16 de maio de 2007

Aranha domesticada

É estranho o amadurecimento. Os gostos mudam, ficamos mais seletivos, queremos mais significado das coisas. Pelo menos é o que vem acontecendo comigo. Eu não queria assistir a Homem-Aranha 3, mas fui, há alguns dias. Era importante para o meu irmão, Fabrício, que tem quase 13 anos e já é um cinéfilo. Fabrício conhece diretores, atores, produtores, estúdios, quem trabalhou com quem em qual filme, etc. Adora Spielberg e Peter Jackson. E gostou do terceiro Homem-Aranha. Eu odiei, e prometi a mim mesmo não gastar texto pra ficar analisando as inúmeras cretinices do filme. Deterei-me brevemente a uma delas: a condenação cristã da vida em expansão.

Eis O Barco dos Tolos, de Hieronymus Bosch:



Bosch foi um pintor que viveu entre fins do século XV e início do XVI. Sua obra representou um espasmo da moribunda Idade Média enquanto a Renascença emergia. Em suas pinturas há uma evidente condenação dos prazeres terrenos. O que os tolos de Bosch fazem? Comem e bebem, deixam-se levar por Baco e pela música.

O que ocorre com Peter Parker, em Homem-Aranha 3, é a sua descoberta das possibilidades abertas da vida. Peter dança, canta, toca piano, atrai as mulheres, vinga-se de um rival que o prejudicou, regozija-se com o reconhecimento público... Peter Parker vive, em Homem-Aranha 3. E quando começamos a nos divertir com essa nova fase do herói, percebemos aonde o filme quer nos levar. O próprio personagem acaba se arrependendo, salva-se e salva o mundo. Esse é o caminho de Bosch. Mas ainda há algo pior, algo realmente cretino no filme: os impulsos humanos do Aranha são atribuídos a um misterioso ser, um demônio vindo dos céus. Nem mesmo Bosch iria tão longe. Apesar de condená-los, Bosch compreendeu que os impulsos são parte de nossa natureza, que todos nós somos humanos, demasiado humanos.

6 comentários:

vanessa disse...

Vc falou em amadurecimento, em mudança de gosto, em questionamentos...
Não estaria vc Danilo, identificando-se com o "viver" censurado por muitos??? Seja pela mensagem do filme, seja pelo "mundano" de Bosch???

Ah...falando em Bosch...e aquele "Távola dos Sete Pecados Capitais"...Animalíssimo...queria um desse em casa!

Bosch tb me lembra Suassuna....Vc não acha???

Danilo Albergaria disse...

Hummm... De que Suassuna ce tá falando? Do Auto da Compadecida?

Bosch é sensacional. Eu amo Bosch. Essa preocupação dele com a danação eterna me fascina. Como devia ser real isso tudo praquelas pessoas! Um dia eu taco um post só de Bosch aqui.

Há tempos me identifico com esse "viver". Isso me traz problemas, mas me traz também muita clareza sobre mim mesmo.

Daniel K. disse...

Será que hoje (séc. XXI) , Bosch permaneceria com essa mesma linha de pensamento? Ou sucumbiria às diversas comodidades e lazeres existentes? Pobre Bosch, fico com pena só de imaginá-lo andando a pé enquanto que todos os demais desfrutam do conforto e praticidade de um automóvel. Posso estar enganado mas acho que Bosch embarcaria no Barco dos Tolos e esbanjaria um enorme sorriso de satisfação. Caso isso não venha a se concretizar, recomendo desistir de Bosch e passar a comprar Tramontina que possui a mesma qualidade e é mais barato.

Danilo Albergaria disse...

Aahahahahahahahaha, Koshimizu tá bem-humorado.

Daniel, o Bosch não se exclui da humanidade. Ele é um dos tolos também.

E você tá enganado, porque os filhos dele não só fizeram talheres, mas também furadeiras multiuso.

vanessa disse...

hahahahahahaha...sempre divertido passar por aqui!

vanessa disse...

Ah! É o mesmo Suassuna, sim Sr.

De onde você vem?