15 de maio de 2007

Ire e Voltaire, ironia pura

Você já leu Cândido?

As idéias sobre a distância, tanto física quanto simbólica, que tanto reviraram minha cabeça desde que li Carl Sagan e, mais tarde, Carlo Ginzburg, me levaram de volta a um famoso conto de Voltaire, Micromegas. Dalí, pulei para relembrar de Cândido, o primeiro que havia lido do filósofo iluminista. As pessoas costumam ter receio da leitura de escritos de séculos atrás, pois os imaginam impenetráveis, difíceis, chatos, etc. Isso até pode ser verdade para alguns, mas não para todos. Escritos chatos, difíceis e impenetráveis existiram, existem e, aparentemente, sempre vão existir - que o digam os filósofos pós-modernos. Da mesma forma, bons textos costumam continuar sendo bons textos: perdem-se alguns sentidos, criam-se outros, mas a leitura continua sendo agradável. É o caso de Cândido.

Com relação a Voltaire, meu receio foi vencido graças à dica de um amigo, o historiador Luis Fernando Prestes. Os direitos sobre a piadinha infame do título - Ire e Voltaire, irmãos iluministas lusos - costumam ser pleiteados por ele, mas a ouvi pela primeira vez da boca de outro historiador, um membro do CUH (Central Única dos Historiadores) da Unicamp, o meu ex-professor Fernando Teixeira, impagável humorista de boteco.

Bem, eu estava falando sobre Cândido. As explicações mais difundidas para a alegoria de Cândido é a de que Voltaire fez uma crítica à filosofia otimista e ingênua de Leibniz. Como não li Leibniz, não sei até que ponto a crítica de Voltaire é razoável. De qualquer forma, Voltaire foi um divulgador das idéias newtonianas, e o embate entre a filosofia de Newton e a de Leibniz é bem conhecida. Não é necessário distinguir exatamente a ferida que Voltaire desejava abrir para deliciarmo-nos com a mordacidade com que ataca seu alvo. Mesmo com pouca ou nenhuma preocupação filosófica, Cândido é uma leitura sensacional.

E o melhor de tudo é que não há mais direito autoral sobre obra de Voltaire - é tudo na faixa, como esta versão online de Cândido. É curtinho e engraçadíssimo. Se ainda resta alguma dúvida sobre se vale ou não à pena ler, aqui vai um trecho:


Um dia, em que passeava nas proximidades do Castelo, pelo pequeno bosque a que chamavam parque, Cunegundes viu entre as moitas o Doutor Pangloss que estava dando uma lição de física experimental à camareira de sua mãe, moreninha muito bonita e dócil. Como a Senhora Cunegundes tivesse grande inclinação para as ciências, observou, sem respirar, as repetidas experiências de que foi testemunha; viu com toda a clareza a razão suficiente do Doutor, os efeitos e as causas, e regressou toda agitada e pensativa, cheia do desejo de se tornar sábia, e pensando que bem poderia ela ser a razão suficiente do jovem Cândido, o qual também podia ser a sua.

Encontrou Cândido ao voltar para o Castelo, e enrubesceu; Cândido também corou; ela cumprimentou-o com voz entrecortada, e Cândido falou-lhe sem saber o que dizia. No dia seguinte, depois do jantar, Cunegundes e Cândido encontraram-se atrás de um biombo; Cunegundes deixou cair o lenço, Cândido apanhou-o, ela tomou-lhe inocentemente a mão, o jovem beijou inocentemente a mão da moça com uma vivacidade, uma sensibilidade, uma graça toda especial; suas bocas encontraram-se, seus olhos fulguraram, seus joelhos tremeram, suas mãos perderam-se... Ora, o Senhor Barão de Thunder-ten-tronckh passou junto ao biombo e, vendo aquela causa e aquele efeito, correu Cândido do Castelo, a pontapés no traseiro; Cunegundes desmaiou; logo que voltou a si, foi esbofeteada pela Senhora Baronesa; e houve a maior consternação no mais lindo e mais agradável dos Castelos possíveis.

5 comentários:

daniel disse...

"Você já leu Cândido?". Não, nunca.
A propósito, Newton? Sagan? Voltaire? Se eu fosse você escreveria a respeito de pessoas mais famosas, por exemplo: Duilio Nosela.

Danilo Albergaria disse...

Ahuahauhauhauahuahuahauha

Pinto de Groselha?

vanessa disse...

mas qual o problema de se estudar física assim? Nenhum! Aula muito prazerosa essa
hahahahaha...

Sasqua disse...

Concordo com a Vanessa Sherpa...

Cara, preciso te passar o livro do Gould depois que eu acabar de ler...

Joaquim Souza disse...

Belos textos!!!

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