21 de maio de 2007

O Juízo Final



À esquerda: painel central de O Juízo Final, de Bosch.

Dias atrás, fui importunado na tranqüilidade virtual de meu Orkut por uma série de questões colocadas "para pensar". Sempre preocupado com a questão do conhecimento humano, Juliano Stefanovitz perguntava: "o que o meu tatatataraneto vai aprender, em 2312, sobre esse nosso tempo (sécs. XX, XXI)? Quais serão consideradas as grandes contribuições de nossa época ao pensamento humano?"

Como já disse ao meu amigo, e ele mesmo sabe disso, essas questões estão obviamente fadadas a ficar sem respostas. Qualquer tentativa no sentido de respondê-las que não apele para a ficção soaria ridícula. É claro, poder-se-ia objetar que, sim, temos elementos para tentar imaginar o que o século 24 pensaria do nosso tempo. Afinal, só para ficarmos nas ciências naturais, conhecemos o impacto que tiveram a relatividade, a física quântica e a genética, por exemplo. Todo mundo está careca de saber que, em nosso tempo, inventamos a bomba atômica, fomos à Lua, colocamos telescópios e estações espaciais em órbita, sondamos os recônditos do sistema solar. Porém, o problema é mais profundo.

O tormento de meu amigo explica-se quando recebo sua segunda mensagem. "Há o Iluminismo, o Renascimento, há vários períodos que ganharam destaque pela contribuição que deram à evolução da humanidade." Aí está o cerne de suas preocupações: seremos, para o século 24, o que os iluministas o são para nós? Ou seremos uma Idade Média? Qual será o juízo feito sobre nós, no século 24?

Com a noção de nossa historicidade, tornamo-nos essas pessoas conscientes, como diz Antonio Candido, de que "acabam desaparecendo como indivíduos para se dissolverem nas características gerais de sua época". Se combinarmos isso com a idéia de evolução da humanidade, ou seja, a sensação de que a humanidade caminha rumo ao progresso inexorável, então temos um problema sério. Com essa visão da história, tendemos a glorificar aquilo que nos parece ter contribuído para nossa atual posição, o topo - daí a menção de Juliano ao Iluminismo e à Renascença. Essa visão também garante, porém, que estamos momentaneamente no topo: outros virão, mais desenvolvidos, mais evoluídos. Como o nosso tempo será julgado por eles?

Para um historiador familiarizado com a recente demolição infligida à idéia de progresso, essas preocupações não fazem sentido. O progresso é uma idéia ambígua, e ambíguas são muitas de nossas conquistas científicas. Vivemos melhor, mas matamos melhor. Em certo sentido, simplesmente não há um topo.

Não sabemos nada, não podemos ter a menor idéia, do olhar que nos será dedicado pelos historiadores do futuro. Não sabemos quem vai dirigir esse olhar a nós. A única coisa que podemos dar por certo é que o sentido que atribuirão ao nosso tempo interessará a eles, não a nós.

Devemos nos preocupar seriamente com essa forma secularizada de Juízo Final?

8 comentários:

Felipe disse...

Cara, eu sinceramente espero que eles deem muitas risadas de nossa era. Mais ou menos assim: como esses caras eram tontos! Brigavam por cada porcaria!

Mas acho mesmo é que o mundo vai ficar mais e mais duro a cada dia que passa e a vida humana vai ficar mais e mais afastada do conceito de "humanidade". Vamos acabar descambando, cada vez mais, pra futilidade, pras drogas (até os caras inventarem uma que não faz mal) e pra alienação.

Gostaria de adotar o otimismo de Carl Sagan, mas temo que a espécie humana ainda esteja por demais apegada à crendice e à bestialidade para conseguir escapar do que Sagan chamou de "adolescência tecnológica".

Sad but true, I guess...

vanessa disse...

Esses dias estava conversando com o Saulo exatamente sobre isso...Não exatamente "esses dias", mas quase sempre...
Dei para imaginar o homem do futuro.

Qnto a sensação de "topo" prefiro deixar aos kardecistas!

Imaginei que os homens iriam ser carecas, sem pêlos, e extremamente brancos,devido a necessidade de se esconder do sol...Hahahahahaha

Agora fico aqui pensando, coitado dos futuros historiadores...Não mais terão História Antiga, Medieval, Moderna I, ModernaII, Contemporânea I e II, África, Brasil I, II, III, IV....As disciplinas serão renomeadas(o que não tem importância)...e o conteúdo será extremamente maior...Mas será tb??? Ah, sei lá...Que nome darão a nossa era???

Vcs me deixaram perturbada agora!

Não sei nem mais o que falar e pensar...Acho que nem quero pensar tb, vai que cai um meteoro sobre a terra...
"Se" cair, espero que não sobre um cristão, pois assim não falarão que estavam certos sobre o "juízo final"...hahahaha...

