8 de abril de 2009

Darwinismo x criacionisno, de novo

Reproduzo aqui, na íntegra, post de Pedro Dória sobre a guerra entre darwinistas e criacionistas no ensino do Texas:

Repercutiu pouco fora da comunidade científica, mas a discussão é particularmente importante aqui nos EUA: na semana passada, o Conselho de Educação do Texas fez mudanças no currículo das escolas de primeiro e segundo grau. No primeiro instante, o resultado da reunião do conselho foi divulgado como uma vitória para a trupe de Darwin.

Mas não tão rápido.

Os criacionistas – inclua-se na lista o presidente do Conselho – queriam inserir a exigência de que os professores de ciência do estado ensinassem ‘o que é forte e o que é fraco’ a respeito de cada teoria científica. Tais palavras não foram aprovadas – e por isso alguns acharam que se tratava de uma vitória. Mas o texto terminou incluindo a exigência de que ‘todos os lados das evidências científicas’ deveriam ser apresentadas aos alunos.

Para impor sua visão religiosa, os criacionistas aproveitam-se da diferença de significado da palavra teoria. No uso coloquial, teoria é um chute, uma tentativa de explicação. Em ciência, teoria é mais que um fato. Teoria científica é o conjunto de vários fatos observados independentemente e a explicação de como eles se relacionam.

A Teoria Atômica, portanto, não é uma suspeita de que átomos existam. É a detalhada explicação de como átomos funcionam. A Teoria da Gravidade não sugere que a maçã deverá cair. Ela explica como corpos com massas se atraem e determina que a maçã, de massa menor, será irremediavelmente atraída em direção à Terra, de massa maior. (A Terra também será atraída em direção à maçã, diga-se.) A Teoria da Evolução tampouco é uma possibilidade. A Evolução aconteceu. A Teoria explica como.

O Texas é o estado mais importante dos EUA nessas questões educacionais. Por um motivo: a educação de base norte-americana é pública e nenhum estado tem tantos alunos em sua rede quanto o Texas. É, portanto, o maior comprador de livros didáticos do país. Se os editores tiverem que adaptar seus livros para vender no estado, tais serão os livros consumidos em todo o país.

Nessas horas, o que salva é o humor. Escrevendo na Newsweek, Cristopher Hitchens sugere que a idéia de obrigatoriedade do ensino ‘do que é forte e do que é fraco’ no argumento seja estendida. Toda igreja e instituição religiosa que receba algum tipo de benefício fiscal deveria, de presto, apresentar em seus sermões e cursos os argumentos contrários a suas crenças.

Não importa se os argumentos não forem religiosos. Afinal – não é isso que querem? Impor argumentos religiosos nas aulas de ciência?


Quando o Dória não escreve sobre Protógenes e Dantas, acerta na mosca.

7 comentários:

Désir La Vie disse...

É, você falou tudo, quando o assunto não é Dantas & Protógenes, o Dória consegue acertar.

Tenho minhas 'pulgas' com o Dória, e não é de hoje... Mas, enfim...

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"...os criacionistas aproveitam-se da diferença de significado da palavra teoria. No uso coloquial, teoria é um chute, uma tentativa de explicação. Em ciência, teoria é mais que um fato. Teoria científica é o conjunto de vários fatos observados independentemente e a explicação de como eles se relacionam."

Matou a pau! Basta decidir qual é a mais inteligente e menos pueril. Precisa pensar pra isso? Não, não mesmo!

Trip disse...

Danilo;

Neste caso de educação realmente sou à favor de se apresentar "todos os pontos de vista".

Não vejo porque não podem ser mostrados os "dois lados da moeda" em uma escola. Cientista normalmente comete o erro de achar que religião é sempre errada (o que, na maioria das vezes eu até concordo hehehe) e que a ciência fornece as respostas certas para tudo (isso eu discordo veementemente).

Não vejo porque um professor de ciências ou um livro de ciências não poderia mencionar, por exemplo, um capítulo sobre a teoria evolucionista e outro sobre a criacionista e ainda incentivar os alunos a discutir sobre o tema. Acho totalmente saudável e muito melhor do que simplesmente "existe a teoria evolucionista, todo o resto é besteira" como os cientistas querem que todos acreditem.

