7 de abril de 2009

Vivendo o futebol


O Flávio Gomes escreveu mais um de seus belos textos, ontem. Sobre o futebol, o tempo e um menino chorando:

Ontem fui o mais feliz dos seres humanos a cada gol do meu time, a cada gol do outro, e o pior dos miseráveis quando tudo acabou, quando o futuro chegou. É só um campeonato, uma bola e um gramado, já passou, é passado, mas na hora em que vi esse menino chorando no jornal, a dor voltou para o presente, porque a graça está aí: sorrir, chorar, sorrir, sofrer, e depois esquecer.

Gomes é torcedor da Portuguesa de Desportos, o segundo time de todo paulistano. Como a Ponte, a Lusa sofre com a superexposição dos chamados "times grandes". Como a Ponte, tem um estádio próprio decente (ao contrário de Corinthians e Flamengo). Como a Ponte, tem mais tragédias do que glórias pra contar.

Fiel, meus amigos, é o torcedor que vê o time ficar anos a fio na segunda divisão, ser arrebentado por más administrações, ser solenemente ignorado pela grande mídia e vai ao estádio compartilhar com mais 3 ou 4 mil semelhantes a esperança, a angústia, a dor e a delícia de torcer. Amar o futebol é isso. Me desculpem os meus amigos que torcem pro Corinthians, São Paulo ou Santos. A maioria de vocês, a imensa maioria, não sabe o que é amar e viver o futebol in loco, sem filtros televisivos, sentindo a fugacidade da vida. A vida não tem replay, o golaço ou o frango não vão acontecer de novo.

Ponte e Portuguesa jogavam juntas na última rodada do Paulista. Eu vi o limitado, talvez medíocre time atual da Ponte, que não brigava por mais nada no campeonato, triturar o Santos aqui em Campinas. Mas o futebol é o que é, e vocês sabem o resto da história.

Ponte e Portuguesa têm histórias e torcidas muito parecidas. Torcedores dos times "grandes", vocês não sabem o que é, para um pontepretano ou torcedor da Lusa, comemorar uma ida à final do campeonato, uma mera classificação, ou o rebaixamento do maior rival. Não sabem pois não têm o mesmo laço que tacitamente nos une aos outros presentes no estádio, a noção compartilhada de que não somos muitos mas não somos fracos, todos irmanados pelo amor por um time que dificilmente ganhará campeonatos inteiros mas que se justifica a cada gol, a cada jogada, a cada drible, a cada defesa do goleiro, a cada esperança ilusória acalentada.

No domingo, por 40 minutos tiramos um sarro, com a certeza da vitória que não veio, da cara da torcida do "ê-limina-dô!" Santos. É claro que no fim os babacas fizeram a festa na cabeceira, cantarolaram a usual "não é mole, não; mais de cem anos sem gritar é campeão", ao que a torcida da Ponte sempre mostra indiferença, da mesma forma como eu costumo reagir: "você tem título? enfie no cú". Porque essas coisas não têm nada a ver com viver o futebol em toda a sua fugacidade, sua peculiar paixão efêmera, vibrando e sofrendo, no estádio, com o seu time e seus seletos semelhantes das arquibancadas, fiéis devotos, companheiros eternos até o apito final e a saída do estádio, na derrota ou na vitória, amém.

3 comentários:

Trip disse...

Vou eliminar a parte relativa ao futebol e aos timecos em questão e ir para a parte que me interessa.

Acho muito interessante como um torcedor apaixonado pelo seu time realmente sente ... pelo seu time.

Eu nunca fui ligado realmente à um time, mas esta mesma paixão me mexe com relação à idéias, quando me convenço de algo, defendo aquela idéia com unhas e dentes.

Além de idéias, todos aqueles contextos que me sinto "inserido" também me provocam estes sentimentos, por exemplo, brasileiros podem falar mal do Brasil, eu até reconheço os problemas e falo mal algumas vezes, mas um argentino falar mal do Brasil, ahhh isso é absurdo (quem se lembra daquela propaganda da televisão hehehe).

Agora, apesar de toda esta paixão ser até normal, ela só não pode virar patológica no ponto do torcedor querer se suicidar porque seu timeco foi rebaixado, senão aí na sua cidade vocês teriam um surto de suicídios, já que o campeão brasileiro de rebaixamentos é daí hehehe

Abraços.

Danilo Albergaria disse...

Olha, eu confesso que já chorei copiosamente, em luto, pela Ponte Preta. Foi na semifinal do Paulista de 2001, quando a Ponte tinha um máquina que terminou a primeira fase em primeiro e perdeu muito injustamente (daquelas derrotas que só o futebol é capaz de produzir) para um time muito inferior, o Botafogo. A Ponte ganhava por 3 a 1 em casa e levou dois gols no finalzinho do jogo.

Era uma chance de ouro pra Ponte ganhar espaço na mídia, chamar patrocínio grande, ter o reconhecimento público que vinha merecendo com os times de 2000/2001.

Chorei demais, como o menino da foto, e não tenho vergonha.

Da mesma forma, comemorei loucamente a ida às semis do paulista do ano passado, mas não me abalei muito com a lambada na final.

O futebol, a Ponte Preta, é a única irracionalidade que eu adoro.

Léo Bury disse...

Realmente, a Ponte Preta eh uma irracionalidade clara mas apaixonante mesmo... eu mesmo nunca vi uma grande glória da Ponte como a final de 77 ou Mestre Dicá em campo, o mais longe q eu vi a macaquinha ir foi essa final vexaminosa contra o palmeiras. Mas a minha paixão pela Ponte não cabe em mim. Eh como doença: não tem como você controlar! E realmente nenhum torcedor do Sao Paulo e etc. são capazes de ter noção do q eh ser pontepretano... amor eterno e incondicional, a Ponte nunca fez por merecer a paixão de sua torcida mas pergunte a um pontepretano qual a sua maior paixão!!! abraços

De onde você vem?