Eu me divirto sozinha com meus pensamentos...

Td pode acontecer, tudo!

JJ disse...

E se juntarmos a idéia de que “Uma mentira repetida mil vezes torna-se verdade” (Goebbels) ou a máxima de que "os vencedores contarão a história", o caldeirão colocado pelo nosso amigo Pálido fica ainda mais intrigante!!!!

Na primeira acredito piamente (e infelizmente); na segunda também dá pra acreditar, mas é uma idéia que me incomoda demais por pressupor que a vida (e a História) necessariamente têm vencedores e vencidos...

Não dá para negar que há conflitos, batalhas, ganhadores e perdedores. Mas isso nem sempre é assim. A complexidade do mundo e da vida não permite um dualismo tão inocente quanto "bem" vs. "mal".

Talvez tão negativo quanto "se preocupar seriamente com essa forma secularizada de Juízo Final" seja a típica idéia americana de que o mundo se compõe de winners and losers.

Xô, Descartes!!!!!

Abs

Danilo Albergaria disse...

John, a máxima de que "os vencedores contarão a história" já está imbutida em minha análise, com reservas à clara distinção, que você colocou, entre vencedores e vencidos. Ah, o Iluminismo não venceu? Depende. As igrejas, todas elas, estão aí. A Universal está riquíssima. São dados ouvidos ao papa. Fora o Zé-Bundismo new-age que se alastra pela classe média.

A do Goebbels, mais ou menos. O Goebbels radicalizou uma idéia que, acho, os historiadores levam em consideração. Sabemos que o passado é um constructo que está constantemente sendo reavaliado. Muitos historiadores se dedicam a saber o que há de invenção no passado. Nas palavras de Goebbels, então, quais "as mentiras que viraram verdades".


Estou deliciado com os comentários e análises de vocês, meus milhões de leitores!!! Valeu, mesmo!

vanessa disse...

Certeza JJ,

Aliás, para muitos sou considerada uma verdadeira "looser" (mas há tamanha complexidade no mundo, como JJ mesmo disse) no entanto, me sinto muito mais uma winner-afrouxada...hehehe

Se a história fosse feita de vencedores e vencidos, Clemente (negro-liberto e homem de grandes feitos no final do século XIX)seria um verdadeiro looser(e até foi pra alguns), enquanto recebeu papel de protagonista na minha narrativa, não era nem looser nem winner, mas simplesmente um homem, só um homem...


Para mim esse tal maniqueísmo é uma visão muito infantil do mundo, bem inocente mesmo...Acredito nem valer a pena perder tempo com isso...

Sasqua disse...

Esses dias li um ensaio genial do Gould sobre arte parietal. Resumindo, ele diz que o fascínio exercido sobre nós por esta arte é fruto de um argumento válido - a sensação de que estamos diante de um grande mestre da pintura - e outro equivocado, que é o fato de considerarmos seus autores mentalmente inferiores a nós, uma vez que eram "homens das cavernas". Uma vez que os exames de carbono 14 garantem que a idade dessas pinturas é de pouco mais de 30 mil anos, fica evidente que os homens que as fizeram eram Homo Sapiens, assim como nós. Possuiam, portanto, as mesmas capacidades de inteligencia que nós. Gould arrebata com uma frase que me lembrou o Sherpa falando sobre a distancia, bem como sobre os garotos iraquianos (que poderiamos ser nós): "não fossem esses 30 mil anos, o pintor poderia ter sido eu".
É mais ou menos por aí. Se é pra brincar de adivinha, chuto que vão haver de tudo: daqueles que nos acharão inferiores aos quer nos verão como iguais. E como diz o Gould, se não fosse esses poucos séculos de diferença, eu mesmo poderia ser meu tatatatataraneto. Só que com um nanoipod com 200 TB implantado no meu cérebro.

Juliano disse...

Grande Milk,
Muita boa sua reflexão!
Aguda, sem ser ingênua. Realmente, não esperava uma resposta objetiva e pontual, e essa reflexão sobre o processo de construção do julgamento do passado veio a calhar para este humilde engenheiro.
Na sua opinião, qual será a estatura de Stephen Hawking no futuro? Sinto que as revoluções a que estamos assistindo que serão lembradas estão mais no campo da tecnologia do que da ciência. E os heróis tecnológicos costumam ser mais anônimos.
Bom, ao menos também poderei contar aos bisnetos que vi um ser humano fazer 1000 gols.
Grande abraço do leitor assíduo.

Danilo Albergaria disse...

Juliano: "humilde engenheiro"? Um certo professor de português, de nome Val, diria: "pensa que tá enganando quem?"

Hahahahahah

Sasqua, como chama o ensaio do Gould que você leu?

De onde você vem?