Com relação ao argumento de que, nas igrejas ou similares, os pastores, padres e afins deveriam ensinar todas as outras teorias eu poderia até concordar, o que me faz discordar é a questão da obrigatoriedade. Todo mundo é obrigado a ir à uma escola, mas ninguém é obrigado a seguir uma determinada religião ou crença.

Por isso, se há algo naquela crença que você não goste, você simplesmente pode ignorar ou alterar, na escola, você tem que engolir, você é até testado sobre aquele tema para ver o tanto que ele foi absorvido por você.

Além disso, este argumento se parece com o de uma criança birrenta "Se eu tenho que fazer porque o meu irmão não tem".

Aliás, isso é um grande motivo deste ocorrido ser vinculado apenas no meio acadêmico. Não há nenhum absurdo em se ensinar ou mesmo incentivar um ponto de vista diferente do que é atualmente comum. Principalmente em uma sociedade altamente apegada à religião e aos costumos como à Americana.

Sem contar que também discordo de como ele retrata a ciência, a ciência não está sempre certa como ele quer transparecer em seu texto. Do jeito que está, teorias não são mudadas, não são discartadas nem nada disso, se criou-se a teoria é porque existem fatos para comprovar e isso é "anti erros". Isso é besteira e você sabe disso.

Elas não são chutes cegos, mas mesmo assim são chutes. Mesmo que estejam indo na direção do gol, com o goleiro do outro lado, com uma boa velocidade, ainda existem os montinhos de grama que podem fazer com que um gol certo se torne um grande fiasco.

Abraços e tenha a mente aberta.

Danilo Albergaria disse...

A questão é política, e politicamente o texto do Dória é perfeito. É óbvio que não endosso completamente a parte epistemológica do texto (a epistemologia é um pouco mais complicada do que ele apresenta).

Com todo o respeito, Trip, você está confundindo as bolas quando fala de ciência e religião. Ou melhor, quando fala de darwinismo e criacionismo. O darwinismo é um paradigma feito com uma teoria-núcleo (a de Darwin) que foi acrescida, confirmada e fortalecida por toda a produção posterior, da genética mendeliana à dupla hélice. O darwinismo de hoje não é mesmo de Darwin, mas um tal de "neodarwinismo" ou "teoria sintética da evolução", com a colaboração das biológicas por todo o século 20. Dá uma googlada nesses termos em aspas e dá uma olhada. E esse darwinismo atual nada tem de definitivo: se assim fosse, a maior parte das biológicas não teriam mais razão de ser.

Como eu ia dizendo, o problema está em se confundir o criacionismo com uma teoria científica. Não é. O núcleo do criacionismo é a crença numa entidade sobrenatural (e como está acima da natureza, não é o escopo das ciências naturais). Suas proposições não tem validade empírica nem lógica. O "design inteligente" pressupõe uma inteligência e um propósito no surgimento dos seres vivos. O criacionismo vale pra aulas de teologia, vale pra estudar em igrejas, mas não vale como teoria científica. Sorry. A escola tem que ensinar o darwinismo nas aulas de biologia - não de maneira dogmática, mas apresentando a "evolução" da própria teoria da evolução, como ela foi concebida e foi mudando ao longo do tempo. Isso serve inclusive pra compreensão do processo de obtenção do conhecimento científico, que nada tem de perfeito ou absolutamente correto e exato.

Não confunda uma teoria científica com uma crença. São coisas que podem se entrelaçar, mas são diferentes. Muito diferentes. Colocá-las lado a lado, como iguais, nas escolas, não é meramente ruim para a ciência, mas para todo e qualquer projeto humano de conhecimento a realidade.

Trip disse...

Eu sei, você sabe e todos sabem que o Darwinismo não é algo definitivo, que ele é "apenas uma teoria", mas, infelizmente, os "cientistas" tendem a tratar estas Teorias como sendo imutáveis e perfeitas. Você mesmo se empolga às vezes e esquece desta característica mutável destas teorias.

