvez míope – visão, o objetivo da narrativa é um só: a catarse social vista e narrada do lado que detém o poder e o controle.

Não me surpreende o fato de que, em determinadas sessões, a platéia tenha aplaudido a tortura e ovacionado a truculência da tropa. É plausível que a burguesia e a pequena-burguesia, alienadas e esteriotipadas, tenham se submetido à provocação e, sem perceber, revelado em público instintos e posturas que só têm coragem de mostrar em surdina. Vide Eldorado de Carajás, Matupá, o índio pataxó queimado, a chacina da Candelária e outros tantos massacres que, de certa forma, foram “festejados” em surdina pela classe dominante.

Essa “revelação” da face obscura e covarde da pequena-burguesia tem fundamento no próprio fascismo, pois, como definiu Gramsci, “o fato característico do fascismo consiste em ter constituído uma organização de massa da pequena burguesia”.

Esse é o mérito do filme. Por ser polêmico, funciona ora como hospedeiro ora como vetor das doenças ideológicas. Além disso, por ser provocador, atiça os fascistas a se revelarem ao instigá-los a sair de suas tocas e expressarem publicamente o que têm de pior (ou de melhor para eles): a crueldade, a perversidade, a truculência, a arrogância, a prepotência, o cinismo, a hipocrisia.

É próprio do Estado fascista aprofundar contradições na burguesia e na pequena burguesia; confundir a herança histórica como método de impedir que haja uma missão histórica em comum entre a pequena burguesia e o proletariado; restringir o “pleno acesso ao reconhecimento da verdade da história”.

O que “Tropa de Elite” fez, foi expor as entranhas de uma realidade como acervo que misturado às conquistas de uma sociedade em evolução, mostra aqui e ali preconceitos sutis e óbvios, discriminações, intolerância, antipatias (ou anti-empatias), cristalizadas na dominação de classe.

O cinema é um poderoso instrumento provocador para instigar o público a submeter suas próprias contradições a uma reflexão libertadora. Mas essa entrega tem um preço: cobra uma humildade de renúncia às ideologias e fantasias políticas, e obriga a ver o trabalho artístico como um momento, um aspecto, uma vertente do movimento de transformação da sociedade.

José Padilha, como produtor cultural, tem um mérito inegável: fez uma exposição competente de um aspecto essencial de uma das formas do fascismo, isto é, mostrar que para existir e sobreviver o regime fascista depende de um aparelho repressivo tão amplo que implica a militarização da atividade policial e que esse apoio militar necessita estar alicerçado na força bruta, na truculência, na crueldade da tortura, na barbárie como tradição para manutenção da “ordem social” e na formação de pessoas dóceis sem espírito crítico, recalcadas, fáceis de manipular e de cooptar para identificação com a personalidade rude e autoritária do “chefe”, do comandante, do Estado tutor.

Também parece evidente que o filme mostra o segmento estudantil universitário como um bando de babacas metidos a vanguarda social. Pergunto-me: e não é assim, todavia, que em muitos aspectos os estudantes universitários se mostram?

Não se deve generalizar, é certo. Mas, boa parte da comunidade estudantil universitária hoje aparenta ser – e não sei se efetivamente o é – um bando de “perdidos” à procura de respostas para questões que não dependem do curso que freqüentam, ou por serem esses cursos inadequados como busca, ou, ainda, porque a educação, em um sistema capitalista, é incapaz de responder a certas indagações sociais porque estruturada para preservação da ignorância como método para manter os possíveis agentes transformadores no cárcere da apatia da luta pela sobrevivência pessoal, sob pena de exclusão do mercado de trabalho existente.

É natural, mas não irrelevante, as reações das platéias em regozijo à atuação do protagonista do filme e em gáudio pela subjugação dos marginais e da população que com eles convive. Pergunto-me, todavia, se pelo preço da sessão de cinema, algum deles, ou parte da platéia, era integrada por aquelas pessoas que, por exemplo, encontro nos ônibus lotados de manhã e à noite?

A “choldra” que pega “buzão” comprou cópia pirata do filme e não estou certo de que muitos não tenham tido a mesma reação, ou reação parecida, em casa. Isto é possível porque no estado de espírito em que a “escumalha” sobrevive, o espírito do Estado é, para muitos, justificável. Afinal, entre as duas primeiras preocupações atuais da “ralé” que pega ônibus, estão o desemprego e a segurança-violência. E olha que de “buzão” eu entendo!

