30 de março de 2009

Teoria dos jogos e a biologia

Abaixo, trecho de artigo de João Azevedo Fernandes sobre a interessante contribuição da teoria dos jogos para a compreensão de comportamentos "altruistas" de seres vivos que à primeira vista desafiam a "luta pela existência" da seleção natural darwiniana.


20. Axelrod e Hamilton estudaram a evolução da cooperação através do jogo conhecido como Dilema do Prisioneiro. Dois prisioneiros A e B são convidados a delatar o companheiro em troca da liberdade. As situações possíveis são as seguintes (os valores são arbitrários):

a) o prisioneiro A delata e o B não: A recebe 5 e B 1;

b) A não delata e B sim: A recebe 1 e B 5;

c) Os dois delatam: ambos recebem 2;

d) Nenhum dos dois delata: ambos recebem 3.

21. O melhor para A é delatar. Se B não delatar ele recebe 5, se B delatar recebe 2. Se A for solidário e não delatar poderá ser traído por B e receber apenas 1: assim delatar é sempre o melhor lance quando o jogo ocorrer apenas uma vez. Ora, no mundo real é extremamente comum que as interações entre dois indivíduos se repitam, o que leva a um Dilema do Prisioneiro com várias rodadas. Quanto mais avançamos na direção dos animais mais complexos estas interações tornam-se necessariamente mais ricas, já que estes - especialmente os primatas - tem uma memória muito desenvolvida e grande capacidade de processar informações, o que permite o reconhecimento de outros indivíduos e a possibilidade de punição a possíveis "trapaceiros" . A seleção natural deve favorecer indivíduos engajados em atos de altruísmo se e somente se os indivíduos beneficiados retribuírem, excluindo os trapaceiros de outros atos altruístas.

22. Ao realizar simulações de várias estratégias em computador, Axelrod descobriu que a única ESS possível em um Dilema do Prisioneiro de duração indefinida é a mais simples de todas: a "olho por olho" (TIT FOR TAT; não seria inútil lembrar a semelhança deste resultado com a estratégia Retaliator de Maynard Smith e Price).

23. A estratégia "olho por olho" permite, com várias rodadas, que se leve o Dilema do Prisioneiro ao melhor resultado possível para ambos os jogadores: a recompensa pela cooperação mútua. É assim que o altruísmo recíproco tornou-se um fator fundamental na evolução dos seres vivos, notadamente naquelas espécies com grandes cérebros e complexas organizações sociais, e que por isso mesmo apresentam maior possibilidade de ter que conviver com trapaceiros ou qualquer indivíduo que tenha a capacidade de receber um benefício sem dar nada em troca. Axelrod e Hamilton lembram que a área do cérebro humano responsável pelo reconhecimento individual é altamente específica e extensa, o que mostra a importância que esta capacidade teve no curso da evolução de nossa espécie (cf. Cronin, 1995, p.453-61, para estudos que mostram como a mente humana está adaptada para o reconhecimento de "fraudes").

2 comentários:

Trip disse...

Bem, se eu entendi errado de novo por favor não pense mal de mim ... é só culpa do cansaço ao final de um dia de trabalho (desculpa horrorosa hehehe).

Pelo que eu entendi ao longo prazo, se formos bons com as outras pessoas, a tendência é que essas pessoas sejam boas conosco também.

No final então, quando todo mundo "vislumbrar" esse fato, as pessoas não mais tentariam tirar proveito em cima dos outros justamente porque sabiam que seria prejudicadas mais à frente se fizessem isso.

Se o que eu entendi estiver certo eu até me animei agora, estou tão desacreditado da humanidade hoje em dia já que eu vejo muito mais acontecendo a opção A do que as demais.

Se eu viajei, ignore o que eu falei, vou tentar dormir mais esses dias hehehe

Abraços.

Désir La Vie disse...

Achei bacana essa teoria...E, até então, completamente desconhecida pra mim. Coisas da biologia...

Bem, o ideal seria a opção D, né? Ninguém delata ninguém... Mas caso o engraçadinho queira dar um de bacana, ganhando 4 pontos a minha frente, sigo sua mesma estratégia numa próxima rodada...daí o tal 'olho no olho, dente por dente', é isso?

É, o mundo é dos espertos mesmo...E as opções mais inteligentes, ao meu ver, seriam essas: D, A, B

Bjos,

Van, viajando e tentando encaixar a 'teoria dos jogos' em alguns fatos, mas mesmo assim não conseguindo...

De onde você vem?