15 de maio de 2007

Pálido Ponto Azul

A minha inexperiência com blogs me levou a criar um post fantasma, sem título ou texto. Então decidi usá-lo para colocar aqui uma passagem muito conhecida pelos leitores de Carl Sagan. Ela resume a idéia-chave de seu mais belo livro, Pálido Ponto Azul. Carl se refere a esta imagem, captada pela nave Voyager 1 em 1990, a uma distância de mais ou menos 6,5 bilhões de kilômetros:





Sobre a imagem, escreveu Carl:

Olhem de novo para o ponto. É ali. É a nossa casa. Somos nós. Nesse ponto, todos aqueles que amamos, que conhecemos, de quem já ouvimos falar, todos os seres humanos que já existiram, vivem ou viveram as suas vidas. Toda a nossa mistura de alegria e sofrimento, todas as inúmeras religiões, ideologias e doutrinas econômicas, todos os caçadores e saqueadores, heróis e covardes, criadores e destruidores de civilizações, reis e camponeses, jovens casais apaixonados, pais e mães, todas as crianças, todos os inventores e exploradores, professores de moral, políticos corruptos, “superastros”, “líderes supremos”, todos os santos e pecadores da história de nossa espécie, ali - num grão de poeira suspenso num raio de sol.

A Terra é um palco muito pequeno em uma imensa arena cósmica. Pensem nos rios de sangue derramados por todos os generais e imperadores para que, na glória do triunfo, pudessem ser os senhores momentâneos de uma fração desse ponto. Pensem nas crueldades infinitas cometidas pelos habitantes de um canto desse pixel contra os habitantes mal distinguíveis de algum outro canto, em seus freqüentes conflitos, em sua ânsia de recíproca destruição, em seus ódios ardentes.

Nossas atitudes, nossa pretensa importância, a ilusão de que temos urna posição privilegiada no Universo, tudo é posto em dúvida por esse ponto de luz pálida. O nosso planeta é um pontinho solitário na grande escuridão cósmica circundante. Em nossa obscuridade, no meio de toda essa imensidão, não há nenhum indício de que, de algum outro mundo, virá socorro que nos salve de nós mesmos.

A Terra é, até agora, o único mundo conhecido que abriga a vida. Não há nenhum outro lugar, ao menos em futuro próximo, para onde nossa espécie possa migrar. Visitar, sim. Goste-se ou não, no momento a Terra é o nosso posto.

Tem-se dito que a astronomia é uma experiência que forma o caráter e ensina a humildade. Talvez não exista melhor comprovação da loucura das vaidades humanas do que esta distante imagem de nosso mundo minúsculo. Para mim, ela sublinha a responsabilidade de nos relacionarmos mais bondosamente uns com os outros e de preservarmos e amarmos o pálido ponto azul, o único lar que conhecemos.

Grande Sagan. Há muitos anos, mudou radicalmente minha vida.

9 comentários:

Juliano disse...

Muito bom!
Impossível não deixar meu depoimento.
Li Carl Sagan pela primeira fez aos 14 anos. Também nunca mais fui o mesmo.
Abraços de um mísero e humilde terráqueo cuja existência compartilha o mesmo século e o mesmo pedaço daquele minúsculo ponto com você.

Danilo Albergaria disse...

Juliano,

É um sentimento que não tem palavras, não é? Mas a prosa elegante e simples do Sagan conseguiu chegar muito perto desse sentimento.

Você colocou uma questão fundamental. Compartilhamos não apenas o mesmo ponto no espaço. Na escala temporal, o período de uma vida humana também significa menos do que um grão de areia. No entanto, pensamos, trocamos experiências e sentimentos que nos significam tanto!

O que poderia, e pode, significar uma idéia desoladora da condição humana pode levar também ao seguinte sentimento: existir é maravilhoso.

Cheers, Juliano!

vanessa disse...

Não sei...ao contário de vc, me sinto mais reduzida ainda...Sem sentido, mais macaco do que nunca...Ainda tento encontrar prazer no "existir"!
Eitâ muié loca sô...
Fazer o que?? Mas vc sabe que meus aprofundamentos(de mim para mim mesma!) são extremamentes destruidores

Marcus Rodrigues disse...

Danilo, parabéns pela belíssima lembrança!

Sensacional!!!

Speeder_76 disse...

Simplesmente fsntástico, Danilo. De facto, Carl Sagan foi um dos meus heróis. Confesso que foi graças a ele, e ao seu programa "Cosmos" que a astronomia é uma das coisas que mais gosto de ver. É para mim a meçlhor maneira de não ser tanto como os outros e ser mais eu próprio.

Belo blog. Tenho que pôr o teu endereço no meu. E não sei se gostas de automobilismo, mas és sempre bem - vindo ao meu blog: www.continental-circus.blogspot.com

Um abraço, do outro lado do Atlântico.

Luís Fernando disse...

Adoguei seu post, mon chéri. Poético e profundo.
Porém, no entanto, entretanto, todavia, contudo...rs não compartilho do teu otimismo.
A ciência, que tanto nos mostrou, não muda o pensamento de grande parte dos seres humanos, principalmente dos pílulas azuis. Para eles, tanto faz se a Terra é o centro do universo e se eles são a criatura feita por deus a sua imagem e semelhança, como se nosso planeta é um pálido ponto azul da periferia de uma pequena galáxia e somos apenas o resultado de um processo evolutivo caótico e violento, que nos faz sedentos por poder, violentos e gananciosos.
Há muito tempo Platão entristeceu-se ao perceber que somos bem mais animais do que gostaríamos. Eita especiezinha complicada...arrogante...estúpida... não é fácil ser um Homo sapiens! Deveriam, inclusive, trocar o segundo nome da espécie...rs

vanessa disse...

Ai esse Luis, de novo!

vanessa disse...

Lú, o seu principalmente...para "homo chatus" talvez

Léo Peres disse...

Carl Sagan foi o maior divulgador da ciência de todos os tempos. Assisti Cosmos aos 8 anos e hoje, com 37, ganhei os dvds da série e a revi. Foi como voltar no tempo. Agora estou comprando todos os livros do Sagan que encontro. Ele é um porto seguro para todos que querem ter mais consciência de sua existência, do nosso planeta e da ciência.

Abraço, Márcio Fróis

De onde você vem?