Com relação à parte das aulas, você alterou o termo. Em Biologia realmente o Darwinismo deveria ser ensinado e não acho que o Criacionismo teria lugar, mas em uma aula de Ciências, que é o escopo do seu post, o Criacionismo é totalmente viável. Da mesma maneira eu não ensinaria nada de teoria da gravidade em uma aula de biologia, independente se ela está "certa ou errada".

Note que ciência, quando não especificada qual área, o que acontece no seu post, engloba qualquer ciência: humana, biológica, social, etc. Então, neste caso, o criacionismo se enquadraria também e por isso sou contra o que está escrito no post.

No final, acho que há uma confusão, elas são realmente teorias diferentes, são até opostas, mas o termo "igual" está sendo usado de maneira errada, está passando uma idéia de iguais em importância, e a importância é algo subjetivo. Além disso, em grau de importância eu realmente colocaria as duas como iguais, já que não julgo ciência melhor que religião, mas, novamente, isto é algo subjetivo.

Abraços.

Danilo Albergaria disse...

Trip,

1. Sua visão é preconceituosa. Tenho tido contato com alguns biólogos da Unicamp que NÃO vêem o darwinismo, ou qualquer outra teoria/paradigma como verdade imutável e perfeita. O próprio darwinismo não é mais o que era no século XIX. A ciência, e os cientistas, podem ser mais abertos do que você imagina.

2. Biologia é uma matéria do segundo grau, ou high school, geralmente. No fundamental, é ensina dentro da categoria de "ciências". E, por isso, tanto faz: criacionismo não é ciência. Veja, não é desdouro nenhum: literatura também não é ciência, e isso não me impede de ter a literatura no mais alto grau da criação humana, até mesmo funcionando como esclarecimento da realidade.

Criacionismo não é ciência e é um erro ensiná-lo como teoria ou mesmo hipótese científica.

Trip disse...

Danilo;

Eu tento não ser preconceituoso, mas acho que isso é algo inerente ao ser humano.

Mas com relação aos cientistas, eu sei que existem cientistas e cientistas, não estou generalizando nos meus comentários (embora possa até parecer). Não entenda meu comentário como uma generalização, na verdade é apenas focado na discussão em questão.

Com relação à escola focada no texto: "na semana passada, o Conselho de Educação do Texas fez mudanças no currículo das escolas de primeiro e segundo grau."Ou seja, o texto não trata apenas do segundo-grau, ou seja, da biologia em questão, o texto trata de ambos os ensinos, primeiro e segundo grau.

Na minha época, o primeiro grau se dividia em: Português, Matemática, Ciências e História. Não sei ao certo como está esta divisão hoje.

Apesar de você ser contra, eu realmente acredito que o criacionismo deveria ser ensinado em Ciências, já que para mim enquadraria em algo como "Ciência social". Não disse que ele deve ser apresentado como uma "hipótese científica", mas é a "classe" mais correta para ser ministrado, como disse antes, talvez até apresentando uma oportunidade para os alunos discutirem os pontos positivos e negativos deste tipo de visão, quais implicações para o cotidiano do aluno, etc.

Talvez em uma cultura multi-disciplinar, estas matérias poderiam ser mostradas em uma aula de história, mostrando a visão da natureza pelo homem ao longo do tempo.

Só não acho que banir estas idéias, por terem origem religiosas, seja uma opção viável, já que, como disse, a religião, por bem ou por mal, está impregnada na nossa sociedade.

Abraços.

Danilo Albergaria disse...

Trip,

Segundo ou primeiro grau, "ciências" ou "biologia", repito o que já disse: criacionismo não é ciência.

Essas idéias devem ser ensinadas como tais: uma tentativa de cientificizar crenças religiosas sobrenaturais, sem qualquer sustentação empírica.

A religião merece meu respeito, enquanto religião: ou seja, eu entendo sua importância para muitas pessoas.

O criacionismo não merece meu respeito e nem o de nenhum professor de biologia sério, religioso ou não: é lixo, engodo, logro.

De onde você vem?