Não creio que o filme tenha ignorado a questão social envolvida no tráfico nem que tenha ignorado a proibição das drogas como instrumento de controle social e adestramento da mão-de-obra, como viu o camarada primeiro comissário do comitê central.

O que o filme mostra é exatamente isso: a ignorância estatal da questão social na qual está envolvido o tráfico que amiúde atua como substituto do Estado; a proibição das drogas e o combate violento e desigual como arma de controle e de treinamento da mão-de-obra. Mostra é a síntese do Estado fascista, mas isso não o torna um libelo ao fascismo nem o transforma em um instrumento fascista.

Às vezes, para combater a hipocrisia e enfrentar a mentira, basta apenas contar a verdade de um ponto de vista verdadeiro, ainda que condenável e absurdo.

Infelizmente, até por questões geográficas, não podemos deportar a escória da nossa classe média para Miami.

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O "primeiro comissário do comitê central", vulgo HAL9000, vulgo The One, vulgo "Arcebispus Maximus Imortalis", está convidado a escrever uma réplica na página principal do blog.

O direito de resposta ao Luis Fernando, desde já gentilmente cedido, faz parte dos esforços deste blog no combate ao nepotismo e à homofobia.

Danilo

3 comentários:

Sasqua disse...

Muito bem escrito, Dr. Sérgio.
Tocou no mesmo ponto que eu quando disse:

"Também parece evidente que o filme mostra o segmento estudantil universitário como um bando de babacas metidos a vanguarda social. Pergunto-me: e não é assim, todavia, que em muitos aspectos os estudantes universitários se mostram?"

Bingo. Até eu fiquei feliz quando o Matias deu uns petelecos naquele loirinho metido a besta interpretado pelo Paulo Vilela.

Além de mostrar como muitos universitários agem hoje, ou seja, de forma imbecil e usando questões sociais sérias como desculpa para suas "aventurinhas universitárias", Padilha pode ter feito essa caricatura do universitário propositadadamente, como eu já mencionei no outro comentário, para mexer com o sentimento de quem assite: foda-se se o cara é univresitário. O que importa é que ele é arrogante, metido e provocador, entre outras qualidades. Isso leva o público a aplaudir quando o (agora concordando com o HAL9000) cristão Matias, que sacrificou sua carreira acadêmica para defender a sociedade como um paladino da justiça do BOPE, dá-lhe uma lição no meio de uma passeata que, convenhamos, é mediocre até na vida real.
O que nos leva a outro ponto, no qual estamos inteiramente de acordo, pelo que entendi: debater o filme é, em absoluto, prática salutar. Mas não útil em termos práticos. Como você mesmo disse, toda produção cultural está ligada às condições materiais de quem produz e à relaidade social de quem assiste. Além, é claro dos valores morais, éticos, etc.
O valor prático subjacente do filme é exatamente este: "É plausível que a burguesia e a pequena-burguesia, alienadas e esteriotipadas, tenham se submetido à provocação e, sem perceber, revelado em público instintos e posturas que só têm coragem de mostrar em surdina" e, "por ser provocador, atiça os fascistas a se revelarem ao instigá-los a sair de suas tocas e expressarem publicamente o que têm de pior (ou de melhor para eles): a crueldade, a perversidade, a truculência, a arrogância, a prepotência, o cinismo, a hipocrisia."
Basicamente é isso.

PS - Ora, senhor Sérgio Albergaria, como pode o senhor ter a ousadia de em seus comentários fazer com que nosso camarada The One, The Master of The Universe, o Cabeça da turma, pareça tão intempestivo assim? Logo ele que é um rapaz tão ponderado e conciliador. Delicado eu diria.
Me lembro até de uma certa ocasião no Bar do João envolvendo um estadunidense (porque americanos nós também somos), na qual ele agiu com toda a sua discrição e diplomacia!

Vanessa Prates disse...

Ótima análise, Sérgio!

Ainda estou aguardando nosso camarada Éleéfe se pronunciar. Mas logo, logo ele passa por aqui!

Aliás, ótimas observações a do Sasqua também.

André Gonçalves disse...

eu nem digo nada, de tão bom que tá isso aí.
abraços.

De onde você vem?